Saturday, October 20, 2018

QUAL ONDA



"Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti o senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recua roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem 
mais do que a tua cruz simplificada"


Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 56. 

Friday, October 19, 2018

PROSTRAÇÃO


"O Sol descaía. E de novo rolámos, bafejados por uma brisa mais suave, de novo assustando os pássaros e as ramarias com os nossos descantes e os nossos gritos - em breve esquecidos já no azul e da eloquência que havíamos insuflado na paisagem. Até que de novo o cansaço traiçoeiro nos prostrou."

José Rodrigues Miguéis, "Uma viagem na nossa terra", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, p. 58. 

Thursday, October 18, 2018

HORAS


"Uma noite (nunca te cheguei a contar) acordei sufocado, sonhando-me no Inferno. Roncando de aflição, abri os olhos e vi uma forma estranha, vermelha, incandescente, que tanto podia ser a Lua a romper, como o próprio Belzebu a arder em fogo lento. Pulei da cama, aterrado, e só então compreendi que me encontrava na pensão da Lambertin e que o clarão vermelho era o meu fogão esbraseado. Em cima dele, o jarro de esmalte da água quente (que a patroa recusava dar-me às deis da manhã) estava também ao rubro, e enchia o quarto duma fumarada irrespirável, que felizmente me acordara. Abri as janelas de par em par e e ali fiquei tristemente sentado no sofá, embrulhado num cobertor de algodão, tossindo e espirrando no frio da madrugada mais desolada que jamais vi, e maldizendo a minha sorte. Se dessa vez não morri, Léah, é que me estavam reservados outros e bem maiores castigos. Em todo o caso, so hoje, a tantos anos de distância, eu saboreio o encanto dessas horas amargas..."


José Rodrigues Miguéis, "Léah", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, pp. 12-13. 

Wednesday, October 17, 2018

ANIVERSÁRIO



"Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca"


António Ramos Rosa, "Sobre o rosto da terra", in Obra Poética, vol. I. Lisboa: Fora do Texto, 1989, p. 147. 

Tuesday, October 16, 2018

BRINDA A NATUREZA



"Lisa - Pedro, antes de te responder, ouve estas palavras de advertência: os homens hão de irritar-te tanto como os mosquitos, sem te darem as satisfações com que te brinda a natureza, eternamente jovem. 

Pedro - A natureza! Sim, a natureza é muito bela, mas quando vista da torre da igreja. De perto, torna-se monótona e fastidiosa. Tudo tranquilo, parado, como que morto. Olha estas árvores... Estão no mesmo sítio desde há mais de cinquenta anos, talvez até de cem; e, daqui a mais cinquenta, aqui continuarão, imóveis e fixas como hoje... Sinto os olhos cansados de todos estes esplendores; a solidão entristece-me; o que me apetece agora é lançar-me na agitação e no bulício. Se os homens são como os mosquitos, poderão também ser sacudidos, se calhar até com mais facilidade do que esta praga. (Agita o chapéu em torno da cabeça.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato II, cena III,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., p. 57. 

Monday, October 15, 2018

O FRACASSO




"João - Morrer? Que parvoíce! Melhor será montar um hotel.

Júlia (Sem o ouvir) - No lago de Como, onde o Sol brilha sempre e os loureiros ficam verdes até ao Natal...Onde florescem as laranjeiras.

João - Na realidade, o lago de Como é um buraco chuvoso. Nunca lá vi nenhuma laranja, a não ser na loja. Mas é um bom sítio para os turistas. Há milhares de casitas para alugar aos enamorados. Bom negócio. E sabes porquê?  Porque todos as alugam por seis meses e se vão embora ao fim de três semanas. 

Júlia (inocentemente) - Porquê ao fim de três semanas?

João - Porque fracassam, naturalmente! Mas não importa, o pagamento é adiantado. E assim acontece sempre, casal atrás de casal. Volta-se a alugar, e a história repete-se, porque o amor não falta, embora dure pouco."


August Strindberg, A Menina Júlia, trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 238-239. 

Sunday, October 14, 2018

AFORTUNADO



"Pedro - Quem és tu? Tu não és o meu pai!

O Sineiro - O teu culpado, o teu desgraçado pai, que está sob o domínio das potências infernais! (Transforma-se num grande gato negro.)

