"Num tempo de casas fechadas, quandoNuno Júdice, Meditação sobre Ruínas, 3ª ed., Lisboa: Quetzal Editores, 1999, p. 74.
o calor desce do céu baixo e empurra
as portadas das janelas com o ruído
seco de invisíveis detonações, a
tua voz monótona confunde-se com uma
súbita alteração no mecanismo do relógio:
rodas que saltaram dos eixos, ponteiros
arranhando o mostrador, e o pêndulo
às voltas dentro da caixa. No entanto,
quem dorme a dois passos de tudo isto
nem imagina que o pesadelo passou para
a realidade. O sonho tem a consistência
da vida; e a voz que se ouve obedece
a uma lógica que impede o despertar - mesmo
quando batem à porta, com insistência,
como se a casa não estivesse desabitada."
LUSIOS
Thursday, February 16, 2012
ONDE HABITAM OS FANTASMAS
Wednesday, February 15, 2012
ENCHER INTEIRAMENTE O MUNDO
"Não roubes
à tua pura solidão
teu ser calado e firme.
Evita o necessário
explicar-te a ti mesmo
contra quase toda a gente.
Tu sozinho encherás
inteiramente o mundo."
Juan Ramón Jimenez, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 96.
Tuesday, February 14, 2012
DIGNIDADE FEMININA
" - O que é uma mulher? - disse Baltar, vendo que Martin tinha interrompido as leituras que fazia e se sentara ao sol no pátio dos monges. - Uma mulher é bom - continuou ele. - Picasso, quando estava a morrer, segredou isto ao médico. Ou o médico quis gozar um pouco de glória, como nós gozamos um sol de Inverno neste lugar. "Uma mulher é bom." Mas o que é uma mulher? Confesso que as vejo sempre como uma coisa de pouco valor, que nunca nos serve bastante e povoa a nossa solidão e às vezes a degrada. Não sei de pior companhia do que a duma mulher. Faz barulho com a loiça, bate com as portas, arrasta as cadeiras, queixa-se o dia inteiro, encontra todas as maneiras de ser desagradável, tem um cheiro horrível às vezes, e quer que a gente lhe diga que a ama. Quer ser notada em casa e na rua, usa roupas impróprias no amor e no trabalho. Só aqueles brincos enormes lhe dão um ar arrepiante. Parecem instrumentos de tortura. Se me beijassem, eu tinha de proteger a cara e os olhos, usar um elmo, não sei bem. São tão ignorantes! Mesmo quando fazem o liceu e um curso superior, ficam ignorantes. Não são capazes de ideologia nem de utopia nenhuma. Quanto a construírem o mundo, limitam-se a limpar-lhe o pó e a fazer constar que isso é uma regra de oiro. Eu não digo que não tenham jeito de governar; mas o que eu digo é que se enchem de complexos de culpa e fazem do governo uma atitude e não um ofício. Não sei como as hei-de tratar. Já não lhes podemos bater nem fazer-lhes filhos; nem pedir-lhes que nos façam a cama e a sopa. Respondem: "Basta de autoritarismo militar, de faxina, de continências, de galões." São mais brutais e menos guerreiras. Querem convencer e não agradar. Como é possível? Apetece-me meter-me num canto e não sair de lá. O mundo tornou-se limpo demais para o meu gosto. É para esquecer."
Agustina Bessa-Luís, As Terras do Risco, 2ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 1999, p. 87.
Monday, February 13, 2012
THIS IS NOT A RAVEN
"Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
"Doubtless," said I, "what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy masters whom unmerciful Disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his Hope that melancholy burden bore
Of 'Never-nevermore."
Edgar Allan Poe, O Corvo, trad. Fernando Pessoa e Machado de Assis, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 58.
Thursday, February 9, 2012
MODERNIDADE
"De aí o conceito moderníssimo da Arte que confunde vitalizar com deformar."
