Friday, November 2, 2018

A PORTA DOS MORTOS


"O monge velador do que estava (seria preferível dizer «do que está», pois tudo o que estava então lá continua preso ao confronto com o tempo passado e com o tempo que lhe foi futuro) além da Porta dos Mortos esperava que da sua compaixão (de que era um aprendiz, alguém que tentava aceder à libertação do absoluto domínio do amor por si mesmo) nascesse a capacidade de ser mais activo, isto é, que essa compaixão inicial, na qual progredia como qualquer artesão progride na sua arte, nascesse um varrer menos carregado de folhas secas e de emaranhados ramos de silvas, sangradores das suas mãos, rosto, braços e do corpo todo. Os espinhos das silvas, rosáceas que são de amargura, haveriam de despertar em si o espírito de um dos melhores mestres, ao modo de São Bernardo."


João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 38; 40. 

Thursday, November 1, 2018

O ESSENCIAL



"Como me tinha ficado a olhar para eles, o meu pai levantou a voz:
- Deves saber o que fica do jantar de casamento quando os convivas e os noivos abandonam a sala. A primeira luz da madrugada vem exibir a desordem que lá deixaram. Jarros quebrados, mesas de pernas para o ar, brasas apagadas, tudo conserva a marca de um tumulto que petrificou. Mas não penses que é a ler estas marcas que tu aprendes seja o que for sobre o amor. 
- O ignorante, ao sopesar e remirar de um lado e do outro o livro do Profeta, ao quedar-se no desenho dos caracteres ou no ouro das iluminuras, passa ao lado do essencial, que não reside no objecto vão, mas sim na sabedoria divina. O essencial do círio, por exemplo, não é a cera que deixa a marca, mas sim a luz que liberta."


Antoine de Saint-Exupéry, Cidadela, trad. Ruy Belo, 3.ª ed., Lisboa: Editorial Aster, 1973, pp. 20-21. 

Wednesday, October 31, 2018

MEMENTO



"A morte é grande,
nós somos dela
de boca ridente.
Quando nos julgamos no meio da vida
ousa ela chorar
no meio de nós."


Rainer Maria Rilke, "O Livro das Imagens", in Poemas, 5.ª ed., trad. Paulo Quintela, Porto: Asa, 2003, p. 78. 

Tuesday, October 30, 2018

PASSAGEM



"Também na arte não pode haver lugar para qualquer justificação moral. Ela é como é, um fogo criativo que a um só tempo constrói e destrói. Que traz consigo os princípios da sua própria justiça, um jogo intencional que corre da obra realizada e a realizar ao seu autor e, deste, como quem governa e reconhece o acordo e o desacordo de um magoado processo, a uma harmonia que se estabelece sobre a discordância, sobre os veios por onde corre a tinta ou os vincos que se acentuam após a passagem de colorida mancha. O resultado é idêntico ao de uma peregrinação que tem por fim o ilimite de uma porta dos mortos que a cada momento se transpõe, mesmo quando foi cautelosamente tapada pela folha de uma engrossada parede."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, pp. 48-49. 

Monday, October 29, 2018

ENTRE SOMBRAS



"Só ao que a lira já ergueu
também entre sombras, 
é permitido do louvor infinito, 
entrevendo-o, restituir. 

Só quem com mortos da papoula
comeu, da que deles é, 
não voltará a perder
o mais ténue som. 

Por mais que o espelhamento no tanque 
possa confundir-se-nos:
Saberás a imagem. 

Só no território duplo 
as vozes se tornarão
eternas e amenas."


Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 29. 

Sunday, October 28, 2018

ALTA FONTE



"Que intimidade de amêndoa,
que alta fonte, 
que palpitação de vulcão ou de ventre, 
revelando-as, esconde
esta imprecisão à espera?

É voz, 
ou simples imaginação, 
ou querer
mas quê?

E que contradições
inevitáveis lhe roem 
a inquebrantável persistência?"


Armindo Rodrigues, A Paz Inteira, Lisboa: Centro Bibliográfico, 1954, p. 16. 

Saturday, October 27, 2018

LIDAR


"Lidamos com a flor, parra, fruto.
Não falam a língua apenas as estações.
Da obscuridade sobre uma evidência policroma
e tem talvez em si o brilho

do ciúme dos mortos, que fortalecem a terra. 
Que sabemos da parte deles nisso?
Há muito que é a sua maneira, ao barro,
com a livre medula deles, dar medula. 

