Sunday, August 31, 2025

POBLE PERDUT

 



"Como se os exasperasse a claridade
do início do dia,
mais que cantar, em uníssono os pássaros gritam.
Não há ninguém na estreita estrada,
e ao chegar ao tanque de água turva
sinto-a, adusta e grave, vendo-me passar.

Em frente vejo a colina e as casas aferradas
onde já quase ninguém vive.
Mas se tivesse vindo aqui na minha infância
teria podido ver toda essa gente
que saía a esta hora, com animais e ferramentas,
para ir trabalhar o campo.

É por isso que a água do tanque,
Ao passar por ela, se mostra tão severa.
Porque à aldeia, com os seus campos,
chamei sempre esta paisagem. Como se à luz do dia
talvez a mesma que exaspera os pássaros,
nomeasse assim um drama tão distante
que não o posso compreender."


Joan Margarit, Animal de Bosque, trad. Àlex Tarradelas, Rita Custódio e Miguel Filipe Mochila, Lisboa: Língua Morta/Flâneur, 2024, p. 29.

COMO OS SANTOS DO DESERTO

 



"Os aziagos dias, os quebrantos,
As traições, as vinganças e os desprezos,
Já não sente seus golpes nem seus pesos
Aquele que perdeu vossos encantos.

São rosários de dor os tristes cantos ,
Que destes lábios solto em febre acesos,
E, sem luz, os meus olhos estão presos
Pelas grades de vidro de meus prantos.

Vivo só, como os santos do deserto,
Dia a dia o sofrer se me renova,
E choro tanto que, do fim já perto,

Em breve, de alto amor bem clara prova,
Os prantos, que por vós, Senhora, verto,
Nesta penha abrirão a minha cova."


Eugénio de Castro, "Depois da Ceifa", in Antologia, selec. Albano Martins, Lisboa: IN-CM, 1987, p. 208.

Friday, August 29, 2025

SENTIDOS

 


"66. O primeiro ponto será ver com a vista da imaginação os grandes fogos, e as almas como em corpos ígneos.

67. O segundo, ouvir com as orelhas prantos, alaridos, vozes, blasfémias contra Cristo nosso Senhor e contra todos os seus santos. 

68. O terceiro, cheirar com o olfato fumo, pedra enxofre, sentina e coisas pútridas. 

69. O quarto, saborear com o gosto coisas amargas, como lágrimas, tristeza e o verme da consciência. 

79. O quinto, tocar com o tato, a saber, como os fogos tocam e abrasam as almas."



Santo Inácio de Loiola, Exercícios Espirituais, trad. Mário Garcia, S. J., Braga: Editorial A. O., 2016, pp. 56-57. 

Thursday, August 28, 2025

ÂNGULO PROFUNDO

 



"não entendo as conversas de café
os rituais sociais
códigos de pertença

sorrio fora de tempo

há pessoas que parecem encaixar
como se tivessem o molde certo
eu sou aresta
ângulo profundo
a frase deslocada no fim do poema

não pertenço a nada
não pertenço a mim. 

e às vezes pergunto:
quem és tu pra estar aqui"



Rui Sobral, Noturnos, Lisboa: Poética Edições, 2025, p. 56. 

Wednesday, August 27, 2025

REVENANTS


 

"Há quem diga que os mortos vão depressa, mas isso não é sempre verdade. De vez em quando voltam, trazendo com eles qualquer coisa de desprendido, como se estivessem de visita em casa alheia que não importa muito respeitar. Fazer relações já não é com eles e mostram-se em toda a sua solidão, perniciosa coisa sem ênfase nem carinho."

Agustina Bessa-Luís, O Mistério da Légua da Póvoa, Lisboa: O Independente, 2004, p. 158. 

Tuesday, August 26, 2025

VIRTUDE

 


" - Ah! - disse eu. - Acha que encontramos uma pista? Cherchez la femme sempre é alguma coisa. 
- A sociedade é o mocho, um banco de três patas. Uma é o sexo, outra é o dinheiro. 
- E a terceira?
- O dom com que se nasce, que pode deitar tudo a perder. Maria Adelaide nasceu com a virtude, o que na mulher é uma desgraça que nunca vem só. Havemos de conversar sobre isso."


Agustina Bessa-Luís, O Mistério da Légua da Póvoa, Lisboa: O Independente, 2004, p. 115.

Sunday, August 24, 2025

À SOLTA

 


"HAMLET - (...)

Donzelas, onde estais já donzelas. Veio o vosso ventre intacto mas levais em cada dedo um fornecedor de veias rebentadas. 

