Thursday, July 31, 2025

PAREDES SEMELHANTES


" - Diabos, na verdade - foi o comentário do Frade. - Mas de um tipo completamente novo. 
Alguns diabos eram apenas massas informes, com lóbulos e protuberâncias - uma sombra de rosto diabólico divisada através de paredes semelhantes a gelatina. E havia uma família de endiabrados impacientes e globulares, que tinham rebentado com o ventre do seu progenitor e giravam desesperadamente na direcção da sua presa. Outros dispunham-se em padrões de varas, correntes e escadotes, simples ou encadeados, à volta da garganta e das mandíbulas de uma porca a guinchar, de cuja orelha despontava a cauda fustigante e refulgente de um diabo que conquistara o seu refúgio. E havia diabos granulados e conglomerados, misturados com a espuma e a baba, onde o ataque era mais fero. Daí, o olhar era levado para os costados em insano movimento dos porcos, que se despenhavam em tropel, e para o rosto agastado do guardador da vara de porcos e o terror do seu cão."

Rudyard Kipling, O Olho de Alá, trad. Ana Saldanha, Porto: Campo das Letras, 1999, p. 30. 

Wednesday, July 30, 2025

AO FUNDO

 


"sentei-me ao fundo. 
não rezei. 
não pedi nada. 
só quis estar ali. 
num sítio onde a tortura subisse ao teto e o lavasse

não chorei.
mas doeu-me o corpo todo.
e naquele banco frio
senti que o meu filho,  mesmo sem saber, 
me tinha salvado outra vez

e isso bastava para me manter vivo mais uma noite.
mesmo com o medo de não ter comprado
com a própria dignidade
o direito de nos amarmos em liberdade"


Rui Sobral, Noturnos, Lisboa: Poética Edições, 2025, p. 108. 

Tuesday, July 29, 2025

ESPIRITISTAS


 

"- Pff! - exclamei rindo.
- O quê! - continuou ele. - O materialismo, guiado de um lado pelas conquistas das ciências físicas e naturais e de outro lado pelo relaxamento dos costumes contemporâneos e pela depressão sucessiva e assustadora da moral, vai comendo no campo da filosofia o espaço não já muito vasto em que residia a fé. Novas crenças e novas doutrinas virão sucessivamente substituir as crenças e as doutrinas mortas por que se regulava o sobrenatural. O homem, que, segundo todas as probabilidades, não poderá nunca prescindir do maravilhoso, desse atractivo supremo da sua imaginação, irá então naturalmente buscar o espiritismo, modificado e aperfeiçoado pela ciência futura, a teoria de uma tal ou qual sobrevivência que o lisonjeie, e a base de correlações ainda não estudadas dos seres que existem com aqueles que os precederam e com os que se lhe hão-de seguir. Os espiritistas de hoje serão, de entre todos os filósofos contemporâneos que não querem aceitar em absoluto o dogma estéril e desconsolador da matéria omnipotente, os únicos que hão-de colaborar na filosofia do futuro."

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, pp. 60-61. 

Monday, July 28, 2025

LUZ

 


"A luz do dia tinha feito surgir no meu espírito uma multidão de pensamentos inteiramente novos e diversos daqueles que me haviam ocupado durante a noite. Há pensamentos que não vivem senão no silêncio e na sombra, pensamentos que o dia desvanece e apaga; há outros que só surgem ao clarão do Sol. 
Eu sentia no cérebro uma multidão de ideias estremunhadas, que à luz repentina da madrugada voejam em turbilhão como um bando de pombas amedrontadas pelo estridor de um tiro."



Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 37. 

