Sunday, July 27, 2025

ONDE O TEMPO

 



"procuro deus
nas rachas do teto
nas lâmpadas mortas
nos relógios parados

onde o tempo a ele se sufoca
nas mãos vazias das estátuas que não rezam mais
nos berros das mães em luto nas campas dos filhos
nos espelhos rachados a refletir ausências
no chão de madeira que range como lamentos
no cinzeiro de um cigarro apagado à pressa
nos olhos das fotografias dos meus pais mortos
na mão trémula de quem segura o copo de água à noite

no choro sufocado de quem desconhece razões



Rui Sobral, Noturnos, Lisboa: Poética Edições, 2025, p. 18.

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