Monday, December 10, 2018

A CRUZ


"A pureza do coração, de que falam os monges, caracteriza o coração, que está completamente preenchido por Deus. Quando se encontra repleto por Deus, já se encontra na eternidade. Porque Deus é o Deus eterno. Em Deus, abandono o tempo. Entro então em contacto com aquilo que está para lá de todo o tempo. Isso relativiza o meu próprio tempo terreno. Não posso apanhá-lo mais. Também não posso matá-lo com muitas atividades. Pressinto o verdadeiro mistério do tempo."

Anselm Grün, Ao ritmo do tempo dos monges, trad. Ana Varela, Prior Velho: Edições Paulinas, 2006, p. 111. 

Sunday, December 9, 2018

OPOSTO


"Para Evrágio Pôntico, o escritor mais importante das antigas instituições monásticas, a contemplação é uma oração sem palavras, sem imagens e sem pensamentos. O nosso pensamento consuma-se no tempo. As palavras precisam de tempo. A contemplação é a sensação de que tudo é uno, de que eu estou unido a Deus, que é o oposto do tempo. E, ao estar unido a Deus, estou também unido a mim, ao meu verdadeiro ser. E aí sou testemunha de que existe algo em mim que ultrapassa o tempo. Existem em mim algo que não é dependente do tempo, algo que é eterno. Não sou um escravo do tempo. Existe em mim um espaço livre, sobre o qual o tempo não pode decidir, porque é retirado ao tempo. Neste espaço livre que a contemplação me abre, acabam-se as preocupações. Aí, não penso no que aconteceu antes e não me preocupo com o futuro, existo simplesmente."

Anselm Grün, Ao ritmo do tempo dos monges, trad. Ana Varela, Prior Velho: Edições Paulinas, 2006, p. 102. 

Saturday, December 8, 2018

CONCEIÇÃO



"Vejo-te só a ti no azul dos céus, 
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!

Nos vultos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!

Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...

Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho, 
Até a Morte me levar consigo..."


Florbela Espanca, Sonetos Completos, 8.ª ed., Coimbra: Livraria Gonçalves, 1950, p. 180. 

Friday, December 7, 2018

O TEMPO PREENCHIDO



"Na recitação dos Salmos, o tempo adquire, para mim, uma qualidade diferente. Ganha colorido, tom e ritmo. Rezo os Salmos juntamente com Cristo, que, há dois mil anos, reflectiu sobre o mistério da vida e do mundo com as mesmas palavras. Nesta oração suprime-se, portanto, o tempo. Eu estou no tempo atual. Mas participo na experiência de Jesus e na experiência de todas as pessoas que, desde há mais de 3000 anos até hoje, rezaram os Salmos. Mas também rezo os Salmos em conjunto com as pessoas que já morreram e que agora estão junto de Deus. Em muitos passos da recitação, penso em determinados santos que exprimiram a sua ansiedade em relação a Deus e agora compreendem essas palavras de uma nova forma, na glória de Deus. Desse modo, o passado e o presente tornam-se um só. O presente é o tempo preenchido. Não é apenas o momento, mas também o local em que o passado e o presente convergem. De momento, vivo no passado. E, ao mesmo tempo, o futuro já é conhecido."

Anselm Grün, Ao ritmo do tempo dos monges, trad. Ana Varela, Prior Velho: Edições Paulinas, 2006, p. 51. 

Wednesday, December 5, 2018

DÁDIVA


"Tu quiseste, é certo, poupar-me o tempo que eu teria gastado na tagarelice, e o inferno das palavras à volta da jóia perdida - quem se libertará desses litígios, se o que afinal está em causa não é uma jóia, mas a morte? - ou da amizade ou do amor. Porque amor ou amizade só em Ti se ligam verdadeiramente e é Tua intenção só lá me permitires o acesso através do Teu silêncio."

Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, p. 409. 

Tuesday, December 4, 2018

TESTEMUNHA


"É no silêncio do caminho aberto:

Quanto maior a alma maior o deserto
maior a sede e a miragem
do mundo à nossa imagem"

Luís Veiga Leitão, Longo Caminho Breve, Lisboa: IN-CM, 1985, p. 43. 

Monday, December 3, 2018

CRESCER NO MURO



"Cresce uma pedra no muro
De uma muralha aberta
Ao cair do tempo

Serenas crescem as ervas
Sobre o corpo que alheio olha
Os seus homens
Que crê ainda
Combatem lá muito ao longe

E caem ameias pedra a pedra
Ao grito mais agudo da mulher
E diz ouvi-la há muito tempo
Chorará a morte do seu filho

E entretanto
Embala o pó e canta
Uma história de homens que virão
Um dia
Com nomes de vitória"


Daniel Faria, "Uma Cidade com Muralha", in Poesia, 2.ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 334. 

