Friday, August 17, 2018

SOPHIA


"Padre Praxedes de Vila Cova sabia de cor Aristóteles e Platão. Filosofia, física, história natural, gramática, lógica, metafísica, poética, meteorologia, política, e mais centenar de ciências todas lhas ensinaram os dois sábios de Estagira e Atenas. Na opinião dele, a inteligência do homem, depois de Platão e Aristóteles, envelhecera, ou fingira remoçar-se com atavios de ouropel e pechisbeques, sem quilate na experimentada mão de um sábio."

Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal, Lisboa: Círculo de Leitores, 1981, p. 21. 

Thursday, August 16, 2018

PEIXES



"Para elas olhei longamente. Ferviam de peixe. Devia ser peixe miúdo. Adiante - brilho de espada no mar - um cardume de grandes peixes alegrava o dia, que despontara. Saltavam, riscavam. E, além, era a lenta mudança da alvorada, o milagre de sangue em luz, que se cumpria mais uma vez.
Tudo vivia em gratidão. Em todos, mesmo nos vermes. A vida estava cheia de alegria. Em mim, castigo era. Morta a esperança, a maldade gastava-me a alma entorpecida."


Dinah Silveira de Queiroz, A Ilha dos Demónios (Margarida La Rocque), Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 201. 

RETÁBULO DE ISENHEIM (SUITE)


"Calculai uma vasta roda, tal corrente constituída por seres vários, a girar com fúria. Fazia ela um zumbido, um cantar entre o urro do animal e a voz humana. Embora girasse com rapidez - aquela atropelada multidão - eu podia distinguir ásperos e agudos cornos, caudas estrebuchantes, dorsos que ondulavam frenéticos de prazer, mamas e ventres bambos. Animais e assemelhados humanos compunham aquele agrupamento. Eram bichos e espíritos da ilha, gozando de uma festa, e alumiados pela lua."

Dinah Silveira de Queiroz, A Ilha dos Demónios (Margarida La Rocque), Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., pp. 123-124. 

Monday, August 13, 2018

FRÉNÉSIES (Retábulo de Isenheim III)


"Avec ses buccins de couleurs et ses cris tragiques, avec ses violences d' apothéoses et ses frénésies de charniers, il vous accapare et il vous soubjugue; en comparaison de ces clameurs et de ces outrances, tout le reste paraît et aphone et fade."

J.-K. Huÿsmans, Trois Primitifs, Paris: Flammarion, 1967, p. 31. 

AGNEAU (Retábulo de Isenheim II)


"Et, seul, dans les sanglots, dans les spasmes affreux du Sacrifice, ce témoin de l'avant et de l'après, cambré sur ses reins, debout, ne pleure, ni ne souffre; il certifie, impassible, et promulgue, décidé; et l' Agneau du monde qu'il baptisa est à ses pieds, portant une croix, drdant de son portrait blessé un jet de sang dans un calice."

J.-K. Huÿsmans, Trois Primitifs, Paris: Flammarion, 1967, pp. 11-12. 

GESTE (Retábulo de Isenheim I)



"Ce visage de reître de la Franconie, dont la toison de poils de chameau s'aperçoit sous une ceinture dont le noeud bouffe et un manteau drapé en de larges plis, c'est saint Jean-Baptiste. Il est ressuscité, et pour le geste dogmatique et pressant de son long index que se retrousse en indiquant le Redémpteur s'explique, cette inscription en lettres rouges s'étend près du bras: «Illum oportet crescere, me autem minui. Il faut qu'il croisse et que je diminue»."


J.-K. Huÿsmans, Trois Primitifs, Paris: Flammarion, 1967, p. 11. 