Fernando Pessoa, Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Lisboa: Ed. Ática, s.d., p. 24.
Wednesday, February 8, 2012
TAN RAROS FEITOS VENSE
"Pasan naquesta vida
cousiñas tan estrañas,
tan raros feitos vense
neste mundo de trampa,
tantos milagres vellos,
tan novas insinanzas,
e tan revoltos allos
con nome de ensaladas,
que non che digo nada...
Pero vaia!"
Rosalía de Castro, Cantares Gallegos, ed. Mauro Armiño, 5ª ed., Madrid: Espasa Calpe, 2009, p. 219.
Tuesday, February 7, 2012
TENDÊNCIAS MORTUÁRIAS
![]() |
| (O Conde D. Raimundo, catedral de Santiago de Compostela) |
"22. Ao escrevermos, publicarmos, produzimos obras que, de uma forma ou outra, se prolongam para lá do nosso tempo, mesmo que só como matéria inerte, lastro de esquecimento. Somos nós, assim, os principais cultores, responsáveis, por uma literatura (e uma cultura) da e para a morte, seduzida por uma ideia póstuma de futuro.(Apócrifo. Os mortos-vivos não necessitam de ser enterrados, só os vivos-mortos precisam de alguém que os sepulte [de uma tendência «mortuária» na cultura e na poesia portuguesas])."
Fernando Guerreiro, Teoria do Fantasma, Lisboa: Mariposa Azual, 2011, pp. 14-15.
Sunday, February 5, 2012
DO OUTRO LADO DOS SONHOS
"O carácter de aparição do fantasma -
era assim que começavam todos
os manuscritos em que procurava
dar corpo pela letra ao que, de
outro modo, talvez não tivesse
consistência suficiente para se
impor à tessitura fina dos sentidos.
Tudo se passava como se pela palavra
se instalasse um dispositivo
de produção directa das imagens
independente de qualquer reflexão
sobre o carácter verosímil do sentido.
Bastava estar escrito para de imediato
se impor como realidade. E era
isso que procurara atingir na poesia:
fazer coincidir o real com o poder
evocatório - vindo de detrás, do
outro lado dos sonhos - das imagens.
Retirar todos os panejamentos
à beleza e depois profanar,
fazer amor com esse corpo
até que ele se reanimasse
e erguesse, arrastando e
espojando-se sobre o túmulo.
Ah, então, talvez compreendesse
o que resta de real quando
a visão do fantasma é tudo
o que nos prende,
pela fímbria dos dedos,
à borda crua do precipício."
Fernando Guerreiro, Teoria do Fantasma, Lisboa: Mariposa Azual, 2011, pp. 42-43.
Saturday, February 4, 2012
CORPOS GLORIOSOS
"40. Ligando o poder da representação à possibilidade de re/evocação de um objecto perdido, Louis Marin sublinha que qualquer «ficção» (representação) se funda como uma ficção da origem, elaborada a partir de (sobre) uma «perda original» que lhe permite, afinal, a repetição do seu discurso. Ficção do «fantasma»: fantasma das origens que faz da literatura fantástica o terreno consagrado (reserva de catacumbas) de onde se desprende o corpo glorioso de qualquer discurso."
Fernando Guerreiro, Teoria do Fantasma, Lisboa: Mariposa Azual, 2011, p. 21.
