Sunday, January 25, 2026

VIAGEM

 




"Embarquei certo dia
Na esfera transparente
De um misterioso engenho.

Só eu e o desespero
Sulcávamos o espaço
Naquela estranha nave.

Nada, nem as estrelas,
Conseguia alcançar-nos
Na aventura sem par.

Vencêramos o tempo.
O futuro já era
O presente e o passado.

Cingidos num abraço,
Nenhum de nós podia
Desfazer esse abraço.

Assim, unidos sempre,
Demos a volta aos mundos
Num fantástico vôo.

E em toda a parte vi
Seguirem abraçados
O homem e o desespero."


Américo Durão, Sinal, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1963, pp. 85-86.

Saturday, January 24, 2026

A CHUVA

 



"Fustigada pela chuva, a madeira
envelhece.
Vai precisar de vários dias ao sol
para recobrar a textura original. 
Depois, a plaina encarregar-se-á
de alisar as rugosidades e
as fissuras de outros amores.

Uma nova pintura acontece:
a primeira demão é pura carícia, 
a segunda camada desconhece
qualquer cicatriz, o vento que
vai e vem sobre a portada.

Tal uma cobra muda de pele
a madeira rejuvenesce.
E a chuva?"


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta da China, 2021, p. 208.

Thursday, January 22, 2026

OBJECTOS

 



" - Tenho de tudo - disse ele num murmúrio jubiloso -, excepto uma pintura de um túmulo egípcio.
Era verdade. O que possuía abrangia tudo o que dizia respeito ao tema. E, para mim, o mais notável era o facto de todos esses objectos terem um ar de dispendiosa autenticidade. Acreditei no cavalo persa; estive quase capaz de acreditar no punhal. Mostrou-me a galeria principal, ainda de uma elegância mais acentuada e mais calma."



Mary McCarthy, A Gente Com Quem Ela Anda, trad. Carmen Gonzalez, Lisboa: Editora Estúdios Cor, 1967, p. 73. 

Wednesday, January 21, 2026

DELÍCIA

 


"Que delícia é ir
dos pensamentos puros a um filme pornográfico
e rir
        do santo que voa e da carne que sua.

Que delícia é estar contigo, poesia
da luz
         na perna de uma mulher cansada."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 145. 

Tuesday, January 20, 2026

O DEVOTO

 


"Neste profundo depósito 
de catedral, hieráticos
como um triste esquadrão de obreiros de gesso
os santos aguardam um restaurador. 
Entre um altar e outro
se foram deteriorando, atacados pelas moscas, 
as traças e os abusos
da fé. 
Aqui já nenhum é São Francisco, São Valentim, São Judas, 
qualquer um é um qualquer, vultos
humanos, desfigurados e sem nome, à espera
do velho restaurador
                              que morreu há algum tempo. 
Estes anónimos
que foram rezados, celebrados, contemplados
com infinita devoção
são agora os meus santos. Sou aqui o único fiel e o prelado. 
Diante deles me ajoelho
e rezo com mais solidariedade do que fé."


José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 101. 

Monday, January 19, 2026

DO ÍNFIMO


 
"Sentia-me dessas plantinhas que crescem nas muralhas, 
só porque um dia uma semente caiu num dedal de terra.

Assim fiquei agarrado ao ínfimo, 
como se o ínfimo fosse uma mãe
e como se uma mãe fosse tudo."


André Tecedeiro, A Axila de Egon Schiele, Porto: Porto Editora, 2020, p. 159. 

Sunday, January 18, 2026

ESCADARIA


 

"A escadaria vai do pátio à açoteia e no terceiro patamar
o sol brilha, 
o solzito dos condenados brilha sempre
                                                      e devidamente.

O terceiro patamar é uma estância
onde o corpo é leve e branco como um comprimido
               e o pensamento intenso. E tudo é morno
menos os próprios ossos. 
                                         Por isso
haja Inverno em todo o hemisfério, mas haja sempre o
               milagre do sol na escadaria.

As almitas ali sentadas descansavam como à beira de um 
              abismo
e por vezes olhavam-nos como se fôssemos o abismo.
A minha casa é jovem para ter um frondoso e primaveril
             limoeiro.
Do limoeiro vem agora o haiku do poeta Moritake:

                            Cai uma pétala da flor
                            e de novo sobre ao ramo
                           Ah, é uma borboleta.

Um equívoco belo e aterrador
             quando sobrevoam o pátio duas pálidas borboletas."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 78. 

Saturday, January 17, 2026

CLIMA



"De nós já teve o mundo a sua conta;
Ganhar, gastar - não tarda estamos gastos:
Perdemos da Natura os dotes castos;
Custou-nos a inocência esta afronta!
O mar que o belo ventre à lua aponta;
Os ventos que uivam rentes e de rastos
Colhidos são quais flores em mansos pastos;
Por tudo isto andamos nós à tonta;
Não se nos dá! Meu Deus! Fosse eu pagão
E em credo gasto houvesse eu mamado;
Assim eu visse aqui no grato chão
Alguma esperança, que ando desolado;
Proteu dos mares surgindo, ou Tritão
Soprando o velho corno ataviado."


