Friday, November 2, 2018

A PORTA DOS MORTOS


"O monge velador do que estava (seria preferível dizer «do que está», pois tudo o que estava então lá continua preso ao confronto com o tempo passado e com o tempo que lhe foi futuro) além da Porta dos Mortos esperava que da sua compaixão (de que era um aprendiz, alguém que tentava aceder à libertação do absoluto domínio do amor por si mesmo) nascesse a capacidade de ser mais activo, isto é, que essa compaixão inicial, na qual progredia como qualquer artesão progride na sua arte, nascesse um varrer menos carregado de folhas secas e de emaranhados ramos de silvas, sangradores das suas mãos, rosto, braços e do corpo todo. Os espinhos das silvas, rosáceas que são de amargura, haveriam de despertar em si o espírito de um dos melhores mestres, ao modo de São Bernardo."


João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 38; 40. 

Thursday, November 1, 2018

O ESSENCIAL



"Como me tinha ficado a olhar para eles, o meu pai levantou a voz:
- Deves saber o que fica do jantar de casamento quando os convivas e os noivos abandonam a sala. A primeira luz da madrugada vem exibir a desordem que lá deixaram. Jarros quebrados, mesas de pernas para o ar, brasas apagadas, tudo conserva a marca de um tumulto que petrificou. Mas não penses que é a ler estas marcas que tu aprendes seja o que for sobre o amor. 
- O ignorante, ao sopesar e remirar de um lado e do outro o livro do Profeta, ao quedar-se no desenho dos caracteres ou no ouro das iluminuras, passa ao lado do essencial, que não reside no objecto vão, mas sim na sabedoria divina. O essencial do círio, por exemplo, não é a cera que deixa a marca, mas sim a luz que liberta."


Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, pp. 20-21. 

Wednesday, October 31, 2018

MEMENTO



"A morte é grande,
nós somos dela
de boca ridente.
Quando nos julgamos no meio da vida
ousa ela chorar
no meio de nós."


Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens", in Poemas, 5.ª ed., trad. Paulo Quintela, Porto: Asa, 2003, p. 78. 

Tuesday, October 30, 2018

PASSAGEM



"Também na arte não pode haver lugar para qualquer justificação moral. Ela é como é, um fogo criativo que a um só tempo constrói e destrói. Que traz consigo os princípios da sua própria justiça, um jogo intencional que corre da obra realizada e a realizar ao seu autor e, deste, como quem governa e reconhece o acordo e o desacordo de um magoado processo, a uma harmonia que se estabelece sobre a discordância, sobre os veios por onde corre a tinta ou os vincos que se acentuam após a passagem de colorida mancha. O resultado é idêntico ao de uma peregrinação que tem por fim o ilimite de uma porta dos mortos que a cada momento se transpõe, mesmo quando foi cautelosamente tapada pela folha de uma engrossada parede."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 48-49. 

Monday, October 29, 2018

ENTRE SOMBRAS



"Só ao que a lira já ergueu
também entre sombras, 
é permitido do louvor infinito, 
entrevendo-o, restituir. 

Só quem com mortos da papoula
comeu, da que deles é, 
não voltará a perder
o mais ténue som. 

Por mais que o espelhamento no tanque 
possa confundir-se-nos:
Saberás a imagem. 

Só no território duplo 
as vozes se tornarão
eternas e amenas."


Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 29. 

Sunday, October 28, 2018

ALTA FONTE



"Que intimidade de amêndoa,
que alta fonte, 
que palpitação de vulcão ou de ventre, 
revelando-as, esconde
esta imprecisão à espera?

É voz, 
ou simples imaginação, 
ou querer
mas quê?

E que contradições
inevitáveis lhe roem 
a inquebrantável persistência?"


Armindo Rodrigues, A Paz Inteira, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1954, p. 16. 

Saturday, October 27, 2018

LIDAR


"Lidamos com a flor, parra, fruto.
Não falam a língua apenas as estações.
Da obscuridade sobre uma evidência policroma
e tem talvez em si o brilho

do ciúme dos mortos, que fortalecem a terra. 
Que sabemos da parte deles nisso?
Há muito que é a sua maneira, ao barro,
com a livre medula deles, dar medula. 

Pergunta-se então apenas: fazem-no de bom grado?...
Este fruto, obra de pesados escravos, irrompe
conglomerado até nós, os seus senhores?

São eles os senhores, os que dormem junto às raízes, 
e concedem-nos dos seus sobejos
este híbrido de força muda e beijos?"

Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 39. 