                                                                        Passa o tempo.

Mulheres, não estais cansadas de parir? Vede quantos exércitos, descendentes vossos, pelejam em todo o mundo? E as espadas? Vós as forjaste com o bater dos corações. Por isso vossos seios cobardes, já assinalam o último pôr do sol."



Luis Buñuel, Hamlet - Tragédia Cómica, Ato IV, cena I, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, pp. 39-40. 

Saturday, August 23, 2025

LAMECUM

 


"Calaram-se, por momentos. Adensavam-se as sombras. Ao lusco-fusco, a espessura do arvoredo ganhava a interrogação do mistério e, da brandura quente dos ninhos, vinha o alvoroçado cacarejar dos melros. Uma carriça, pequenina como o botão de rosa, esfurancou na folhagem, repipilando agastada. Para além, à volta da torre de menagem do Castelo, erguiam-se rolos de fumo, como se os fogaréus das catorze legiões de Trajano se não extinguissem ainda."


Rodrigues da Cunha, A Fidalga do Balsemão, Lisboa: União Gráfica, 1966, p. 198. 

ANALOGIAS


 

"AGRIFONTE - Dizia, amigo Hamlet, que os mortos estão como estamos nós: Também os vivos pouco diferem uns dos outros e apenas se distinguem os que se demonstram como um teorema. Mas, dizei: que é feito de Margarida?"


Luis Buñuel, Hamlet - Tragédia Cómica, Ato I, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 11.

Friday, August 22, 2025

ROMÂNTICO

 



" - Prefiro que apontem uma espingarda, que sempre pode haver erro de pontaria. Mas se dizemos mal dum chapéu, caímos ali mortos.
- Somos ou não um país de românticos?
- O romantismo é uma forma de irritação, penso eu.
- Talvez - disse eu. Ainda é a melhor maneira de acabar uma conversa."


Agustina Bessa-Luís, O Mistério da Légua da Póvoa, Lisboa: O Independente, 2004, p. 87. 

Thursday, August 21, 2025

GRAÇA


 

"A antropologia jamais suprirá a moral nas causas supremas do embelezamento espiritual humano . A autêntica sedução está para além das mais rigorosas linhas antropométricas de pronunciadas belezas espartanas. É a graça da alma à flor do corpo. Nele se reflecte equilíbrio, sonho, ideal, perfume puríssimo do espírito."


Rodrigues da Cunha, A Fidalga do Balsemão, Lisboa: União Gráfica, 1966, p. 21. 

Wednesday, August 20, 2025

TERRÍVEL

 


"- A ficção é assim. Imagina o Alexandre Dumas a contar coisas que se passaram, em vez de coisas que se podiam ter passado? Era uma tolice e, mais do que tolice, era um mau presságio. Nunca se deve dizer a verdade em público, foi para isso que os jornais se inventaram. Sabe porquê? A verdade não se pode acolher em nossa casa. É como a santidade. Os sinónimos de santo são terrível ou ciumento (Jos. 24, 19). Não há maior desejo do que o desejo da verdade. Mas ela inspira terror, ninguém a quer ter por hóspede, nem sequer por vizinho."


Agustina Bessa-Luís, O Mistério da Légua da Póvoa, Lisboa: O Independente, 2004, pp. 75-76.  

Tuesday, August 19, 2025

SILÊNCIO QUE DORME


 

"O silêncio é um ingrediente essencial da profundidade do amor. Ninguém soube dizê-lo melhor que Maurice Maeterlinck. Ouçamo-lo com atenção: «Se vos for dado descer um instante na vossa alma até às profundezas habitadas pelos anjos, o que antes de mais lembrareis de um ser amado profundamente não são as palavras que ele disse ou os gestos que ele fez, mas os silêncios que vivestes em conjunto; pois só a qualidade desses silêncios revelou a qualidade do vosso amor e das vossas almas.» Tal é o «silêncio ativo»; mas há outro, «passivo», «silêncio que dorme», que «não passa de reflexo, do sono, da morte ou da inexistência.»"


Alain Corbin, História do Silêncio, trad. António Sabler, Lisboa: Quetzal, 2025, p. 133.

FEAR OF SILENCE (para a memória de Terence Stamp)

 


"Maeterlink sublinhou, com a sua habitual acuidade, várias raízes do medo do silêncio. É devido ao seu «sombrio poder» que sentimos «um medo tão profundo do silêncio, e dos seus jogos perigosos». Em rigor, suportamos o silêncio isolado, o nosso próprio silêncio: «mas o silêncio de vários, o silêncio multiplicado, e sobretudo o silêncio de uma multidão, é um fardo sobrenatural cujo peso inexplicável as almas mais fortes temem». É por isso que «passamos uma grande parte da nossa vida em busca dos lugares onde não reina o silêncio. Assim que dois ou três homens se encontram, eles não pensam senão em banir o inimigo invisível.» E Maeterlinck interroga-se: «Quantas amizades vulgares não têm outro fundamento senão o ódio do silêncio?»"