Sunday, July 27, 2025

ONDE O TEMPO

 



"procuro deus
nas rachas do teto
nas lâmpadas mortas
nos relógios parados

onde o tempo a ele se sufoca
nas mãos vazias das estátuas que não rezam mais
nos berros das mães em luto nas campas dos filhos
nos espelhos rachados a refletir ausências
no chão de madeira que range como lamentos
no cinzeiro de um cigarro apagado à pressa
nos olhos das fotografias dos meus pais mortos
na mão trémula de quem segura o copo de água à noite

no choro sufocado de quem desconhece razões



Rui Sobral, Noturnos, Lisboa: Poética Edições, 2025, p. 18.

TODOS OS DIAS

 



"Todos os dias alguém desaparece e cai no mundo dos sonhos, oculta-se em fantasias perdidas, num paraíso de forças. O amor, para eles, é o olho do destino e o alívio maior do mal involuntariamente causado por aquele imenso amor e carinho que só agora se encontra nas recordações.

Em suas vidas receberam amor e um beijo maravilhoso, e todos sabem mais do que ninguém conhece. Em sua morte depararão com um buraco, repleto de sombras e imagens perdidas. Nunca procuraram ser fortes e agora a morte fá-los pagar por isso, compelindo-os a trabalhar na senda das nuvens que não têm fim. Para nada há explicação neste mundo de doidos."



Violeta Hernando, Mortos ou Coisa Melhor, trad. Júlio Henriques, Lisboa: Antígona, 1996, p. 91.

Saturday, July 26, 2025

A UM DEUS SURDO

 



"Ó quem me dera ter outra vez vint'anos
navegar no ignoto sem portulanos
o peito feito para os da vida enganos
era sensacional ó hermanos

quem dera o brandy com castelo
o dedo ao arrepio do pêlo
o romanticismo do desvelo
e tudo isto fingindo um grande anelo

quem dera agora uma vez mais
o rápido de Irún no cais
a solicitude quente dos pais
ai eu tirando de ouvido muitos ais

ó quem dera e outra vez viera e dera
a ruminante paciência que há na espera
o mistério lento da Primavera
emblema desenhado pela namorada: uma hera"



Fernando Assis Pacheco, A Musa Irregular, 3.ª ed., Porto: Edições Asa, 1997, pp. 164-165.

Friday, July 25, 2025

SANTIAGO

 



"E depois, o seu corpo foi levado num barco pilotado pela mão de Deus. Ao sétimo dia, a embarcação aportou a um local de Iria, entre dois rios, o Ulla e o Sar, que se chama Bisria.
E aqui o seu corpo subiu pelos ares até ao sol. Os seus discípulos, chorando e implorando perdão a Deus, afastaram-se doze milhas: ali estava o santo corpo sepultado sob umas arcadas de mármore.
Depois, a três discípulos cabe em sorte serem sepultados naquele local, junto dele. Tinham apagado o sopro de um dragão e destruído os seus objectos no monte que inicialmente se chamava Ilicino e desde então lhe chamais Monte Sacro. Estes são os seus nomes: Torquato, Ctesifonte e Anastácio. Os outros quatro regressaram a Jerusalém e relataram-nos, estando nós num sínodo, todas as coisas por escrito."


"Epístola do Bispo Leão" (séc. X), in Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal - Textos da Antiguidade Tardia e Alta Idade Média, Lisboa: Traduvárius, 2016. p. 51.

Thursday, July 24, 2025

SUPOSIÇÕES

 



"Se hoje pela manhã eu pudesse contar-vos que já fui
de vidro mas já não sou;
que ainda me estilhaço mas só da cintura para baixo;
que já consigo engolir girassóis de cabeça pendente
como quem engole caramelos espanhóis, sem ficar ali
a mastigar de perfil, pendurada

Se hoje pela tarde eu pudesse arremessar-vos com a certeza
de que o sol, esse absinto que todos os dias
vejo largado à ressaca, finalmente tinha nascido para mim;
que ele tinha preferido perder o sobrescrito
em vez de fugir para a praia,
só porque é viciado em sexo de conchinha na areia

Se hoje pela noite eu pudesse convencer-vos que as camas
que fiz nem sequer eram para me deitar
mas que acabei sempre por dormir meias horas nelas,
e que o amor à queima-roupa
pode ter sabor a limão, ser azedo que se farta:

se eu pudesse, mas não posso.
Prefiro calar-me. Dar azo a todas as suposições."



Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, p. 85.

Tuesday, July 22, 2025

MARIAS

 



"As Marias mastigam bolachas maria
em vez do bife de alcatra
para poupar tempo e dinheiro:
tempo para lavar, secar, passar a ferro.
Arrastar móveis, aspirar, limpar o pó.
Tempo de substituir os naperons de renda,
as cortinas, as capas dos edredons, os lençóis

Tempo para cuidar dos filhos,
do cão, do gato, do periquito, do porco, das galinhas.
Tempo para semear ave-marias e flores nas jarras,
cruzes de sal debaixo do tapete

As Marias são tão choronas:
choram a picar cebola, choram a picar a salsa,
choram a picar a vida. Choram quando são tratadas
com sete pedras nas mãos.

À noitinha, quando o amor chega a casa,
as Marias deitam-se de pernas abertas no sofá.
Desabitadas

Elas já foram bonitas.
As Marias deviam receber medalhas de mérito."


Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, pp. 70-71.

Monday, July 21, 2025

GATÃO

 


"As lágrimas eram pequeninas, mas todas juntas formavam um manto de amarguras que acompanhou o Poeta até ao cemitério. Deixou o lar cheio de saudades e também desse vácuo que fica sempre nas casas onde morrem homens dessa envergadura. Durante muitos dias não se ouvia a voz de ninguém. Tudo foi o mais simples e o mais pobre possível. O caixão, sem guarnições absolutamente nenhumas, tendo apenas um Cristo ao meio, era feito dum pinheiro, com a forma de lira, que Ele há muito tinha comprado. Para mim, o mundo tinha-se ido a enterrar com Ele."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcelos, Olhando Para Trás Vejo Pascoaes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 82. 

Sunday, July 20, 2025

DORES

 



"há dores que se camuflam de vida e nos consomem
       por dentro
vórtices ininterruptos

tragédias por compreender que certa é a vida e
      nunca a morte como cospem as velhas de todas
      as idades e os acéfalos a repetir sortes aos
     domingos à tarde em reuniões familiares com
     sono entre manjares de porcos vacas e patos de
     galos sangue nos pratos"



Rui Sobral, Noturnos, Lisboa: Poética Edições, 2025, p. 59.

Friday, July 18, 2025

REMÉDIOS SANTOS

 



"Creio verdadeiramente em anjos. Creio em remédios santos
que entram pela porta dos fundos.
Propícios ao lado esquerdo

Creio que os anjos não existem apenas
talhados em pedra vulnerável nos jardins camarários:
curvados ao alçar da perna dos cães;
o rosto pálido da anemia;
pousio (de pássaros) saltimbancos a horas muito lentas

Creio que também é possível apanhá-los com o sol
em equilíbrios na cabeça,
curvados em oração à cabeceira de descampados
onde o verde se perverte em laivos de cinza velho.
Que faz sentido acreditar que eles até se deixam
infectar pelos nossos brilhos natalícios,
essas loucuras a tenderem para o grotesco:
desta vida à outra endoidece-se muito

Creio nas suas asas
feitas das nossas solas gastas em dias que nos fazem
frente, roídos à dentada,
estão capazes de suster a respiração e atravessar
a solidão automedicada de muralha.
Pelos confettis e serpentinas nos espelhos do rosto

Creio que são eles que nos deixam ficar
(sem trombetas nem avisos de recepção)
stickers com corações vermelhos no ecrã do telemóvel.
Creio que os dias em que eles cavalgam, depressivos, o dorso
de ventos agrestes, ondas mudas,
custam muito a passar

Creio verdadeiramente em anjos.
Creio que são eles que florescem de agapantos a nossa via-sacra.
Creio que têm qualquer coisa de jardineiro."


Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, pp. 28-29.

Thursday, July 17, 2025

CONTANDO



"Talvez por isso, às vezes, muitas vezes, 
apetece-me contar
do seu peso e da sua medida, 
do termómetro e da febre,
do sexo e do cheiro, 
do riso movediço dos olhos mirabolantes

Da nudez do pensamento, da curva do pescoço, 
da generosidade das pernas, 
da pele banhada a ouro,
e de mim, 
dos brincos que ponho e tiro.

Talvez por isso, às vezes, muitas vezes, 
apetece-me contar que o como à sobremesa
com as unhas, com os dentes. 
Olho por olho

Oh, meu anjo, 
ainda assim, contando, contando, contando, 
guardo o melhor para mim."



Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, p. 16. 

Wednesday, July 16, 2025

CARMO

 


"

Dá Deus a estas almas um tão ardente desejo de em coisa alguma o descontentarem, por poucochinho que seja - e de não incorrerem, se possível, na menor imperfeição -, que só por isto, quanto mais não fosse, quisera evitar todas as companhias, sentindo uma grande inveja dos que vivem ou viveram no deserto. Mas, por outro lado, também gostaria de se embrenhar no mundo, a fim de contribuir para que ao menos uma alma louvasse um pouco mais a Deus. E, se é mulher, aflige-se com as peias da sua condição, que a impedem de o fazer, muito invejando os que são livres de bradar quem é este Deus das cavalarias."


Santa Teresa de Ávila, "Moradas Sextas", cap. I, in Moradas do Castelo Interior, trad. Manuel de Lucena, Lisboa: Assírio & Alvim, 1988, p. 136. 

Monday, July 14, 2025

CELA

 



"E logo faz o elogio do silêncio:
- O isolamento do mundo, em que vivo, foi o melhor companheiro que jamais tive. O silêncio para mim é fonte de luz sobrenatural, porque quanto mais guardo silêncio com as criaturas, mais falo com Deus e melhor compreendo os Mistérios da Fé. O silêncio é uma cela, a soledade é outra."


Antero de Figueiredo, Fátima - Graças, Segredos, Mistérios, 8.ª edição, Lisboa: Livraria Bertrand, 1936, p. 181.

Sunday, July 13, 2025

O TEMPO A ETERNIDADE

 



"e o tempo a eternidade
seriam eram assim
as idades numa idade
sem princípio meio e fim

por nascer o homem que há-de
interrogar: - a que vim?"


José Correia Tavares, O Verso e o Rosto, Lisboa: Vega, 1987, p. 81.

Saturday, July 12, 2025

LUGAR DE OUTRO REPOUSO (para a memória de Fernando Guimarães)


 
"A morte está cansada e assim encontra
no teu corpo a nudez, lugar de outro repouso."


Fernando Guimarães, Lições de Trevas, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, p. 63. 

Friday, July 11, 2025

RAMOS RÍGIDOS E ANTIGOS

 


"O homem tem que destruir à medida que avança, à medida que as árvores caem para que outras árvores nasçam. A acumulação de vida e de coisas leva à podridão. A vida tem que destruir a vida, o desenvolvimento da criação. Salvamos vidas à custa desse desenvolvimento, até tudo ser invadido por essa podridão. Depois, finalmente, fazemos uma pausa. 
O que pode fazer-se? Falando de maneira geral, nada. Os mortos terão que enterrar os seus mortos, enquanto a terra tresanda a cadáveres. O indivíduo só poderá afastar-se da multidão e tentar purificar-se. Tentar agarrar-se rapidamente ao que está vivo, ao que destrói à medida que avança, mas permanece puro. E, na sua alma, lutar, lutar, lutar, para preservar em si próprio aquilo que está vivo, dos beijos horríveis e das mordidelas venenosas da miríade de pessoas malévolas. Retirar-se para o deserto e lutar. Mas, na sua alma, aderir àquilo que é a própria vida, destruindo criativamente à medida que avança: destruindo os ramos rígidos e antigos para que o novo botão possa brotar. O único princípio ardente da vida criativa, que reconhece o bem natural e tem uma espada para destruir os enxames do mal. Lutar, lutar, lutar, para se proteger a si próprio. Mas conservando-se, para consigo, forte e em paz."


