"Esta noite, a lua voga com mais preguiça;
Como uma beldade, encostada às almofadas,
Que distraída e ao de leve acaricia
Antes de adormecer o contorno dos seios,
No dorso de cetim das brandas avalanches,
Moribunda, ela entrega-se aos longos delíquios
E passeia os olhos pelas brancas visões
Que sobrem ao azul do céu como florações
Quando neste globo, em seu langor ocioso,
Ela deixa escapar uma furtiva lágrima,
Um poeta clemente, inimigo do sono,
Na cova da mão apanha a lágrima pálida,
De irisados reflexos qual lasca de opala,
E esconde-a no peito para que o sol não veja."
Charles Baudelaire, As Flores do Mal, trad. João Moita, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, pp. 151; 153.

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