Saturday, October 13, 2018

QUE SEI



"Que sei eu do passado?
Só o que em mim há de presente. 
Não posso olhar para trás,
Parar para ver que estou construído
Sobre tudo o que perdi, 
Parar para ver quem morreu, 
Quem amei, quem foi, 
Parar para traçar na memória
Todos esses nomes, agora irreais, 
Vultos, sombras líquidas, sonhadas. 
Não parar sequer para dizer hoje, 
Não parar sequer para pensar
Que a manhã é apenas mais um sol-posto."


Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 113. 

Friday, October 12, 2018

UM VENTO DOLENTE



"Uma rosa sepultada no verso, 
O verso como uma rosa impossível. 
Eu vejo o teu rosto
Atravessado por todas as guerras, 
A devastação, um vento dolente
Que traz a memória imensa
De todos, todos os mortos. 

Falas-me da solidão
De um homem que, dia a dia, 
Contemplou a sua morte, 
Até nos cumes incendiados do amor;
Falas-me do futuro primordial
Para onde não há regresso, 
A esperança irrecuperável;
Falas-me dessa manhã
Em que o mundo não emergiu da noite, 
Não voltou ao tempo, 
Um mundo que não se retomou; 
Falas-me da tentação do choro
Nas nascentes da tinta, 
Um choro que suavemente te chama, 
Um choro, um abandono, poema, 
O aqui, onde, por fim, 
Num fruto puríssimo, 
A dor se encontra com a voz."

Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 97. 

Thursday, October 11, 2018

SUBTIL



"Num ponto qualquer 
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa."


António Ramos Rosa, "Dinâmica Subtil", in Antologia Poética, selec. Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 213. 

Wednesday, October 10, 2018

GANDAIA



"Alfredo voltou-se para o homem, mas não chegou a falar. 
- Está entendido! Cá por mim não há empeno! Suba ao terraço, fale à pequena... O que a minha Virgolina disse, está dito. Só não queria que andassem por aí a falar p'las esquinas. Digam o que têm a dizer, cá em cima, à porta, e é quanto basta. Há também a questão das horas e dos dias... - E para a mulher: - Tu já tocaste nisso?
- Não, diz tu...
- Ora, como deve saber, temos outra filha, a Liliana, que também namora. A nossa porta é só uma e não faz sentido que estejam os dois casais para aqui a monte... A vizinhança é danada prà ratança!... Enfim: segundas, quartas e sextas, uns; e, nos outros dias, vocês... ou eles. É só questão de escolha! Das oito às onze da noite, podem estar aqui à porta...
- Quem diz onze, diz onze e meia... - atalhou a mulher. - Não há mal nisso..."


Romeu Correia, Gandaia, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, s.d., pp. 188-189. 

Monday, October 8, 2018

FAZER À VIDA


"Ser nómada! Viver errante! Que aventura
Nesses desertos da Ásia! Eu vejo, dentro em mim, 
Planícies de aridez extensas de brancura;
Ermos que a Sede alonga em areais sem fim!
E desejei perder-me entre as florestas virgens!
Ser homem primitivo, em luta contra as feras!
E cercado, a tremer, de pálidas vertigens, 
Meus olhos sepultar na boca das crateras!
O negro e doido encanto, em nós, a rir, a rir!
Dir-se-á que nos deslumbra ardente labareda!
Que prazer não seria, ó meus irmãos, sentir
Num abismo sem fundo uma perpétua queda!
Momento de delírio e de desvairamento, 
De grandes sensações que se apagavam logo!
Momentos em que fui mais louco do que o vento, 
Fazendo, à minha vida, o que ela faz ao fogo. 
O trágico destino! Horror! Fatalidade!
Almas que andam, de dia e noite, embriagadas, 
Sensíveis para além da Sensibilidade
E vivas para além das cousas animadas!
Ai de nós! Ai de nós! Vede que estranha sorte!
Cair, cair, cair, sem descansar jamais...
E esse espaço que vai do nascimento à morte
É a hora em que o profundo Abismo contemplais!"


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 291. 

Sunday, October 7, 2018

ELEVAR



"Na tristeza da paisagem, 
Elevemos nossa imagem
Comovida...
Rezemos a morte e a vida, 
Rezemos a nossa dor:
Esta penumbra que cresce, 
Dentro de nós, e escurece
Todo o mundo, em derredor..."


