Wednesday, December 31, 2025

FINDA

 



"Ela disse:
- Que nos vai acontecer agora, a mim e a ela?
- Nada - respondeu o doutor -, como sempre. Todos nós tombamos no campo de batalha, mas todos regressamos a casa."


Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 125. 

INEXORAVELMENTE

 


"A primeira é que não podemos distanciar-nos em relação ao tempo como faríamos no caso de um objecto comum. Podemos medi-lo, é certo, mas não observá-lo criando um distanciamento entre ele e nós: ele afecta-nos continuamente. Gostaríamos de deter-nos e vê-lo correr, como se observássemos um rio que corre, mantendo-nos na margem, sem tomar parte no seu fluxo. Mas tal é tragicamente impossível: estamos inexoravelmente no tempo e não podemos deixar de fazer parte dele. O tempo, para nós, não tem exterior."


Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, p. 8. 

COMO O VENTO

 


" Princesa - Bem sei, bem sei... Dizem que a minha beleza é uma espécie de pecado. Muitos foram os que por ela se apaixonaram. Mas chego a perguntar se não preferi aqueles que com indiferença se aproximavam apenas dela, Irmã.

Monja - A beleza apaga-se demasiado depressa. O tempo passa como o vento pelo nosso corpo, pelas nossas feições, e a poeira acaba por vir ocultar tudo. É sempre assim."


Fernando Guimarães, «A pala da princesa de Eboli», in Diotima e as outras vozes, Porto: Campo das Letras, 1999, p. 139. 

AS ONDAS

 


"As ondas podem ficar incendiadas? Olhamos 
apenas o seu movimento, a neblina, a proximidade
que há no sal. Ficaram mais unidas as plantas
sem cor, duras, que ali oscilam devagar. Sente-se
chegar a tranquilidade da areia que se espalha
e alguns destroços nela abandonados. Os barcos 
estão vazios, juntos vemos as redes estendidas
para receberem a claridade. Todas as manhãs
isso acontece. Alguém se aproxima mais e principia
a recolher com uma das mãos a água, as suas cinzas."


Fernando Guimarães, Sobre a Voz, Porto: Afrontamento, 2024, p. 128. 

ANO VELHO


 
"O doutor limpou a boca.
- É aceitando a depravação que mais plenamente se capta o sentido do passado. O que é uma ruína senão o Tempo a libertar-se da sua própria duração? A corrupção é a Velhice do Tempo. É o corpo e o sangue do êxtase, é religião e amor. Ah, sim - acrescentou -, nós não nos elevamos às alturas, somos devorados até chegarmos a elas, e então a conformidade e o asseio deixam de nos divertir. O homem nasce como morre, rejeitando a limpeza; e há a sua condição intermédia, o desmazelo, que, em geral, acompanha o corpo atraente como uma espécie de terra de que o amor se alimenta."

Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 114. 

NA DESCIDA DA RAMPA

 




"Na descida da rampa os anjos rodam os saios de lã nas silvas de aço e de esmeralda.
Prados de chamas lavram a colina. À esquerda o cimo do terreiro é pisado por todos os homicídios e todo o fragor de desgraça descreve a sua curva. Atrás da crista da direita a linha dos orientes, dos progressos.
E enquanto a faixa superior do quadro é formada pelo rumor hiante e turbilhonante das conchas dos mares e das noites humanas.
A doçura florida das estrelas e do céu e do resto desce frente à rampa, como um cesto, contra a tua face, e gera o abismo floral e azul lá em baixo."


Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 65.

TORNAR-SE ÁRVORE

 


"Para pensar na bolota é necessário tornarmo-nos a árvore. E a árvore da noite é mais difícil de subir, a mais trabalhosa de escalar, a de ramos mais severos, a mais febril ao toque, transpira resina e destila na palma da mão um pez que não entrava nos nossos cálculos. Os gurus, que, como sabes, são mestres indianos, esperam que contemplemos uma bolota dez anos a fio e se, ao fim desse tempo, não soubermos mais sobre a semente, é porque não somos muito espertos, podendo ser esta a única certeza a que se chega, o que é uma pós-graduação em melancolia - já que homem nenhum pode encontrar uma verdade maior do que aquela que o seu rim lhe permite encontrar. Por isso eu, doutor Matthew Poderoso O'Connor, peço-te que penses na noite durante todo o dia, e no dia ao longo de toda a noite, pois de contrário arriscas-te a que ela aproveite uma distracção do cérebro para te desabar pesadamente em cima - como um motor desacelerando no teu peito e travando as rodas contra o teu coração; há que abrir-lhe um caminho!"


Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, pp. 85-86. 

Tuesday, December 30, 2025

COISAS REPLETAS

 


"Recordei o encanto particular que algumas coisas possuem, coisas a que damos valor, coisas repletas de conversas com alguém que nos é próximo, e o modo como eventualmente chega o momento em que de súbito se evaporam, morrem e ficam vazias."


Velimir Khlébnikov, Histórias, Equações, Relâmpagos, trad. Sara Veiga, Porto: Editora Exclamação, 2022, p. 50. 

O SORRISO

 


"Sei ainda que - prosseguiu ele -, se deitar a água de um copo noutro copo, obterá uma água diferente; as lágrimas derramadas por uns olhos poderiam cegar se fossem choradas pelos olhos de outra pessoa. O peito em que batemos quando estamos alegres não é o mesmo em que batemos quando estamos tristes; o sorriso de uma pessoa seria consternação nos lábios de outra. Cresce, ribeiro eterno, que a dor aí vem! O homem não tem nenhum ponto de apoio que não seja também um pacto."

 

Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, pp. 43-44. 

Monday, December 29, 2025

GALANTE POSTURA

 






"Mandei, mundano, talhar,
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!

Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.

O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.

Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.

Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra."


Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Vega, 1998, p. 107.

Sunday, December 28, 2025

RENTES AO MURO

 



" - Discutem demasiado facilmente sobre a dor e a confusão - disse Nora.
- Espere! - respondeu o doutor. - A dor de um homem corre com dificuldade, é verdade que lhe é difícil carregá-la, mas é igualmente difícil guardá-la. No que me diz respeito, enquanto médico, sei em que bolso o homem guarda o coração e a alma, e qual é a sacudidela do fígado, dos rins e dos testículos que faz com que esses bolsos sejam saqueados. Não há dor em estado puro. Porquê? Porque ela dorme na mesma cama em que dormem os pulmões, os bofes, os ossos, as tripas e a bílis! Só existem confusões; a esse respeito dou-lhes toda a razão. Nora, minha filha, confusões e ansiedades derrotadas - é isto que nos forma a todos e a cada um. Quando se é um gimnosofista? pode-se passar sem roupas e quando se tem as pernas arqueadas sente-se mais vento entre os joelhos do que qualquer outra pessoa; e isso ainda é confusão. Os eleitos de Deus caminham rentes ao muro."


Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 34.

Saturday, December 27, 2025

SOPOR



"Meu espírito um sopor selou;
Medos não tinha humanos:
Imune a tinha ao que a levou,
À mão de mortais anos.

Agora não tem vida, acção;
Não vê, não ouve, é caos;
Revolve-a a terra em rotação,
Com rochas, pedras, paus."



William Wordsworth, Poemas Escolhidos, seleção e tradução de Daniel Jonas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 99.

Friday, December 26, 2025

A FACE DAS VAGAS

 


 

"Durante o passeio de hoje de manhã estudei demoradamente o mar. O sol encontrava-se por detrás de mim; a face das vagas que se levantava diante de mim era amarela e o céu reflectia-se na que fitava no fundo. Sombras de nuvens passaram no céu, produzindo efeitos encantadores: no fundo, no local em que o mar se tornava azul e verde, as sombras pareciam violeta e um tom violeta e dourado estendia-se também sobre as partes mais próximas, quando a sombra as recobria. As vagas eram como de ágata. Nessas zonas sombrias acabávamos por descobrir, face ao sol, a mesma associação de vagas amarelas e de partes azuis e metálicas - como se se tratasse de um reflexo do céu."

 

Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 131. 

