Wednesday, December 31, 2025
FINDA
INEXORAVELMENTE
"A primeira é que não podemos distanciar-nos em relação ao tempo como faríamos no caso de um objecto comum. Podemos medi-lo, é certo, mas não observá-lo criando um distanciamento entre ele e nós: ele afecta-nos continuamente. Gostaríamos de deter-nos e vê-lo correr, como se observássemos um rio que corre, mantendo-nos na margem, sem tomar parte no seu fluxo. Mas tal é tragicamente impossível: estamos inexoravelmente no tempo e não podemos deixar de fazer parte dele. O tempo, para nós, não tem exterior."Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, p. 8.
COMO O VENTO
AS ONDAS
ANO VELHO
"O doutor limpou a boca.- É aceitando a depravação que mais plenamente se capta o sentido do passado. O que é uma ruína senão o Tempo a libertar-se da sua própria duração? A corrupção é a Velhice do Tempo. É o corpo e o sangue do êxtase, é religião e amor. Ah, sim - acrescentou -, nós não nos elevamos às alturas, somos devorados até chegarmos a elas, e então a conformidade e o asseio deixam de nos divertir. O homem nasce como morre, rejeitando a limpeza; e há a sua condição intermédia, o desmazelo, que, em geral, acompanha o corpo atraente como uma espécie de terra de que o amor se alimenta."
Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 114.
NA DESCIDA DA RAMPA
TORNAR-SE ÁRVORE
"Para pensar na bolota é necessário tornarmo-nos a árvore. E a árvore da noite é mais difícil de subir, a mais trabalhosa de escalar, a de ramos mais severos, a mais febril ao toque, transpira resina e destila na palma da mão um pez que não entrava nos nossos cálculos. Os gurus, que, como sabes, são mestres indianos, esperam que contemplemos uma bolota dez anos a fio e se, ao fim desse tempo, não soubermos mais sobre a semente, é porque não somos muito espertos, podendo ser esta a única certeza a que se chega, o que é uma pós-graduação em melancolia - já que homem nenhum pode encontrar uma verdade maior do que aquela que o seu rim lhe permite encontrar. Por isso eu, doutor Matthew Poderoso O'Connor, peço-te que penses na noite durante todo o dia, e no dia ao longo de toda a noite, pois de contrário arriscas-te a que ela aproveite uma distracção do cérebro para te desabar pesadamente em cima - como um motor desacelerando no teu peito e travando as rodas contra o teu coração; há que abrir-lhe um caminho!"Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, pp. 85-86.
Tuesday, December 30, 2025
COISAS REPLETAS
"Recordei o encanto particular que algumas coisas possuem, coisas a que damos valor, coisas repletas de conversas com alguém que nos é próximo, e o modo como eventualmente chega o momento em que de súbito se evaporam, morrem e ficam vazias."
Velimir Khlébnikov, Histórias, Equações, Relâmpagos, trad. Sara Veiga, Porto: Editora Exclamação, 2022, p. 50.
O SORRISO
"Sei ainda que - prosseguiu ele -, se deitar a água de um copo noutro copo, obterá uma água diferente; as lágrimas derramadas por uns olhos poderiam cegar se fossem choradas pelos olhos de outra pessoa. O peito em que batemos quando estamos alegres não é o mesmo em que batemos quando estamos tristes; o sorriso de uma pessoa seria consternação nos lábios de outra. Cresce, ribeiro eterno, que a dor aí vem! O homem não tem nenhum ponto de apoio que não seja também um pacto."
Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, pp. 43-44.
Monday, December 29, 2025
GALANTE POSTURA
"Mandei, mundano, talhar,
Esta galante postura.
Ai de mim!, que a desventura
Dura o que a pedra durar!
Latinas frases austeras
Dizem de mim ilegíveis,
As mil virtudes possíveis
À pressão das sete esferas.
O nome, farto e faustoso
Com que de nada me enchi
Horizontal, o esqueci
Da altura do meu repouso.
Mas sempre sofro, emanando
Das cinzas por mim guardadas,
Memória de horas danadas
Que vão meu sono acordando.
Bispo fui; amando a guerra,
Cego ao aceno dos céus,
Troquei a graça de Deus
Pelas miragens da terra."
Reinaldo Ferreira, Poemas, Lisboa: Vega, 1998, p. 107.
