Wednesday, April 18, 2018

HECHIZO



"- Piensa usted que soy un lunático charlatán, imagino. Le diré que nos es mi costumbre merodear por la piazza abordando a inocentes turistas. Pero esta noche, lo confieso, siento como un hechizo. Y he imaginado que usted era también un artista. 
- No, no soy un artista, siento decirlo. Al menos del modo que usted debe entenderlo. Pero no es preciso que se excuse. Yo también siento el hechizo; y la eloquencia de sus reflexiones lo han intensificado."


Henry James, La Madona del futuro, trad. Carlos Ezquerra, s.l.: Siete Noches Ediciones, 2006, p. 17. 

Tuesday, April 17, 2018

QUÉ HAREMOS A ESTOS NUESTROS CORAZONES?


"Quem se lembrará de um bichinho da terra tão pequeno quando as aves de altenarias vêm por aí em bolandas é diabo. Pragas de tantos, tudo tem no cabo a queda. Eu serei preso eterno, porque aqui, segundo o uso, mente-se-me, eles não lhes dá disso. V. Eilm.ª me encaminha aos santos, rogo sem burla, mas, Senhor, qué haremos a estos nuestros corazones? As redondilhas tenho mandado tresladar, que nunca medrei cousa que soubesse ler. Pelas bocas dos maus também se dizem verdades. Eu estou sem olhos, que ver Lisboa de longe traz-me já quase cego, mas fico ao serviço de V. Eilm.ª a quem Deus guarde. 
Do castelo de Almada, 27 de Maio 628"


D. Francisco de Portugal, Epistolário a D. Rodrigo da Cunha (1616-1631), ed. José Adriano de Freitas Carvalho, Porto: CITCEM - U. Porto / Edições Afrontamento, 2015, p. 218. 

Monday, April 16, 2018

COMO CÁ ANDAMOS


"Em terra fico, mas também nelas se passam tormentos. Ao Senhor Dom João faço meus protestos de que vamos ver as águas do Leça, ele a lográ-las, eu a chorá-las, mas nem às jornadas de tanto gosto há quem corra. V. Sr.ª como nos falta cá, andamos todos desagasalhados e os engenhos ferrugentos, que não há quem estime nem quem condene."

D. Francisco de Portugal, Epistolário a D. Rodrigo da Cunha (1616-1631), ed. José Adriano de Freitas Carvalho, Porto: CITCEM - U. Porto / Edições Afrontamento, 2015, p. 175. 

Sunday, April 15, 2018

A TARDE EM SUA INTEGRIDADE



"Quase não vemos os prodígios fiéis, 
a parede solar, o torso unânime, 
o fulgor da cabeleira sobre o mar, 
o palácio de todos, de ninguém. 
Evidente mas subtraído à evidência
é quanto vemos sem ver pelo excesso 
de estar em profusão imediata. 
Qualidade lisa, ondulação silente
que reúne a plenitude e o longínquo, 
plana eclosão de um insondável fundo
que no alvor da superfície se consuma. 
Todo o sossego se nivela, ondeando em sombra
e sol. A tarde em sua integridade
fatalmente suave."

António Ramos Rosa, O Não e o Sim, Lisboa: Quetzal Editores, 1990, p. 55. 

Saturday, April 14, 2018

UMBRACLE



"Ninguém me pode ensinar o que a aragem diz. 
Eu vi um deus em repouso sob a sombra das nuvens. 
A visão era tão calma e luminosa sob as árvores
que eu próprio era parte da divindade revelada. 
Magnífico era o ser que eu olhava extasiado
mas sem distância alguma, na clara plenitude. 
Não era de outro mundo, mas o mundo suspendia-se
no hálito divino. E eu não estava a mais, 
porque o meu corpo ondulava leve como uma chama
em uníssono com os haustos do deus adormecido."


António Ramos Rosa, O Não e o Sim, Lisboa: Quetzal Editores, 1990, p. 45. 

Friday, April 13, 2018

REGRESSO


"Na América é tão forte a sombra do mundo antediluviano que às vezes Kate perdia a noção dos tempos decorridos e começava a aproximar-se do antigo modo de ser, da vontade, velha e torva, do desprezo da morte, da subtil e escura consciência, do instinto que precedeu a razão. Regressava à época em que o espírito e o poder dos homens residiam no sangue e na espinha dorsal, e as relações entre eles e com os animais se produziam através da medula."

D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., pp. 391-392. 

