"Neste profundo depósito
de catedral, hieráticos
como um triste esquadrão de obreiros de gesso
os santos aguardam um restaurador.
Entre um altar e outro
se foram deteriorando, atacados pelas moscas,
as traças e os abusos
da fé.
Aqui já nenhum é São Francisco, São Valentim, São Judas,
qualquer um é um qualquer, vultos
humanos, desfigurados e sem nome, à espera
do velho restaurador
que morreu há algum tempo.
Estes anónimos
que foram rezados, celebrados, contemplados
com infinita devoção
são agora os meus santos. Sou aqui o único fiel e o prelado.
Diante deles me ajoelho
e rezo com mais solidariedade do que fé."
José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 101.

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