Friday, August 10, 2018

ÁRVORE DA VIDA



"Ils disent qu'il avait un jardin entouré de murs où il se promenait au coucher du soleil. Ç'aurait pu être sa prison, hors qu'il était libre, avec tout le loisir d'inventer les périls qui le menaçaient. «Le Pilier de la Loi sera-t-il détruit, et l'édifice couché dans la poussière, la Misshnah, profanée et foulée aux pieds?» Puisse la mémoire de son chemin ici-bas et de son destin perdurer avec les sept catégories de Justes. Nul ne sortait. Nous attendions dans l'obscurité de nos chambres; à chaque souffle de vent qui faisait claquer les persiennes, nous frissonnions. Que les victimes de la fièvre reponsent en l'Eden, et que leur demeure soit sous l'Arbre de la Vie."

Paul Bowles, Des aires du temps, trad. Chantal Mairot, Paris: Christian Bourgois Editeur, 1986, p. 13. 

Wednesday, August 8, 2018

EXPRESSÃO


"Ainda não conhecia, não compreendia, não imaginava as dificuldades, o perigo, a austeridade da vida que lhe estava destinada. A sua atuação, a sua expressão, impedia que alguém suspeitasse que ele sentia o contraste que o opunha às grandes massas. Esse ser pequenino era um sonho, livre de quaisquer responsabilidades e cuidadosamente manipulado do exterior; uma vida que se desenrolava num palco que mal se abrangia com a vista. E este palco pululava de figuras coloridas, de comparsas e atores com papéis furtivos e de outros com papéis eternos."

Thomas Mann, Sua Alteza Real, s. trad., Lisboa: Livros do Brasil, s.d, p. 46. 

Tuesday, August 7, 2018

NOVO MUNDO


"- Talvez possamos, então, concordar no seguinte: que, enquanto estamos aqui reunidos, quentes e em segurança, após uma boa refeição, ao pé da lareira, a beber vinho do Porto e o Gabriel a fumar o seu cachimbo, lá fora está a formar-se um novo mundo. - Nesta altura, o Patrão ergueu o cálice na direção da janela que dava para a praça. - E trata-se de um mundo do qual sabemos pouco, no qual poderemos não ter lugar, um mundo - o Patrão fez uma pausa e todos os cavalheiros ficaram suspensos das suas palavras, tal como eu - que nós fizemos mas que já está fora do nosso controlo. 
O Dr. Lanyon falou imediatamente:
- Sim; isso é verdade."

Valerie Martin, Mary Reilly, trad. Maria Filomena Duarte, Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, p. 207. 

Monday, August 6, 2018

JUVENTUDE


"- São ervas daninhas, Mary - replicou o Patrão, pousando o cálice no tabuleiro, com força, como se quisesse esmagar essas ervas. - De onde é que elas vêm se a Mary não as semeou?
- Ora, o ar deve andar cheio delas, senhor - respondi. - Porque há tantas que vemos as florestas cheias delas e ninguém as semeou. Mas o que não percebo é por que razão as ervas daninhas, assim que encontram um bocado de terra, crescem com mais força do que as coisas que nós queremos que cresçam.
- E tem alguma resposta para essa pergunta, Mary? - quis saber o Patrão. 
- Tenho pensado nisso, senhor - atrevi-me. - Acho que, por serem selvagens, têm mais desejo de viver. 
O Patrão deitou-me um sorriso sinistro e repetiu o que dissera, como se fosse uma verdade profunda que lhe caíra do céu.
- Creio que isso acontece com quem não tem nada, e com as crianças, também - prossegui -, que crescem fortes quando ninguém cuida delas, parecem amar a vida que conseguem arrancar ao mundo e são capazes de matar para a conservar, enquanto uma criança mimada adoece e morre."

Valerie Martin, Mary Reilly, trad. Maria Filomena Duarte, Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, pp. 58-59. 

Sunday, August 5, 2018

ASPETO DIFERENTE


"- Há muitos homens que bebem, senhor, e nós vemos que alguns até ficam bem dispostos e de bom humor, e outros tornam-se fanfarrões ou que querem lutar com os companheiros. No do meu pai, quando bebia era como se não se fartasse de ver sofrer, e como eu estava à mão, tinha prazer em tratar-me mal. Nessas alturas, era um homem diferente - até tinha um aspeto diferente, senhor, como se um homem cruel estivesse sempre dentro dele e a bebida o trouxesse cá para fora. 
- Ou o deixasse sair - disse o Patrão em voz baixa."


