Sunday, June 29, 2025

ESTA RUA É ALEGRE

 



“Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas «esta rua é alegre»
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida”



Ruy Belo, “Homem de Palavra[s]”, in Todos os Poemas, 4.ª ed. , Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, p. 305. 

PETRUS

 


"Porque as pessoas não colhem figos dos espinhos ou dos abrolhos, se são inteligentes, nem uvas dos cardos. Certamente, o que se produz está sempre dentro daquilo de onde procede. E o que vem do que não é bom, torna-se para a alma destruição e morte. Mas esta (a alma imortal), que chega a ser no Eterno, encontra-se na Vida, e na Imortalidade da vida, à qual se assemelha. Assim, tudo o que existe não se dissolverá no que não existe. Porque a surdez e a cegueira juntar-se-ão somente com os seus semelhantes."


"Apocalipse de Pedro", in A Revelação de Pedro e outros Textos Gnósticos, Biblioteca de Nag Hammadi, III, trad. Luís Filipe Sarmento, Lisboa: Ésquilo, 2015, p. 61. 

A GUERRA

 



"Eis as janelas torturadas até à escuridão.
As pombas brancas mortas à porta da noite.
Os livros silenciados em estantes derrubadas. 

Eis as cortinas esventradas até à quietude.
Nenhuma brisa ou expressão no rosto do dia.

Eis as casas inclinadas de tristeza.
Os olhos fechados da paz."


Virgínia do Carmo, A menina que aprendeu a matar centopeias e outros poemas, Lisboa: Poética Edições, 2023, p. 47.

Friday, June 27, 2025

ÁRVORES FRONDOSAS

 


"Um homem sabe que Deus guia a sua boca
pelos montes desertos das palavras
em volta das cidades, nos maiores edifícios
longe das terras de outrora. 

Hoje até as flores precisam de autorização
para habitar os jardins
onde se encontram as fotografias extraordinárias
que fazem vender os jornais. 

Há amantes mortos em árvores frondosas,
espreitando a primeira oportunidade
para causar problemas ao simples veraneante
que perdeu a infância."


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 53. 

Wednesday, June 25, 2025

COMO UM APELO

 



"Uma iluminação de rosas antigas percorria a minha casa: a
minha casa inclinada sobre o verde selvagem do tempo. Era o que
eu chamava uma velocidade divina. Eu olhava as cadeiras, as mesas,
os armários e perguntava: para quê um olhar tão misterioso no
sítio destas casas? E em seguida surgia a porta, como um sopro
visível da cozinha; a porta como um apelo que vinha de fora para
esgotar a casa - a porta era o que chamávamos um instrumento
de cantar a solidão."


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 37.

Tuesday, June 24, 2025

ORVALHADA

 




"Orvalho de Verão:
brilharam toda a noite
avencas e áruns."


Carlos Poças Falcão, Arte Nenhuma, Língua Morta/Livraria Snob, 2020, p. 400. 

Sunday, June 22, 2025

A VIDA É ASSIM

 



"- Mas os deuses são reais, não são?
- Sim, sim. Claro. Como não? Para quê ligar tanto à questão? Tu o disseste. Há doze olímpicos, com o estranho último acrescento. Mas são como os hexâmetros... como a poesia... a vida é assim. Podemos fazer um debate sobre tudo, questionar tudo e angustiarmo-nos sobre isso como, bem, Sócrates. Nesse sentido ele era sábio. Mas não notas que aqui e além, quando ele fazia as pessoas parar na rua (não os amigos, mas transeuntes), elas estavam ansiosas por se libertarem? Não era o mundo delas, compreendes? Elas próprias não questionavam cada um dos passos porque o andar ocorria naturalmente."


William Golding, A Duas Vozes, trad. J. Teixeira de Aguilar, Bibliotex Editor, 2003, p. 63. 

Saturday, June 21, 2025

SANGUÍNEA GLÓRIA

 



"É uma coisa terrível a casa onde Deus prepara a sua
sanguínea glória. O silêncio bate-lhe nas portas, nas mesinhas-de-
cabeceira. As horas são as maiores batalhas deste Deus, que olha
devagar os nossos sonhos, o princípio e o fim da nossa genealogia.
Há uma matemática impossível nos seus olhos, uma grande inocência
nas asas das gaivotas."


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 24.

Friday, June 20, 2025

O MOVIMENTO DE CHEGAR ÀS COISAS

 



"Vazia te iluminas de coisas desastrosas.
E vires entre as coisas te ilumina
o movimento de chegar às coisas
longamente esquecidas.

Esquecidas e movendo-te nas horas
de agora tão tranquila
que se te vê dourar-se a sombra,
cada vez menos sombra e mais antiga.

Mas quando as coisas de mover-se voltam
ao grande tempo que seria
antigas coisas aparecem novas,

as tuas mãos, movendo o que movia
teu gesto de ver coisas desastrosas,
abrem lugares que graves te iluminam."



