Saturday, May 27, 2017

MUNDO REAL LÁ FORA


"Um dos problemas que têm atormentado a teoria desde o início é a relação entre a realidade e o formalismo. Os cientistas têm esperado que a ciência dê conta da realidade tal como ela seria na nossa ausência. A física deve ser mais do que um conjunto de fórmulas que prevêem o que vamos observar numa experiência: deve dar uma imagem da realidade. Somos descendentes acidentais de um primata antigo, que só apareceu muito recentemente na história do mundo. É inconcebível que a realidade dependa da nossa existência. E é igualmente inconcebível que se resolva o problema da falta de observadores devido à possibilidade da existência de civilizações extraterrestres, pois houve uma época em que o mundo existia mas era demasiado quente e denso para poder haver inteligência organizada. 
Os filósofos chamam realismo a esta visão. Pode ser resumida dizendo que o «mundo real lá fora» deve existir independentemente de nós. Disto decorre que os termos nos quais a ciência descreve a realidade não podem envolver de nenhuma forma essencial aquilo que escolhemos ou não medir."


Lee Smolin, O Romper das Cordas - Ascensão e Queda de uma Teoria e o Futuro da Física, trad. Daniel Ribeiro, Lisboa: Gradiva, 2013, pp. 40-41. 

Friday, May 26, 2017

RUMORES


"Ali as coisas tendem a tornar-se homens, e os homens amigos e inimigos. O tempo que decorre para aquele que dorme, durante esses sonos, é absolutamente diferente do tempo em que se consuma a vida do homem acordado. Umas vezes corre muito mais rápido, um quarto de hora parece um dia, outras muito mais lento, e julgamos ter feito apenas um ligeiro sono quando dormimos o dia inteiro. Então, no carro do sono, descemos às profundidades onde a memória já não pode alcançá-lo e para aquém das quais o espírito foi obrigado a arrepiar caminho. O carro do sono, à semelhança do do Sol, segue num passo tão regular, numa atmosfera onde já nenhuma resistência o pode deter, que só algum pequeno calhau aerolítico alheio a nós (dardejado a partir do azul com algum Desconhecido?) pode atingir o sono regular (que se não fosse isso não teria qualquer razão para se deter e duraria num movimento assim pelos séculos dos séculos) e fazer com que, numa brusca curva, regresse ao real, salte etapas, atravesse regiões próximas da vida em que aquele que dorme não tardará a ouvir, desta, os rumores quase vagos ainda, mas já perceptíveis, embora deformados, e aterre bruscamente no despertar."

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - Sodoma e Gomorra, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2003, pp. 384-385. 

Thursday, May 25, 2017

OS BRILHOS



"Se o mar colhe favores, brilhos de sóis,
sobe o nível para o sangue, uma mão cheia, 
e a piteira floresce anos depois
junto aos rochedos que a maré incendeia."


Ingeborg Bachmann, O Tempo Aprazado, trad. João Barrento e Judite Berkemeier, Lisboa: Assírio & Alvim, 1992, p. 79. 

Wednesday, May 24, 2017

JAUNE



"Et le ciel chante à l'âme consumée
Le changement des rives en rumeur."


Paul Valéry, Poésies, Paris: Gallimard, 2009, p. 101. 

Monday, May 22, 2017

IN PELAGO NAUTIS EX UNDIS



"No mar acontece parecer aos marinheiros que o Sol, 
das ondas nascido, nas ondas morre e esconde a sua luz,
porque o observam onde não se vê senão mar e céu."


Lucrécio, Da Natureza das Coisas, IV, 432-434, trad. Luís Manuel Gaspar Cerqueira, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2015, p. 221.

Sunday, May 21, 2017

PERAMBULAR



"Muito do que é dito sobre a beleza e a sua importância nas nossas vidas ignora a beleza mínima de uma rua despretensiosa, de um belo par de sapatos ou de um papel de embrulho de bom gosto, como se estas coisas pertencessem a uma ordem diferente de valor por comparação com uma igreja de Bramante ou um soneto de Shakespeare. No entanto, estas belezas mínimas têm uma importância muito maior nas nossas vidas quotidianas e estão presentes nas nossas grandes obras que (sendo nós afortunados) ocupam as nossas horas de lazer."

Roger Scruton, Beleza, trad. Carlos Marques, Lisboa: Guerra & Paz, 2009, p. 24. 

Saturday, May 20, 2017

SE-PULCHRUM


"Joseph refletiu vagarosamente nisso... a vida não pode ser cortada repentinamente. Uma pessoa não pode estar morta enquanto as coisas que alterou não tiverem morrido. Os efeitos que provocou constituem a única prova de que esteve viva. Enquanto se conservar uma recordação, ainda que dolorosa, uma pessoa não pode ser posta de parte, morta. E pensou: «É um longo processo lento a morte de um ser humano. Nós matamos uma vaca e ela fica morta logo que a sua carne é comida, mas a vida de um homem só morre da mesma forma que uma vaga num charco, em pequenas ondas, que se espalham e recuam em direção à tranquilidade»."

John Steinbeck, A Um Deus Desconhecido, trad. Samuel Soares, Bibliotex Editor, 2003, p. 191. 

Thursday, May 18, 2017

MULTIDÃO


"E é como se através da multidão dos séculos eu ouvisse o tropear de todos os povos da terra caminhando comigo, cantando o sonho da sua amargura milenária."

Vergílio Ferreira, aparição, 20.ª ed., Venda Nova: Bertrand Editora, 1994, pp. 130-131. 