Wednesday, April 11, 2018

FUGAZ



"Um dia fugaz eu vivi e cresci entre os meus,
Um após outro já me adormece e vai fugindo pra longe.
E no entanto, vós que dormis, 'stais-me acordados cá dentro do peito, 
Na alma parente repousa a vossa imagem que foge. 
E mais vivos viveis vós ali, onde a alegria do espírito
Divino a todos os que envelhecem, a todos os mortos rejuvenesce."


Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 293. 

Tuesday, April 10, 2018

JARDIM


"Saturaba el ambiente un perfume de jardín saqueado. El suelo estaba cubierto de flores que parecían pateadas por una tromba de ginetes nocturnos. La tormenta había arrancado los pétalos del azahar y la tierra empezaba a oler a ramillete de novia descompuesto, con el fuerte perfume de la putrefacción  vegetal. Reflejaban los charcos, en su espejo tranquilo, las gotas inquietas de las estrellas."

Vicente Blasco Ibáñez, El Papa del Mar, Valencia: Vicent García Editores, 2011, p. 330. 

Monday, April 9, 2018

DESNUDA


"La Venus adorada por Borja no era la de los pintores clásicos, desnuda sobre las espumas mediterráneas, ó sentada en nubes blancas y duras como el mármol, bajo incesante lluvia de flores. Era la Venus que había conocido el poeta Tannhäuser, la que vivía durante la Edad Media en grutas de rosada luz ó en ásperas montañas como el Venusberg, atrayendo á los hombres con la tentación de su carne immortal, representando la voluptuosidade y el pecado en medio de repiques de campanas, cantos graves de procesiones y la marcha convergente de ejércitos de peregrinos hacia Roma para implorar humildemente el perdón de sus culpas."

Vicente Blasco Ibáñez, El Papa del Mar, Valencia: Vicent García Editores, 2011, p. 34. 

Sunday, April 8, 2018

PEQUENA PÁSCOA


"Nus, os homens não são mais do que homens; mas o contacto, o olhar, a palavra trocada entre os homens nus constituem o mistério da vida. Vivemos de manifestações."

D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., p. 338. 

Saturday, April 7, 2018

RUDE


"E entre a monstruosidade dos elementos tremulam e pairam outras presenças: entre terríveis e rudes, gente branca, os gringos, poderosos como deuses, porém, bárbaros, demoníacos. E seres estranhos como certas aves, que flutuam no ar, e cobras, que se arrastam no chão, e peixes que nadam e que mordem. Rude, monstruoso universo de monstros grandes e pequenos, nos quais o homem se detém por simples resistência e precaução, e nunca, nunca avança para sair das trevas que o rodeiam."

D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., p. 212.

Friday, April 6, 2018

ANIMA




"Kate assistia a tudo aquilo como uma criança que olha através de um gradeamento, meio curiosa, meio assustada.
Ah, a alma! Ora cintilava ora desaparecia, revestindo-se de formas sempre diferentes. Kate chegou a pensar que ela e Ramon haviam penetrado na alma um do outro, e eis que via agora um homem pálido e distante, de espírito iluminado pela mensagem do Além; longe, infinitamente longe de qualquer mulher.
Quanto a Cipriano, esse abriu-lhe um mundo novo, um mundo de penumbra onde se entrevia a face de Pã, o deus-demónio que jamais perece e surge das trevas para regressar à espécie humana. Mundo de sombra e de êxtases tenebrosos, com o vento fálico soprando na escuridão."


D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., p. 299.

Thursday, April 5, 2018

A VIDA


"Aquele país enchia-a de terror; mas era mais a alma do que o corpo que sentia medo. Pela primeira vez, compreendeu que vivia numa ilusão. Até aí, julgava que cada indivíduo possuía um «eu» completo. Agora, Kate percebia que homens e mulheres não eram feitos de uma só peça mas sim de bocadinhos um pouco ao acaso. Os homens e as mulheres são seres inacabados. Criaturas que funcionam com certa regularidade mas de vez em quando se perdem numa confusão de inconsequências."

D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., p. 108. 

Wednesday, April 4, 2018

IR LONGE


" - Temos de ir muito longe, em busca de Deus - respondeu Don Ramon, vagamente constrangido. 
- Já me causa horror essa história de procurar Deus e a religiosidade - replicou Kate.
- Bem sei! - exclamou ele, rindo. - Também eu sofri com a segurança agressiva da religião. 
- E afinal não se encontra Deus! É uma espécie de sentimentalismo voltar a aninhar-se em velhas conchas vazias. 
- Não - disse devagar Don Ramon. - Não posso «encontrar Deus» no sentido usual da expressão. Sei que é sentimentalismo pretender semelhante coisa. Mas estou enjoado da humanidade e vontade humana; até da minha própria vontade. Compreendi que, muito ou pouco inteligente, a minha vontade será apenas mais um mal da superfície da terra, desde que eu a comece a exercer. E a vontade alheia é às vezes ainda pior.
- Terrível, a existência humana - comentou a irlandesa. - Cada qual passa a vida a impor a sua vontade aos outros, e a si mesmo, e quase sempre convicto da sua justiça."