Valerie Martin, Mary Reilly, trad. Maria Filomena Duarte, Lisboa: Círculo de Leitores, 1996, p. 31.

Saturday, August 4, 2018

ILUMINAÇÃO



"Se o homem a Terra aprecia
Pelo Sol iluminada, 
Com a uva se delicia
À faca sacrificada, 
Pois sabe que a sua seiva, 
Fermentada, o mundo anima, 
Que muitas forças redobra
E muitas outras elimina - 
Sabe também que o deve à chama
Que tudo isso faz crescer: 
Vai cambaleando o embriagado, 
E canta alegre o moderado."


J. W. Goethe, Poesia, trad. João Barrento, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p. 171. 

Friday, August 3, 2018

NEGÓCIO


"O excesso de atividade, na escola ou no colégio, na igreja ou no mercado, é sintoma de uma vitalidade deficiente; enquanto a capacidade para o ócio implica um apetite ecuménico e uma vigorosa identidade pessoal. Existe uma classe de pessoas, vulgares e quase-mortas, que mal têm consciência de estarem vivas exceto em pleno exercício de alguma ocupação convencional. Levem um destes indivíduos ao campo, ou numa viagem marítima, e vereis como anseia por regressar à secretária ou ao gabinete. São desprovidos de curiosidade; não conseguem entregar-se a paixões momentâneas; são incapazes de desfrutar o exercício das suas faculdades pelo mero prazer de as exercer; em a não ser que a Necessidade os espicace, podem até ficar imóveis. Não vale a pena conversar com estas pessoas; não conseguem ser ociosos, a sua natureza não é suficientemente generosa; e assim passam numa espécie de coma todas as horas que não dedicam ao lufa-lufa diário."

Robert Louis Stevenson, Apologia do Ócio, tad. Rogério Casanova, Lisboa: Antígona, 2016, pp. 21-22. 

Thursday, August 2, 2018

PHARO



"Convence-te do disparate que é imaginar que nem os teus próximos nem os teus homens de confiança estão a salvo de uma falha. Nada neste mundo é inteiramente garantido."

Cardeal Mazarin, Breviário dos Políticos, trad. Maria Bragança, Lisboa: Guimarães Editores, 1997, p. 122. 

Wednesday, August 1, 2018

DIAS OCIOSOS


"Nos dias ociosos
que pena senti pelo tempo perdido!

Mas terá sido alguma vez perdido, Senhor?
Não tiveste Tu a minha vida, 
a cada instante, em tuas mãos?

Escondido no coração das coisas, 
Tu nutres sementes
e transforma-las em rebentos, 
e os botões em flores
e as flores em frutos. 

Estava eu cansado, 
dormitando no meu leito ocioso, 
e pensava que nada fazia. 
Quando acordei, pela manhã, 
vi o meu jardim
cheio de flores maravilhosas."


Rabindranath Tagore, O Coração da Primavera, 3.ª ed., trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1990, p. 65. 

Tuesday, July 31, 2018

AERONAUTA


"Agora podeis tratar-me 
como quiserdes: 
não sou feliz nem sou triste, 
humilde nem orgulhoso
- não sou terrestre. 

Agora sei que este corpo, 
insuficiente, em que assiste 
remota fala, 
mui docemente se perde
nos ares, como o segredo
que a vida exala. 

E seu destino é ir mais longe, 
tão longe, enfim, como a exacta
alma, por onde
se pode ser livre e isento, 
sem actos além do sonho, 
dono de nada, 

mas sem desejo e sem medo, 
e entre os acontecimentos
tão sossegado!
Agora podeis mirar-me
enquanto eu próprio me aguardo,
pois volto e chego, 

por muito que surpreendido
com os seus encontros na terra
seja o Aeronauta."


Cecília Meireles, Antologia Poética, Lisboa: Relógio D'Água, 2002, p. 153. 