Pedro - Jesus! Maria! Valei-me (Raios de luz saem da imagem da Virgem. O relógio dá a meia-noite.) Bruxaria! Bruxaria! Para trás, almas condenadas! (O gato desaparece.) E agora... (Abre a janela.) À vida! (Olha para o anel.) Para o bosque verdejante! (Salta para o telhado da igreja.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato I, cena VII,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 44-45. 

Saturday, October 13, 2018

QUE SEI



"Que sei eu do passado?
Só o que em mim há de presente. 
Não posso olhar para trás,
Parar para ver que estou construído
Sobre tudo o que perdi, 
Parar para ver quem morreu, 
Quem amei, quem foi, 
Parar para traçar na memória
Todos esses nomes, agora irreais, 
Vultos, sombras líquidas, sonhadas. 
Não parar sequer para dizer hoje, 
Não parar sequer para pensar
Que a manhã é apenas mais um sol-posto."


Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 113. 

Friday, October 12, 2018

UM VENTO DOLENTE



"Uma rosa sepultada no verso, 
O verso como uma rosa impossível. 
Eu vejo o teu rosto
Atravessado por todas as guerras, 
A devastação, um vento dolente
Que traz a memória imensa
De todos, todos os mortos. 

Falas-me da solidão
De um homem que, dia a dia, 
Contemplou a sua morte, 
Até nos cumes incendiados do amor;
Falas-me do futuro primordial
Para onde não há regresso, 
A esperança irrecuperável;
Falas-me dessa manhã
Em que o mundo não emergiu da noite, 
Não voltou ao tempo, 
Um mundo que não se retomou; 
Falas-me da tentação do choro
Nas nascentes da tinta, 
Um choro que suavemente te chama, 
Um choro, um abandono, poema, 
O aqui, onde, por fim, 
Num fruto puríssimo, 
A dor se encontra com a voz."

Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 97. 

Thursday, October 11, 2018

SUBTIL



"Num ponto qualquer 
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa."


António Ramos Rosa, "Dinâmica Subtil", in Antologia Poética, selec. Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 213. 

Wednesday, October 10, 2018

GANDAIA



"Alfredo voltou-se para o homem, mas não chegou a falar. 
- Está entendido! Cá por mim não há empeno! Suba ao terraço, fale à pequena... O que a minha Virgolina disse, está dito. Só não queria que andassem por aí a falar p'las esquinas. Digam o que têm a dizer, cá em cima, à porta, e é quanto basta. Há também a questão das horas e dos dias... - E para a mulher: - Tu já tocaste nisso?
- Não, diz tu...
- Ora, como deve saber, temos outra filha, a Liliana, que também namora. A nossa porta é só uma e não faz sentido que estejam os dois casais para aqui a monte... A vizinhança é danada prà ratança!... Enfim: segundas, quartas e sextas, uns; e, nos outros dias, vocês... ou eles. É só questão de escolha! Das oito às onze da noite, podem estar aqui à porta...
- Quem diz onze, diz onze e meia... - atalhou a mulher. - Não há mal nisso..."


Romeu Correia, Gandaia, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, s.d., pp. 188-189. 

Monday, October 8, 2018

FAZER À VIDA


"Ser nómada! Viver errante! Que aventura
Nesses desertos da Ásia! Eu vejo, dentro em mim, 
Planícies de aridez extensas de brancura;
Ermos que a Sede alonga em areais sem fim!
E desejei perder-me entre as florestas virgens!
Ser homem primitivo, em luta contra as feras!
E cercado, a tremer, de pálidas vertigens, 
Meus olhos sepultar na boca das crateras!
O negro e doido encanto, em nós, a rir, a rir!
Dir-se-á que nos deslumbra ardente labareda!
Que prazer não seria, ó meus irmãos, sentir
Num abismo sem fundo uma perpétua queda!
Momento de delírio e de desvairamento, 
De grandes sensações que se apagavam logo!
Momentos em que fui mais louco do que o vento, 
Fazendo, à minha vida, o que ela faz ao fogo. 
O trágico destino! Horror! Fatalidade!
Almas que andam, de dia e noite, embriagadas, 
Sensíveis para além da Sensibilidade
E vivas para além das cousas animadas!
Ai de nós! Ai de nós! Vede que estranha sorte!
Cair, cair, cair, sem descansar jamais...
E esse espaço que vai do nascimento à morte
É a hora em que o profundo Abismo contemplais!"


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 291. 