D. H. Lawrence, "St. Mawr", in St. Mawr e outros contos, trad. Clarisse Tavares, Lisboa: Livros do Brasil, 1990, pp. 108-109. 

Thursday, July 10, 2025

VELHOS RESERVATÓRIOS

 


" - Não sei, Louise. A minha opinião sobre os homens de hoje decresceu muito. Mas consigo viver, apesar disso. 
- Não, Mãe. Parece que estamos a viver de combustível antigo, como o camelo que se alimenta da sua bossa. A vida não corre para dentro de nós, como sucede até com St. Mawr, que é um animal dependente. Eu não consigo viver, Mãe. Não consigo.
- Não sei porquê. Eu estou cheia de vida. 
- Eu sei que está, Mãe. Mas eu não estou, e sou sua filha. - E não me entenda mal, Mãe. Eu não quero ser um animal, como um cavalo, uma gata ou uma leoa, embora eles me fascinem pela maneira como recebem a vida directamente, sem ser através de uma série de velhos reservatórios, como nós. Não admiro o homem das cavernas, nem coisa desse género. Mas pense, Mãe, se nós conseguíssemos receber a nossa vida directamente da fonte, como os animais, e continuar a ser nós próprios... a Mãe também não aprecia os homens. Mas não faz ideia de como os homens me fatigam: até o simples acto de pensar neles. A Mãe diz que eles são excessivamente animalescos. Mas não são, Mãe. O animal dentro deles tornou-se perverso, ou tímido, ou submisso, ou domesticado, como os cães. Não conheço um único homem que seja um animal orgulhosamente vivo. Sei que deixaram de pensar verdadeiramente. Mas os homens deixam sempre de pensar verdadeiramente quando morre neles o último vestígio do animal selvagem.
- Porque temos mentes...
- Deixamos de ter mentes logo que ficamos domesticados, Mãe. Os homens são todos mulheres, a tricotar e a fazer crochet com as palavras. 
 - Não posso concordar inteiramente consigo, Louise."


D. H. Lawrence, "St. Mawr", in St. Mawr e outros contos, trad. Clarisse Tavares, Lisboa: Livros do Brasil, 1990, pp. 84-85. 

Tuesday, July 8, 2025

PSICOLOGIA HUMANA

 



"Lou retraiu-se. Começava a sentir medo da curiosidade insaciável da sua mãe, sempre à procura de uma serpente oculta entre as flores. Ou antes, das larvas.
Sempre aquele mesmo interesse mórbido pelas outras pessoas e pelas suas vidas, os seus assuntos privados, a sua roupa suja. Sempre aquele ar alerta para os acontecimentos pessoais, sempre comentários, comentários, comentários. Sempre aquela crítica subtil e aquela avaliação dos outros, aquela análise dos motivos dos outros. Se a anatomia pressupõe um cadáver, a psicologia pressupõe um mundo de cadáveres. A má-língua, que representa crítica e análises pessoais, pressupõe um laboratório à escala mundial de psiques humanas prontas a ser dissecadas. Se se retalhar uma coisa, é evidente que acaba por cheirar mal. Por isso, nada deita um cheiro tão infernal, no fundo, como a psicologia humana."

D. H. Lawrence, "St. Mawr", in St. Mawr e outros contos, trad. Clarisse Tavares, Lisboa: Livros do Brasil, 1990, p. 63.

Monday, July 7, 2025

A NUVEM

 


"A nuvem que passa muito carregada leva excomungados (Pindela). Acredita-se que o excomungado não vai para o Céu, nem para o Inferno, mas vai viver numa nuvem, tolhendo todo o mundo. Muita gente, ao ver uma nuvem, sente de repente uma dor de cabeça: é o ar ruim do excomungado."