Pergunta-se então apenas: fazem-no de bom grado?...
Este fruto, obra de pesados escravos, irrompe
conglomerado até nós, os seus senhores?

São eles os senhores, os que dormem junto às raízes, 
e concedem-nos dos seus sobejos
este híbrido de força muda e beijos?"

Rainer Maria Rilke, Os Sonetos a Orfeu, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Relógio D'Água, 2005, p. 39. 

Friday, October 26, 2018

CULINÁRIA



"O médico de família, o Dr. Guiraud, um homem gordo e inteligente, tivera já várias conversas particulares com o Sr. Chabre. Explicara-lhe como a ciência estava ainda atrasada em certos capítulos. Santo Deus! não, não se podia plantar uma criança como se planta uma árvore! No entanto, não querendo desgostar ninguém, prometeu-lhe pensar no caso, e, numa manhã de julho, veio-lhe dizer:
- Devia ir para a praia, meu caro senhor. Sim, é excelente. E, sobretudo, coma muitos mariscos, coma só mariscos. O Sr. Chabre, cheio de esperança, perguntou vivamente interessado:
- Mariscos, doutor?... Julga que os mariscos...
- Claro! Têm dado resultado noutros casos. Coma todos os dias ostras, mexilhões, ameijoas, ouriços do mar, lapas, e até santolas e lagostas."

Émile Zola, "Os mariscos do Sr. Chabre", in Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 121. 

Thursday, October 25, 2018

CIRANDANTE



"O dom abade tinha-o encarregado de manter limpo o cemitério e o campo ao redor, para que tudo ficasse como se fosse jardim. Mas o cemitério permanecia com um ar de descuido e coberto de ervas. Não por incúria. Que o frade guardador dos mortos logo pelo romper da hora da madrugada pegava na chave da Porta dos Mortos, sempre atada ao lado a corda dos votos, que só ele guardava, e de vassoura de ramo de giestas varria o que um pequeno vento cirandante ora juntava sobre uma pedra tumular ora levava para mais longe, como se fugindo à frente do seu cuidado."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 37. 

Wednesday, October 24, 2018

CONVITE



"Continuava à entrada do caramanchão, como se tivesse medo do escuro. 
- Então? Não vem? - acabou por me perguntar. - Temos de conversar. 
- Está-se tão bem aqui! - respondi-lhe eu. - Podíamos conversar neste banco. 
Ela hesitou ainda durante um segundo, mas depois disse:
- Como quiser. Está tão escuro! É certo, porém, que as palavras não têm cor."


Émile Zola, Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 54. 

Tuesday, October 23, 2018

CONTEMPLAR


"- Onde está ele? - pergunta Berta bruscamente, olhando à sua volta. - Perde-se de nós de três em três metros. 
Referia-se ao marido. 
- Gaucheraud está lá adiante - respondeu tranquilamente Félix, que via toda a gente. - Está a contemplar aquele enorme Cristo de açúcar, pregado numa cruz de maçapão. 
Com efeito, o marido, com ar tranquilo e desinteressado, dava por sua conta a volta à sala, com as mãos atrás das costas. Quando notou a nossa presença, veio apertar-nos a mão e disse com ar satisfeito: 
- Já notaram? Está lá adiante um Cristo, de um sentimento religioso verdadeiramente notável."


Émile Zola, Madame Neigeon, trad. Carlos Rodrigues, Porto: Livraria Civilização, 1960, p. 24. 

Monday, October 22, 2018

O LONGE



"Nas grutas do teu peito, a vocação
De um adeus outonal, da nostalgia
Da dor irrefragável, sem desvão
E, aí, o canto, como estalactite, 

Moldava-se no tempo, nas imagens, 
Na vida, que tu vias, te fugia, 
Medida nos teus versos, nobres viagens, 
E a dor que o coração ao ser permite. 

O longe que a saudade fazia maior, 
Nascia dos teus versos naturais, 
Como eles jamais fossem escritos
Mas nascessem da terra, de uma dor, 
De um horror que crescia e produzia
O feitiço do ritmo e melodia."


Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 39. 