Friday, February 3, 2012
PROFETAS E ABOMINÁVEL
Agustina Bessa-Luís, Alegria do Mundo - I, Lisboa: Guimarães Editores, 1996, p. 243."Eu às vezes digo que os profetas são gente dura de coração. Cristo não os amou; sabia que o quadro de terror que eles pregavam correspondia a uma impotência para se conhecerem em paz. Eram canas agitadas pelo vento; a terra parecia-lhes abominável, mas há só uma coisa abominável - é aquela que sujeita o espírito da terra pelo terror, e exige frutos ao escravo, bondade ao tímido e generosidade ao débil. Quando se repercute do pânico sem haver mais do que histeria de opção e um bom pretexto para seguir a imaginação e abandonar a norma, é porque a sociedade, de qualquer maneira, está debilitada. O pânico é uma antecipação da consciência. Acredita-se em videntes quando o conflito já se verificou e já participámos no seu processo. Uma Mademoiselle Lenormand não teria êxito se não correspondesse a uma exibição da fraude colectiva que depunha a ideia para emancipar a credulidade. E o cometa Halley não faria estremecer a França medieva, se nos espíritos não estivesse evidente o fim do império de Carlos Magno. Nada é um presságio se não é uma vontade. Nós, que devemos a vida à ruína duma estrela, à queda dum fragmento fixado a um sistema solar, porque receamos perdê-la na modesta perseverança dessa memória? Afinal, só restam 36 sociedades a serem inventadas. "A desgraça é variada" - diz Poe - e vem quase sempre só."
Thursday, February 2, 2012
A VIOLÊNCIA
"Havia, pois, Felício empenhado alguns passos nesta
diligência, quando topou com um Jardim murado, que servia
de retiro a hua casa de prazer, de muitas que havia naquele
sítio, e imaginando que de dentro saía aquela voz que tanto
o afeiçoava, empenhado naquela curiosidade Política,
ajudado dos ramos que hua árvore do Jardim reclinava
sobre o muro, denodadamente subiu acima, e ao tempo que
por entre as ramas bruxuleava o sítio, por ver se acaso
lhe saía verdadeiro seu cuidado, em lugar do que buscava
topou com os olhos em hua sepultura, que estava aberta em
hua parte do Jardim, e na outra viu um Cavaleiro ancião,
que, venerável na presença e severo no vulto, tinha hua
adaga na mão direita e na esquerda os cabelos de hua
mulher, que ajoelhada a seus pés e debulhada em lágrimas,
parece que queria atalhar com lástimas aquele sacrifício."
António Barbosa Bacelar, Desafio Venturoso, ed. Ana Hatherly, Lisboa: Assírio & Alvim, 1991, vrs. 821-835, p. 50.
Wednesday, February 1, 2012
O RITUAL DO SOL
"As praias lentamente se envolvem na desordem dos tempos. Agora, ainda as procura a multidão ociosa, as tribos garridas, submissas ao ritual da água e do sol. Amanhã, as praias serão talvez reservas do exército ou concessões dos mercados abastecedores. Há-de ser crime pescar caranguejo com uma pequena rede de borboletas; as algas serão produto vital, e nunca mais nadaremos num campo de alface do mar, rompendo novelos de fitas, de franjas, de espuma e de sal. E aquelas senhoras banhistas, recheadas de celulite, também não andarão mais reflectidas no espelho de areia e água. Os excêntricos não terão lugar na solidão, nem os anacoretas hão-de ter desertos para habitar. E talvez não; talvez a terra se despovoe de repente de tanta gente dinâmica e transformadora, e fique outra vez o jardim das delícias, com a fonte da juventude jorrando sob o coice de Pégaso. Os deuses talvez voltem. Ceres dormindo nos trigais, Minerva dos olhos verdes, Apolo com a quadriga de oiro percorrendo os espaços. De certa maneira, quase o contrário da maneira pagã, eles talvez voltem. Reconhecemo-los quando a ceara, o mar e o sol tiverem outra vez direito à sua criação própria, sem espectadores, apenas com devotos."
Agustina Bessa-Luís, Alegria do Mundo - I, Lisboa: Guimarães Editores, 1996, p. 134.
