"O homem moderno tem, portanto, razões para desconfiar de Prometeu, de quem se diz que tornou acessível aos mortais o conjunto do saber e dos maus caminhos que ele poderia inaugurar. O que acontecerá, em última análise, à natureza entregue ao homem? Não está a tecnologia a conferir à humanidade um poder crescente sobre as coisas, sobre o mundo e sobre ela própria? Em certos casos, a sua influência corre o risco de se prolongar por muito tempo. Qualquer acção que dependa dela adquire, portanto, para além da sua dimensão retórica, um novo alcance que modifica a relação entre o homem, a natureza e o tempo. Outrora, a natureza afigurava-se-nos depositária de uma sabedoria implícita. Era uma espécie de exemplo com base no qual o homem devia modelar as suas acções e ainda, em certa medida, a sua forma de pensar. Agora, há que ver a natureza à imagem daquilo em que ela se está a transformar: um receptáculo, regulado mas frágil, capaz de receber todas as marcas que lhe são impostas pelas acções e pelas ideias. De certa forma, a longevidade do futuro está nas nossas mãos. De nós depende que o longo prazo não se torne curto. Por intermédio do tempo, somos chamados à responsabilidade, como se o futuro tivesse poder sobre nós."
Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, pp. 94-95.

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