José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, 2.ª ed., Lisboa: IN-CM, 1986, p. 89. 

Sunday, July 6, 2025

OLHANDO A DISTÃNCIA

 



"Sinos e clarins
o sopro das asas
dum bando de pombos
por sobre a cabeça
velhas oliveiras

E olhando a distância
os poros acusam
um beijo memória
que em azul-verdete
me corrói o bronze."


José Correia Tavares, O Verso e o Rosto, Lisboa: Vega, 1987, p. 100.

PARA SER INCOMUM (para a memória de Régis Bonvicino)

 



"Azul para ser
incomum?
janelas através de
flores des-

aparecendo
por detrás de óculos
dia concluído
mudo quarto

crescente vulto
de um céu vazio."


Régis Bonvicino, Lindero Nuevo Vedado - antologia poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2002, p. 118.

Saturday, July 5, 2025

MISTERIOSA PONDERAÇÃO

 


"As respostas sinceras nunca são claras, nem rápidas. Ela reflectia, franzindo as sobrancelhas, o que lhe dava a fronte enrugada que teria dentro de vinte anos. Era-me dado assistir àquela misteriosa ponderação que Lázaro fez seguramente tarde demais e depois da sua ressurreição, e em que o medo serve de contrapeso à fadiga, o desespero à coragem, e o sentimento de ter feito o bastante ao desejo de comer ainda algumas refeições, de dormir ainda algumas noites, e de ver ainda levantar-se a manhã. Acrescentai a isso duas ou três dúzias de recordações felizes ou infelizes, que, consoante as naturezas, ajudam a reter-nos, ou nos precipitam na morte."


Marguerite Yourcenar, O Golpe de Misericórdia, trad. Rafael Gomes Filipe, Lisboa: Publicações Dom Quixote/Editores Reunidos, 1994, p. 114. 

PIETAS

 



"Depois que as servas o banharam e ungiram com azeite,
lançaram-lhe por cima uma bela capa e uma túnica.
Foi o próprio Aquiles a levantá-lo e a pô-lo num esquife;
depois com ele os companheiros o puseram no carro polido.
E Aquiles gemeu em seguida e invocou o companheiro amado:

«Não te zangues comigo, ó Pátroclo, se é que me consegues ouvir
na mansão de Hades, por eu ter restituído o divino Heitor
ao pai amado, visto que não foi vergonhoso o resgate que me deu.
A tu eu darei destas coisas aquilo que te é devido.»"


Homero, Ilíada, XXIV, trad. Frederico Lourenço, Lisboa: Cotovia/Biblioteca editores Independentes, vrs 587-595, p. 492.

Thursday, July 3, 2025

A VIAGEM


 

"CAÇADOR - Não podes, já, seguir viagem - não.
Tua mente e teu corpo não conseguem
Por algum tempo em si ter confiança.
Quando refeito, o guia serei eu.
Mas onde iremos nós?"


Lord Byron, Manfredo, trad. João Almeida Flor, Lisboa: Relógio D'Água, 2002, p. 51. 

Tuesday, July 1, 2025

EM NÉVOA

 




"Tudo o que sou em água, em flor, em vento,
o sou em sofrimento.
Tudo o que calo em água, em flor, em luz,
em névoa se traduz.

Nada que sou, o sou por companhia.
Ser só, é recompensa.
Quem pode dar à fuga que não pensa,
à aventura do dia,
um companheiro ou guia?

Se eram espadas,
a morte me aproxima.
Não importa de quê, não importa de quem.
Para todos e ninguém
é que nasci e sou.

Foram traições e cardos e venenos
trazidos na bandeja?
O que importa é que seja:
mais pobre, mais batida, mais exangue.
Tudo mais. Nada menos."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. I, Lisboa: INCM, 1991, p. 158.