"Se uma destas pedras
mandasse dizer
o que a silencia:
aqui, mesmo junto de nós,
na bengala deste velho,
abrir-se-ia como uma chaga
em que terias de mergulhar,
solitária,
longe do meu grito, já também
talhado, branco."
"Apenas a princípio D. Margarida se escandalizara ao presenciar o pouco respeito dos artistas, que subiam aos altares para caiar as paredes, e cantavam coisas relaxadas na casa do Senhor. O cónego Arruda tranquilizara esse fervor devoto declarando que a capela, só depois de benzida e pagos os emolumentos em Braga, na Câmara Eclesiástica, passava a ser considerada morada de Deus. Até aí, com santos e tudo, não tendo sido pagos os emolumentos, tanto podia guardar palha como ouvir o canto dos trolhas por mais relaxados que fossem.
Carlos Malheiro Dias, Os Teles de Albergaria, Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, pp. 55-56.
"A visão da liberdade cantada pelos poetas, o grande reinado da justiça, da igualdade e do bem, arquitectado nas páginas dos filósofos, ruía entre nuvens de enganosa poeira, sepultando na derrocada as suas esperanças juvenis! Nenhum passo se adiantava para essa república de luz que se não alagassem as mãos no sangue dos crimes e se não atulhassem os joelhos nos cadáveres dos vencidos. Assim meditava ao chouto da égua o revolucionário, alongando a vista por aquele exército de lázaros, que debandava ao calor, para a Galiza."
Carlos Malheiro Dias, Os Teles de Albergaria, Lisboa: Círculo de Leitores, 1987, p. 32.
"Como o monte onde vivia o ermitão ficava bastante longe, as irmãs Anunciada e Espírito Santo começaram a pedir informações sobre a caminhada que teriam de dar para chegarem ao lugar onde ele vivia. Não era certo e poderia acontecer que nem sequer o vissem, como acontecia a outros que, levados por outras razões mas com a mesma fé, acreditavam nele e o procuravam na esperança de que a graça se desse. Deus era tão poderoso que ninguém duvidava que atribuísse ao ermitão o poder de miracular quem de longe vinha, sem que os pudesse ver. O milagre, por vezes, acontecia. Se nem sempre se dava era porque a fé faltava a quem pedia sem crer em Deus, que era a fonte que apagava todas as sedes. Elas acreditavam e sabiam que na crença estava todo o poder da salvação."
Joaquim Pacheco Neves, O conventinho de Athei, Vila do Conde: Edição da Câmara Municipal de Vila do Conde, 1994, pp. 120-121.
"Está, sobretudo, na figura do Cristo, desamparada e solitária, no olhar onde paira uma infinita tristeza, na dor que o confrange, nos passos hesitantes da sua caminhada, nas lágrimas que chora sem que os homens e lembrem das Suas palavras reveladoras. Não teria Régio ido buscar a algumas destas figuras, toscamente trabalhadas, elementos que depois o seu belo talento aproveitou para ilustrar alguns dos seus livros e traduzir de uma forma plástica o que escreveu em versos e mostrou em cenas teatrais?"
Joaquim Pacheco Neves, Os Desenhos de Régio, Vila do Conde: Edição da Câmara Municipal de Vila do Conde, 1988, p. 20.
"Posso ainda aceitar que Régio tivesse demorado em frente dos Passos, que aqui e ali se erguem nas velhas ruas de Vila do Conde, e encontrasse nas suas figuras motivos inspiradores não apenas dos seus versos, mas de muitos dos seus desenhos. É ver esses passos e contemplá-los. A expressão das mulheres, com seus olhos assustados e medrosos, ora húmidos de lágrimas, ora cheios de piedade e de amor, não mostra apenas as que em Jerusalém sofreram a tragédia de um Cristo que ia ser crucificado - mostra a dolorosa adesão a uma figura que caminhava penosamente, vergada pelo esforço, já sem forças para chegar ao Calvário, caindo, levantando-se, até aparecer um homem que o ajudou a transportar a cruz. E não é só nelas que o sentido dramático surje nas mãos de quem lhes afeiçoou o rosto e deu um sentido trágico à sua dor."
Joaquim Pacheco Neves, Os Desenhos de Régio, Vila do Conde: Edição da Câmara Municipal de Vila do Conde, 1988, pp. 19-20.
"Julgava-se terminado ou prestes a terminar, o período da gestação, estando a princesa já assistida da parteira. Decidiram, por isso, os sogros não lhe dar conhecimento da morte do marido e impedir que, por imprudência ou doentio empenho de contas novidades, alguém lhe ministrasse a notícia. Quando a visitavam, nunca vestiam trajos de luto, e o mesmo faziam as damas e criadas, que a serviam; mas a proibição de se avistar com o príncipe deu-lhe quási a certeza da dolorosa verdade, que procuravam encobrir. No dia 19, à tarde, começou D. Joana a sentir os primeiros rebates do parto. Por volta da meia noite, apontaram as dores. Do Paço mandaram então aviso a todos os mosteiros para que se fizessem preces; e ao toque do sino grande da Sé, como ordenara o arcebispo, ali se foram juntando o clero da cidade e muitas comunidades religiosas, que depois das duas horas saíram em procissão para a igreja de S. Domingos, levando sob o pálio um braço de S. Sebastião, relíquia que fora roubada durante o saco de Roma, no pontificado de Clemente VII, e Carlos V oferecera ao cunhado."
Queiroz Velloso, D. Sebastião (1554-1578), Lisboa: Emprêsa Nacional de Publicidade, 1935, pp. 17-18.