Sunday, December 28, 2025
RENTES AO MURO
" - Discutem demasiado facilmente sobre a dor e a confusão - disse Nora.- Espere! - respondeu o doutor. - A dor de um homem corre com dificuldade, é verdade que lhe é difícil carregá-la, mas é igualmente difícil guardá-la. No que me diz respeito, enquanto médico, sei em que bolso o homem guarda o coração e a alma, e qual é a sacudidela do fígado, dos rins e dos testículos que faz com que esses bolsos sejam saqueados. Não há dor em estado puro. Porquê? Porque ela dorme na mesma cama em que dormem os pulmões, os bofes, os ossos, as tripas e a bílis! Só existem confusões; a esse respeito dou-lhes toda a razão. Nora, minha filha, confusões e ansiedades derrotadas - é isto que nos forma a todos e a cada um. Quando se é um gimnosofista? pode-se passar sem roupas e quando se tem as pernas arqueadas sente-se mais vento entre os joelhos do que qualquer outra pessoa; e isso ainda é confusão. Os eleitos de Deus caminham rentes ao muro."Djuna Barnes, O Bosque da Noite, trad. Francisco Vale e Paula Castro, Lisboa: Relógio D'Água, 2010, p. 34.
Saturday, December 27, 2025
SOPOR
"Meu espírito um sopor selou;
Medos não tinha humanos:
Imune a tinha ao que a levou,
À mão de mortais anos.
Agora não tem vida, acção;
Não vê, não ouve, é caos;
Revolve-a a terra em rotação,
Com rochas, pedras, paus."
Friday, December 26, 2025
A FACE DAS VAGAS
"Durante o passeio de hoje de manhã estudei demoradamente o mar. O sol encontrava-se por detrás de mim; a face das vagas que se levantava diante de mim era amarela e o céu reflectia-se na que fitava no fundo. Sombras de nuvens passaram no céu, produzindo efeitos encantadores: no fundo, no local em que o mar se tornava azul e verde, as sombras pareciam violeta e um tom violeta e dourado estendia-se também sobre as partes mais próximas, quando a sombra as recobria. As vagas eram como de ágata. Nessas zonas sombrias acabávamos por descobrir, face ao sol, a mesma associação de vagas amarelas e de partes azuis e metálicas - como se se tratasse de um reflexo do céu."
Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 131.
Thursday, December 25, 2025
IN NATIVITATEM DOMINI
Wednesday, December 24, 2025
BENDITO
DISPONIBILIDADE
"Há uma legenda do Natal, que o exprime e resume em humanidade e elevação. É a que diz «Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens de boa-vontade». Da glória a Deus dirão aqueles a quem Deus ainda fala; da paz na Terra dirão aqueles para quem o homem é ainda, dentre todos, o mais alto valor. Mas tudo isso se condensa afinal na realidade da infância, pelo que aí há mais ternura e inocência; e não é assim por acaso que o Natal é acima de tudo a festa da criança. Eis porque todo o esforço do adulto deve ser o retorno a essa infância, pela suspensão do que a vida aí acumulou. Assim o Natal é também a festa da memória, do regresso à pureza da nossa disponibilidade, do amor e confiança que a esse amor pertence. O que posso desejar a quem me ouve é portanto a recuperação de uma iluminação do espírito, para se acreditar que a vida e o homem e a união de todos os povos são a expressão mais alta do nosso encontro comum e da nossa aventura sobre a Terra."
Vergílio Ferreira, Conta-Corrente IV, 2.ª ed., Venda Nova: Bertrand Editora, 1993, p. 517.
Tuesday, December 23, 2025
MARINHA
Monday, December 22, 2025
PERCEÇÃO
"Foi nesta grande amargura que fui, de laço branco, receber a comunhão. Quando acabou a cerimónia, foram todos, muito contentes, correr para o pé das famílias. A tia Suzana abraçou-me, chamou-me para o lado e disse-me:- Que bom! Agora já tens maneira de falar com Deus. Muitos homens vivem sufocados porque não tiveram a humildade de deixar sempre aberta a janela que dava para Deus.Eu, naquele dia, não percebi o que ela queria dizer. Só me dei conta da sua grande ternura e da força om que me apertou nos seus braços."António Alçada Baptista, Tia Suzana, Meu Amor, Lisboa: Editorial Presença, 1989, p. 52.