Friday, October 26, 2018

CULINÁRIA



"O médico de família, o Dr. Guiraud, um homem gordo e inteligente, tivera já várias conversas particulares com o Sr. Chabre. Explicara-lhe como a ciência estava ainda atrasada em certos capítulos. Santo Deus! não, não se podia plantar uma criança como se planta uma árvore! No entanto, não querendo desgostar ninguém, prometeu-lhe pensar no caso, e, numa manhã de julho, veio-lhe dizer:
- Devia ir para a praia, meu caro senhor. Sim, é excelente. E, sobretudo, coma muitos mariscos, coma só mariscos. O Sr. Chabre, cheio de esperança, perguntou vivamente interessado:
- Mariscos, doutor?... Julga que os mariscos...
- Claro! Têm dado resultado noutros casos. Coma todos os dias ostras, mexilhões, ameijoas, ouriços do mar, lapas, e até santolas e lagostas."

Émile Zola, "Os mariscos do Sr. Chabre", in Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 121. 

Thursday, October 25, 2018

CIRANDANTE



"O dom abade tinha-o encarregado de manter limpo o cemitério e o campo ao redor, para que tudo ficasse como se fosse jardim. Mas o cemitério permanecia com um ar de descuido e coberto de ervas. Não por incúria. Que o frade guardador dos mortos logo pelo romper da hora da madrugada pegava na chave da Porta dos Mortos, sempre atada ao lado a corda dos votos, que só ele guardava, e de vassoura de ramo de giestas varria o que um pequeno vento cirandante ora juntava sobre uma pedra tumular ora levava para mais longe, como se fugindo à frente do seu cuidado."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 37. 

Wednesday, October 24, 2018

CONVITE



"Continuava à entrada do caramanchão, como se tivesse medo do escuro. 
- Então? Não vem? - acabou por me perguntar. - Temos de conversar. 
- Está-se tão bem aqui! - respondi-lhe eu. - Podíamos conversar neste banco. 
Ela hesitou ainda durante um segundo, mas depois disse:
- Como quiser. Está tão escuro! É certo, porém, que as palavras não têm cor."


Émile Zola, Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 54. 

Tuesday, October 23, 2018

CONTEMPLAR


"- Onde está ele? - pergunta Berta bruscamente, olhando à sua volta. - Perde-se de nós de três em três metros. 
Referia-se ao marido. 
- Gaucheraud está lá adiante - respondeu tranquilamente Félix, que via toda a gente. - Está a contemplar aquele enorme Cristo de açúcar, pregado numa cruz de maçapão. 
Com efeito, o marido, com ar tranquilo e desinteressado, dava por sua conta a volta à sala, com as mãos atrás das costas. Quando notou a nossa presença, veio apertar-nos a mão e disse com ar satisfeito: 
- Já notaram? Está lá adiante um Cristo, de um sentimento religioso verdadeiramente notável."


Émile Zola, Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 24. 

Monday, October 22, 2018

O LONGE



"Nas grutas do teu peito, a vocação
De um adeus outonal, da nostalgia
Da dor irrefragável, sem desvão
E, aí, o canto, como estalactite, 

Moldava-se no tempo, nas imagens, 
Na vida, que tu vias, te fugia, 
Medida nos teus versos, nobres viagens, 
E a dor que o coração ao ser permite. 

O longe que a saudade fazia maior, 
Nascia dos teus versos naturais, 
Como eles jamais fossem escritos
Mas nascessem da terra, de uma dor, 
De um horror que crescia e produzia
O feitiço do ritmo e melodia."


Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 39. 

Sunday, October 21, 2018

AS CRENÇAS



"A laje da Pedra-Má, cinzenta e baça ao sol da tarde: se ali haveria também tesouros enterrados? E que houvesse - seriam do Morgado! Ninguém ousava aproximar-se dela com medo do cobranto, nem removê-la pramor do dono. A serra e tudo quanto a vista alcançava ali era do Morgado. De muitas léguas em redor, aquela montanha com cobiça e temor; viviam no pecado a desejá-la: quanta terra, quanta lenha, água e pedra e mato ociosos! O fidalgo não cultivava nem arrendava um palmo daquela selva, onde os lobos se acoitavam para descer no Inverno a dizimar os rebanhos. As cobras, ali, eram de quatro e seis metros, e até javalis e veados havia! Era uma tapada, e assim mesmo inútil: o fidalgo não caçava havia muitos anos, nem consentia lá caçadores: trazia-a bem guardada. A serra, que podia dar pão, calor, água e abrigo a dois concelhos, permanecia sáfara e hostil. Por isso, olhando a laje maldita, e povo dera há muito em chamar ao senhor da Casa da Capela - «Morgado de Pedra-Má»."

José Rodrigues Miguéis, "O Morgado de Pedra-Má", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, pp. 236-237. 