Monday, July 30, 2018

A BUSCA


"Não podendo encontrar, porém, o que procurava, porque daqui a esses países só se vai por água, voltei para trás e cheguei aos lugares santos, onde no verão o pão fresco vale quatro dinheiros e o pão quente se vende de graça. E ali encontrei o venerando padre messer... Não me censureis! Encontrei o digníssimo patriarca de Jerusalém, o qual por veneração pelo hábito do Senhor Santo António que eu sempre vesti, quis que visse todas as santas relíquias que tinha conseguido; eram tão numerosas, que, se quisesse contá-las todas só daqui a dois anos poderia acabar. 
Mas para não vos deixar desconsolados, sempre vos falarei de algumas. Mostrou-me primeiramente o dedo do Espírito Santo, tão inteiro e tão são como nunca esteve; o focinho do serafim que apareceu a S. Francisco; uma das unhas dos querubins; uma das costelas do Verbum Caro, põe-te à janela; vestidos da santa fé católica; alguns raios da estrela que apareceu aos três Magos no Oriente; um frasco cheio do suor de S. Miguel quando combateu contra o diabo; o queixo da morte de S. Lázar, e outras coisas ainda.
E como lhe fiz presente dalgumas relíquias que tinha em duplicado, e que ele inutilmente procurara, deu-me em recompensa um pedaço da santa cruz, uma pequena garrafa cheia de som dos sinos do magnífico templo de Salomão e a pena do anjo Gabriel de que já vos falei. Deu-me também um dos sapatos de São Gerardo de Villa Magna, do qual fiz presente pouco depois a Gerardo de Bonsi, estabelecido em Florença, que tem muita veneração por esta santa relíquia; enfim deu-me alguns carvões sobre os quais foi grelhado o bem-aventurado S. Lourenço."

Giovanni Boccaccio, Decameron, vol. III, trad. livre de Joaquim de Macedo, Porto: Edições Sousa & Almeida, 1969, pp. 56-57. 

Sunday, July 29, 2018

TROPO



"Tenho aproveitado estas semanas para «transmutar valores». Compreende este tropo? O alquimista é, na realidade, o homem de maior mérito. Quero dizer, o que faz do ínfimo, do desprezível, qualquer coisa de muito valioso - ouro até! - esse, é o único homem que enriquece; os outros não fazem mais que mudar. O meu trabalho atual é muito curioso. Perguntei a mim próprio: O que é que, até hoje, tem sido mais odiado, temido e desprezado pela Humanidade?"


Friedrich Nietzsche, Despojos de uma Tragédia, trad. Ferreira da Costa, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 280. 

Saturday, July 28, 2018

INSTINTO



"É certo que a consideração pelos animais é qualidade que adorna o homem nobre; mas a Deusa Natureza, imoral e cruel, com grande instinto, conduz os povos da nossa zona ao horrível carnivorismo, enquanto que, nos países cálidos, onde os macacos vivem de vegetais, podem também os homens satisfazer-se com estes, seguindo o mesmo imperioso instinto."


Friedrich Nietzsche, Despojos de uma Tragédia, trad. Ferreira da Costa, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 74. 

Friday, July 27, 2018

FAINA


"Não podes fotografar-me vestida, como as outras pessoas? Não, porque qualquer fotógrafo de domingo sabe fotografar uma pessoa vestida. Além disso, tenho dois benefícios, em primeiro lugar, quando tiro os retratos, e depois quando os observo e os aprecio criticamente de acordo com os meus parâmetros. Entre um momento e o outro ainda há a revelação e a ampliação. E isso também é divertido. Na arte é sempre preciso lutar para obter um resultado. O facto de tu venceres a tua relutância também faz parte do todo, Gretl. O talento de um artista vê-se, entre outras coisas, nos seus olhos, onde ele arde, lá no fundo."

Elfriede Jelinek, Os Excluídos, 2.ª ed.,  trad. Fernanda Mota Alves, Alfragide: Asa Editores, 2008, p. 12.