Thursday, July 20, 2017

BORRALHO



"Também a poesia é filha
da necessidade - 
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca 
e nacarada pele de adolescente, 
mais parece um desses figos 
secos ao sol de muitos dias
que no inverno sempre se encontram 
postos num prato
para comeres junto ao fogo."


Eugénio de Andrade, "Rente ao dizer", in Poesia, 2ª ed. revista. Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005, pp. 475-476. 

Wednesday, July 19, 2017

TUDO ESTÁ BEM


"Tudo está bem, ao sair das mãos do Autor das coisas; tudo degenera entre as mãos do homem: força uma terra a nutrir os produtos de outra, uma árvore a dar frutos de outra; mistura e confunde os climas, os elementos, as estações; mutila o cão, o cavalo, o seu próprio escravo; transtorna tudo, tudo desfigura, gosta da deformidade, dos monstros; não quer nada que seja como o fez a natureza, nem sequer o homem; precisa de o adestrar para si, como um cavalo de manejo; precisa de modelá-lo à sua maneira, como se fosse uma árvore do seu jardim."

Jean-Jacques Rousseau, Emílio, vol. I, Livro I, trad. Pilar Delvaulx, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1990, p. 15. 

Tuesday, July 18, 2017

DIÁRIO



"Dia impressível mais que os outros dias.
Tão lúcido...Tão pálido... Tão lúcido!...
Difuso de teoremas, de teorias..."



Camilo Pessanha, Clepsidra de Camilo Pessanha, org. Tereza Coelho Lopes, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Comunicação 1992, p. 104. 

Monday, July 17, 2017

VEROSÍMIL


"Toda a gente estava convencida de que não se podiam exprimir tão ao vivo sentimentos se não haviam experimentado, nem pintar desta maneira os arroubos do amor, sem ser através do próprio coração. Nisso tinham razão, e o certo é que eu escrevera o romance nos mais ardentes êxtases; mas enganavam-se quando pensavam que haviam sido necessários objectos reais para os despertar; estavam longe de imaginar a que ponto eu sou capaz de me inflamar por seres imaginários."

Jean-Jacques Rousseau, Confissões, XI, 2.ª ed., trad. Fernando Lopes Graça, Lisboa: Portugália Editora, 1964, p+. 529-530. 

Sunday, July 16, 2017

MATRÍCULA


"A minha resposta era olhar para longe, às vezes enxergando pouco, mas colocar-me na posição que Pascal me havia ensinado ao ajoelhar perante Deus. Coleccionava mais flora nas cerejeiras, nos limoeiros, ameixas de Elvas, boas para bichos de fruta, roenroenroenroendo sem deixar nada, apenas a liberdade que me dizia: ainda bem que há fruta para bicho! O resto da minha ambição eu matriculava na paisagem."

Ruben A., O Mundo à Minha Procura, vol. III, Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968, p. 46. 

Saturday, July 15, 2017

ANIVERSÁRIO



"A mulher imagina uma colmeia cheia de favos
Debruça-se à janela como a inclinação dos telhados

Como se os ninhos (como se os filhos ao pescoço) a vergassem"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 323. 

Friday, July 14, 2017

VIA ERCOLE I



"Bastava, sei lá?, andar a passear ao longo do muro interminável que limitava o jardim do lado da Avenida Ercole I d'Este, muro interrompido a meio por um portão solene, de carvalho escuro, inteiramente desprovido de puxadores; ou então no outro lado, pela parte de cima, na Muralha dos Anjos sobranceira ao parque, penetrar com o olhar a selva intrincada dos troncos, dos ramos e das folhagens até aperceber o estranho e agudo perfil da moradia senhorial, e atrás dela, muito para lá, ao lado de uma clareira, a mancha cinzenta do campo de ténis: ei-la que surgia, a antiga irritação perante o desconhecimento, e a separação tornava a doer, a queimar quase como nos primeiros tempos."

Giorgio Bassani, O Jardim dos Finzi-Contini, trad. Egito Gonçalves, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 25. 