William Wordsworth, Poemas Escolhidos, seleção e tradução de Daniel Jonas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 223. 

Tuesday, January 13, 2026

SANTOS

 


"E. como se tivesse descoberto a forma de melhor sintetizar o seu pensamento, Don Mateo acrescentou de seguida, falando em voz lenta e pausada:
- Há duas espécies de mulheres que se devem evitar a todo o custo: primeiro, aquelas que não nos amam, depois, aquelas que nos amam. Entre estes dois pólos, existem milhares de mulheres absolutamente encantadoras, só que não as sabemos apreciar." 
 
Pierre Louÿs, A Mulher e o Fantoche, trad. Emanuel Godinho Lourenço, Lisboa: Círculo de Leitores, 1986, p. 32. 

Sunday, January 11, 2026

VIAJAR DESTA ARTE


 

"Semelhante maneira de viajar engendra em nós o inefável prazer de, em silêncio, sentirmos a Beleza; de, em silêncio, pensarmos na Beleza. São horas fecundas de estesia crítica.
A Beleza, vista da Soledade, desdobra-nos em admiração e gratidão; - e já nós amamos com aquele amor generoso que tudo engrandece e enobrece. 
Viajar desta arte é como que fazer um absorvente «Retiro» Espiritual, embora na viagem não meditemos no Bem, mas gozemos o Belo. As lições são de Estética e não de Ética. No entanto, vezes há que, aglutinando um e outro ensino, estes caminhos, à primeira vista paralelos, se tornam convergentes e levam ao mesmo fim."
 
Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 4-5. 

Saturday, January 10, 2026

UM HOMEM CELESTE

 


"Esteve por aqui alguns anos com extremo rigor de Vida, e com grandíssima fama de santidade. Acorriam povos numerosos dos arredores para visitar aquele pobre tugúrio um homem celeste: se a piedade de devotos os partilhava com alguma esmola distribuía-a a necessitados, não deixando para si se não a fadiga, e a dificuldade. E precisamente de justo andar de virtute, in virtutem, e voar como Águias sem nunca se cansar, até que cheguem à suprema região do Céu para contemplar eternamente aquele Sol, que não cega, mas ilumina, e iluminando felicidade o olho interior da alma."


Frei Manuel Pereira, Breve Tratado da Vida e Milagres de S. Gonçalo de Amarante, trad. Frei José Augusto Marques, OFM Conv,  Amarante: CEA, 2023, pp. 35-36. 

Friday, January 9, 2026

CONSCIENCIOSO

 


"É no isolamento consciencioso que se exercem os belos sentidos internos. À paisagem exterior antepõe-se a paisagem interior. A visão meditada trespassa aparências, perfura aspectos, penetra no carácter, colhe a essência. Já ela se impregna dos conceitos da luz que mostra o fundo das coisas, e dos da emoção que revela a graça lírica da existência. À flor da alma acodem todas as simpatias nobres que vivem nas criptas dela. Soltam-se, como revoadas de pombas, as afinidades do nosso sentimento, que voam para outras afinidades que da Natureza as chamam. Dialoga o espírito do homem com o espírito dos seres. Anda o olhar pelos Horizontes e o pensamento pelas Alturas. Respira-se Poesia e Crença. O Sonho sobe; o Sonho expande-se; o Sonho congratula-se com o Infinito em que se absorve."

Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 2-3. 

Thursday, January 8, 2026

ENTUSIASMO

 



"Admiro com entusiasmo as figuras de anjos dos séculos XIII e XIV: as virtudes loucas, os baixos-relevos de uma proporção ainda selvagem, embora cheios de graça e força. Impressionou-me, sobretudo, a força do seu sentimento. A mão ou até um conhecimento mais avançado da anatomia ou das proporções comunicam ao artista, de imediato, uma excessiva liberdade que o leva a deixar de reflectir de forma tão pura a imagem; os processos que facilitam ou simplificam a expressão seduzem-no ou conduzem-no ao maneirismo."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 140. 

Wednesday, January 7, 2026

DO OUTRO LADO DA VIDA




"Sonha como uma sentinela hirta
a vida do outro lado da janela, 
a inocência do que se vê e não sabe. 
os indispensáveis vínculos de quem fica
por quem parte nos acasos do vento, 
nas urgências de um fogo devoluto. 

Tudo é resíduo de alguma coisa, 
cristal de um nome, filme de um instante.
As horas vestem-se do que foi feito, 
da memória frondosa de uma rua, 
de casas caiadas pela luz do entardecer, 
de vitórias, reverências, tudo o que nos põe
para sempre do outro lado da vida."


