Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 75.
Wednesday, June 25, 2008
IDEIA DA PAZ
Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 75.
Monday, June 23, 2008
A DOR NA INÚTIL HORA NO LIMIAR DA DÚVIDA
"No limiar que não é meu
Sento-me e deixo o irreflectido olhar
Encher-se, sem eu ver, de campo e ceu.
Se é tarde ou cedo, deixo de notar.
Nada me diz de si qualquer cousa que eu
Possa gosar.
Pelos campos sem fim
Sinto correr, porque na face o sinto,
Um vago vento, extranho todo a mim.
Não sei se penso, ou em que dor consinto
Que seja minha ou desespero sem ter fim,
Ou se minto.
Na inutil hora,
Eu, mais inutil que ella, sem sentir
Fito com um olhar que já nem chora
Dor ou desdem, dolo ou fiel sorrir,
O absurdo céu onde nenhuma cousa mora
Para eu fruir."
Fernando Pessoa, Poemas (1915-1920), ed. crítica de João Dionísio, Lisboa: IN-CM, 2005, 313, pp. 260-261.
Sunday, June 22, 2008
A LUZ TORNADA NUVEM E AZUL
"Entrega o livro à soletração da sombra: só um nome obscuro
lê a luz.
E ao lê-la, estilhaça-a, obscurece-a.
A erva ainda não cresceu: a lama é um som a abrir para
a pobreza, sítio onde a água expõe o malefício.
Não há mão que escreva, nesta claridade informe: a palavra
apaga-se a cada movimento do silêncio.
Por vezes, a luz abandona a cegueira e torna-se coisa: monta-
nha, abeto, lábios, corvo, rio.
Não é a salvação, somente a pausa a construir no cansaço a
sua ternura."
Rui Nunes, O Choro é um Lugar Incerto, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 62.
Friday, June 20, 2008
MATÉRIA DE JANELA
"Caiu o pano da palavra
A solidão do mundo
já não tem outro cenário além da morte:
a morte representa-se entre as mãos,
o mais solto silêncio
escondeu-se atrás do imóvel pano cinza
que também foi matéria de janela,
torrão de coração posto no ar.
Caiu o pano que antes só subia.
É o final do acto.
Agora há que sair.
Mas haverá fora?"
Roberto Juarroz, Poesia Vertical, antologia, trad. e notas de Arnaldo Saraiva, Porto: Campo das Letras, 1998, p. 19
Thursday, June 12, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 3
"Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Essas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas - envoltas pela sua roseira em brasa -
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo o meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada."
Herberto Helder, Lugar, in Ou o poema contínuo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 143-144.
Wednesday, June 11, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 2
"E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para o outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.
Herberto Helder, Lugar, in Ou o poema contínuo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, pp. 138-139.
Tuesday, June 10, 2008
APROXIMAÇÃO AO AZUL EM TEMPO DE LUTO 1
valter hugo mãe, estou escondido na cor amarga do fim da tarde, Porto: Campo das Letras, 2000, p. 23.
Monday, June 9, 2008
FROM TOO MUCH LOVE OF LIVING (EM MEMÓRIA)
"Com demasiado amor à vida,
Com a esperança e o dissipado medo,
Agradecemos numa breve prece
A quaisquer que sejam os deuses
Para que nenhuma vida seja eterna,
Para que os mortos nunca se ergam,
Para que o rio mais lento
Serpenteie algures e a salvo até ao mar.
Assim nem as estrelas nem o sol irão despertar,
Nem uma luz irá mudar,
Nem o som das águas tumultuosas,
Nem qualquer som ou visão,
Nem as folhas do Inverno ou da Primavera,
Nem os dias ou o que durante o dia existe.
Apenas um sono eterno
Numa eterna noite."
A.C. Swinburne, O Jardim de Prosérpina, in Poemas, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp. 126-129.
Saturday, June 7, 2008
REFLEXÕES A PARTIR DAS ÁGUAS 2
"O azul do mar desprende-se da água.
Dos ossos que cravei na realidade, onde pensava
que o mar se sustivesse e da qual sempre
supus também que o mar alimentasse (de tal forma
por vezes o sentimos
encher-se de realismo), nem um só, mesmo pintado,
subsiste agora
que o tempo tudo apaga à minha volta."
Luís Miguel Nava, O Céu sob as Entranhas, in Poesia Completa, org. Gastão Cruz, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, p. 205.
Wednesday, June 4, 2008
4 DE JUNHO DE 2008
Charles Baudelaire, Fogachos , trad. João Costa, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 1999, pp. 57-58
Monday, June 2, 2008
SOB O SOL EM LUTO
"L' Océan sonore
Palpite sous l'oeil
De la lune en deuil
Et palpite encore,
Tandis qu' un éclair
Brutal et sinistre
Fend le ciel de bistre
D'un long zigzag clair,
Et que chaque lame,
En bonds convulsifs,
Le long des récifs
Va, vient, luit et calme,
Et qu' au firmament
Où l'ouragan erre,
Rugit le tonnerre
Formidablement."
Paul Verlaine, Poèmes Saturniens, Paris: Bookking International, 1993, p. 40.
Friday, May 30, 2008
SICK PROPHECY AND RUMOURS LAME AT HEEL
"O medo é uma almofada sob os pés do amor,
Com cores que são para ele tranquilas;
Vermelho suave e branco tingido de sangue, azul
De flores, verde que se une ao estio,
Doce púrpura prometido ao mar e um negro calcinado.