Tuesday, January 31, 2012
MATERIALISMO DIALÉTICO
"Foi-me forçoso correr a própria Fortuna que me
ocasionara o nascimento Castelhano, mudando [de] Reino,
e assim, com as jóias que a pressa me consentiu, parti
para aquele laberinto de edifícios, aquele epílogo de
grandeza, a maior Cidade do Mundo, Lisboa, digo, donde
vive um Tio meu, em cuja casa passo há pouco [menos] de dous
anos. Mas que em vão se cansa a indústria humana contra
os decretos do poder Divino, pois cuidando eu que com
a mudança do Reino ou fugia da Morte ou da Prisão,
quando mais seguro caí em ambas, porque passeando
com outros Cavaleiros às Belezas mais galanteadas, vi
entre elas duas, das quais hua soube cativar-me de
tal sorte os sentidos, que os não tive mais que para
adorá-la. Era a menor na idade mas a mais extremada na
fermosura, contra a opinião de muitos (que também nas
Belezas há opiniões) que querem dar as ventagens à mais
velha, quiçá porque tem melhor dote, que sempre as
Fermosuras com esta circunstância realçam mais."
António Barbosa Bacelar, Desafio Venturoso, ed. Ana Hatherly, Lisboa: Assírio & Alvim, 1991, vrs. 330-347, pp. 33-34.
Monday, January 30, 2012
ÁUGUAS SANTAS
"Mandala, ó beleza ritual
restituidora do lugar sacral
quando, ó meu Senhor, à tua beira
me ajoelhava na igreja fria
incandescente da tua ternura
e por Nossa Senhora iluminada"
António Barahona, rizoma, Lisboa: Guimarães Editores, 1983, p. 50.
Sunday, January 29, 2012
O ARTISTA MARGINAL
"- Então não lhe permite as paixões e afeições comuns entre os homens? - perguntou Paul.- Não tem ele uma paixão, uma afeição, que inclui tudo o resto? Além do mais, ele que tenha todas as paixões que queira... desde que mantenha a sua independência. Deve ter a liberdade de ser pobre.Paul soergueu-se com vagar.- Então porque me encorajou a aproximar-me dela?St. George pousou a mão no seu ombro.- Porque ela seria uma esposa magnífica! E eu ainda não o lera nessa altura.O jovem esboçou um sorriso tenso.- Era melhor que me tivesse deixado em paz!- Eu não sabia que isso seria pouco para você - retrucou o anfitrião.- Que posição desonrosa, que condenação do artista, que ele seja um mero monge desenraizado e só possa produzir o seu efeito se abdicar da felicidade pessoal. Que afronta à arte! - prosseguiu Paul com voz trémula.- Ah, não está a pensar que defendo a arte? "Afronta"... nem mais! Felizes são as sociedades em que ela não apareceu, pois desde o momento em que a acolhem possuem uma dor que as consome, uma corrupção incurável, no seu peito. É garantido que o artista toma uma posição desonrosa! Mas eu julgava que estávamos a partir desse princípio."
Henry James, "A Lição do Mestre", in Daisy Miller e outros contos, trad. Manuel Abrantes, Lisboa: Nova Vega, 2008, p. 115.
Saturday, January 28, 2012
IDOLA FORI
"Permita-me ter pelo menos um arrepio incómodo e que isto possa ajudá-lo a manter-se firme no futuro. Ao envelhecer não se torne no que eu me tornei: uma ilustração deprimente e deplorável da adoração a deuses falsos!- O que quer dizer com envelhecer? - perguntou o jovem.- Tudo isto fez-me velho. Mas gosto da sua juventude.Paul não respondeu - permaneceram em silêncio por um minuto. Ouviram os outros a conversar sobre a moralidade do governo. Depois indagou:- O que quer dizer com deuses falsos?O seu acompanhante não teve qualquer dificuldade em dizer:- Os ídolos do mercado; dinheiro e luxúria e 'o mundo'; dar uma boa vida aos filhos e vestir a sua esposa; tudo o que nos leva ao caminho curto e fácil. Ah, as coisas infames que somos levados a fazer!"