Paulo Teixeira, Inventário e Despedida, Lisboa: Editorial Caminho, 1991, p. 15. 

Tuesday, January 6, 2026

UMA ASSEMBLEIA DE FANTASMAS



"Se alguém quiser prender a diferença
da sua vida
só o vai poder fazer
recorrendo à brevidade

em busca de um caminho para os rápidos
movimentos que
estabelece consigo. 
Um possessivo rosa entre a imagem e o tempo
o contemplado espaço.

Era uma seta de luz correndo
uma assembleia de fantasmas. O repetido
corpo - funesto coração de
um impossível ginasta - seguia uma escola
de guerra, um sentimento estrangeiro.

A claridade, a queda, o atravessar luminoso
onde o equilíbrio se perde; noutros
termos, se alguém quer o imaginado sujeito
amanhã terá de escrever
tudo isto
de outra maneira, 

com a velocidade de um detonado tiro, 
solidão ouvida do outro lado do muro
do outro lado da noite."



João Miguel Fernandes Jorge, a jornada de cristóvão de távora segunda parte, Lisboa: Editorial Presença, 1988, p. 131. 

Sunday, January 4, 2026

O BISPO DE PEDRA


 

"Colhe o tempo, colhe-o,
rosa que não murchou.
Do que há-de vir, o voo

Pega-lhe indecisa
da mesma demora.
O bispo de pedra
que pensará agora?"


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 207. 

Saturday, January 3, 2026

INSINANÇA

 


" - E que é Paraíso?
- Sam Grigorio diz, nas Emilias, falando daquela santa cidade do Paraiso em breve que «nom há lingua nem entendimento que possa compreender nem dizer quaaes nem camanhas som as alegrias dele», as quaaes som: seer sempre presente aa companhia dos anjos, com os bem aventurados santos, que em ele som; e veer aquela face da Beenta Trindade; e sentir seu lume incompreensivel; e seer abastado de todo desejo; e haver conhecimento de toda a ciencia; e repouso eternal, sem temer morte; e ser seguro de sempre possuir aquela gloria bem aventurada."

Christine de Pisan, O Livro das Tres Vertudes - a Insinança das Damas, Parte I, ed. Maria de Lourdes Crispim, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 92-93. 

Friday, January 2, 2026

OLHAR (FIXO)


 

"Detendo-se no rosto dos
passantes, no olhar manso
das estátuas; como se
possível fosse adivinhar
na íris cosmologias, 
primordiais sentidos;
nebulosas e buracos negros; 
sopesar o tempo que leva
o sol a percorrer o muro
da casa e do castanheiro, 
do cume à raiz.

Opondo-se ao efémero, 
mas dele se alimentando, 
ao balcão de um bar; 
por vezes, prenúncio
de uma semana inteira
de delírios e juras."


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta-da-China, 2021, p. 201. 

Thursday, January 1, 2026

IANUA

 

 

"O homem moderno tem, portanto, razões para desconfiar de Prometeu, de quem se diz que tornou acessível aos mortais o conjunto do saber e dos maus caminhos que ele poderia inaugurar. O que acontecerá, em última análise, à natureza entregue ao homem? Não está a tecnologia a conferir à humanidade um poder crescente sobre as coisas, sobre o mundo e sobre ela própria? Em certos casos, a sua influência corre o risco de se prolongar por muito tempo. Qualquer acção que dependa dela adquire, portanto, para além da sua dimensão retórica, um novo alcance que modifica a relação entre o homem, a natureza e o tempo. Outrora, a natureza afigurava-se-nos depositária de uma sabedoria implícita. Era uma espécie de exemplo com base no qual o homem devia modelar as suas acções e ainda, em certa medida, a sua forma de pensar. Agora, há que ver a natureza à imagem daquilo em que ela se está a transformar: um receptáculo, regulado mas frágil, capaz de receber todas as marcas que lhe são impostas pelas acções e pelas ideias. De certa forma, a longevidade do futuro está nas nossas mãos. De nós depende que o longo prazo não se torne curto. Por intermédio do tempo, somos chamados à responsabilidade, como se o futuro tivesse poder sobre nós."


Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, pp. 94-95. 

ENTRADA

 


"Será a paz, será a guerra?
Cada um sabe de que inferno vem,
saído da casca de manhã
entre dois braseiros mortais
a regra do jogo é caminhar de mãos vazias
a morte dos cisnes é uma aventura sem amanhã
à sombra das pálpebras do deserto
os girassóis viraram-me as costas
relinchando de um terror empoeirado
aquilo que assobia aos meus ouvidos não tem nome
mas eu reconheço-o pelo que ele é
icebergue de sangue
uivando à lua."


Isabel Meyrelles, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 183.