Saturday, June 14, 2025

ANTIGAS FLORES

 




"Revejo antigos lugares onde tudo parece imaginário; há desenhos
no asfalto, inscrições nas paredes. Receosas gentes passam e não
olham, perplexas ou esquecidas. Chamo a isto angústia, contorno
a tristeza, revejo antigas flores, habito lugares abandonados
e falo com alguma certeza, da loucura dos que evocam o mar.
Porque se escondem?
Subo e desço assim as escadas do teu sonho, não te solicito a presença,
nem o consentimento, pois sei que ávida desapareces no silêncio
das vidraças. Se explodes és o medo e esvoaceias num círculo de
cintilações; se me invocas és uma ave doente, incendiando espaços
estelares.
Podes partir, esgotar-se em lágrimas. Nunca te merecemos, somos o
vinho mortal com que adormeceste, as palavras que ninguém pôde
entender.
Quanto atravessas o destino premeditado das nossas mãos e me
esperas, falta-te a pureza, quero dizer, muita claridade.
Somos uma pequena aglomeração de coisas transparentes, quem nos
conhece, quem pode atravessar connosco a dor, erguê-la até ao fim
nessas cidades estranhas?"


Mário Rui Cordeiro, A Nau Eléctrica, Lisboa: Ulmeiro, 1984, p. 19.

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