Sunday, December 21, 2025
DAS NASCENTES / SOLSTÍCIO
"«A minha amante tem as virtudes da água: um sorriso claro, gestos envolventes, uma voz pura e sonora, gota a gota.» Os poetas, os que vão sempre à frente no cortejo da vida, foram os oficiantes do rito de passagem dos sagrado para o profano, na simbologia da água. Essa dessacralização foi o início de um novo caminho para as águas. As fontes primitivas, aceitando as transformações imperativas do tempo, assistiram aos diferentes interesses que os homens lhes dirigiam. Nascidas na terra, nos vales, nos montes, em campo aberto, aí ficaram, mas viram as suas águas desviadas para os sítios de de conveniência dos homens. Já não eram eles a encaminharam-se para as nascentes, mas as nascentes a serem obrigadas a irem para onde o homem quis. A água saiu do seu milenar lugar e foi definitivamente instalar-se no meio dos homens. Com ela viajaram todos os simbolismos, todas as virtudes e foi com esta ideia bem assente que as fontes começaram a construir-se."
Alfredo Saramago, Os Rostos e as Vozes da Água, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 67.
ANIVERSÁRIO
" - Ontem foste ver o mundo! - começou o Xá. - Então, o que achaste? Mudou muito desde a última vez que aqui estivemos?- Tudo muda, Senhor! - respondeu o eunuco. - E ao mesmo tempo, tudo fica na mesma. É o que eu penso!"
Joseph Roth, A História da Milésima Segunda Noite, trad. Vanda Gomes, Silveira: E-Primatur, 2016, p. 226.
Saturday, December 20, 2025
ATRÁS DA CERCA
Friday, December 19, 2025
FANTÁSTICA CENA
Thursday, December 18, 2025
O AR DE OUTONO
"A Sr.ª Matzner ficou por lá até bastante tarde. O ar de Outono estava claro, vigoroso e austero. Quando Matzner se levantou para ir levantar o fiacre, sentiu uma leve vertigem na cabeça e um calafrio no coração. Atribuiu-os ao vinho que não estava a beber, e também à comoção de ter estado com o barão. A caminho da paragem de fiacres, decidiu parar de tomar o chá de camomila."Joseph Roth, A História da Milésima Segunda Noite, trad. Vanda Gomes, Silveira: E-Primatur, 2016, p. 107.
Tuesday, December 16, 2025
MAGNIFICAT
"É magnífico, na infinita solidão de um trecho de costa, debaixo de um céu sombrio, poder lançar o olhar por sobre um ilimitado deserto marinho. Dessa experiência faz parte todavia o facto de termos ido lá, de sermos obrigados a fazer o caminho de volta, de desejarmos atravessar o mar, de não o podermos fazer, de sentirmos a falta de tudo o que compõe a vida e de contudo captarmos a voz da vida no murmurar da maré, na agitação do ar, na deslocação das nuvens, no grito solitário das aves."
Heinrich von Kleist, «Impressões perante a paisagem marinha de Friedrich», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 97.
Monday, December 15, 2025
PAISAGEM
"Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas, entreguei;
E meu ceptro e coroa, - eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços.
Minha cota de malha, tão inútil
Minhas esporas, de um tinir tão fútil
Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia."
Fernando Pessoa, Ficções do Interlúdio, ed. Fernando Cabral Martins, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 51.
Sunday, December 14, 2025
DA RARIDADE
-Queres dizer que ele é um pouco idealista. Mas tu estavas fadada para casar com uma pessoa dessa espécie. Um homem mundano não te atrairia.
Somente Mr. Schneider e o homem do gelo pareciam sentir como ela. O homem do gelo quis ter a certeza de que o fidanzato era «um bom homem». Mr. Schneider foi mais longe.
- Compreendo o que sente - disse. - Como Sócrates demonstrou, o amor não pode ser outra coisa senão o amor do bem. Mas encontrar o bem é muito raro. Por isso é que o amor é raro, ao contrário do que as pessoas pensam. Sucede a uma entre mil e para essa um é uma revelação. Não admira que eu não possa comunicar com as restantes novecentas e noventa e nove."