Sunday, October 21, 2018

AS CRENÇAS



"A laje da Pedra-Má, cinzenta e baça ao sol da tarde: se ali haveria também tesouros enterrados? E que houvesse - seriam do Morgado! Ninguém ousava aproximar-se dela com medo do cobranto, nem removê-la pramor do dono. A serra e tudo quanto a vista alcançava ali era do Morgado. De muitas léguas em redor, aquela montanha com cobiça e temor; viviam no pecado a desejá-la: quanta terra, quanta lenha, água e pedra e mato ociosos! O fidalgo não cultivava nem arrendava um palmo daquela selva, onde os lobos se acoitavam para descer no Inverno a dizimar os rebanhos. As cobras, ali, eram de quatro e seis metros, e até javalis e veados havia! Era uma tapada, e assim mesmo inútil: o fidalgo não caçava havia muitos anos, nem consentia lá caçadores: trazia-a bem guardada. A serra, que podia dar pão, calor, água e abrigo a dois concelhos, permanecia sáfara e hostil. Por isso, olhando a laje maldita, e povo dera há muito em chamar ao senhor da Casa da Capela - «Morgado de Pedra-Má»."

José Rodrigues Miguéis, "O Morgado de Pedra-Má", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, pp. 236-237. 

Saturday, October 20, 2018

QUAL ONDA



"Coisas gloriosas se têm dito de ti
árvore mais verde de quantas há não há na vida
praia prometida no fundo dos mais belos
dos menos intencionais dos mais
inexplorados olhos
E só para ti o senhor não haver
lugar na cidade nem mãos com que te ungir
Servissem-te ao menos meus dias de espaço
não tenho nada já para morrer
abrir-te os braços é tudo o que faço

Passaste numa nuvem pelos costumados gestos
qual onda que recua roubaste-mos ao dia
aí teve princípio toda a salvação

Havia-me colinas prometidas
e lagos redondos como a minha sede de cervo
Mas reduzi-me à tua irregular geografia
ó foz deste rio irrequieto
Não há nenhuma outra paisagem 
mais do que a tua cruz simplificada"


Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 56. 

Friday, October 19, 2018

PROSTRAÇÃO


"O Sol descaía. E de novo rolámos, bafejados por uma brisa mais suave, de novo assustando os pássaros e as ramarias com os nossos descantes e os nossos gritos - em breve esquecidos já no azul e da eloquência que havíamos insuflado na paisagem. Até que de novo o cansaço traiçoeiro nos prostrou."

José Rodrigues Miguéis, "Uma viagem na nossa terra", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, p. 58. 

Thursday, October 18, 2018

HORAS


"Uma noite (nunca te cheguei a contar) acordei sufocado, sonhando-me no Inferno. Roncando de aflição, abri os olhos e vi uma forma estranha, vermelha, incandescente, que tanto podia ser a Lua a romper, como o próprio Belzebu a arder em fogo lento. Pulei da cama, aterrado, e só então compreendi que me encontrava na pensão da Lambertin e que o clarão vermelho era o meu fogão esbraseado. Em cima dele, o jarro de esmalte da água quente (que a patroa recusava dar-me às deis da manhã) estava também ao rubro, e enchia o quarto duma fumarada irrespirável, que felizmente me acordara. Abri as janelas de par em par e e ali fiquei tristemente sentado no sofá, embrulhado num cobertor de algodão, tossindo e espirrando no frio da madrugada mais desolada que jamais vi, e maldizendo a minha sorte. Se dessa vez não morri, Léah, é que me estavam reservados outros e bem maiores castigos. Em todo o caso, so hoje, a tantos anos de distância, eu saboreio o encanto dessas horas amargas..."


José Rodrigues Miguéis, "Léah", in Léah e outras histórias, 4.ª ed., Lisboa: Estúdios Cor, 1968, pp. 12-13. 

Wednesday, October 17, 2018

ANIVERSÁRIO



"Muro de ataque
resto para viver

deflagração seca"


António Ramos Rosa, "Sobre o rosto da terra", in Obra Poética, vol. I. Lisboa: Fora do Texto, 1989, p. 147. 

Tuesday, October 16, 2018

BRINDA A NATUREZA



"Lisa - Pedro, antes de te responder, ouve estas palavras de advertência: os homens hão de irritar-te tanto como os mosquitos, sem te darem as satisfações com que te brinda a natureza, eternamente jovem. 

Pedro - A natureza! Sim, a natureza é muito bela, mas quando vista da torre da igreja. De perto, torna-se monótona e fastidiosa. Tudo tranquilo, parado, como que morto. Olha estas árvores... Estão no mesmo sítio desde há mais de cinquenta anos, talvez até de cem; e, daqui a mais cinquenta, aqui continuarão, imóveis e fixas como hoje... Sinto os olhos cansados de todos estes esplendores; a solidão entristece-me; o que me apetece agora é lançar-me na agitação e no bulício. Se os homens são como os mosquitos, poderão também ser sacudidos, se calhar até com mais facilidade do que esta praga. (Agita o chapéu em torno da cabeça.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato II, cena III,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., p. 57. 