D. H. Lawrence, A Serpente Emplumada, trad. Maria Franco e Cabral do Nascimento, Lisboa: Unibolso/Portugália Editora, s.d., p. 76. 

Tuesday, April 3, 2018

FUNDIR


"O céu abrira sobre a terra o seu grande olho luminoso - e tudo se modificara. O frio amortecera e o gelo que resistira à noite pluviosa brilhava, agora, ao sol. Por toda a parte, os pobres pareciam respirar de alívio, pois os meses anteriores haviam sido tão rudes, tão frígidos, que até neve caíra nas regiões do sul, onde, há muitos anos, não se via a sua pinta. Agora o sol cobria tudo. Dir-se-ia um sol novinho, acabado de fundir e ainda espirrando raios do seu branco metal incandescente."

Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 2.ª ed., Lisboa:Guimarães Editora, 1947, p. 235. 

Sunday, April 1, 2018

ACALMAR



"Ah, se toda aquela gente desaparecesse, se as ruas se esvaziassem, se a cidade acalmasse! Se fosse possível ouvir a folha que a brisa bafeja, ver o andamento dos astros seculares, na sua rota através do espaço!
Que triste a realidade, quanta fadiga, que tédio profundo!"


I. M. Panajotopulos, Os Sete Adormecidos, trad. Maria do Carmo Lemos, Lisboa: Guimarães Editores, 1965, p. 250. 

RESSURREIÇÃO



"Como é a morte? Que é a morte? Que existe para além da morte? Em que lugares vos encontrastes? Com que seres contactastes? Pudestes observar, frente a frente, o todo Poderoso, tanto Misericordioso, o Senhor do céu e da terra?
- Não vimos nada, nem sabemos nada! - respondia Constantino. - Dormimos apenas, como a criança no regaço da mãe, como o fatigado companheiro no bosque deleitoso. Foi apenas uma noite. Dormimos e acordámos. É tudo. Acordámos."


I. M. Panajotopulos, Os Sete Adormecidos, trad. Maria do Carmo Lemos, Lisboa: Guimarães Editores, 1965, p. 245. 

Saturday, March 31, 2018

NA FORÇA DO SOL



"Diante do Senhor está lançada 
A Madalena triste e vergonhosa, 
Qual na força do Sol vermelha rosa
Dos seus ardentes raios transpassada. 

A nova e grave dor lhe tem roubada
(Sinal do que padece) a voz queixosa; 
Lembra-lhe que passou tão perigosa
Vida, da vida sua descuidada. 

Os pés que dos seus passos foram guia
Em lágrimas banhados alimpva
Com os seus cabelos de que se cobria. 

Ali do Redentor, a quem buscava, 
Encaminhada foi; porque queria
Que amasse muito mais, que tanto amava!"

Frei Agostinho da Cruz, Poesias Selectas, 2ª ed., Porto: Editorial Domingos Barreira, s.d., pp. 49-50. 

ÀS CHAGAS


"Divinas mãos e pés, peito rasgado, 
Chagas em brandas carnes imprimidas, 
Meu Deus, que, por salvar almas perdidas, 
Por elas quereis ser crucificado. 

Outra fé, outro amor, outro cuidado, 
Outras dores às Vossas são devidas, 
Outros corações limpos, outras vidas, 
Outro querer no Vosso transformado. 

Em vós se encerrou toda a piedade, 
Ficou no mundo só toda a crueza, 
Por isso cada um deu do que tinha:

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza, 
Chagas de meu Senhor, redenção minha."


Frei Agostinho da Cruz, Poesias Selectas, 2ª ed., Porto: Editorial Domingos Barreira, s.d., p. 43. 

Thursday, March 29, 2018

A CHEGADA


"Mas, agora, o céu estava todo fechado e só uma vaga claridade, muito vaga, contrastava com a obscuridade geral. Ao distingui-la, porém, Serafim sentou-se ao pé dos rochedos e começou a chorar. Era um choro grotesco mesclando-se com aquela sua respiração que dir-se-ia um resfolegar de vapor."

Ferreira de Castro, A Lã e a Neve, 2.ª ed., Lisboa:Guimarães Editora, 1947, p. 229.