Saturday, December 13, 2025
FINAMOR
"Falo sobretudo da Virgem Maria. Gualter canta-a, e em todos os tons, com grande talento. Enquanto, durante todo o século, os teólogos se esforçaram por pôr em evidência os traços que distinguem o corpo da Mãe de Deus de todos os outros corpos femininos (quando ela deu à luz o filho de Deus, a porta do seu ventre de mulher manteve-se misteriosamente fechada. Nunca terá sido, como as outras, conspurcada pelo sangue menstrual? Não foi ela a única de todos os seres humanos a escapar ao pecado original? É já, em 1140, a ideia de festejar a sua imaculada concepção). Maria, nesta sequência de histórias simplórias agradavelmente postas em verso, é muito mulher. Sedutora até fascinar o diabo, quando aparece de noite, «em camisa muito enfeitada», expondo a sumptuosidade da sua cabeleira. A Gualter, são os seios que o atraem, as mamas, as maminhas «tão doces, redondas e belas são». Serve-a, apela a que a sirvam, lealmente, assiduamente, com finamor. Ela é generosa para todos os que a amam. Mas ciumenta. A sua ira abate-se sobre quem ousar abandoná-la. Surge na noite de núpcias, instala-se entre o novo marido que a traiu e a noiva que ele se prepara para fruir. «Rejeitaste-me, acha-la mais bela e boa do que eu?» É Maria, evidentemente, quem ganha. Sem rancor, concede ao enamorado arrependido o que lhe prometeu, «alegria, consolo e companhia». No Paraíso, ao seu quarto em breve ele irá ter. As suas servas têm ordem para preparar o leito. Nossa Senhora entregará o coração ao seu filho. Guardará o corpo. Amor purus? Ou, sublimado, é certo, imaculado, fortemente misturado com sensualidade, amor mixtus?"
Georges Duby, As Damas do Século XII, vol. III, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 1996, p. 184.
Thursday, December 11, 2025
ESPÍRITOS INVISÍVEIS
"Deus, meu pai no Céu! Determinaste para o homem uma vida tão livre, magnífica e plena de abundância. Forças de infinita diversidade, das divinas às animais, entrelaçam-se-lhe no peito para fazerem dele o rei da Terra. Mas ao mesmo tempo, subjugado por espíritos invisíveis, ei-lo surpreendente e incompreensivelmente agrilhoado e tolhido; encandeado pelo erro, passa ao lado das supremas coisas e, como se atingido pela cegueira, caminha errante sob o peso de misérias e frivolidades."
Heinrich von Kleist, «Oração de Zoroastro», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 89.
Tuesday, December 9, 2025
ETERNO PLANO
"Ao mesmo tempo estou profundamente convencido de tomar parte no grandioso e eterno plano da natureza, desde que preencha inteiramente o lugar em que ela neste mundo me colocou. Não terá sido em vão que a natureza me atribuiu este domínio de acção que é o meu no presente, e, supondo que perdia o meu tempo a sonhar com o presente enquanto tratava de investigar o meu domínio de acção do futuro - não será o futuro um presente que há-de vir, e hei-de eu voltar a perder tempo sonhando também este outro presente?"
Heinrich von Kleist, «Sobre a ilustração da mulher», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p.66.
Monday, December 8, 2025
A FÉ
"Mas, que esta fé seja errónea ou não - pouco importa! Nesta vida cumpro o meu dever, e se me perguntares: porquê? A resposta será fácil: precisamente porque é o meu dever.Por isso, no que toca ao meu agir, limito-me inteiramente a esta vida terrena. Não quero preocupar-me com uma destinação da vida para além da morte; e é assim porque receio que com isso estivesse a negligenciar a minha destinação relativamente a esta vida. Não temo as penas infernais do futuro porque temo, isso sim, a minha própria consciência, e não conto com uma recompensa do lado de lá da sepultura porque posso recebê-la do lado de cá."Heinrich von Kleist, «Sobre a ilustração da mulher», in Sobre o Teatro de Marionetas e outros escritos, trad. José Miranda Justo, Lisboa: Antígona, 2009, p. 66.
FLOR BELA
Sunday, December 7, 2025
ENTRE LA LICORNE ET TOI
"Entre o unicórnio e tu
o espaço de um grito
cega procura
do teu corpo
no interior de ti
tu meu amor
espaço entre unicórnio
e eu"
Isabel Meyrelles, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 63.
Saturday, December 6, 2025
ORIGENS
"Ao crime de desobediência, seguiu-se o de homicídio, praticado por Caim. O homem, que matou o homem, não sentiu repugnância em matar os bichos, e particularmente os carneiros. Com a morte violenta dos carneiros, veio a reforma no vestido. Começaram os homens a vestir-se com as peles das suas vítimas, e não foi sem razão, atendendo que, no Outono, se despegavam as folhas das árvores e o pudor ficava em transe até à Primavera."
Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, Porto: Porto Editora, 1991, p. 9.