Thursday, December 25, 2025

IN NATIVITATEM DOMINI

 



"Cristo, redentor de todos, 
O único Filho do Pai
Que, antes de todo o princípio, 
Dele eternamente sai:

Tu lumen, Tu splendor Patris,
Tu spes perennis omnium, 
Intende quas fundunt preces
Tui, per orbem, servuli.

Recorda-te, Salvador, 
Que, da Virgem sem pecado, 
Te tornaste igual a nós, 
Num corpo de carne nado.

Hic praesens testatur dies,
Currens per annum circulum,
Quod solus a sede Patris, 
Mundi salus advenneris.

O céu, a terra e o mar
Tudo o que neles está, 
Cantam o Pai e senhor, 
Que aos homens seu Filho dá.

Nos quoque qui sancto tuo
Sumus redempti sanguine, 
Natalis tui ob diem, 
Hymnum novum concinnimus."



Os Hinos de Santo Hilário de Poitiers, trad. Albino de Almeida Matos, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, pp. 53-54. 

Wednesday, December 24, 2025

BENDITO


 

"Neste caminho cortado
Entre pureza e pecado
Que chamo vida, 
Nesta vertigem de altura
Que me absolve e depura
De tanta queda caída, 
É que Tu nasces ainda
Como nasceste
Do ventre de Tua mãe.
Bendita a tua candura.
Bendita a minha também. 

Mas se me perco e Te perco, 
Quando me afogo no esterco
Do meu destino cumprido, 
À hora em que eu Te rejeito
E sangra e dói no Teu peito
A chaga de eu ter esquecido,
É que Tu jazes por mim
Como jazeste
No colo da Tua mãe.
Bendita a Tua amargura
Bendita a minha também."



Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Vega, 1998, p. 134. 

DISPONIBILIDADE

 


"Há uma legenda do Natal, que o exprime e resume em humanidade e elevação. É a que diz «Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa-vontade». Da glória a Deus dirão aqueles a quem Deus ainda fala; da paz na Terra dirão aqueles para quem o homem é ainda, dentre todos, o mais alto valor. Mas tudo isso se condensa afinal na realidade da infância, pelo que aí há mais ternura e inocência; e não é assim por acaso que o Natal é acima de tudo a festa da criança. Eis porque todo o esforço do adulto deve ser o retorno a essa infância, pela suspensão do que a vida aí acumulou. Assim o Natal é também a festa da memória, do regresso à pureza da nossa disponibilidade, do amor e confiança que a esse amor pertence. O que posso desejar a quem me ouve é portanto a recuperação de uma iluminação do espírito, para se acreditar que a vida e o homem e a união de todos os povos são a expressão mais alta do nosso encontro comum e da nossa aventura sobre a Terra."


Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV, 2.ª ed., Venda Nova: Bertrand Editora, 1993, p. 517. 

Tuesday, December 23, 2025

MARINHA


 

"Os carros de prata e de cobre - 
As proas de aço e de prata º 
Removem a escuma,. - 
Levantam os montes de solvas.
As correntes da terra, 
E os sulcos imensos do refluxo, 
Correm circularmente para leste, 
Para os pilares da floresta, - 
Para os fustes do dique
Cujo ângulo é ferido por turbilhões de luz."


Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 73. 

Monday, December 22, 2025

PERCEÇÃO

 


"Foi nesta grande amargura que fui, de laço branco, receber a comunhão. Quando acabou a cerimónia, foram todos, muito contentes, correr para o pé das famílias. A tia Suzana abraçou-me, chamou-me para o lado e disse-me:
- Que bom! Agora já tens maneira de falar com Deus. Muitos homens vivem sufocados porque não tiveram a humildade de deixar sempre aberta a janela que dava para Deus. 
Eu, naquele dia, não percebi o que ela queria dizer. Só me dei conta da sua grande ternura e da força om que me apertou nos seus braços."



António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 52. 

