"Maio. Direis que a terra estremece. Já rebentaram novas fontes. Aquece-a o sol, e tonta, caiu num sonho cheio de rumores, levadas de água, toda envolta em oiro... É um tempo perigoso para os solitários. Se se deixam cismar, numa noite destas em que a terra ao luar parece inchada, ei-los perdidos. Foi decerto em Abril que o diabo tentou Fausto, e é sempre na Primavera que os monges, abrindo as janelas dos cubículos, ficam absortos, embebidos de luar e perdidos de sonho. Quando de manhã caem em si, a pedra a que se encostaram está toda molhada de lágrimas..."
Raul Brandão, «Nossa Senhora do Lar de João Rocha», in A pedra ainda espera dar flor - Dispersos 1891-1930, org. Vasco Rosa, Lisboa: Quetzal, 2013, p. 156.

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