Sunday, October 7, 2018

ELEVAR



"Na tristeza da paisagem, 
Elevemos nossa imagem
Comovida...
Rezemos a morte e a vida, 
Rezemos a nossa dor:
Esta penumbra que cresce, 
Dentro de nós, e escurece
Todo o mundo, em derredor..."


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 206. 

Saturday, October 6, 2018

RECORDANDO A DIVINA MONSERRAT



"Outros virão mais capazes de gostar. 

Morre-se sempre pelo lado o inverno
adormecido em nuvens
vindo dentro de uma árvore
metade das raízes,
a metade dos céus. 

Este receio carregado de infância. 

Alma pequena, 
adormecida, 
com esse fio de prata.

O vento as nuvens corpo estendido vencido
pela luz
não tenho mais a pedir
ervas aves e luz. 

Vindo de tão perto."


João Miguel Fernandes Jorge, O Roubador de Água, in Obra Poética, 2.ª ed., vol. IV, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 238. 

Friday, October 5, 2018

OLHOS EXTERIORES



"A visão ascendeu aos olhos exteriores; 
Incide sobre aspectos da paisagem; 
Deixou a transcendente e vaga imagem
Pela forma gravada a sol, impressa a cores.
E viva a claridade
Que, de alto, as cousas tristes alumia, 
Dissipa a névoa de alma que envolvia
Meu ser; quase fantasma de saudade."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 159. 

Thursday, October 4, 2018

LABORIOSAMENTE



"Estão os pássaros laboriosamente construindo 
em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga
Começa-lhes no bico aquela alegria
onde eu corria de canto para canto
e andava dentro dela de janela em janela

Quem me trouxe de novo até à minha casa?

Podem calar-se os pássaros inúteis"


 Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 75. 

Wednesday, October 3, 2018

IMENSO



"Tudo se torna indefinido, imenso. 
Um sonho ou morte as cousas envolveu. 
O rio tolda o espaço; é branco incenso. 
Desce à terra, em penumbra e dor, o céu.

O frio piar do mocho sobressalta
Os homens que regressam aos casais...
Que silêncio de inverno! E já vai alta
A lua, sobre a rama dos pinhais."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Tuesday, October 2, 2018

VÉSPER



"A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume. 

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima: 

depois dela só há
o silêncio."


Orides Fontela, "Teia", in Poesia Completa, ed. bilingue trad. catalã de Joan Navarro, Barcelona: Edicions de 1984, 2018, p. 688. 

Monday, October 1, 2018

FORMAS MAIS SECRETAS




"Saio de casa. Outubro. Fria tarde. 
Eis-me através dum ermo pinheiral. 
O sol, já moribundo, chora e arde, 
Gorejam sangue as árvores do val'.

Seus denegridos ramos, tão esguios, 
Perdem-se no céu roxo e vaporoso. 
E causa-me profundos calefrios
O vento, num ataque de nervoso. 

Ó fulminados troncos sem folhagem, 
Erguendo negros braços, na amplidão!
Súplicas dolorosas da paisagem,
As formas mais secretas da Aflição..."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Sunday, September 30, 2018

PEDAÇO DE CÉU



"Levantou-se e dirigiu-se ao mulo, que por ali pastava sossegado a pensar noutras missas. De um dos alforges sacou uns pergaminhos escrevinhados e cheios de chancelas, sinetes e lacres, testemunhando que eram papéis sérios e de valor. Voltou depois para nós altaneiro, animado e efusivo: - Tenho aqui, meus senhores, a solução para todos os vossos tormentos. Isto que aqui vedes nas minhas mãos é um pedaço de céu, que vosso pode ser e que vos aguarda; e mais, se vós do inferno e da suas eternas labaredas vos quereis salvar, podeis também um testamento fazer, que para isso também fui ordenado e instruído, para que, deixando os vossos bens à santa igreja, possais para todo o sempre usufruir da companhia do todo-poderoso, Deus Nosso Senhor e de Jesus Cristo, à sua direita sentado. Que tendes a dizer sobre estas maravilhas, eu sou a vossa salvação!
Acabou o onzeneiro bulista a parlapatice com uma benzedura, mais papista que o papa, e voltou às azeitonas, que apesar do jactante relambório continuavam pretas e frescas."


Paulo Moreiras, A Demanda de D. Fuas Bragatela, Lisboa: Temas e Debates, 2002, pp. 158-159.