Monday, October 15, 2018

O FRACASSO




"João - Morrer? Que parvoíce! Melhor será montar um hotel.

Júlia (Sem o ouvir) - No lago de Como, onde o Sol brilha sempre e os loureiros ficam verdes até ao Natal...Onde florescem as laranjeiras.

João - Na realidade, o lago de Como é um buraco chuvoso. Nunca lá vi nenhuma laranja, a não ser na loja. Mas é um bom sítio para os turistas. Há milhares de casitas para alugar aos enamorados. Bom negócio. E sabes porquê?  Porque todos as alugam por seis meses e se vão embora ao fim de três semanas. 

Júlia (inocentemente) - Porquê ao fim de três semanas?

João - Porque fracassam, naturalmente! Mas não importa, o pagamento é adiantado. E assim acontece sempre, casal atrás de casal. Volta-se a alugar, e a história repete-se, porque o amor não falta, embora dure pouco."


August Strindberg, A Menina Júlia, trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 238-239. 

Sunday, October 14, 2018

AFORTUNADO



"Pedro - Quem és tu? Tu não és o meu pai!

O Sineiro - O teu culpado, o teu desgraçado pai, que está sob o domínio das potências infernais! (Transforma-se num grande gato negro.)

Pedro - Jesus! Maria! Valei-me (Raios de luz saem da imagem da Virgem. O relógio dá a meia-noite.) Bruxaria! Bruxaria! Para trás, almas condenadas! (O gato desaparece.) E agora... (Abre a janela.) À vida! (Olha para o anel.) Para o bosque verdejante! (Salta para o telhado da igreja.)"


August Strindberg, A Viagem de Pedro o Afortunado, ato I, cena VII,  trad. M. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., pp. 44-45. 

Saturday, October 13, 2018

QUE SEI



"Que sei eu do passado?
Só o que em mim há de presente. 
Não posso olhar para trás,
Parar para ver que estou construído
Sobre tudo o que perdi, 
Parar para ver quem morreu, 
Quem amei, quem foi, 
Parar para traçar na memória
Todos esses nomes, agora irreais, 
Vultos, sombras líquidas, sonhadas. 
Não parar sequer para dizer hoje, 
Não parar sequer para pensar
Que a manhã é apenas mais um sol-posto."


Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 113. 

Friday, October 12, 2018

UM VENTO DOLENTE



"Uma rosa sepultada no verso, 
O verso como uma rosa impossível. 
Eu vejo o teu rosto
Atravessado por todas as guerras, 
A devastação, um vento dolente
Que traz a memória imensa
De todos, todos os mortos. 

Falas-me da solidão
De um homem que, dia a dia, 
Contemplou a sua morte, 
Até nos cumes incendiados do amor;
Falas-me do futuro primordial
Para onde não há regresso, 
A esperança irrecuperável;
Falas-me dessa manhã
Em que o mundo não emergiu da noite, 
Não voltou ao tempo, 
Um mundo que não se retomou; 
Falas-me da tentação do choro
Nas nascentes da tinta, 
Um choro que suavemente te chama, 
Um choro, um abandono, poema, 
O aqui, onde, por fim, 
Num fruto puríssimo, 
A dor se encontra com a voz."

Nuno Rocha Morais, Galeria, Porto: Edições Simplesmente, 2016, p. 97. 

Thursday, October 11, 2018

SUBTIL



"Num ponto qualquer 
sensualmente subtil
algo que antes não servia para nada
irradia agora habitada surpresa."


António Ramos Rosa, "Dinâmica Subtil", in Antologia Poética, selec. Ana Paula Coutinho Mendes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001, p. 213. 

Wednesday, October 10, 2018

GANDAIA



"Alfredo voltou-se para o homem, mas não chegou a falar. 
- Está entendido! Cá por mim não há empeno! Suba ao terraço, fale à pequena... O que a minha Virgolina disse, está dito. Só não queria que andassem por aí a falar p'las esquinas. Digam o que têm a dizer, cá em cima, à porta, e é quanto basta. Há também a questão das horas e dos dias... - E para a mulher: - Tu já tocaste nisso?
- Não, diz tu...
- Ora, como deve saber, temos outra filha, a Liliana, que também namora. A nossa porta é só uma e não faz sentido que estejam os dois casais para aqui a monte... A vizinhança é danada prà ratança!... Enfim: segundas, quartas e sextas, uns; e, nos outros dias, vocês... ou eles. É só questão de escolha! Das oito às onze da noite, podem estar aqui à porta...
- Quem diz onze, diz onze e meia... - atalhou a mulher. - Não há mal nisso..."


