"Quanto mais impelia a vontade a fim de apreender aquela recordação, era maior a forma maliciosa e escorregadia como ela recuava - como uma medusa brilhando incerta no estrato mais profundo da consciência e, ainda assim, longe de se poder agarrar, de se poder apanhar. Fitava em vão cada um dos objetos que se encontravam no local; é certo que não conhecia alguns deles, como por exemplo a caixa registadora automática tintilante e aquele revestimento castanho de parede de falso palissandro, tudo isso deve ter sido colocado mais tarde. Mas sem dúvida que estive ali há vinte anos ou mais, justamente ali ficou perdurado, oculto no invisível como o prego na madeira, algo do meu eu, já encoberto há muito tempo."
Stefan Zweig, Mendel dos Livros, trad. Álvaro Gonçalves, Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, p. 37.

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