"Aquele colégio foi destruído. Já não existe. Quando soube disto, não consegui esconder a minha satisfação. Julgara-o imortal. Também a majestosa escadaria de mármore, e as camas rodeadas de gaze, que anunciavam candor e morte, foram demolidas. Contei a Frédérique, a ela podia dizê-lo, quanto a destruição daquele edifício me tinha dado «un parfait contentement» (como está escrito numa carta de tarot). Disse também a Frédérique que talvez tenham sido os nossos pensamentos, ou as emanações que habitam a idade da inocência, a destruí-lo. Ela dizia que a inocência é uma invenção dos modernos."
Fleur Jaeggy, Felizes anos de castigo, trad. Ana Cláudia Santos, Lisboa: Alfaguara/Penguin Random House, 2023, p. 81.
"Era como se falasse de nada. As suas palavras voavam. O que ficava depois das palavras não tinha asas. Nunca pronunciou a palavra «Deus», e quase não consigo escrevê-la, pelo silêncio de que ela a rodeava. Palavra pronunciada diariamente nos outros colégios, desde que eu tinha oito anos. E talvez não seja uma palavra. Qual é a diferença entre um nome e uma palavra? Frédérique cansava-me. Mesmo nos prados, nos bosques, mesmo quando eu fingia observar os vincos das folhas, quando não estavam ainda secas e eu as atormentava, ou me preocupava com as formigas. Ela enrolava as mortalhas para os seus cigarros aromáticos. Eu adiava qualquer pensamento sério para a minha entrada no mundo, contemporizava. Frédérique encontrava-me distraída. Era o meu sétimo ano de internato. Não como ela, que estava no primeiro. Uma neófita. E se calhar já tinha tido uma relação amorosa, ou uma simpatia, já que nunca tinha estado num colégio, e lá fora a escolha é mais ampla, como num mercado."
"A forma das coisas naturais é a verdadeira essência do simbólico, da poesia superior. - O outro factor (além da física e da mitologia) da forma poética é a retórica absoluta. -"
Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 154.
"A vida e a força da poesia consistem no facto de ela sair de si própria, arrancar um pedaço da religião, e em seguida regressar de novo a si, na medida em que se apropria dele. O mesmo acontece também com a filosofia."
Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 171.
"A alegoria da beleza não significa apenas a humanidade, mas a divindade. A natureza tornou-se amor da matéria da mesma maneira que o universo se fez razão tornada objectiva. - <No sentido da humanidade e da formação. Somos para nós mesmos um mistério.>"
Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 120.
"Apanhava um punhado de argila, com ela me deliciava modelando um boizinho ou um pardal. E afilava as patas ou torcia as asas, e alongava os chifres ou aguçava o bico. À medida que iam ficando completos, alinhados sobre uma pedra-de-mó, o colorido neles naturalmente nascia. E era lustroso e cobreado aquele boi, pardo e doirado o tal pardalito. De repente, a um sopro meu, uma vida palpitante neles vinha alojar-se. Movia-se o boi, na campina onde pastava, esvoaçava o pardal, para longo do espantalho que o bania. Do barro, onde os arrancava, a natureza quebradiça conservavam, porém, e iniciavam a vida, com um resto de tremor nos olhos amortecidos."
"A vida é algo mais do que a poesia; é algo mais do que a fisiologia, e até do que a moral, em que durante tanto tempo acreditei. É tudo isso e muito mais ainda: é a vida. É o nosso único bem e a nossa única maldição. Vivemos, Monique; cada um de nós tem a sua vida particular, única, determinada por todo o passado, em relação ao qual nada podemos, e que por sua vez determina, por um pouco que seja, todo o futuro. A vida de cada um. A vida que só a cada um pertence, que nunca será duas vezes, e que nem sempre se está certo de compreender por completo. E isto que aqui digo de uma vida inteira, poderia dizê-lo de cada um dos momentos de uma vida."
Marguerite Yourcenar, Alexis ou o Tratado do Vão Combate, trad. Gaëtan Martins de Oliveira, Lisboa: Relógio D'Água, 2023, p. 27.
"Por certo que, mais do que ninguém, sabeis o que quero dizer. Pois já fizestes poesia, e tereis certamente sentido muitas vezes, ao poetizar, que vos era necessário um apoio firme para a vossa actividade, um solo materno, um céu, um sopro de vida."
Friedrich Schlegel, Conversa sobre a Poesia, trad. Bruno C. Duarte, Lisboa: Imprensa da Universidade de Lisboa, 2021, p. 40.
"A música punha-me então num estado de entorpecimento muito agradável, um tanto singular. Parecia que tudo se imobilizava, excepto o latejar das artérias; que a vida abandonara o meu corpo, e era bom estar tão cansado. Era um prazer; era também quase um sofrimento. Em toda a minha vida, encontrei no prazer e no sofrimento duas sensações muito próximas, creio que o mesmo acontece a qualquer pessoa de índole minimamente reflectida. Recordo.me também de uma sensibilidade particular aos contactos, refiro-me aos mais inocentes, o toque de um tecido muito macio, o afago de uma peliça que parece uma lanugem viva ou a epiderme de um fruto. Nada aqui há de condenável; eram sensações demasiado vulgares para acaso me surpreenderem; nunca nos interessamos pelo que se mostra simples. Eu atribuía às personagens da minha gravura emoções mais profundas, visto que não eram crianças. Imaginava-as participando num drama; achava necessário que tivesse havido um drama. Somos todos assim: receamos um drama; somos por vezes suficientemente romanescos para desejar que aconteça, e não nos damos conta de que ele já começou."
Marguerite Yourcenar, Alexis ou o Tratado do Vão Combate, trad. Gaëtan Martins de Oliveira, Lisboa: Relógio D'Água, 2023, p. 25.