Romeu Correia, Gandaia, Lisboa: Guimarães & C.ª Editores, s.d., pp. 188-189. 

Monday, October 8, 2018

FAZER À VIDA


"Ser nómada! Viver errante! Que aventura
Nesses desertos da Ásia! Eu vejo, dentro em mim, 
Planícies de aridez extensas de brancura;
Ermos que a Sede alonga em areais sem fim!
E desejei perder-me entre as florestas virgens!
Ser homem primitivo, em luta contra as feras!
E cercado, a tremer, de pálidas vertigens, 
Meus olhos sepultar na boca das crateras!
O negro e doido encanto, em nós, a rir, a rir!
Dir-se-á que nos deslumbra ardente labareda!
Que prazer não seria, ó meus irmãos, sentir
Num abismo sem fundo uma perpétua queda!
Momento de delírio e de desvairamento, 
De grandes sensações que se apagavam logo!
Momentos em que fui mais louco do que o vento, 
Fazendo, à minha vida, o que ela faz ao fogo. 
O trágico destino! Horror! Fatalidade!
Almas que andam, de dia e noite, embriagadas, 
Sensíveis para além da Sensibilidade
E vivas para além das cousas animadas!
Ai de nós! Ai de nós! Vede que estranha sorte!
Cair, cair, cair, sem descansar jamais...
E esse espaço que vai do nascimento à morte
É a hora em que o profundo Abismo contemplais!"


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 291. 

Sunday, October 7, 2018

ELEVAR



"Na tristeza da paisagem, 
Elevemos nossa imagem
Comovida...
Rezemos a morte e a vida, 
Rezemos a nossa dor:
Esta penumbra que cresce, 
Dentro de nós, e escurece
Todo o mundo, em derredor..."


Teixeira de Pascoaes, Terra Proibida, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 206. 

Saturday, October 6, 2018

RECORDANDO A DIVINA MONSERRAT



"Outros virão mais capazes de gostar. 

Morre-se sempre pelo lado o inverno
adormecido em nuvens
vindo dentro de uma árvore
metade das raízes,
a metade dos céus. 

Este receio carregado de infância. 

Alma pequena, 
adormecida, 
com esse fio de prata.

O vento as nuvens corpo estendido vencido
pela luz
não tenho mais a pedir
ervas aves e luz. 

Vindo de tão perto."


João Miguel Fernandes Jorge, O Roubador de Água, in Obra Poética, 2.ª ed., vol. IV, Lisboa: Editorial Presença, 1991, p. 238. 

Friday, October 5, 2018

OLHOS EXTERIORES



"A visão ascendeu aos olhos exteriores; 
Incide sobre aspectos da paisagem; 
Deixou a transcendente e vaga imagem
Pela forma gravada a sol, impressa a cores.
E viva a claridade
Que, de alto, as cousas tristes alumia, 
Dissipa a névoa de alma que envolvia
Meu ser; quase fantasma de saudade."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 159. 

Thursday, October 4, 2018

LABORIOSAMENTE



"Estão os pássaros laboriosamente construindo 
em meio deste dia as paredes de uma tarde antiga
Começa-lhes no bico aquela alegria
onde eu corria de canto para canto
e andava dentro dela de janela em janela

Quem me trouxe de novo até à minha casa?

Podem calar-se os pássaros inúteis"


 Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates, 5ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1996, p. 75. 

Wednesday, October 3, 2018

IMENSO



"Tudo se torna indefinido, imenso. 
Um sonho ou morte as cousas envolveu. 
O rio tolda o espaço; é branco incenso. 
Desce à terra, em penumbra e dor, o céu.

O frio piar do mocho sobressalta
Os homens que regressam aos casais...
Que silêncio de inverno! E já vai alta
A lua, sobre a rama dos pinhais."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Tuesday, October 2, 2018

VÉSPER



"A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume. 

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima: 

depois dela só há
o silêncio."


Orides Fontela, "Teia", in Poesia Completa, ed. bilingue trad. catalã de Joan Navarro, Barcelona: Edicions de 1984, 2018, p. 688. 

