"Chorar um homem!...
Ó suavíssima consolação das lágrimas! quem pudera merecer-te, à custa destas últimas agonias da vida!
Chorar um homem.... é delir no pranto espinhos, que o frenesi da desesperação não desencrava da alma!
Felizes são os que choram!... Experimentaste, ó Cristo, a felicidade das lágrimas! Aconselhaste-as ao género humano, que remias daquela grande dor, que, antes de ti, não podia respirar a atmosfera dum céu em que falaste!
Quiseste, ó Cristo, fazer os homens bons pela compaixão; e conseguiste amaciar o coração da mulher, que lava, com suas lágrimas muitas nódoas, degradantes ao género humano, indigno de ti, ó anjo da cruz e do resgate!
Ensinaste a sofrer e a chorar, filho da mais atribulada das mulheres! Há dezoito séculos que choraste; e a geração, que passa, vai deste horto de aflição e prece a buscar-te no mundo dos espíritos com as vivas reminiscências das tuas lágrimas!
A parte do mundo, que te adora, tem razão para adorar-te; porque foste tu quem pregou o sermão da montanha.
Foste tu, ó Nazareno, quem limpou na face da samaritana o escarro da afronta, e restaurou a dignidade perdida de Madalena!
A ti meus hinos de morte, a ti, mensageiro de Deus, que surgiste no dia das agonias do escravo e disseste: «Felizes os que choram!»"
Camilo Castelo Branco, Um Livro, 7.ª edição, Lisboa: Pareceria António Maria Pereira, 1968, pp. 262-263.

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