Wednesday, May 17, 2017

MARIE-CÉLESTE


"Marie Gineste era normalmente mais rápida e sacudida, Céleste Albaret mais mole e lânguida, estirada como um lago, mas com terríveis recaídas de fervuras em que a sua fúria lembrava o perigo das cheias e dos turbilhões líquidos que tudo arrastam, tudo devastam."

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - Sodoma e Gomorra, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2003, p. 252. 

Tuesday, May 16, 2017

OLHOS POSTOS


"Oh! Meu Deus! Não é melhor ir com os olhos postos nas estrelas e cair de chofre em um poço, como o filósofo grego?! Este morrer a retalhos, para nós que não somos ténias, é sobremaneira indecoroso!"

Camilo Castelo Branco, Duas Horas de Leitura, 8.ª ed. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1967, p. 122. 

Sunday, May 14, 2017

RESPOSTA


"A resposta mais natural consiste em dizer que a beleza diz respeito à aparência e não ao ser, acrescentando-se talvez que, ao explorar a beleza, estamos a investigar aquilo que as pessoas sentem e não a estrutura profunda do mundo."

Roger Scruton, Beleza, trad. Carlos Marques, Lisboa: Guerra & Paz, 2009, p. 18. 

Friday, May 12, 2017

OS ACONTECIMENTOS



"Na verdade, já muitos homens traíram a pátria e os amados progenitores´
ao procurarem evitar as regiões do Aqueronte. 
De facto, tal como as crianças tremem e receiam tudo, 
na escuridão cerrada, assim também nós, em plena luz, receamos
por vezes coisas que não são de modo nenhum mais de recear
já que as crianças temem e imaginam que vão acontecer. 
É necessário, portanto, que dissipem este terror e estas trevas do espírito
não os raios de sol nem os luminosos dardos do dia, 
mas a observação e o conhecimento da natureza."


Lucrécio, Da Natureza das Coisas, III, 85-93, trad. Luís Manuel Gaspar Cerqueira, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2015, p. 145. 

Thursday, May 11, 2017

TERRITÓRIOS


"A ilha (nasceu em S. Miguel) deu-lhe o gosto mágico pela vida. Ela «é a mãe, é a fatalidade dos insulares», comentava. É o território do oculto, da partida, do regresso. «Onde retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho do espírito», avisava."

Fernando Dacosta, Nascido no Estado Novo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 170. 

Wednesday, May 10, 2017

NOÇÕES


"Desde que existem caminhos-de-ferro, a necessidade de não perder o comboio ensinou-nos a contar os minutos, ao passo que para os antigos Romanos, que não tinham só uma astronomia mais sumária mas também uma vida menos apressada, a noção, não de minutos, mas até de horas fixas, mal existia."

Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - Sodoma e Gomorra, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2003, p. 231. 

Tuesday, May 9, 2017

CONHECIMENTO


"Vive em cada um de nós o sonho, a alegria, a amargura. E o riso, o encantamento, a ternura. Mas para cada sentimento há várias portas de acesso. De todas se perdeu a chave, excepto de uma que está na posse do tempo em que se vive e do modo de ser homem nesse tempo. A arte que nos atinge é com ela que se abre a porta."

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente II, 3.ª ed., Venda Nova: Bertrand Editora, 1990, p. 315. 

Monday, May 8, 2017

DESLIZE



"Habitando a paciência da ondulada
sombra vibramos numa rede
de veemências suaves de sabores secretos
e sentimos a terra deslizando connosco."


António Ramos Rosa, "Dinâmica Subtil", in Antologia Poética, selec. Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 214. 

Sunday, May 7, 2017

VAS SPIRITUALE



"No deserto há uma mulher e um arbusto
E a mulher é Agar

Sentada no odre vazio
Com os olhos cheios de lágrimas

A distância de um tiro de arco
Para não ver o filho morrer

No deserto há um poço. A mulher 
Escolhida no Egipto

No deserto há um flecheiro
O menino que dormiu sob o arbusto

Agar tem um véu que voa
Ao lado das setas do seu filho"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 150. 

Saturday, May 6, 2017

SÃO



"Sou, como as nuvens sou que nada são, 
E as ondas frágeis como vãs quimeras,
E as pétalas e as folhas desfolhadas, 
E as formas fogos-fátuos da ilusão...
Correi, lágrimas fúteis enganadas!

Mas tu cansas, minh'alma!, enquanto esperas!"


José Régio, de "Mas Deus É Grande", in Não Vou Por Aí! - Antologia Poética, selec. e org. de Isabel Cadete Novais, 3ª edição. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2001, pp. 116-117. 

Friday, May 5, 2017

ARMA


"O homem justifica melhor a sua vida na medida em que a realiza a um nível mais baixo. Não há problemas sobre a vida para o animal. Assim o homem é tanto mais explicável quanto menos se interroga e se entende a si. Ou seja, quanto menos se explica."

Vergílio Ferreira, Conta-Corrente I, 3.ª ed., Amadora: Livraria Bertrand, 1982, p. 333. 

Thursday, May 4, 2017

DORMIR


"Homens mecânicos do mundo:
dormi, dormi, 
contentes de terra. 

Dormi, dormi
nas camas de mofo, 
felizes de vida. 

Dormi! Dormi!

Enquanto eu por cá ando
alheio a destinos
às três da manhã
- nesta insónia de pertencer a um universo
em que só ouço bater o meu coração nas pedras. 

O meu pobre coração de carne sem rumor de deuses, 
tão pequeno afinal para tantas flores e tanto mundo."


José Gomes Ferreira, "Sonâmbulo", in Poesia - II, 4.ª ed., Lisboa: Portugália Editora, 1972, p. 189.