Alain Corbin, História do Silêncio, trad. António Sabler, Lisboa: Quetzal, 2025, p. 157. 

Sunday, August 17, 2025

ATMOSFERA PARALELA

 




"Éter com abundância nesta estrada,
aromas e papoilas, pés de rosa,
uma atmosfera paralela, ânsia
tão calma e calculada, sinuosa
via sacra apressada e tão profana

Que o meu sacrilégio é ser poeta
experimentador de tudo que transporta,
perante o Anjo, o soro da palavra:
só, num bando d'areia movediça,
alerta, agrafado a uma asa"




António Barahona, Livros da Índia, Lisboa: IN-CM, 1984, p. 49.

Saturday, August 16, 2025

O NUME CHORA

 


"Desmaia a luz: e Pã, a quem a dor empana
A cornígera fronte há pouco alegre e viva,
Sentado à beira duma fonte fugitiva
Esquecido entre as mãos uma flauta serrana.

Desprende a voz dolorida e chora a desumana
Siringe, a bela ninfa, a tentadora esquiva,
Que, por fugir do deus à carícia lasciva,
Junto ao rio Ladon se transformara em cana.

O nume canta; e, por ouvi-lo, vêm das grutas
Felpudos faunos, ninfas nuas, feras brutas,
E Apolo, envergonhado, esconde-se no mar;

O nume chora; e às suas mágoas infinitas, 
Perto a fonte soluça e as estrelas benditas
Como um pranto de luz acendem-se no ar."



Rodrigo Solano, Fumo, ed. act., Penafiel: Câmara Municipal de Penafiel, 2010, p. 161. 

SÚPLICA


 
"Árvore minha amiga, abençoada
Alminha vegetal, com que ternura,
Abres o brando seio à luz sagrada,
Que, como um vento místico, murmura.

Logo te viste mãe; e, para a Altura,
Ergueste as mãos, alegre e alvoroçada;
E lembravas assim a Virgem Pura,
Ao sentir-se do Espírito pejada.

E o teu corpo, todo ele, era uma flor.
E perfumes de idílio e casto amor,
O céu azul doirado embriagavam...

Mas, na sua quimérica alegria,
Essa árvore feliz nem sequer via
A sombra, que seus ramos projectavam..."



Teixeira de Pascoaes, As Sombras, Lisboa: Assírio & Alvim, 1996, p. 78.

Thursday, August 14, 2025

VULTO


 

"Vulto
sem nenhum perfil
perfilado
filado
febril:

puro 
vulto
de pedra
insone a re-
cortar o poema"


António Barahona, Livros da Índia, Lisboa: IN-CM, 1984, p. 93. 

Wednesday, August 13, 2025

ENCADENADO

 


"El hombre, encadenado a la tierra, eleva su ojos al cielo. Desgraciado ser! No te contentas con saber que existes? Es la vida don tan apreciado que te empeñas en prolongarla más allá del sepulcro, dirigiéndote a desconocidas regiones, bastándote con huir de la tierra para adentrarte a los cielos?"


Lord Byron, Las Peregrinaciones de Childe Harold, II, 6, s. tr., Madrid: Club Internacional del Libro, 1991, p. 42. 

Tuesday, August 12, 2025

ANIMALIDADE

 


"- É a animalidade, a besta que sofre e que ama, que é como que o esboço do homem, toda essa animalidade fraterna que vive da nossa vida!... Sim, eu desejaria metê-la na arca, dar-lhe vida entre a nossa família, mostrá-la incessantemente confundida connosco, completando a nossa existência. Conheci gatos cuja presença era o encanto misterioso da casa, cães que se adoravam, cuja morte era chorada e que deixava no coração um luto inconsolável. Conheci cabras, vacas, burros, de uma importância extrema, cuja personalidade desempenhou um papel tal, que se lhe deveria escrever a história... Aí tens tu! O nosso Bonhomme, o nosso velho cavalo, que nos serviu durante um quarto de século, tu não acreditas que ele misturou o seu sangue com o nosso e que é já da família? Nós modificámo-lo, assim como ele próprio actuou sobre nós, acabamos por ser feitos à mesma imagem; e tão verdade é isso, que, quando agora o vejo meio cego, o olhar vago, as pernas tolhidas de reumatismo, beijo-o nas duas faces como se fora um parente pobre, que estivesse a meu cargo... Ah! animalidade, tudo  quanto se arrasta e tudo quanto se lamenta abaixo do homem, que lugar de uma simpatia imensa seria preciso dar-lhe, numa história da vida!"


