Tuesday, June 19, 2018

TRANSBORDANTE



"O verde é muito verde
A luz é mais clara
Do que nunca
As recordações são do tamanho
Do coração transbordante

O calor é Apolo
Perpendicular à terra

Os pássaros
                  os esquilos
Atravessam a imaginação numa diagonal sem fim"


Alberto de Lacerda, Meio-Dia, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 15. 

MALEZA


"Aquella ruina apenaba el ánimo, oprimia el corazón. Parecía que del casuco abandonado fuesen salir fantasmas en cuanto cerrase la noche; que de su interior iban a partir gritos de personas asesinadas; que toda aquella maleza era un sudario ocultando debajo de él centenares de cadáveres."

Vicente Blasco Ibáñez, La Barraca, Barcelona: Círculo de Lectores, 1976, p. 21. 

Sunday, June 17, 2018

MEMENTO


"Que de grandes palácios, que de belas mansões, que de magníficas residências, cheias outrora de criadagem, de senhores e de damas, não ficaram desertas dum dia para o outro, vendo desaparecer até ao mais humilde servidor! Que de famílias ilustres, que de propriedades enormes, que de fortunas célebres, não ficaram privadas de legítimos herdeiros! Que de valorosos senhores, de belas damas e de graciosos jovens, a quem não somente a Faculdade, mas Galiano, Hipócretes e até Esculápio teriam passado atestado de saúde robusta, não tomaram a refeição da manhã com seus pais, camaradas ou amigos e, vinda a noite, se sentaram à cela, no outro mundo, com os seus maiores!"

Giovanni Bocaccio, Decameron, vol I, trad. livre de Joaquim de Macedo, Porto: Edições Sousa & Almeida, 1964, p. 23. 

RADIAÇÃO


"Gozemos, na alegria e no recreio, todo o prazer que não transponha os limites da razão. Ali poderemos escutar o chilreio das aves, olhar as planícies e as colinas cobrirem-se de verdes folhagens. Os campos de trigo ondulam como o mar. Existem árvores de mil espécies, e o céu, apesar de, por vezes, se zangar, não nos recusará, por isso, a radiação da beleza eterna cujo espectáculo é mais sedutor que o dos muros desertos da nossa cidade."

Giovanni Bocaccio, Decameron, vol I, trad. livre de Joaquim de Macedo, Porto: Edições Sousa & Almeida, 1964, p. 28.

Thursday, June 14, 2018

ALTA AGONIA



"Alta agonia é ser, difícil prova:
entre metamorfoses superar-se
e - essência viva em pureza suprema - 
despir os sortilégios, brumas, mitos. 

Alta agonia é esta raiz, pureza
de contingência extrema a abeberar-se
nos mares do Ser pleno, e arrebatada, 
fazer-se única em seu lúcido fruto. 

Alta agonia é ser: essencial
tarefa humana e sobre-humana graça
de renascermos em solidão vera

e em solidão - dor suportada e glória - 
em nossa contingência suportarmos
o peso essencial do amor profundo."


Orides Fontela, Trevo (1969-1988), São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 244. 

Wednesday, June 13, 2018

PROMETHEUS


"Nada conheço de mais pobre
Sob o Sol que vós, deuses. 
Mal conseguis alimentar
Com tributos de oferendas 
E o sopro de orações
A vossa majestade, 
E morreríeis à míngua se não
Fossem crianças e pedintes, 
Loucos cheios de esperança."

J. W. Goethe, Poesia, trad. João Barrento, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993, p. 22. 

Tuesday, June 12, 2018

DAS FICÇÕES



"A perceção fundamental de Espinosa no Livro Primeiro é que a Natureza constitui um todo indivisível, incausado e substancial - na realidade, é o único todo substancial. Fora da Natureza, nada existe, e tudo o que existe é parte da Natureza e é trazido à existência com uma necessidade determinista. Este ser unificado, único, produtivo e necessário é exatamente aquilo que designamos por «Deus». Devido à necessidade inata na Natureza, não há teleologia no Universo. A Natureza não age com quaisquer finalidades e as coisas não existem com objetivos determinados. Não há «causas finais» (para utilizar a habitual expressão aristotélica). Deus não faz «coisas» por amor de mais ninguém. A ordem das coisas apenas deriva das essências divinas com um determinismo inviolável.Toda a conversa acerca dos propósitos de Deus, das suas intenções, objetivos, preferências ou desígnios, não passa de uma ficção antropomórfica."