Saturday, October 20, 2018

QUAL ONDA



"Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti o senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recua roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem 
mais do que a tua cruz simplificada"


Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 56. 

Friday, October 19, 2018

PROSTRAÇÃO


"O Sol descaía. E de novo rolámos, bafejados por uma brisa mais suave, de novo assustando os pássaros e as ramarias com os nossos descantes e os nossos gritos - em breve esquecidos já no azul e da eloquência que havíamos insuflado na paisagem. Até que de novo o cansaço traiçoeiro nos prostrou."

José Rodrigues Miguéis, "Uma viagem na nossa terra", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, p. 58. 

Thursday, October 18, 2018

HORAS


"Uma noite (nunca te cheguei a contar) acordei sufocado, sonhando-me no Inferno. Roncando de aflição, abri os olhos e vi uma forma estranha, vermelha, incandescente, que tanto podia ser a Lua a romper, como o próprio Belzebu a arder em fogo lento. Pulei da cama, aterrado, e só então compreendi que me encontrava na pensão da Lambertin e que o clarão vermelho era o meu fogão esbraseado. Em cima dele, o jarro de esmalte da água quente (que a patroa recusava dar-me às deis da manhã) estava também ao rubro, e enchia o quarto duma fumarada irrespirável, que felizmente me acordara. Abri as janelas de par em par e e ali fiquei tristemente sentado no sofá, embrulhado num cobertor de algodão, tossindo e espirrando no frio da madrugada mais desolada que jamais vi, e maldizendo a minha sorte. Se dessa vez não morri, Léah, é que me estavam reservados outros e bem maiores castigos. Em todo o caso, so hoje, a tantos anos de distância, eu saboreio o encanto dessas horas amargas..."


José Rodrigues Miguéis, "Léah", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, pp. 12-13. 

Wednesday, October 17, 2018

ANIVERSÁRIO



"Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca"


António Ramos Rosa, "Sobre o rosto da terra", in Obra Poética, vol. I. Lisboa: Fora do Texto, 1989, p. 147. 

Tuesday, October 16, 2018

BRINDA A NATUREZA



"Lisa - Pedro, antes de te responder, ouve estas palavras de advertência: os homens hão de irritar-te tanto como os mosquitos, sem te darem as satisfações com que te brinda a natureza, eternamente jovem. 

Pedro - A natureza! Sim, a natureza é muito bela, mas quando vista da torre da igreja. De perto, torna-se monótona e fastidiosa. Tudo tranquilo, parado, como que morto. Olha estas árvores... Estão no mesmo sítio desde há mais de cinquenta anos, talvez até de cem; e, daqui a mais cinquenta, aqui continuarão, imóveis e fixas como hoje... Sinto os olhos cansados de todos estes esplendores; a solidão entristece-me; o que me apetece agora é lançar-me na agitação e no bulício. Se os homens são como os mosquitos, poderão também ser sacudidos, se calhar até com mais facilidade do que esta praga. (Agita o chapéu em torno da cabeça.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato II, cena III,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., p. 57. 

Monday, October 15, 2018

O FRACASSO




"João - Morrer? Que parvoíce! Melhor será montar um hotel.

Júlia (Sem o ouvir) - No lago de Como, onde o Sol brilha sempre e os loureiros ficam verdes até ao Natal...Onde florescem as laranjeiras.

João - Na realidade, o lago de Como é um buraco chuvoso. Nunca lá vi nenhuma laranja, a não ser na loja. Mas é um bom sítio para os turistas. Há milhares de casitas para alugar aos enamorados. Bom negócio. E sabes porquê?  Porque todos as alugam por seis meses e se vão embora ao fim de três semanas. 

Júlia (inocentemente) - Porquê ao fim de três semanas?

João - Porque fracassam, naturalmente! Mas não importa, o pagamento é adiantado. E assim acontece sempre, casal atrás de casal. Volta-se a alugar, e a história repete-se, porque o amor não falta, embora dure pouco."


August Strindberg, A Menina Júlia, trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 238-239. 

Sunday, October 14, 2018

AFORTUNADO



"Pedro - Quem és tu? Tu não és o meu pai!

O Sineiro - O teu culpado, o teu desgraçado pai, que está sob o domínio das potências infernais! (Transforma-se num grande gato negro.)

Pedro - Jesus! Maria! Valei-me (Raios de luz saem da imagem da Virgem. O relógio dá a meia-noite.) Bruxaria! Bruxaria! Para trás, almas condenadas! (O gato desaparece.) E agora... (Abre a janela.) À vida! (Olha para o anel.) Para o bosque verdejante! (Salta para o telhado da igreja.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato I, cena VII,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 44-45.