Tuesday, July 19, 2011

CASSANDRA


"Nas mãos o baraço das ervas
amarelecidas, azedas secas avermelhadas
no cabelo em madeixas, ergueu-se,
disse: as sombras andam
pelos caminhos, por ali passou a chuva,
as sombras já não passam.

Calou-se. As moscas percorriam
a luz da janela. Disse:
Trazias a envolver-te a fronte
as alegrias dos caminhos, a maré
dos dias, e das noites estreladas
canaviais ressoando de ecos.

Falou: hás-de arrastar
a corrente dos medos, respirar
trevas sem fim, andar
com a morte, brenhas de lamentações
enredando-te os passos.
Calou-se. Atravessei a soleira
para encher aos animais a manjedoura,
para colher sob o arco a camomila,
para ir buscar ao poço o sono."
Johannes Bobrowski, "Nas brenhas do tempo", in Como um respirar - antologia poética, trad. João Barrento, Lisboa: Cotovia, 1990, p. 115.

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