NIPÓNICA



"Eu, vós que me ledes, compreendemos por exemplo o que seja colorir de azul um pedaço de tecido. Mas, o que é o azul? Por mais disparatada que vos pareça a novidade, dir-vos-ei que esta interrogação não tem resposta, a não ser que venha à baila o clássico espectro solar, e que apontemos para uma determinada faixa luminosa. O espírito japonês labora de tal maneira com a mãe-natureza, que não aceita esta noção; para ele, o azul, simplesmente o azul, não é nada, como não é nada o vermelho, ou o verde, ou o amarelo, ou o preto, ou o branco. Mas tem a impressão perfeita da cor das águas tranquilas, da cor das águas revoltas, da cor do céu depois da chuva; do mesmo modo vos falará, numa tecnologia estranha, adorável por vezes de ingenuidade, do branco beringela, do branco verde-de-peixe, da neve rosada, da neve flor-de-pessegueiro, da cor do mel, da chama enfumaçada, da cinza de prata, do verde-chá, do verde-caranguejo, do verde-camarão. do verde-cebola, do verde rebento-de-lótus. A culpa é só minha da deficiência dos termos que me acodem, se não conseguir assim revelar-vos que o japonês põe na ponta do seu pincel toda uma associação de reminiscências, de sensações, poderia dizer - a sua alma."

Wenceslau de Moraes, Traços do Extremo Oriente, Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 136. 

Wednesday, July 12, 2017

PERIPHRASIS



"A propósito de ratazanas, aí vai um preceito doméstico, que merece ser contado. 
Os chinas consideram o rato como o animal mais sagaz e pressentido. Nunca uma dona de casa dirá à sua criadinha: - «vai armar a ratoeira a ver se apanhas algum rato.» - Dirá: «vai armar a gaiola, a ver se apanha algum bicho de quatro pés.» - A razão é convincente: se indicasse o rato pelo seu verdadeiro nome, o finório, que tudo escuta, ficava inteirado do que se tramava contra ele; e não aparecia, é claro. 
Com as formigas, procede-se por uma forma análoga. Diz-se: - «esconde este pastel daquelas gulosas.» - Se alguém cometesse a imprudência de nomeá-las, era o bastante para que elas exclamassem entre si: - «olá, manas, temos mina!» e ei-las em legiões, à força de pesquisas, indo dar com o apetitoso pastel."


Wenceslau de Moraes, Traços do Extremo Oriente, Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 115. 

Tuesday, July 11, 2017

JULGAMENTO


"Outros e certos homens há sobre quais exerce a bondade uma sincera atracção, - não conseguindo eles, entanto, ser superiormente bondosos: melhores que os outros. Consequentemente criam uma espécie de máscara que grudam ao rosto, aos gestos, aos actos, e de que se revelam extremamente ciosos. Os bons observadores e psicólogos não abundam no mundo, cada vez mais cheio de distraídos. Os distraídos e os ingénuos ajudam esses mascarados a afivelarem a sua máscara, a defenderem-na, a cimentarem-na. Uma auréola de superior bondade passa então a rodear-lhes a cabeça - a ponto de crerem os próprios na justeza da sua reputação. Quem poderá saber se passaram e isto alguns canonizados, safos pelo tempo à nossa observação?"

José Régio, Confissão dum Homem Religioso, Lisboa: IN-CM. 2001, p. 153. 

Monday, July 10, 2017

OS SIMPLES


"O culto das imagens, que aos religiosos evoluídos de hoje parecerá anacrónico, ultrapassado, supersticioso, pagão, primitivo, decerto revelava (ou revela, porque ainda persiste nas gentes simples) um obscuro e atávico feiticismo. E nem por isso, e quem o não entende pouco entende das complexidades da vida religiosa profunda, era ou é vazio de verdadeira espiritualidade. Bem sabiam - bem no sabiam, embora aparentemente o esquecessem, esses veneradores ou veneradoras de imagens! - que elas não são senão imagens, retratos, evocações dos verdadeiros Seres vivos e transcendentes que «estão no céu». Digamos que servem de intermediários entre os pobres de nós e Esses."

José Régio, Confissão dum Homem Religioso, Lisboa: IN-CM. 2001, p. 68. 

Sunday, July 9, 2017

COROLA/ARCANO



"O cálice
acantoa um cálido delito.

Ademane ambíguo
fácil de integrar, atento.
Ímpeto maioritário
injetado de heroína
antónimo sensível, 

colónia e conhaque, 
impetigo. Ónus aliado e audaz. 
Conclui a delicadeza
o arcano carente."