Friday, December 5, 2025
NO PRINCÍPIO
"No princípio, Adão e Eva amanheceram nus, e estavam contentes, ao que parecia, com a singeleza do seu trajar. Não está sobejamente averiguado se Adão e Eva anoiteceram contentes, no primeiro dia da humanidade. O certo e sabido é que se vestiram de folhagem de figueira, logo que a serpente os embaiu a comerem do fruto proibido. Devemos inferir que o pudor foi consequência do pecado; e que, a não existir o pecado, essa bonita coisa, que se chama pudor, faltaria à beleza da mulher; e os poetas, e romancistas, e moralistas desconheceriam um manancial de graciosos discursos, sermões, e madrigais, que correm impressos acerca do pudor. Ainda assim, melhor fora que Eva não desse trela à serpente, e que a virtude ingénita da inocência nos deixasse andar, sem vergonhas do mundo, quais saímos das mãos do Criador."
Camilo Castelo Branco, Noites de Lamego, Porto: Porto Editora, 1991, p. 9.
Wednesday, December 3, 2025
PUPILAS MÍSTICAS
Monday, December 1, 2025
INDEPENDÊNCIA
E este lindo trevo, ó Povo, como tu o adoras!
Ai!, mal é possível pensar ou dizer coisa de jeito
Que feroz não vá ferir Estado, Deuses, Costumes."
Sunday, November 30, 2025
SANTO ANDRÉ
METAFÍSICO
"Experimentemos falar com o idiota do meu filho sobre ruínas. É que ele ainda não percebeu. Para ele, tudo ainda permanece no estado animal decomposto, do pequeno objecto (-a) perdido - seja cama ou penico, para ele tudo é ainda mais pequeno do que ele próprio e, portanto, objecto sempre à mão, transicional, ruína. Mas ele não lhe dá o nome de «ruína». Afirma apenas: «São coisas como eu. Parecidas comigo. Eu com elas entendemo-nos optimamente. Medimo-nos a palmo, contamo-nos pelos dedos. Até nos partirem, somos brinquedos. Velhos ou novos, enquanto nos encontrarmos à mão de semear e nos mostrarmos manuseáveis, seremos sempre coisas com interesse. Objectos pequenos. Ruínas.»É que o «maior» não existe para ele. Tudo o que lhe passa do ombro ou da cabeça, considera-o já de outro mundo. Que não existe. Como lhe explicar, então, a desagregação do grande até ao residual ou ao pequeno? Se eu lho conseguisse explicar, penso que para ele, em breve, a Ruína constituiria uma espécie de Deus. O metafísico."
Fernando Guerreiro, a sagrada família, papéis impossíveis, 2025, p. 39.
Saturday, November 29, 2025
EMBEBIDO
"Borboleta que poisa em flor, noutra e noutra
Em seu voo cabe toda a vida recordada
Todo o infinito, todo o Eterno, toda a Beleza.
E o mais pequeno gesto vem embebido de Sagrado
As mãos outras borboletas sublimes
Abrem nos relógios horas distintas."
Mário T Cabral, O Livro dos Anjos, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2021, p. 61.
À GRAÇA
Friday, November 28, 2025
QUE MAIS FAZER?
"Geoffroy de Anjou tocou seu clarim:
Os Franceses, por ordem de Carlos, metem-se ao caminho.
Todos os seus amigos, que encontraram mortos,
Logo são transportados para uma sepultura.
Há muitos bispos e abades,
Monges, cónegos e padres tonsurados,
Que os absolveram e benzeram em nome de Deus.
Põe-se a arder incenso e mirra.
Enaltece-se os corpos com grande pompa,
Para de seguida os enterrar com toda a dignidade.
Depois, abandonam-nos. Que mais fazer?"
Tuesday, November 25, 2025
COM AROMA DE LUZ
"Olhava pró infinito absorto, só, esquecido...
A terra estava só. Às vezes um gemido
D'alguma ave nocturna a pairar na amplidão
Fazia palpitar meu pobre coração.
E olhava de repente, em convulsões de susto
Um hercúleo gigante, um pequenino arbusto.
Chegavam-me ao ouvido umas canções ligeiras
De alegres e viris e boas lavadeiras
Que o ar divino e são depressa embalsamava,
Com aroma de luz que ao luar exalava
Um fresco laranjal, no meio dum pomar:
Pinta as flores, Jesus, com ondas de luar..."
Teixeira de Pascoaes, Embryões, Amarante: Officina Noctua, 2025, p. 31.