Sunday, December 2, 2018

EXTENSÃO


"E, na verdade, eu odeio o quotidiano, que não te traz nada. E respeito a oferta ao homem da extensão e do silêncio. Mais útil que a posse de um celeiro a mais, parece-me a posse das estrelas do céu - e do mar - embora não saibas dizer-me em que é que elas cultivam o coração. Mas tu deseja-las, lá do fundo do bairro de lata, onde morres abafado. Elas são apelo para uma migração maravilhosa. Pouco importa que semelhante migração seja impossível. A pena do amor é o amor. Mal tentas emigrar para o amor, estás salvo."

Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, p. 358. 

Saturday, December 1, 2018

A PENUMBRA DOS ARCANOS



"Tudo se ensina a ver em tudo quanto
           Se purifica e ama,
O mesmo anseio universal e santo, 
          - A mesma eterna chama.

Homem, floresta ou cor, ou som perdido, 
          Ou astro ou pensamento, 
Em tudo se ergue o canto comovido
           Do mesmo sentimento!...

Longas géneses de milhares d'anos, 
           - Momentos imortais - 
Rasga a luz a penumbra dos arcanos
Ao nosso olhar de crentes e de humanos, 
            Entre as coisas reais...

E pela treva dissipada, embora, 
           No passar das idades, 
Ansiando o Sol e desejando a Aurora, 
A Vida veio pelo tempo fora
           Concebendo as inéditas verdades..."


Augusto Casimiro, Obra Poética, Lisboa: IN-CM, 2001, p. 103. 

Friday, November 30, 2018

EM TÃO GRANDE ESPLENDOR


"Pela palavra nasceram todas as coisas
Em amorosa torrente foram nomeadas
Foram sonhadas desejadas e criadas
O Aberto abria os mundos em sossegado fluir
Em sucessão de luz e escuro
De terra e água
E todas as coisas eram plenas e inteiras. 
O primeiro homem a primeira mulher
Na vibração total do ser de cada um
Em uníssono com a Unidade
Em diálogo de igual para igual. 
A palavra depois foi sombra e foi engano
Na primeira ferida que a todos feriu
E o Jardim se perdeu e foi desabitado. 
A dor e a morte invadiram a vida
E o trabalho foi ganho com o suor do rosto.
As origens retornam como eco e visão
Mais não pode vislumbrar o coração
Ver essa falha redimida e colmatada
E o brilho recobrir a palavra clareada
Em tão grande esplendor como se não brilhasse
Perpassando o trabalho e o suor
Com o ouro do amor. 
E ver o fogo que consome sem destruir
No labor de polir e esculpir
Este nosso rosto sempre inacabado
Longe e perto do que foi criado."

Maria Teresa Dias Furtado, Livro de Ritmos, Lisboa: Labirinto, s.d., p. 73. 

Thursday, November 29, 2018

ANDAR


"O ser não tem aptidões nem falhas que permitam à linguagem dá-lo a conhecer a todos os que dele participam. O ser revela-se a cada um segundo a sua linguagem particular. 
O ser não falha as ocasiões. Alimenta-se, constrói-se, converte. A pessoa singular, se apenas conhece a lógica do seu andar, é possível que o ignore (a mulher, o aproveitamento do tempo, não o desejo de se encontrar em casa. 
A falha, em si, não existe. Todo o acto é justificável, nobre ou mesquinho ao mesmo tempo, conforme o ponto de vista. Existe, sim, em relação ao ser ou falha do ser. 
Cada um pode ter razões nobres para não agir numa certa distracção. Nobres e lógicas. E é porque o ser não o arrastou com bastante força. Aí tens aquele que, em vez de forjar rebites esculpe pedras. Ele atraiçoa o veleiro. 
Longe de mim ouvir-te expor as razões do teu comportamento: tu não tens linguagem. 
Ou, mais exactamente, há uma linguagem do príncipe, depois uma linguagem dos seus arquitectos, depois uma dos seus chefes de grupos, depois uma dos forjadores de rebites, depois uma dos simples operários."


Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, p. 304. 

Wednesday, November 28, 2018

CONDIÇÃO DIVINA


"O já-não-poder-chamar os antigos deuses, este querer acatar a renúncia, que outra coisa será - e não é outra coisa - senão a disponibilidade unicamente possível e decidida para esperar a chegada do divino; é que os deuses só podem ser abandonados, como tais, na renúncia se, e quanto mais intimamente, estiverem fixados na sua condição divina. Onde o ente mais querido se foi embora, o amor permanece, visto que, de outro modo, o mais querido não poderia sequer ter-se ido embora."

Martin Heidegger, Hinos de Hölderlin, trad. Lumir Nahodil, Lisboa: Instituto Piaget, 2004, p. 94. 

Tuesday, November 27, 2018

MISTÉRIO


"Quem afasta o mistério para o domínio do «irracional», como fazendo parte do que é chamado inexplicável, não só não o resolve, como também não o concebe nem o aceita como mistério. Embora tal afastamento crie a aparência do respeito e da reverência perante o mistério, trata-se na realidade de uma atitude de indiferença, que vulgariza o mistério e o torna acessível à especulação indisciplinada e à arbitrariedade do opinar aleatório. Contrariamente a isto, o canto - a poesia - tem por função revelar o que nasce da pureza. Se o poetizar for grande e autêntico, fracassará necessariamente ao empreender tal tentativa."