Joaquim Manuel Magalhães, "Traço", in Um Toldo Vermelho, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 72. 

GEOMETRIA



"De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete pra andar?
Não vou a passo - antes quero correr

És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder"


João Habitualmente, Os Animais Antigos, Vila do Conde: objecto cardíaco, 2006, p. 46. 

Thursday, July 6, 2017

CONSTELAR



"Estava só junto às ondas, numa noite de estrelas. 
Nem uma nuvem nos céus, nem o mar velas. 
Meus olhos viam para além da realidade.
E os bosques, os montes, e toda a natureza, 
Pareciam falar num murmúrio de incerteza
                   Às ondas, à claridade."


Victor Hugo, Poemas, trad. Manuela Parreira da Silva, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 15. 

Wednesday, July 5, 2017

ARCHÊ


"O bom do Mussard, verdadeiro filósofo prático, vivia sem cuidados, numa casa agradabilíssima que tinha mandado construir, e num lindíssimo jardim que tinha plantado por suas mãos. Ao fazer umas escavações assaz fundas no terreiro do jardim, encontrou umas conchas fósseis, e em tão grande quantidade que a sua imaginação exaltada só passou a ver conchas na natureza, acreditando por fim sinceramente que o universo não era senão conchas, fragmentos de conchas, e que a terra inteira não era mais que grés de conchas."

Jean-Jacques Rousseau, Confissões, VIII, 2.ª ed., trad. Fernando Lopes Graça, Lisboa: Portugália Editora, 1964, p. 361. 

Tuesday, July 4, 2017

AND I AM A WHITE SHIP HOOTING



"Esta é uma pequena ilha adormecida e pacífica, 
e eu um navio branco, clamando: Adeus, adeus.
O dia está em brasa. É deplorável. 
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais. 
Viveram toda a sua vida protegidas pelo vidro, foram ternamente cuidadas. 
Enfrentam agora um inverno de lençóis brancos, faces brancas. 
Tenho muito pouco para meter na minha mala."


Sylvia Plath, Três Mulheres, trad. Ana Gabriela Macedo, Lisboa: Relógio D' Água, 2004, p. 43. 

Monday, July 3, 2017

AS OBRAS



"Demasiado sincero comigo mesmo, demasiado altivo interiormente para querer desmentir com as minhas obras os meus princípios, pus-me a ponderar o destino dos meus filhos, e as minhas relações com a mãe, as leis da natureza, da justiça e da razão, as daquela religião pura, santa, eterna como o seu autor, que os homens mancharam fingindo querer purificá-la, e de que apenas fizeram, com as suas fórmulas, uma religião de palavras, visto que pouco custa prescrever o impossível quando nos dispensamos de o praticar."


Jean-Jacques Rousseau, Confissões, VIII, 2.ª ed., trad. Fernando Lopes Graça, Lisboa: Portugália Editora, 1964, pp. 345-346. 

Sunday, July 2, 2017

UT EAM NULLA OCULORUM ACIES PENETRARE UALEAT



"Será excelente habitar aí, pois nem o verão é tórrido nem o inverno incómodo, mas prolonga-se incessantemente uma amena primavera; nem a noite é demasiado escura, pois há uma claridade luminosa e indefectível de estrelas no firmamento. 
Em contraste, porém, à sua volta, por toda a parte, seja dentro seja fora, há um manto de escuridão tão espessa de nuvens negras que não há olhar acutilante que nela seja capaz de penetrar a não ser que por consentimento divino haja alguma revelação."


Anónimo, Viagem de Trezenzónio ao Paraíso, na Ilha do Solstício, trad. e ed. Aires A. Nascimento, in Navegação de S. Brandão nas fontes portuguesas medievais, Lisboa: Edições Colibri, 1998, p. 229. 

Saturday, July 1, 2017

LES BEIGNEUSES



"... às vezes extravio-me, ao enfiar pela memória as ondas saem-me ao caminho."


Luís Miguel Nava, Poesia Completa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, p. 69. 

Friday, June 30, 2017

DEFLAGRA



"... o mar de que deflagram
as ondas por acção da memória."


Luís Miguel Nava, Poesia Completa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, p. 75.