Monday, October 1, 2018

FORMAS MAIS SECRETAS




"Saio de casa. Outubro. Fria tarde. 
Eis-me através dum ermo pinheiral. 
O sol, já moribundo, chora e arde, 
Gorejam sangue as árvores do val'.

Seus denegridos ramos, tão esguios, 
Perdem-se no céu roxo e vaporoso. 
E causa-me profundos calefrios
O vento, num ataque de nervoso. 

Ó fulminados troncos sem folhagem, 
Erguendo negros braços, na amplidão!
Súplicas dolorosas da paisagem,
As formas mais secretas da Aflição..."


Teixeira de Pascoaes, Sempre, in Belo. À Minha Alma. Sempre. Terra Proibida, ed. António Cândido Franco, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 106. 

Sunday, September 30, 2018

PEDAÇO DE CÉU



"Levantou-se e dirigiu-se ao mulo, que por ali pastava sossegado a pensar noutras missas. De um dos alforges sacou uns pergaminhos escrevinhados e cheios de chancelas, sinetes e lacres, testemunhando que eram papéis sérios e de valor. Voltou depois para nós altaneiro, animado e efusivo: - Tenho aqui, meus senhores, a solução para todos os vossos tormentos. Isto que aqui vedes nas minhas mãos é um pedaço de céu, que vosso pode ser e que vos aguarda; e mais, se vós do inferno e da suas eternas labaredas vos quereis salvar, podeis também um testamento fazer, que para isso também fui ordenado e instruído, para que, deixando os vossos bens à santa igreja, possais para todo o sempre usufruir da companhia do todo-poderoso, Deus Nosso Senhor e de Jesus Cristo, à sua direita sentado. Que tendes a dizer sobre estas maravilhas, eu sou a vossa salvação!
Acabou o onzeneiro bulista a parlapatice com uma benzedura, mais papista que o papa, e voltou às azeitonas, que apesar do jactante relambório continuavam pretas e frescas."


Paulo Moreiras, A Demanda de D. Fuas Bragatela, Lisboa: Temas e Debates, 2002, pp. 158-159. 

Saturday, September 29, 2018

MIKHAEL



"Como ao terror do Inferno
Sucedeu
O horror do Nada!
A inquietação moderna,
A antevisão
Da cósmica catástrofe, 
Prometida
Por sábios e teólogos
Apocalípticos. 
Divino Orfeu, vem tu salvar-nos. 
Tange, de novo, a lira!
Amansa as feras. 
Que o teu cantar volatilize
A estátua em bronze do deus Marte!
E esculpa, em oiro amanhecente, 
Sobre o mais alto 
Píncaro do mundo, 
O Anjo simbólico 
Da Paz."


Teixeira de Pascoaes, Últimos Versos, in Obras Completas de Teixeira de Pascoaes, vol. VI, Amadora: Livraria Bertrand, s.d. p. 167. 

Friday, September 28, 2018

AS LINHAS


"- Retomai a sagrada e sublime obra empreendida e conduzi-la à máxima perfeição! Reuni as leis que a Natureza elaborou para nos dirigir e formai com elas o autêntico e imutável código. Mas, que essa obra admirável não vá beneficiar apenas uma única nação, uma só família; que seja para todas sem excepções! Sêde o legislador de todo o género humano como sois o intérprete da Natureza! Traçai a linha que separa o mundo das quimeras do das realidades e ensinai-nos, depois de tantas religiões, depois de tantos erros, a religião da evidência e da verdade!"

Conde de Volney, As Ruínas de Palmira, trad. Francisco Quintal, Lisboa: Livraria Renascença, s.d., p. 217. 

Thursday, September 27, 2018

DESCALÇOS


"O exaltado de Deus baixou a cabeça para a terra e disse por entre muitas lágrimas, sem os olhar. «Se sois Cristãos, prestai louvor a Deus e deixai-me depressa! Pois estou tão condenado, que nunca mais me deve ser dado ver homens bondosos, com olhos tão pecadores. O meu corpo está tão manchado de pecados que é justo que fique só até à minha morte. Para que um dia a minha alma vença a tortura eterna, pago o preço aqui na terra. Se eu vivesse entre vós, por causa dos meus pecados sofreriam pessoas piedosas. A minha culpa é tão desmedida, que árvores e ervas e todo o verde à minha volta teriam que murchar sob o desagradável som da minha voz depravada e sob a monstruosidade dos meus pés descalços."

Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., p. 101. 