Henry James, "A Lição do Mestre", in Daisy Miller e outros contos, trad. Manuel Abrantes, Lisboa: Nova Vega, 2008, p. 90.
Friday, January 27, 2012
LOS QUE NO TENEMOS NADA
"CRIADA - Ya quisiera tener yo lo que ellas!
PONCIA - Nosotras tenemos nuestras manos y un hoyo en la tierra de la verdad.
CRIADA - Ésa es la única tierra que nos dejan a los que no tenemos nada."
Federico García Lorca, La Casa de Bernarda Alba, Madrid: Espasa Libros, 2010, Act. I, p. 85.
Thursday, January 26, 2012
A BONDADE DOS DEMÓNIOS
" - Teresa, estás enganada! Não há astúcia de que o lobo não se sirva para atrair o cordeiro; tais manhas encontram-se na natureza, na qual a bondade prima pela ausência; esta é a característica da grandeza preconizada pelo escravo, para comover o amo e o convencer a ser brando; a bondade surge no homem em dois casos: quando ele é o mais fraco ou quando receia vir a sê-lo; a prova de que essa pretensa virtude não existe na natureza está no facto de ela ser desconhecida do homem que mais próximo está da mesma natureza. O selvagem, desprezando-a, mata o semelhante sem piedade, quer para se vingar quer por avidez... Se essa virtude estivesse inscrita no seu coração, será que ele a respeitaria? A verdade é que ela não surgiu lá como nunca surgirá onde quer que os homens sejam iguais: a civilização, depurando os indivíduos, dividindo-os em classes, colocando o pobre na frente do rico, inspirando a este o receio duma mudança de estado que poderia precipitá-lo no nada do pobre, inscreve no seu espírito o desejo de consolar o infeliz, para ser por sua vez consolado, no caso de vir a perder as riquezas. Daí nasce a beneficência, fruto da civilização e do temor: é, portanto, uma virtude de circunstância, não é um sentimento da natureza: esta nunca pôs em nós desejo algum que não fosse o de nos satisfazermos, seja por que preço for. É confundindo assim todos os sentimentos, nunca analisando coisa alguma, que se cai na cegueira total e se renuncia a todo o prazer."
Marquês de Sade, Justine ou os Infortúnios da Virtude, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Antígona, 2001, p. 243.
Wednesday, January 25, 2012
EM WELLS
"Tudo, tudo desapareceu! Nem um vestígio do mundo passado! Nem uma pulsação do meu sentir desse tempo! Sou como um fantasma que voltasse ao seu magnífico castelo, construído quando príncipe poderoso e por ele legado a hora extrema a um filho querido, e das riquezas amontoadas nesse soberbo edifício apenas viesse encontrar cinzas, escombros, ruínas..."
J. W. Goethe, Werther, trad. João Teodoro Monteiro, 15ª ed. rev., Lisboa: Guimarães Editores, 1993, p. 116.
Tuesday, January 24, 2012
A URGÊNCIA DO REGRESSO AO QUOTIDIANO
"noutros tempos
quando acreditávamos na existência da lua
foi-nos possível escrever poemas e
envenenávamo-nos boca a boca com o vidro moído
pelas salivas proibidas - noutros tempos
os dias corriam com a água e limpavam
os líquenes das imundas máscaras.
hoje
nenhuma palavra pode ser escrita
nenhuma sílaba permanece na aridez das pedras
ou se expande pelo corpo estendido
no quarto do zinabre e do álcool - pernoita-se
onde se pode - num vocabulário reduzido e
obsessivo - até que o relâmpago fulmine a língua
e nada mais se consiga ouvir
apesar de tudo
continuamos a repetir os gestos e a beber
a serenidade da seiva - vamos pela febre
dos cedros acima - até que tocamos o místico
arbusto estelar
e
o mistério da luz fustiga-nos os olhos
numa euforia torrencial."
Al Berto, Horto de Incêndio, 3ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pp. 11-12.
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