"Pintar flores é mais difícil do que pintar montanhas! Porque uma flor é ao mesmo tempo uma realidade e um floco de sonho. Nela entram os mais ricos materiais, mas muito maior quinhão de ilusão. É um ser de beleza, mas efémero: extraordinário mas vivendo um ai. É o oiro, o mármore, e ao mesmo tempo a nuvem que o vento leva. Vive com os pés no sepulcro. Todo o Inverno leva a planta a sonhar, a preparar-se, e um dia vem em que se desfaz num lindo sonho. É necessário ao artista surpreendê-las quando elas, inebriadas, assustadas, entram na vida, e as encharca o azul e as empoalha o sol, luzindo no orvalho. Há horas em que as flores sonham, há outras em que se extasiam..."
Raul Brandão, «Uma vida escondida como a das fontes», in A pedra ainda espera dar flor - Dispersos 1891-1930, org. Vasco Rosa, Lisboa: Quetzal, 2013, p.140.
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