Wednesday, September 26, 2018

DES-FIGURA


"Como as cadeias pendiam dele pesadamente dia e noite, tinham-lhe ferido cruelmente a carne até aos ossos, de modo que o sangue corria constantemente de feridas frescas. Esta dor atormentava-o ainda para além de toda a outra dor que tinha de suportar. Penso, como comparação, num pano de linho que se estendeu sobre os ossos através da pele, os grandes como os pequenos. Por muito que entretanto o amado de Deus tenha sido, pelo seu martírio, desfigurado, no corpo, sempre o Espírito Santo fora a sua companhia, e tão poderosamente agia, que, apesar de toda a ruína, lhe ficara toda a sabedoria que outrora adquirira de todos os seus professores e livros."

Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., p. 100. 

Tuesday, September 25, 2018

INFAME



"Assim ele começou a parti-lo, com todos a assistir. Então o ambicioso homem encontrou no estômago do peixe aquela chave com que, como ouvistes, o pescador, 17 anos antes, fechara Gregório tão infamemente.
Depois lançara a chave à água e exclamava que se algum dia a reavesse da profundeza do lago, Gregório estaria sem pecados. Quando ele a encontrou no peixe, reconheceu de repente que estava cego e agarrou-se impetuosamente com as duas mãos à cabeça. Apesar do muito que eu o aborreça noutras coisas, nesta altura eu tê-lo-ia ajudado, se estivesse presente."


Hartmann von Aue, Gregório, trad. Alois Weimer, Porto: Figueirinhas, s.d., pp. 97-98. 

Monday, September 24, 2018

SALTO



"Depois vem o Invisível; o Oculto sua verdade faz patente;
Minha consciência exterior desaparece, minha essência interior sente:
Quase livres suas asas - encontrados lar e abrigo, 
Mede o abismo, debruça-se e arrisca o salto definitivo."


Emily Brontë, in Poemas Escolhidos das Irmãs Brontë, trad. Ana Maria Chaves, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 83. 

Sunday, September 23, 2018

EQUINÓCIO


"Leite de Vasconcelos, que nasceu perto, na Ucanha, fala de um religioso que passava todo o tempo a varrer as folhas e a juntá-las em pequenos montes. Deitava-lhes fogo nos dias de nenhum vento; fogueiras para as quais seguiam os troncos velhos das videiras nas tardes escurecidas do inverno. Iriam aquecer, nas braseiras de cobre, as celas dos frades mais velhos."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 37. 

Saturday, September 22, 2018

ESMAECER



"Ali, naquela curva do bosque, onde as rosas que restaram de setembro, esmaecidas, me devoram o sonho pela noite."

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez, O Próximo Outono, Lisboa: Relógio D'Água, 2012, p. 191. 

Thursday, September 20, 2018

ARCANOS


"A estas palavras os olhos inundaram-se-me de lágrimas, e, cobrindo a cabeça com a ponta da capa, entreguei-me a lúgubres meditações sobre as causas humanas. Ah! Homem desventurado!, exclamei com fundo pesar: a fatalidade cega ri-se do teu destino! E uma lei funesta rege ao acaso a sorte dos mortais! Mas, oh, não! Sinto que são decretos a justiça divina que se cumprem! Um Deus misericordioso exerce os seus incompreensíveis julgamentos! Sem dúvida lançou algum anátema terrível contra esta terra, amaldiçoando as atuais gerações, pelos delitos das raças extintas! Oh! Quem ousará sondar os arcanos da Divindade?
E assim permaneci imóvel, mergulhado em profunda melancolia."

Conde de Volney, As Ruínas de Palmira, trad. Francisco Quintal, Lisboa: Livraria Renascença, s.d., p. 27. 

Wednesday, September 19, 2018

A PEQUENA CLARIDADE


"Tal é a tua grandeza, que eu nem sequer existo, 
quando apenas de ti me aproximo, por ti visto.
Tu és tão obscuro; a minha pequena claridade
na tua orla não faz qualquer sentido na realidade. 
Como uma onda passa a tua vontade
e cada dia nela se afoga de verdade. 

Apenas a minha saudade pode ao teu rosto chegar
para diante de ti como o maior dos Anjos ficar: 
estranho, ainda não liberto e a empalidecer, 
suas asas para ti a estender. 

Um voo sem margens já não quer, 
pelo qual passavam luas macilentas, 
e dos mundos há muito é pleno o seu saber.