Fernando Echevarría, A Base e o Timbre, in Obra Inacabada, Porto: Edições Afrontamento, 2006, p. 72.

Thursday, June 19, 2025

AOS BOCADOS

 



"No interesse de tapar os buracos da atmosfera, a raça humana ainda pode cooperar para sobreviver, embora tenha as minhas dúvidas. Para um novo centro aguentar, temos de entender porque é que as coisas estão a cair aos bocados - que é o que está a acontecer. Passei a minha vida a tentar compreender de que é que os outros parecem precisar e que eu não preciso - especificamente um sentido de divindade, preferivelmente singular, antropomórfico e, para explicar a confusão geral que fez na terra, uma espécie de deus bizarro, inescrutável e ciumento. Não tenho dúvidas de que dentro desta linha, está para vir algo de novo mas, entretanto, é preciso dizer qualquer coisa sobre o caos criativo. Claro que a ordem, quando imposta de cima para baixo, nunca dura muito tempo."


Gore Vidal, «Sobre o caos», in Chris Miller (coord.), A Palavra Dissidente - As Conferências da Amnistia de Oxford - 1995, trad. José Vaz Pereira, Lisboa: Difel, 1996, p.168. 

RITUAL


 

"Todas estas coisas explique-as o bispo aos que recebem a comunhão. Depois de partir o pão, ao apresentar cada pedaço, diga: O pão do Céu em Jesus Cristo. Aquele que o recebe responda: Amen. Se os presbíteros não forem suficientes, peguem nos cálices os diáconos, e coloquem-se em boa ordem: em primeiro lugar o que segura a água, em segundo o que segura o leite, em terceiro o que segura o vinho."


Hipólito de Roma, Tradição Apostólica, s. trad., Fátima: Secretariado Nacional de Liturgia, 2020, pp. 65-66.  

Monday, June 16, 2025

SIGO A MARGEM

 




"Não, não tenho nos bolsos
punhado algum de terra
para firmar os dedos.

Sigo a margem do rio
e logo a água enche
o sulco das pegadas.
E sei assim que a margem
firme é só um momento
que não regressa, pois
a terra é logo água."


Manuel Amaral, Gente Terras Dia a Dia - poemas, Porto: Unicepe, 2003, p. 82.

Sunday, June 15, 2025

VELHA CASA

 


"Numa casa velha não moram só os seus habitantes vivos, mas também, e sobretudo, as almas dos que já partiram, deixando atrás de si um rasto invisível, que nos envolve como um nevoeiro."


Fernanda de Castro, Ao Fim da Memória - Memórias II [1937-1987], Lisboa: Editorial Verbo,  1987, p. 267. 

Saturday, June 14, 2025

ANTIGAS FLORES

 




"Revejo antigos lugares onde tudo parece imaginário; há desenhos
no asfalto, inscrições nas paredes. Receosas gentes passam e não
olham, perplexas ou esquecidas. Chamo a isto angústia, contorno
a tristeza, revejo antigas flores, habito lugares abandonados
e falo com alguma certeza, da loucura dos que evocam o mar.
Porque se escondem?
Subo e desço assim as escadas do teu sonho, não te solicito a presença,
nem o consentimento, pois sei que ávida desapareces no silêncio
das vidraças. Se explodes és o medo e esvoaceias num círculo de
cintilações; se me invocas és uma ave doente, incendiando espaços
estelares.
Podes partir, esgotar-se em lágrimas. Nunca te merecemos, somos o
vinho mortal com que adormeceste, as palavras que ninguém pôde
entender.
Quanto atravessas o destino premeditado das nossas mãos e me
esperas, falta-te a pureza, quero dizer, muita claridade.
Somos uma pequena aglomeração de coisas transparentes, quem nos
conhece, quem pode atravessar connosco a dor, erguê-la até ao fim
nessas cidades estranhas?"


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 19.

MILAGREIRO

 


"No tempo que demorou em Pádua, saiu um dia Santo António a pregar fora de portas, e muito povo seguiu atrás dele para o ouvir. E, entre os mais, também havia uma senhora nobre que, ao passar num campo, empurrada da multidão, caiu no lodaçal.
No perigo de se ver para ali enlameada e estragado o vestido novo que trazia a estrear, humildosamente se encomendou a Deus e a Santo António. É que sobretudo temia-se das sanhas do marido, se fosse aparecer em casa com o vestido ensujado."


Livro dos Milagres ou Florinhas de Santo António de Lisboa, 2.ª ed, trad. Frei Fernando Félix Lopes, OFM, Braga: Editorial Franciscana, 2019, XXVII, p. 77.

Tuesday, June 10, 2025

O BOM JESUS

 



"Assim, o que é e onde está o rosto de Deus para aquele que acredita na sua presença real entre nós? A resposta é que encontramos essa presença em toda a parte, em tudo o que sofre e renuncia por causa de outro. Coisas com rosto são iluminadas pela subjetividade que neles brilha, e que espalha ao seu redor uma auréola de proibições."