Sunday, December 21, 2025

DAS NASCENTES / SOLSTÍCIO

 



"«A minha amante tem as virtudes da água: um sorriso claro, gestos envolventes, uma voz pura e sonora, gota a gota.» Os poetas, os que vão sempre à frente no cortejo da vida, foram os oficiantes do rito de passagem dos sagrado para o profano, na simbologia da água. Essa dessacralização foi o início de um novo caminho para as águas. As fontes primitivas, aceitando as transformações imperativas do tempo, assistiram aos diferentes interesses que os homens lhes dirigiam. Nascidas na terra, nos vales, nos montes, em campo aberto, aí ficaram, mas viram as suas águas desviadas para os sítios de de conveniência dos homens. Já não eram eles a encaminharam-se para as nascentes, mas as nascentes a serem obrigadas a irem para onde o homem quis. A água saiu do seu milenar lugar e foi definitivamente instalar-se no meio dos homens. Com ela viajaram todos os simbolismos, todas as virtudes e foi com esta ideia bem assente que as fontes começaram a construir-se."


Alfredo Saramago, Os Rostos e as Vozes da Água, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 67. 

ANIVERSÁRIO

 


" - Ontem foste ver o mundo! - começou o Xá. - Então, o que achaste? Mudou muito desde a última vez que aqui estivemos?
- Tudo muda, Senhor! - respondeu o eunuco. - E ao mesmo tempo, tudo fica na mesma. É o que eu penso!"

Joseph Roth, A História da Milésima Segunda Noite, trad. Vanda Gomes, Silveira: E-Primatur, 2016, p. 226. 

Saturday, December 20, 2025

ATRÁS DA CERCA

 



"Atrás da cerca havia 
um limoeiro - era nosso - 
Os seus frutos amarelos brilhavam como lanternas,
as flores espalhavam o seu perfume no bairro. 
Atrás da cerca havia
um limoeiro - era nosso! - 
Mas era preciso enfeitar a filha da minha Censura, 
que a sua cabeleira fosse perfumada e tivesse... um diadema.
Então cortaram os nossos limoeiros
e a primavera tombou-me dos olhos!"



Mahmud Darwich, O Jardim Adormecido, trad. e selec. Albano Martins, Porto: Campo das Letras, 2002, p. 23. 

Friday, December 19, 2025

FANTÁSTICA CENA


 

"Que fantástica cena, a Eternidade!...
Vejo-te a dançar, Bailarino, 
Vejo-te a dançar
Sem tréguas nem esperanças
À busca dum corpo.
Não se incorpora a tua suavidade...
Busca-se um peso para a queda do fim...

............................................................................ 
Sem corpo, a Eternidade é bem cruel,
Se Deus nos deu uma alma que é pretexto, 
Um mero cordel
Para o gesto..."


Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Vega, 1998, p. 118. 

Thursday, December 18, 2025

O AR DE OUTONO


 "A Sr.ª Matzner ficou por lá até bastante tarde. O ar de Outono estava claro, vigoroso e austero. Quando Matzner se levantou para ir levantar o fiacre, sentiu uma leve vertigem na cabeça e um calafrio no coração. Atribuiu-os ao vinho que não estava a beber, e também à comoção de ter estado com o barão. A caminho da paragem de fiacres, decidiu parar de tomar o chá de camomila."


Joseph Roth, A História da Milésima Segunda Noite, trad. Vanda Gomes, Silveira: E-Primatur, 2016, p. 107. 

Tuesday, December 16, 2025

MAGNIFICAT

 


"É magnífico, na infinita solidão de um trecho de costa, debaixo de um céu sombrio, poder lançar o olhar por sobre um ilimitado deserto marinho. Dessa experiência faz parte todavia o facto de termos ido lá, de sermos obrigados a fazer o caminho de volta, de desejarmos atravessar o mar, de não o podermos fazer, de sentirmos a falta de tudo o que compõe a vida e de contudo captarmos a voz da vida no murmurar da maré, na agitação do ar, na deslocação das nuvens, no grito solitário das aves."


Heinrich von Kleist, «Impressões perante a paisagem marinha de Friedrich», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 97. 

Monday, December 15, 2025

PAISAGEM

 



"Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
                                      Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas, entreguei;
E meu ceptro e coroa, - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil
Minhas esporas, de um tinir tão fútil
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia."


Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 51.