Martin Heidegger, Hinos de Hölderlin, trad. Lumir Nahodil, Lisboa: Instituto Piaget, 2004, pp. 220-221.

Monday, November 26, 2018

DA ESPERANÇA



"Como um golpe se abre funda ferida
Dor que desatina da perda sem retorno
Dos da vida pela morte desmedida
Mágoa que enche o coração e tudo em torno

Dia pesado como bátegas de chuva
Que violentas caem e são granizo
Não há sabores nem cheiros a vista é turva
Tudo chegou sem dó e sem aviso

Ó sol, ó estrelas, ó plenilúnio, ó luz
Ó águas que sem margem vão correndo
Dai-nos a cor o ar o alento que reduz

E suaviza a pena que em nós se vai movendo
Uma prece se ergue ao alto pela partida
E oferece a flor da esperança ao espírito e à vida"


Maria Teresa Dias Furtado, Livro de Ritmos, Lisboa: Labirinto, s.d., p. 27. 

Sunday, November 25, 2018

EQUILÍBRIO



"Essencialmente equilíbrio:
nem máximo nem mínimo. 

Caminho determinado
movimentos precisos sempre
medo controlado máscara
de serenidade difícil.

Atenção dirigida olhar reto
pés sobre o fio sobre a lâmina
ser uma só idéia nítida
equilíbrio. Equilíbrio.

Acaba a prova? Só quando 
o trapézio oferece o vôo
e a queda possível desafia
a precisão do corpo todo.

Acaba a prova se a aventura 
inda mais aguda se mostra
mortal intensa desumana
desequilíbrio essencialmente."


Orides Fontela, Trevo (1969-1988), São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 65. 

Saturday, November 24, 2018

INSTANTE



"Momento 
                 pleno:
pássaro vivo
atento a.

Tenso no
              instante
- imóvel vôo - 
plena presença 
pássaro e 
             signo

(atenção branca
aberta e
            vívida). 

Pássaro imóvel. 
Pássaro vivo
atento
a."


Orides Fontela, Trevo (1969-1988), São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 145. 

Friday, November 23, 2018

OPIÓMANO



"Nem além, nem aqui:
Nada, nenhum lugar que as coordenadas, 
Que os pontos cardeais possam domar, 
Prender, subjugar.
Eu quero o lugar sem direcções, 
Sem espaço, sem tempo consciente. 
Eu sou o opiómano
Dos limbos e dos nenhures."

Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 32. 

Thursday, November 22, 2018

HUMANIDADE



"A humanidade é sempre a mesma, sim. 
Mas quando se muda de país, como é difícil 
interpretar os gestos e os sinais que podem ser
desejo, sedução, atracção física!
Os mesmos são, e os fins também os mesmos.
O código, porém, tem divergências
que podem estragar tudo."


Jorge de Sena, 40 Anos de Servidão, Lisboa: Edições 70, 1989, p. 108. 

Wednesday, November 21, 2018

ÉTER


"Ditosa Grécia! Morada de todos os Celestiais, 
    É então verdade o que ouvimos dizer na nossa juventude?
Sala festiva! O soalho é o mar! E as mesas os montes.
    Criados em tempos imemoriais para esse único fim!
Mas onde estão os tronos? E os templos? E os vasos
    Cheios de néctar que com os cânticos deliciavam os deuses?
E onde se encontra agora o brilho dos oráculos que o longe abarcavam?
    Delfos dormia, e onde ressoa o destino grandioso?
Onde paira, veloz? Onde se anuncia, trovejante, cheio de felicidade omnipresente
    Atravessando os ares serenos, ofuscando-os os olhos?
Pai Éter! gritavam e esse grito corria de boca em boca, 
    De mil maneiras, pois ninguém era capaz de, sozinho, suportar a vida;
Compartilhar tamanho bem causa alegria e comunicá-lo aos estranhos
    Enche de júbilo e durante o sono cresce o poder da palavra
Pai! Ó Sereno! E eis que esse sinal antiquíssimo, herdado dos antepassados, 
    Ecoa, enchendo a distância, certeiro e fecundo. 
Deste modo voltarão os Celestiais, despontando das profundezes
    Das sombras chega o seu dia até aos homens."

Friedrich Hölderlin, "O Pão e o Vinho", in Elegias, trad. Maria Teresa Dias Furtado. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 71. 

Tuesday, November 20, 2018

LAÇO DIVINO


"Mas não levantarei o exército para defender provisões. As provisões estão prontas e não tens nada a esperar delas, a não ser que se transformem em gado morno. 
E por isso, se se te extinguirem os deuses, já não aceitarás morrer. Mas também não viverás. Porque não existem os contrários. Embora a morte e a vida se oponham uma à outra, como palavras que são, o certo é que só podes viver daquilo que te pode fazer morrer. E o que recusa a morte, recusa a vida. 
Se não houver nada acima de ti, não tens nada a receber. A não ser de ti próprio. Mas que hás de tu ir buscar a um espelho vazio?"


Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, p. 236.