Steven Nadler, Espinosa - Vida e Obra, trad. J. Espadeiro Martins, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2003, p. 237. 

Monday, June 11, 2018

LUCRECIANA


"Feliz pois aquele que encontrou
Um destino bem à sua medida,
Onde ainda a lembrança 
Das viagens e das dores
Docemente sussurra junto à praia segura, 
E donde ele possa olhar pra aqui e pra acolá
Até aos limites
Que Deus à nascença
Lhe marcou pra morada."

Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 379. 

Sunday, June 10, 2018

O ABISMO



"Mas dizem os Poetas que para o abismo
       O sacro Pai, o teu próprio, outrora
            Desterraste e que lá em baixo se chora, 
                Onde os Indómitos estão justamente antes de ti, 

Inocente o deus da idade de ouro há já muito:
        Outrora sem custo e maior do que tu, embora
            Não tenha ditado nenhum mandamento
                 E nenhum dos mortais por nome o nomeasse."


Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 185. 

Saturday, June 9, 2018

ABERTA



"A mão aberta já não liga
E o sol desce tão devagar como o último voo das pombas. 
Há nos meus olhos dois poços
Na paisagem
Duas estrelas que ferem como rodas dentadas dentro de máquinas
E é noite. No meio do escuro peço
Uma pedra incendiada. Pego-a com ambas as mãos
Levo-a à boca e das chamas bebo
Água"


Daniel Faria, Poesia, ed. Vera Vouga, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 48. 

Friday, June 8, 2018

APORTAR



"Ai! desejaria aportar um dia à costa
     De Súnion, às tuas colunas, Olympion!, 
         Perguntar, ali, ainda antes que o vento-norte
            Te sepulte a ti também no entulho dos templos"


Hölderlin, Poemas, trad. Paulo Quintela, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 141. 

Thursday, June 7, 2018

LIBERTAÇÃO (para a memória do poeta Albano Martins)


"E outra vez nascerás, e soltarás a voz emudecida, encarcerada, à hora em que os sinos dobram, não a finados, mas à serena libertação das espécies. E no teu peito farão ninho as cotovias. E o mel, o mel abundante, jorrará das tulhas, trigueiro e loiro e brando como o trigo das colinas."

Albano Martins, "Rodomel rododendro", in Assim são as algas (Poesia 1950-2000), Porto: Campo das Letras, 2000, pp. 208-209. 

Tuesday, June 5, 2018

ELES


"Eles são o que nós éramos; são o que devemos tornar a ser. Fomos como eles natureza e a nossa cultura deve reconduzir-nos à natureza pela via da razão e da liberdade. Eles sã portanto, em simultâneo, uma representação da nossa infância perdida, que permanece sempre para nós o mais caro dos bens: daí que eles nos encham de uma certa nostalgia."

Friedrich Schiller, Sobre Poesia Ingénua e Sentimental, trad. Teresa Rodrigues Cadete, Lisboa: IN-CM, 2003, p. 42. 

Monday, June 4, 2018

O LUGAR


"Já uma vez te disse que já não preciso nem dos deuses nem dos homens. Sei que o Céu está deserto, despovoado, e que a terra que outrora transbordava da beleza da vida humana se tornou quase um formigueiro. Mas ainda há um lugar onde o antigo Céu e a antiga Terra para mim riem. Em ti esqueço todos os deuses do Céu e todos os homens divinos da terra."

Friedrich Hölderlin, Hipérion ou o Eremita da Grécia, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 116. 