Sunday, December 14, 2025

DA RARIDADE

 



" - Não é isso que eu quero dizer, mãe.
-Queres dizer que ele é um pouco idealista. Mas tu estavas fadada para casar com uma pessoa dessa espécie. Um homem mundano não te atrairia.
Somente Mr. Schneider e o homem do gelo pareciam sentir como ela. O homem do gelo quis ter a certeza de que o fidanzato era «um bom homem». Mr. Schneider foi mais longe.
- Compreendo o que sente - disse. - Como Sócrates demonstrou, o amor não pode ser outra coisa senão o amor do bem. Mas encontrar o bem é muito raro. Por isso é que o amor é raro, ao contrário do que as pessoas pensam. Sucede a uma entre mil e para essa um é uma revelação. Não admira que eu não possa comunicar com as restantes novecentas e noventa e nove."


Mary McCarthy, O Grupo, trad. Daniel Gonçalves, Lisboa: Editora Ulisseia, s.d., p. 371.

Saturday, December 13, 2025

FINAMOR

 


"Falo sobretudo da Virgem Maria. Gualter canta-a, e em todos os tons, com grande talento. Enquanto, durante todo o século, os teólogos se esforçaram por pôr em evidência os traços que distinguem o corpo da Mãe de Deus de todos os outros corpos femininos (quando ela deu à luz o filho de Deus, a porta do seu ventre de mulher manteve-se misteriosamente fechada. Nunca terá sido, como as outras, conspurcada pelo sangue menstrual? Não foi ela a única de todos os seres humanos a escapar ao pecado original? É já, em 1140, a ideia de festejar a sua imaculada concepção). Maria, nesta sequência de histórias simplórias agradavelmente postas em verso, é muito mulher. Sedutora até fascinar o diabo, quando aparece de noite, «em camisa muito enfeitada», expondo a sumptuosidade da sua cabeleira. A Gualter, são os seios que o atraem, as mamas, as maminhas «tão doces, redondas e belas são». Serve-a, apela a que a sirvam, lealmente, assiduamente, com finamor. Ela é generosa para todos os que a amam. Mas ciumenta. A sua ira abate-se sobre quem ousar abandoná-la. Surge na noite de núpcias, instala-se entre o novo marido que a traiu e a noiva que ele se prepara para fruir. «Rejeitaste-me, acha-la mais bela e boa do que eu?» É Maria, evidentemente, quem ganha. Sem rancor, concede ao enamorado arrependido o que lhe prometeu, «alegria, consolo e companhia». No Paraíso, ao seu quarto em breve ele irá ter. As suas servas têm ordem para preparar o leito. Nossa Senhora entregará o coração ao seu filho. Guardará o corpo. Amor purus? Ou, sublimado, é certo, imaculado, fortemente misturado com sensualidade, amor mixtus?"


Georges Duby, As Damas do Século XII, vol. III, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 1996, p. 184. 

Thursday, December 11, 2025

ESPÍRITOS INVISÍVEIS

 


"Deus, meu pai no Céu! Determinaste para o homem uma vida tão livre, magnífica e plena de abundância. Forças de infinita diversidade, das divinas às animais, entrelaçam-se-lhe no peito para fazerem dele o rei da Terra. Mas ao mesmo tempo, subjugado por espíritos invisíveis, ei-lo surpreendente e incompreensivelmente agrilhoado e tolhido; encandeado pelo erro, passa ao lado das supremas coisas e, como se atingido pela cegueira, caminha errante sob o peso de misérias e frivolidades."


Heinrich von Kleist, «Oração de Zoroastro», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 89. 

Tuesday, December 9, 2025

ETERNO PLANO

 


"Ao mesmo tempo estou profundamente convencido de tomar parte no grandioso e eterno plano da natureza, desde que preencha inteiramente o lugar em que ela neste mundo me colocou. Não terá sido em vão que a natureza me atribuiu este domínio de acção que é o meu no presente, e, supondo que perdia o meu tempo a sonhar com o presente enquanto tratava de investigar o meu domínio de acção do futuro - não será o futuro um presente que há-de vir, e hei-de eu voltar a perder tempo sonhando também este outro presente?"

 

Heinrich von Kleist, «Sobre a ilustração da mulher», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p.66. 