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 206. 

Saturday, October 6, 2018

RECORDANDO A DIVINA MONSERRAT



"Outros virão mais capazes de gostar. 

Morre-se sempre pelo lado o inverno
adormecido em nuvens
vindo dentro de uma árvore
metade das raízes,
a metade dos céus. 

Este receio carregado de infância. 

Alma pequena, 
adormecida, 
com esse fio de prata.

O vento as nuvens corpo estendido vencido
pela luz
não tenho mais a pedir
ervas aves e luz. 

Vindo de tão perto."


João Miguel Fernandes Jorge, O Roubador de Água, in Obra Poética, 2.ª ed., vol. IV, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 238. 

Friday, October 5, 2018

OLHOS EXTERIORES



"A visão ascendeu aos olhos exteriores; 
Incide sobre aspectos da paisagem; 
Deixou a transcendente e vaga imagem
Pela forma gravada a sol, impressa a cores.
E viva a claridade
Que, de alto, as cousas tristes alumia, 
Dissipa a névoa de alma que envolvia
Meu ser; quase fantasma de saudade."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 159. 

Thursday, October 4, 2018

LABORIOSAMENTE



"Estão os pássaros laboriosamente construindo 
em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga
Começa-lhes no bico aquela alegria
onde eu corria de canto para canto
e andava dentro dela de janela em janela

Quem me trouxe de novo até à minha casa?

Podem calar-se os pássaros inúteis"


 Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 75. 

Wednesday, October 3, 2018

IMENSO



"Tudo se torna indefinido, imenso. 
Um sonho ou morte as cousas envolveu. 
O rio tolda o espaço; é branco incenso. 
Desce à terra, em penumbra e dor, o céu.

O frio piar do mocho sobressalta
Os homens que regressam aos casais...
Que silêncio de inverno! E já vai alta
A lua, sobre a rama dos pinhais."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Tuesday, October 2, 2018

VÉSPER



"A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume. 

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima: 

depois dela só há
o silêncio."


Orides Fontela, "Teia", in Poesia Completa, ed. bilingue trad. catalã de Joan Navarro, Barcelona: Edicions de 1984, 2018, p. 688. 

Monday, October 1, 2018

FORMAS MAIS SECRETAS




"Saio de casa. Outubro. Fria tarde. 
Eis-me através dum ermo pinheiral. 
O sol, já moribundo, chora e arde, 
Gorejam sangue as árvores do val'.

Seus denegridos ramos, tão esguios, 
Perdem-se no céu roxo e vaporoso. 
E causa-me profundos calefrios
O vento, num ataque de nervoso. 

Ó fulminados troncos sem folhagem, 
Erguendo negros braços, na amplidão!
Súplicas dolorosas da paisagem,
As formas mais secretas da Aflição..."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Sunday, September 30, 2018

PEDAÇO DE CÉU



"Levantou-se e dirigiu-se ao mulo, que por ali pastava sossegado a pensar noutras missas. De um dos alforges sacou uns pergaminhos escrevinhados e cheios de chancelas, sinetes e lacres, testemunhando que eram papéis sérios e de valor. Voltou depois para nós altaneiro, animado e efusivo: - Tenho aqui, meus senhores, a solução para todos os vossos tormentos. Isto que aqui vedes nas minhas mãos é um pedaço de céu, que vosso pode ser e que vos aguarda; e mais, se vós do inferno e da suas eternas labaredas vos quereis salvar, podeis também um testamento fazer, que para isso também fui ordenado e instruído, para que, deixando os vossos bens à santa igreja, possais para todo o sempre usufruir da companhia do todo-poderoso, Deus Nosso Senhor e de Jesus Cristo, à sua direita sentado. Que tendes a dizer sobre estas maravilhas, eu sou a vossa salvação!
Acabou o onzeneiro bulista a parlapatice com uma benzedura, mais papista que o papa, e voltou às azeitonas, que apesar do jactante relambório continuavam pretas e frescas."


Paulo Moreiras, A Demanda de D. Fuas Bragatela, Lisboa: Temas e Debates, 2002, pp. 158-159. 