Monday, November 24, 2025
VEILLANTIF
Sunday, November 23, 2025
UMA LUZ
BRAMIMONDE
"Eis que chega a rainha Bramimonde.
«Amo-vos muito», Sire, diz ela ao conde,
«Pois o meu senhor e seus homens vos estimam bastante.
Enviarei dois colares de ametistas e granadas!
Valem mais que os tesouros de Roma.
O vosso Imperador nunca viu nada tão belo!
Ele recebe os colares, e coloca-os na sua bota."
Friday, November 21, 2025
O INSTANTE
"Se Deus existe, é porque existe no livro; se os sábios, os santos e os profetas existem, os intelectuais e os poetas, se o homem e o insecto existem, é porque encontramos os seus nomes no livro. O mundo existe porque o livro existe; pois existir é crescer com o próprio nome.O livro é a obra do livro. É o sol que engéndra o mar, é o mar que revela a terra, é a terra que esculpe o homem; caso contrário, sol, mar, terra e homem seriam lugar de uma luz sem objecto, água movente sem partidas nem regressos, exuberância das areias sem presença, expectativa de carne e de espírito sem vizinhança, sem ter correspondente, sem duplos nem contrários.A eternidade desafia o instante com o verbo.O livro multiplica o livro."Edmond Jabès, O Livro das Questões, trad. Pedro Eiras, Porto: Flâneur, 2021, p. 33.
Thursday, November 20, 2025
PRIMEIROS MOMENTOS
"Suponhamos que a humanidade deixou passar despercebidos os seus primeiros sentimentos, as suas primeiras emoções. Quando mais tarde deu por ter deixado despercebidos esses primeiros momentos, teve um movimento de recuperação e, pela mecânica da memória, obteve-os de novo e sem adulteração possível. Estavam incólumes. E até ao fim dos tempos cada pessoa leva em si a testemunha dos primeiros momentos da humanidade."
Almada. Os Painéis A Geometria e Tudo - As entrevistas com António Valdemar, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 73.
Wednesday, November 19, 2025
A DIVINA E A HUMANA
"Como lhe parece que possa ser comunicada ao homem corrente, como é o intuito destas entrevistas, uma ligação da citação de Schiller com o provérbio grego?Deste modo: a linha curva e a linha direita são da mesma natureza, a natureza inanimada. Quem faz a curva é o deus, cuja natureza é a das divindades. Quem faz a direita é o homem, cuja natureza é a humana. Ora o que desejamos relacionar? Aquele que faz a curva com aquele que faz a direita? São de naturezas distintas. Mistério. Não poderemos então relacionar senão o que o deus e o homem fazem: a curva e a direita. Estas são abstrações de uma mesma natureza e concretizadas na extensão. Isto é, apenas numa terceira natureza, a inanimada, sem opinião, neutra, encontraremos relação mediata entre as duas outras naturezas fechadas: a divina e a humana."Almada. Os Painéis A Geometria e Tudo - As entrevistas com António Valdemar, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 76.
Tuesday, November 18, 2025
TREME EM LUZ A ÁGUA
"Treme em luz a água.
Mal vejo. Parece
Que uma alheia mágoa
Na minha alma desce -
Mágoa erma de alguém
Que algum outro mundo
Onde a dor é um bem
E o amor é profundo.
E só punge ver
Ao longe, iludida,
A vida a morrer
O sonho da vida."
Sunday, November 16, 2025
ALGOFOBIA
"As reflexões de Weil sobre a dor causam-nos estranheza. Hoje em dia, somos hostis ou insensíveis à dor. Rejeitamos qualquer forma de dor. A algofobia domina a sociedade. Nem mesmo o amor pode causar dor. Também a arte e a música sucumbem ao delírio da agradabilidade. Tudo é polido para se adequar ao formato do consumo e da vivência. Qualquer intensidade é evitada porque causa dor. O like enquanto analgésico do presente domina não só as redes sociais, mas também todas as áreas da cultura. Nada deve causar dor. A própria vida, moldada pelo consumo, perde toda a profundidade e intensidade. O consumo e a religião são incompatíveis. A algofobia bloqueia o caminho para Deus."
Byung-Chul Han, Conversas sobre Deus - Um Diálogo com Simone Weil, trad. Ana Falcão Bastos, Lisboa: Relógio D'Água, 2025, pp. 74-75.

















