Monday, December 8, 2025

A FÉ



"Mas, que esta fé seja errónea ou não - pouco importa! Nesta vida cumpro o meu dever, e se me perguntares: porquê? A resposta será fácil: precisamente porque é o meu dever.
Por isso, no que toca ao meu agir, limito-me inteiramente a esta vida terrena. Não quero preocupar-me com uma destinação da vida para além da morte; e é assim porque receio que com isso estivesse a negligenciar a minha destinação relativamente a esta vida. Não temo as penas infernais do futuro porque temo, isso sim, a minha própria consciência, e não conto com uma recompensa do lado de lá da sepultura porque posso recebê-la do lado de cá."


Heinrich von Kleist, «Sobre a ilustração da mulher», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 66. 

FLOR BELA

 



"Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim, 
Talvez, cheios de dor, digam assim:
- «Já ela é velha! Como o tempo passa!...»

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte-e-três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor de rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente, 
Como se fosse um bando de netinhos..."


Florbela Espanca, Sonetos Completos, 8.ª ed., Coimbra: Livraria Gonçalves, 1950, p. 62. 

Sunday, December 7, 2025

ENTRE LA LICORNE ET TOI

 




"Entre o unicórnio e tu
o espaço de um grito
cega procura
do teu corpo
no interior de ti
tu meu amor
espaço entre unicórnio
e eu"


Isabel Meyrelles, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 63.

Saturday, December 6, 2025

ORIGENS

 


"Ao crime de desobediência, seguiu-se o de homicídio, praticado por Caim. O homem, que matou o homem, não sentiu repugnância em matar os bichos, e particularmente os carneiros. Com a morte violenta dos carneiros, veio a reforma no vestido. Começaram os homens a vestir-se com as peles das suas vítimas, e não foi sem razão, atendendo que, no Outono, se despegavam as folhas das árvores e o pudor ficava em transe até à Primavera."


Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, Porto: Porto Editora, 1991, p. 9. 

Friday, December 5, 2025

NO PRINCÍPIO

 


"No princípio, Adão e Eva amanheceram nus, e estavam contentes, ao que parecia, com a singeleza do seu trajar. Não está sobejamente averiguado se Adão e Eva anoiteceram contentes, no primeiro dia da humanidade. O certo e sabido é que se vestiram de folhagem de figueira, logo que a serpente os embaiu a comerem do fruto proibido. Devemos inferir que o pudor foi consequência do pecado; e que, a não existir o pecado, essa bonita coisa, que se chama pudor, faltaria à beleza da mulher; e os poetas, e romancistas, e moralistas desconheceriam um manancial de graciosos discursos, sermões, e madrigais, que correm impressos acerca do pudor. Ainda assim, melhor fora que Eva não desse trela à serpente, e que a virtude ingénita da inocência nos deixasse andar, sem vergonhas do mundo, quais saímos das mãos do Criador."


Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, Porto: Porto Editora, 1991, p. 9. 

Wednesday, December 3, 2025

PUPILAS MÍSTICAS



"Os amantes fogosos e os sábios austeros
Amam a valer, na sua idade madura, 
Os gatos ágeis e doces, do lar o orgulho, 
Como eles, friorentos e sedentários. 

Amigos da volúpia e da sabedoria,
Eles procuram o silêncio e o horror das trevas;
Érebro tomá-los-ia por corcéis fúnebres, 
Se à servidão pudessem vergar a altivez.

Ao meditar adotam as poses sublimes
Das rígidas esfinges nos grandes desterros, 
Como se adormecessem num sonho sem fim;

Dos ris fecundos saltam mágicas faúlhas, 
E partículas de ouro, como areia fina, 
Vagamente lhes crivam as pupilas místicas."



Charles Baudelaire, As Flores do Mal, trad. João Moita, Lisboa: Relógio D'Água, 2020, p. 153. 

Monday, December 1, 2025

INDEPENDÊNCIA




"Engana-te o homem de Estado, o padre, o moralista,
E este lindo trevo, ó Povo, como tu o adoras!
Ai!, mal é possível pensar ou dizer coisa de jeito
Que feroz não vá ferir Estado, Deuses, Costumes."



J. W. Goethe, Poemas, antologia, versão portuguesa, notas e comentários de Paulo Quintela, 4.ª ed., Coimbra: Centelha, 1986, p. 147.