Saturday, September 29, 2018

MIKHAEL



"Como ao terror do Inferno
Sucedeu
O horror do Nada!
A inquietação moderna,
A antevisão
Da cósmica catástrofe, 
Prometida
Por sábios e teólogos
Apocalípticos. 
Divino Orfeu, vem tu salvar-nos. 
Tange, de novo, a lira!
Amansa as feras. 
Que o teu cantar volatilize
A estátua em bronze do deus Marte!
E esculpa, em oiro amanhecente, 
Sobre o mais alto 
Píncaro do mundo, 
O Anjo simbólico 
Da Paz."


Teixeira de Pascoaes, Últimos Versos, in Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. VI, Amadora: Livraria Bertrand, s.d. p. 167. 

Friday, September 28, 2018

AS LINHAS


"- Retomai a sagrada e sublime obra empreendida e conduzi-la à máxima perfeição! Reuni as leis que a Natureza elaborou para nos dirigir e formai com elas o autêntico e imutável código. Mas, que essa obra admirável não vá beneficiar apenas uma única nação, uma só família; que seja para todas sem excepções! Sêde o legislador de todo o género humano como sois o intérprete da Natureza! Traçai a linha que separa o mundo das quimeras do das realidades e ensinai-nos, depois de tantas religiões, depois de tantos erros, a religião da evidência e da verdade!"

Conde de Volney, As Ruínas de Palmira, trad. Francisco Quintal, Lisboa: Livraria Renascença, s.d., p. 217. 

Thursday, September 27, 2018

DESCALÇOS


"O exaltado de Deus baixou a cabeça para a terra e disse por entre muitas lágrimas, sem os olhar. «Se sois Cristãos, prestai louvor a Deus e deixai-me depressa! Pois estou tão condenado, que nunca mais me deve ser dado ver homens bondosos, com olhos tão pecadores. O meu corpo está tão manchado de pecados que é justo que fique só até à minha morte. Para que um dia a minha alma vença a tortura eterna, pago o preço aqui na terra. Se eu vivesse entre vós, por causa dos meus pecados sofreriam pessoas piedosas. A minha culpa é tão desmedida, que árvores e ervas e todo o verde à minha volta teriam que murchar sob o desagradável som da minha voz depravada e sob a monstruosidade dos meus pés descalços."

Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., p. 101. 

Wednesday, September 26, 2018

DES-FIGURA


"Como as cadeias pendiam dele pesadamente dia e noite, tinham-lhe ferido cruelmente a carne até aos ossos, de modo que o sangue corria constantemente de feridas frescas. Esta dor atormentava-o ainda para além de toda a outra dor que tinha de suportar. Penso, como comparação, num pano de linho que se estendeu sobre os ossos através da pele, os grandes como os pequenos. Por muito que entretanto o amado de Deus tenha sido, pelo seu martírio, desfigurado, no corpo, sempre o Espírito Santo fora a sua companhia, e tão poderosamente agia, que, apesar de toda a ruína, lhe ficara toda a sabedoria que outrora adquirira de todos os seus professores e livros."

Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., p. 100. 

Tuesday, September 25, 2018

INFAME



"Assim ele começou a parti-lo, com todos a assistir. Então o ambicioso homem encontrou no estômago do peixe aquela chave com que, como ouvistes, o pescador, 17 anos antes, fechara Gregório tão infamemente.
Depois lançara a chave à água e exclamava que se algum dia a reavesse da profundeza do lago, Gregório estaria sem pecados. Quando ele a encontrou no peixe, reconheceu de repente que estava cego e agarrou-se impetuosamente com as duas mãos à cabeça. Apesar do muito que eu o aborreça noutras coisas, nesta altura eu tê-lo-ia ajudado, se estivesse presente."


Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., pp. 97-98. 

Monday, September 24, 2018

SALTO



"Depois vem o Invisível; o Oculto sua verdade faz patente;
Minha consciência exterior desaparece, minha essência interior sente:
Quase livres suas asas - encontrados lar e abrigo, 
Mede o abismo, debruça-se e arrisca o salto definitivo."


Emily Brontë, in Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë, trad. Ana Maria Chaves, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 83. 

Sunday, September 23, 2018

EQUINÓCIO


"Leite de Vasconcelos, que nasceu perto, na Ucanha, fala de um religioso que passava todo o tempo a varrer as folhas e a juntá-las em pequenos montes. Deitava-lhes fogo nos dias de nenhum vento; fogueiras para as quais seguiam os troncos velhos das videiras nas tardes escurecidas do inverno. Iriam aquecer, nas braseiras de cobre, as celas dos frades mais velhos."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 37.