Sunday, June 3, 2018

O ENIGMA


"Que importa saber onde nasce a água que corre, se ela não faz senão passar, sempre a mesma e sempre outra? E, de novo, nessa hora, como o pintor florentino, eu pensei no enigma, que nós nunca decifraremos, das almas que murmuram e escapam, surgem e desaparecem, misto de engano e de verdade - como a ilusão da água que canta nas bacias de mármore, beijando e fugindo.
Toda a mentira da vida é, afinal, como o mistério das fontes."


Augusto de Castro, As Mulheres e as Cidades, Lisboa: Editorial Verbo, 1971, p. 106.

Saturday, June 2, 2018

INTANGÍVEL


"Mas todos este novos prodígios não empalidecerão perante o mais surpreendente, o mais perturbante de todos: aquele que parece finalmente dar ao homem o poder de também ele, por sua vez, criar, materializando o espectro impalpável que desaparece assim que entrevisto, sem deixar uma sombra no vidro do espelho, um estremecimento na água do lago? O homem não terá acreditado que estava, de facto, a criar, quando captou, apreendeu, fixou o intangível, conservando a visão fugaz, o clarão, hoje por ele gravados no mais duro metal?"

Félix Nadar, Quando eu era fotógrafo, trad. Inês Dias, Lisboa: Cotovia, 2017, pp. 15-16. 

Friday, June 1, 2018

JOUIR



"Mas o que lhe faltava em graça na conversação, em culto das belas-letras, em requinte de convívio, sobrava-lhe em espontaneidade, em fantasia, em galantaria natural, em sinceridade de temperamento, em juventude e alegria na libertinagem. «Gozar é usar a vida», dizia a duquesa de Choiseul. L'inconduite n'est, en somme, qu'une conduite différente de celle des autres, dizia no outro dia Jehanne d'Orliac. 
Paulina Bonaparte tinha o seu temperamento e nunca, com um desplante em que havia, por vezes, qualquer coisa de infantil, na sua soberana e imperial inconsciência, sentiu necessidade de o ocultar. Ignorou sempre a prudência do conselho hipócrita, em que está tanto da moral do século XVIII, que a marquesa de Merteuil dava a Valmont: Jouir du plaisir jusqu'à l'excès et de la bonne reputation jusqu' à la gloire."


Augusto de Castro, As Mulheres e as Cidades, Lisboa: Editorial Verbo, 1971, p. 66. 

Thursday, May 31, 2018

CORPUS CHRISTI



"Há uma chavezita __ Muito te invejo, 
Ó chave que abres __ todos os dias __
A prisão do sacrário eucarístico
Onde__mora o Prisioneiro do Amor__
Melhor do que invejar
É realizar__ um milagre de meiguice,
Pegar na fé__ abrir o tabernáculo__
E fechar-me com Ele__no próprio amar."


Thérèse Martin, de Lisieux, O Alto Voo da Cotovia, trad. Maria Gabriela Llansol, Lisboa: Relógio D'Água, 1999, p. 173. 

Wednesday, May 30, 2018

CRENÇA



"Assim, o homem ignorando e as idades
A que ele chama antigas e as gerações 
De avós e netos, 
A natureza permanece sempre verde, ou antes, percorre
Um caminho tão longo
Que parece imóvel. Caem entretanto os reinos, 
Passam nações e linguagens: ela nada vê:
E o homem vangloria-se de ser eterno."

Giacomo Leopardi, Cantos, trad. Albano Martins. Lisboa: Vega, s/dt, p. 117.

Tuesday, May 29, 2018

ENTES DE IMAGINAÇÃO


"Vê-se assim que todas as noções com que o vulgo costuma explicar a Natureza são somente modos de imaginar, as quais nada dão a saber acerca da natureza do que quer que seja, mas apenas sobre a constituição da imaginação; e porque têm nomes como se fossem entes existentes fora da imaginação, chamo-lhes entes de imaginação e não entes de razão."

Bento de Espinosa, Ética, trad. Joaquim de Carvalho, Lisboa: Relógio d' Água, 1992, p. 175.