Roger Scruton, O Rosto de Deus, trad. Marcelo Felix, Lisboa: Edições 70, 2023, pp. 213-214.

DIA DE PORTUGAL

 




"Se temos nove dez poetas
à escala europeia
ou só quatro ou mesmo talvez
com muito boa vontade três

aflige-me bastante menos
que o problema do Serra:

quantas queijeiras restam
fiéis à rude bordaleira?
para onde vai Portugal?"


Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, 3.ª ed., Porto: Edições Asa, 1997, p. 203.

Sunday, June 8, 2025

PROCURA

 




"Procuro o lento cimo da transformação
Um som intenso. O vento na árvore fechada
A árvore parada que não vem ao meu encontro.
Chamo-a com assobios, convoco os pássaros
E amo a lenta floração dos bandos.
Procuro o cimo de um voo, um planalto
Muito extenso. E amo tanto
A árvore que abre a flor em silêncio."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 261.

DE SPIRITU SANCTU

 




"O Espírito Santo vivificador
tudo move e de tudo é raiz,
de toda a impureza purifica,
lavando máculas e ungindo feridas:
vida fulgente e digna de quem o louva,
suscita e ressuscita todas as coisas."


Hildegard von Bingen, Flor Brilhante, introd. e trad. Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 47.

OUTEIRO MAIOR

 


"O Condestável era pouco mais do que um pardieiro, com salas de tábua corrida cortadas pela invenção mais recente do corredor. O corredor, mobilado com grandes sofás de crina vindos de antigas mudanças para casas cada vez mais exíguas, correspondia a uma varanda interior sobre uma espécie de claustro ou pátio habitado por uma nogueira gigante. Há sempre uma árvore particular nas memórias duma pessoa triste."


Agustina Bessa-Luís, Antes do Degelo, 2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2004, p. 309. 

Saturday, June 7, 2025

CASA FEITA DE PEDRAS

 


"14. Permiti, portanto, que eles escapem a esta pena, e ponderai fugir vós mesmos. Entretanto, deixai-os alcançar a coroa que lhes está destinada. Não temais. Não vão separar-se de vós, mas antes preparar-vos no céu cintilantes moradas, nas quais viverão justamente convosco e com os vossos filhos em perpétuo regozijo. Se eles vos afastam da vossa casa feita de pedras, quanto mais não vos deve incitar a beleza daquelas casas, onde existem radiosas salas de ouro puro, que têm leitos feitos de pedras preciosas e pérolas? Ali a flor das purpúreas rosas jamais murcha; ali os bosques floridos desabrocham em perpétua exuberância: ali os tenros prados são sempre banhados por rios de mel; ali a vegetação rescende a flor de açafrão e os nutritivos campos são incomensuravelmente ricos em encantadores perfumes. Ali respiramos as brisas que carregam a vida eterna; ali há uma luz sem sombra, uma serenidade sem névoa, e os olhos desfrutam do dia sem as trevas da noite."


«Paixão de São Sebastião e companheiros», in Maria João Toscano Rico, São Sebastião - Santos e Milagres na Idade Média em Portugal (Textos da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média), volume 4, Lisboa: Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2013, p. 32. 

Friday, June 6, 2025

O OURO

 



"António (A ferver; ciúme) - O ouro é mais bonito, não é?...

Joana (Provocante.) - E é. Mil vezes, cem mil vezes mais bonito... É sim senhor!

Rita - E mais rico. Mais rico que é que ele é! Feio, o meu António? Oiçam isto, amigas, oiçam isto...

Joana - Feio, feio, feio como os sapos da terra! Todos os homens são feios, todos são ruins como a peste... Deles, até o cheiro envenena!..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena V, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 34.

Thursday, June 5, 2025

ATAVISMO

 



"Custódia - E olha que os homens...

Rita - Ora, ora! os homens são outra coisa: são machos... Toda a vida assim foi: acham a terra macia e pronto! botam logo a semente...Sempre foi assim. Mas elas! elas é que são..."


Bernardo Santareno, O Crime de Aldeia Velha, Ato I, cena III, 3.ª ed., Lisboa: Edições Ática, 1970, p. 20.

Tuesday, June 3, 2025

GNOSE

 


"O conhecimento de Deus é um conhecimento vivido. É um conhecimento que exige a participação  do corpo chamado pela água, pelo vinho, pelo gesto ou pelo óleo: qualquer coisa de sensível que nos faz participar de qualquer coisa de absoluto."


António Alçada Baptista, Peregrinação Interior, vol. I, 8.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 179. 

Sunday, June 1, 2025

MENINO

 




"O menino tem um arco.

É de plástico.

(Mas é de ouro
ou de ferro
ou de prata
- quem o sabe?)

E com ele
o menino colhe flores
e estrelas e algas
da funda claridade.
Nunca pássaros.

Esses pousam no arco
enquanto o menino dorme
sob as árvores,
como um guerreiro cansado."


Glória de Sant'Anna, Amaranto - Poesia 1951-1983, Lisboa: INCM, 1988, p. 116.