Com suas asas quer como com chamas lentas
diante de teu rosto de sombras permanecer
e quer no seu branco brilho ver, 
se tuas sobrancelhas de cinza o estão a mal querer."


Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 83. 

Tuesday, September 18, 2018

LA TIGRE ASSENZA



"Ai que a Tigre
a Tigre Ausência, 
ó amados, 
devorou tudo
deste rosto voltado
para vós! A boca apenas
pura
reza-vos ainda:
para que rezeis ainda 
a fim que a tigre
a Tigre Ausência, 
ó amados, 
não devore boca
e oração..."


Cristina Campo, O Passo do Adeus, trad. José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 75. 

Monday, September 17, 2018

ENIGMA



"Corpo meu fará quadrado.
Corpo meu duro que é
Embora palavra não diga
Palavras guarda. E responde."


China, "Poema Enigma do séc. XVIII(?)", in Poemas Anónimos Turcos, Mongóis, Chineses e Incertos, ed. Gil de Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 20. 

Sunday, September 16, 2018

SAÍDA



"Quem de sua vida muitos paradoxos concilia
e agradecido numa imagem os enuncia, 
nada impede
que os tumultuosos do palácio faça sair, 
festeja de outra forma, e tu és convidado a vir
onde ele nas tardes calmas te recebe. 

Tu és o segundo da sua solidão, 
o centro sereno em que seus monólogos se dão;
e cada círculo a te rodear, 
expande-lhe do tempo o movimento circular."


Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 61. 

Saturday, September 15, 2018

POR DETRÁS (RILKE)



"Por detrás das palavras permanece
o indizível... No verbo silenciado
o canto, e é no canto iluminado
arde o maravilhoso, resplandece

que o espírito entrevê (quase) o inefável...
Ah no canto existir! Canto-experiência, 
não sentimento; o canto, eis a existência!
E eis que o canto se eleva e no insondável

(pura contradição) resplende a rosa...
E quando a noite invade uma cidade, 
a solidão do homem, amarga e forte, 

com os rios passa... A criatura, ansiosa, 
um bem suplica a oculta divindade:
- Morrer, Senhor, de nossa própria morte!"


Alphonsus de Guimaraens Filho, Antologia Poética, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, pp. 92-93. 

Friday, September 14, 2018

DO NÃO SABER



"Que sabes tu da solidão dos Apóstolos diante do Crucificado?
Da solidão de Maria diante do Crucificado?
Da solidão das gentes?
Da tua solidão diante do Crucificado?

Ah, chora tu mesmo sobre a tua própria solidão! Chora tu mesmo
sobre o teu próprio deserto, 
sobre as tuas próprias lágrimas, 
sobre o teu desamparo... A noite sopra
treva no teu coração, a noite devora as últimas 
luzes, e é tudo mais vazio, 
e nenhum caminho há para quem esqueceu o Caminho
e nenhuma porta se abre para quem viu dissipar-se a Porta."


Alphonsus de Guimaraens Filho, Antologia Poética, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, pp. 29-30. 

Thursday, September 13, 2018

SABER VEGETAL


"A arte foi para mim a maior aprendizagem, mesmo mais do que a poesia. Porque a poesia foi em mim uma coisa natural. E de há uns anos o mundo vegetal. O seu saber - e é sempre tão pouco - move-se entre os fantasmas, que são um misto de memória e de esquecimento."

João Miguel Fernandes Jorge, O Bosque, Lisboa: Relógio d'Água, 2015, p. 112. 

Wednesday, September 12, 2018

GNÓMON



"Sol de Setembro, desenganado. O purpúreo
campo alagado
nas horas do fôlego primeiro. Não
te irás submeter a esta luz, ou fechar os olhos
ao vigilante
abatimento da luz nos teus olhos. 

Firmamento de factos. E tu, 
como tudo o resto
que se move. Semente descrita
nas suas partes e dedal de ar. Verme e nuvem
fissurados: o final
em abertos da frase
no momento em que dou início
ao meu silêncio. 

Talvez, então, um mundo
que segrega as suas colheitas
nos pulmões, uma sobrevivência
através
da respiração apenas. E se nada, 
então deixa ser o nada
a sombra
que dentro da tua caminha, o corpo
que a primeira pedra lançará, para que mesmo
ao ires embora de ti, rumo a ti
o possas sentir cheio de vontade, hora-a-hora
através das enormes
vinhas dos vivos."


Paul Auster, Poemas Escolhidos, trad. Rui Lage, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, pp. 86-87.