Todas as formas coloridas do medo, presságio e mudança,
Uma triste profecia de incertos rumores,
Premonições, astrologias e perigosas
Inscrições, o que a memória nos recorda,
Tudo fica encoberto pelo manto do amor,
E, quando ele o sacode, tudo será derrubado,
Agitado e levado no rosto poeirento do ar."
A. C. Swinburne, Rosamond, in Poesias, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa: Relógio D'Água, 2006, pp. 16-17
Monday, May 26, 2008
AMISSUM NE CREDE DIEM
Claudiano, O Rapto de Prosérpina, 277-304, trad. Luís Cerqueira, Lisboa: Ed. Inquérito, s/dt, pp. 79-81.
Thursday, May 22, 2008
REFLEXÕES A PARTIR DAS ÁGUAS 1
"Há mais verdades do que erros, mais boas qualidades do que más, mais prazeres do que penas. Gostamos de dominar o carácter. Elevamo-nos acima da nossa espécie. Enriquecemo-nos com a consideração com que a cumulámos. Julgamos não poder separar o nosso interesse do da humanidade, não maldizer do género humano sem nos consumarmos a nós mesmos. Esta vaidade ridícula encheu os livros de hinos em louvor da natureza. O homem caiu em desgraça para aqueles que pensam. Quem o carrega de menos vícios? Quando não esteve ele quase a reerguer-se, a conseguir a reconstituição das suas virtudes?
Nada está dito. Ainda chegamos muito cedo, depois de haver homens há mais de sete mil anos. No que diz respeito aos costumes, como em tudo o resto, o menos bom é arrancado. Nós, os hábeis de entre os modernos, temos a vantagem de trabalhar depois dos antigos.
Somos susceptíveis de amizade, de justiça, de compaixão, de razão. Ó meus amigos! que é então a ausência de virtude?
Enquanto os meus amigos não morrerem, não falarei de morte."
Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont), Poesias - Prefácio a um livro futuro, in Os Cantos de Maldoror seguidos de Poesias, trad. Pedro Tamen. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, pp. 277-278)
Tuesday, May 20, 2008
ONDE SE LÊ ROSA LEIA-SE MAIA
"múltipla esta chama
cuja flor brilha no cimo
do caule espinhoso:
incêndio vegetal. pedra
aérea que o jardim
mantém erguida, jovem e
forte. silva
exasperada será,
contra o ar, em guerra
aberta."
Manuel Gusmão, dois sóis, a rosa - a arquitectura do mundo, 2ª ed., Lisboa: Editorial Caminho, 2005, p. 105.
Tuesday, May 13, 2008
ENCANTATÓRIA (em memória de Irene Vilar)
"Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.
Custa é saber
como se emenda a morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria."
Luiza Neto Jorge, A Lume, in Poesia, org. Fernando Cabral Martins. Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, p. 240.
Sunday, May 11, 2008
LUZES VESPERTINAS ENCERRANDO AS SOMBRAS
"Que aurora! Que luz anterior à luz! Luz que não é luz ainda, mas uma sombra que alumia; luz de milagre, anunciando o nascimento de um Deus; uma luz sentimental, de íntima origem, matutina; luz que lembra um misterioso olhar infinito, num sorriso de transparência azul e sem fim... Esta luz prodigiosa da manhã, ou a luz desta manhã prodigiosa, dava ao grande panorama, já planetário, uma transfigurada aparência, dum colorido imaterial, em que vemos, durante os sonhos, certas vistas de céu e de montanha."
Teixeira de Pascoaes, A Beira (num relâmpago) / Duplo Passeio, Lisboa: Assírio & Alvim, 1994, p. 35.
Wednesday, May 7, 2008
A JÁ EXTINTA FUGA DESOLADA
"Nossa memória sempre foi a memória
dos monstros nosso enigmático testamento
de altas labaredas sempre foi
o caminho
devastado pelo sangue pela circuncisa memória
dos mortos pelo perfil
dos astros - nossa colorida volúpia
sempre foi dos monstros
a mais crua linguagem húmida fuga
desolada
através do tempo através do medo
de não sermos belos de não sabermos
esculpir na cinza o sopro
de tanta luz tão prostituída - "
Casimiro de Brito, Negação da Morte, in Ode & Ceia, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985, p. 209.
Monday, May 5, 2008
ACREDITAR NA MAGIA DOS OLHARES HUMANOS ?
"Este céu que foi contemplado
por aqueles que o hão-de louvar
por toda a eternidade,
vinhateiros e pastores,
ter-se-á ele, pela magia desses olhares humanos,
tornado permanente?
Esse belo céu e o seu vento,
o seu vento azul?
E a serenidade que lhe vem depois,
tão profunda e forte,
como se fosse um deus apaziguado
a entrar no sono?"
Rainer Maria Rilke, Frutos e Apontamentos, trad. Maria Gabriela Llansol, Lisboa: Relógio d'Água, 1996, pp. 220-221.
Saturday, May 3, 2008
SENTIR A CASA
"Sentir a casa, a luz mais densa. Viver agora este contorno
mais do que o de plantas espesso. Temer o espaço,
então, o rectilíneo; (a memória diz: o útero, o gineceu da flor).
É o solstício no corpo, frigidíssimo som entre folhas,
a memória acorda: nesta hora (visual),
ó porta extinguirmo-nos, rememorar."
Fiama Hasse Pais Brandão, A Era, in Obra Breve, Lisboa: Ed. Teorema, 1991, p. 144.