Émile Zola, O Doutor Pascal, trad. José Carlos de Menezes, Lisboa: Guimarães & C.ª, s.d., p. 114. 

Monday, August 11, 2025

RENÚNCIA

 


"O senhor Bellombre tinha-se levantado, e seguia a alameda do seu jardim, em passos curtos e sossegados. Então, Clotilde, que continuava a olhar para ele, silenciosa, disse no fim:
- Contudo, tem a alegria da renúncia. Renunciar, não viver, reservar-se para o mistério, não foi isso toda a grande felicidade dos santos?
- Se eles não viveram - bradou Pascal - não podem ser santos."


Émile Zola, O Doutor Pascal, trad. José Carlos de Menezes, Lisboa: Guimarães & C.ª, s.d., p. 54.

Sunday, August 10, 2025

ATENTO

 



"Absorvido no ovo a ver nascer o pássaro
Atento à luz mínima em cada casca
Incorporava na desordem pedra a pedra
O próprio corpo de poeta em carne e osso

Era ele o autor e não o acaso
Era ele o autor e não a escrita
Era ele o autor da obra que primava
Por amor do descuido rigoroso

À imagem de Deus criava um mundo
Sem imagem de Deus havia espelho
O espelho reflectia o invisível

Ele não era o autor, não era isto
O pássaro, entretanto, emergiu do ovo
A chave do mistério era inútil"



António Barahona, Livros da Índia, Lisboa: IN-CM, 1984, p. 113.

Saturday, August 9, 2025

HORTUS

 



"A árvore não brotou no Jardim.
Desconheço a doçura do seio das flores.
Sou o fruto das raízes."


Maria Ângela Alvim, Superfície - Toda Poesia, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 45.

Friday, August 8, 2025

ESTIO

 



"Childe Harold no precavia la miseria: pareciase al insecto en los días de estio, que se place al sol de mediodía, sin pensar que antes de que llegue el crepúsculo el viento frío,de las tempestades puede soplar e sorprenderle. No había llegado aún al tercio de su vida, cuando se vió atacado por algo peor que la desgracia: sintió los asqueos de la saciedad. Se cansó de su tierra natal, que le parecía más solitaria que la triste celda de un eremita."


Lord Byron, Las Peregrinaciones de Childe Harold, I, 4, s. tr., Madrid: Club Internacional del Libro, 1991, p. 12.     

Thursday, August 7, 2025

TENDÊNCIAS

 


""Existem tendências em todos os clãs que são precisamente as que produzem uma linhagem, um grupo com características similares e definitivas. Estão sempre presentes porque  se enraízam pelo que dificilmente nos livramos delas e daqueles trejeitos que já sicrano ou fulana tinham e que não conseguimos disfarçar."


Lourença Baldaque, A Invenção da Vida, Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 98. 

Wednesday, August 6, 2025

ESTADOS DE ESPÍRITO


 

"Os poetas fazem diagnósticos; não têm cura, apenas montam a doença. Eles definem como ninguém os estados de espírito. Quem sabe se aquilo que existe de verdadeiramente distinto entre ambos seja o uso da linguagem: uma é científica outra é lírica."


Lourença Baldaque, A Invenção da Vida, Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 61. 

Tuesday, August 5, 2025

MEMÓRIAS


 

"Contudo, a memória é o melhor aparelho que foi posto à disposição da mente, é através desse dispositivo que encontro a mais adequada definição de mim próprio. As memórias surgem-nos através de imagens gráficas, quase como que micro-histórias que quando compiladas dão origem ao meu pedaço de vida. São elas que conservam o resultado procedente de toda uma existência, e quando as revisito apercebo-me de que raramente me dei por vencido. Apesar disso sinto que a minha vida em sido feita de provocações que adiaram muito mais do que me permitiram avançar."

 


Lourença Baldaque, A Invenção da Vida, Vila do Conde: Verso da História, 2014, p. 7. 

