Sunday, January 4, 2026

O BISPO DE PEDRA


 

"Colhe o tempo, colhe-o,
rosa que não murchou.
Do que há-de vir, o voo

Pega-lhe indecisa
da mesma demora.
O bispo de pedra
que pensará agora?"


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 207. 

Saturday, January 3, 2026

INSINANÇA

 


" - E que é Paraíso?
- Sam Grigorio diz, nas Emilias, falando daquela santa cidade do Paraiso em breve que «nom há lingua nem entendimento que possa compreender nem dizer quaaes nem camanhas som as alegrias dele», as quaaes som: seer sempre presente aa companhia dos anjos, com os bem aventurados santos, que em ele som; e veer aquela face da Beenta Trindade; e sentir seu lume incompreensivel; e seer abastado de todo desejo; e haver conhecimento de toda a ciencia; e repouso eternal, sem temer morte; e ser seguro de sempre possuir aquela gloria bem aventurada."

Christine de Pisan, O Livro das Tres Vertudes - a Insinança das Damas, Parte I, ed. Maria de Lourdes Crispim, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 92-93. 

Friday, January 2, 2026

OLHAR (FIXO)


 

"Detendo-se no rosto dos
passantes, no olhar manso
das estátuas; como se
possível fosse adivinhar
na íris cosmologias, 
primordiais sentidos;
nebulosas e buracos negros; 
sopesar o tempo que leva
o sol a percorrer o muro
da casa e do castanheiro, 
do cume à raiz.

Opondo-se ao efémero, 
mas dele se alimentando, 
ao balcão de um bar; 
por vezes, prenúncio
de uma semana inteira
de delírios e juras."


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta-da-China, 2021, p. 201. 

Thursday, January 1, 2026

IANUA

 

 

"O homem moderno tem, portanto, razões para desconfiar de Prometeu, de quem se diz que tornou acessível aos mortais o conjunto do saber e dos maus caminhos que ele poderia inaugurar. O que acontecerá, em última análise, à natureza entregue ao homem? Não está a tecnologia a conferir à humanidade um poder crescente sobre as coisas, sobre o mundo e sobre ela própria? Em certos casos, a sua influência corre o risco de se prolongar por muito tempo. Qualquer acção que dependa dela adquire, portanto, para além da sua dimensão retórica, um novo alcance que modifica a relação entre o homem, a natureza e o tempo. Outrora, a natureza afigurava-se-nos depositária de uma sabedoria implícita. Era uma espécie de exemplo com base no qual o homem devia modelar as suas acções e ainda, em certa medida, a sua forma de pensar. Agora, há que ver a natureza à imagem daquilo em que ela se está a transformar: um receptáculo, regulado mas frágil, capaz de receber todas as marcas que lhe são impostas pelas acções e pelas ideias. De certa forma, a longevidade do futuro está nas nossas mãos. De nós depende que o longo prazo não se torne curto. Por intermédio do tempo, somos chamados à responsabilidade, como se o futuro tivesse poder sobre nós."


Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, pp. 94-95. 

ENTRADA

 


"Será a paz, será a guerra?
Cada um sabe de que inferno vem,
saído da casca de manhã
entre dois braseiros mortais
a regra do jogo é caminhar de mãos vazias
a morte dos cisnes é uma aventura sem amanhã
à sombra das pálpebras do deserto
os girassóis viraram-me as costas
relinchando de um terror empoeirado
aquilo que assobia aos meus ouvidos não tem nome
mas eu reconheço-o pelo que ele é
icebergue de sangue
uivando à lua."


Isabel Meyrelles, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 183.