Monday, August 4, 2025

TENDÊNCIA


 

" - É, na verdade, espertinha, a juventude de hoje - disse Gabriel a Marcelina. E, para Zazie: - Então? Porque queres ser professora?
- Para chegar ao pêlo aos miúdos - respondeu Zazie. - Aos que tenham a minha idade, dentro de dez anos, dentro de vinte anos, cinquenta, cem, mil anos; sempre garotos para os fazer ralar. 
- Essa agora!  - murmurou Gabriel. 
- Serei má como tudo com eles. Fá-los-ei lamber o chão e comer a esponja do quadro preto. Espetar-lhes -ei os compassos no traseiro; dar-lhes-ei pontapés nas canelas, porque usarei botas, no Inverno, altas até aqui (gesto),com grandes esporas, para lhas cravar na carne do traseiro.
- Sabes? - disse Gabriel, com calma -, segundo afirmam os jornais, não é nesse sentido que se orienta a educação moderna. É até, precisamente, ao contrário. A tendência é para a doçura, a compreensão, a gentileza. Não foi isto, Marcelina, que veio no jornal?
- Sim - respondeu Marcelina. - A ti, Zazie, trataram-te muito mal na escola?
 - Não faltava mais nada.
- Aliás - continuou Gabriel - dentro de vinte anos, não haverá mais professoras: serão substituídas pelo cinema, a TV, a electrónica e coisas assim. Também isso veio no jornal, outro dia. Não veio, Marcelina?
- Sim - respondeu esta. 
Zazie entreviu esse futuro, num instante. 
- Sim - continuou Zazie -, serei astronauta."



Raymond Queneau, Zazie no Metro, trad. Alexandre Rodrigues, Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, pp. 18- 19. 

Sunday, August 3, 2025

FIGURAS LOURAS


 

"Rytmel agradeceu, deitou uma gota de chá na pequenina taça dourada. Eu, no entanto, olhava a condessa.
Estava originalmente linda. Tinha o vestido levemente decotado sobre o seio. E o luar dava-lhe aquele nimbo poético que todas as claridades misteriosas, ou venham de astros mortos ou de luzes desmaiadas, dão às figuras louras."

Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra, Lisboa: Circulo de Leitores, 2006, p. 142. 

DELEITE

 


"Às onze horas da noite fomos tomar chá para o terraço. Havia um admirável luar. O terraço tem na sua base um grande tanque, cheio de plantas da água, de largas folhas, e de nenúfares, e onde poderia navegar um escaler. A água escorre ali com um murmúrio doce. A hora era adorável. As redondas massas de verdura do jardim, os arvoredos, apareciam como grandes sombras pesadas e cheias de mistério. Ao longe os campos e os prados esbatiam-se num vapor docemente luminoso e pálido. Havia um silêncio suspenso. As coias pareciam contemplar e sonhar.
Sobre uma mesa do terraço estava um bule do Japão e três pequeninas chávenas de Sèvres, uma das quais, de um gosto original e feliz, era a da condessa. Tínhamos tomado chá, e eu notava a excêntrica forma, o delicado desenho, a pura perfeição daquela maravilhosa e pequena chávena, que a condessa chamava a sua taça
- O rei Artur só podia beber pelo seu copo de estanho... - disse Rytmel, sorrindo.
- E eu só posso tomar chá por esta taça - disse a condessa. - Não sei porquê, representa para mim o sossego, a felicidade. Quando estou triste e bebo por ela parece-me que se dissipa a nuvem. Uma flor que eu queira conservar ponho-a dentro dessa chávena, e a flor não murcha. Demais o chá bebido por ela tem um gosto especial: ora veja, captain Rytmel! Beba!"


Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra, Lisboa: Circulo de Leitores, 2006, p. 141.  

Friday, August 1, 2025

PASSEIO

 


"Rytmel dizia:
- E custa-lhe morrer? 
- Muito e nada - respondia a condessa. - Muito porque morre comigo o primeiro interesse que tenho na vida, que é a sua amizade; nada, porque, francamente, sou eu feliz?
- Se a minha amizade é para si um interesse profundo...
A condessa calou-se. 
- Oh! Compreendo-a bem - disse Rytmel. - Sabe porque não é feliz, apesar da minha amizade? É porque não é a minha amizade o que o seu coração precisa. Oh! Deixe-me falar! É o amor profundo, inalterável, omnipotente, que esteja em todos os momentos da sua vida e em todas as ideias do seu espírito; que viva do prazer e viva do sacrifício; que seja a última razão da vida, a consolação, a esperança, o ideal absoluto; que pelo que há de mais ardente prenda os seus olhos, e pelo que há  de mais elevado prenda a sua alma...
- Cale-se, cale-se - dizia a condessa. - É uma loucura falar assim... Vamos passear, vamos ver o mar."


Eça de Queirós e Ramalho Ortigão, O mistério da estrada de Sintra, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 105.