Tuesday, October 31, 2017

VÉSPERAS



" - Quando deixaremos de chorar, Ricardina?
- Só não choram os que morrem... - respondeu ela."



Camilo Castelo Branco, O Retrato de Ricardina, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1971, p. 187. 

FILOSOFIA



" - Porque não havemos de ser como os animais?
- Vamos lá! Estás a disparatar!
- Não estou, não... Não devemos ter pena dos animais. Pastam, dormem, são inocentes! Não têm passado, não têm futuro. 
- Grande filosofia!
- Não sei se é filosofia, mas tenho inveja deles."


Boileau-Narcejac, Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes, trad. Miguel Freitas da Costa, Alfragide: Asa, 2017, p. 75. 

Monday, October 30, 2017

VIDE


"As trevas precederam a luz, o inferno precedeu o céu. Para que o homem compreenda a origem, é sobre este abismo que deve ousar debruçar-se - e ver."

Valentine Penrose, Erzsébeth Báthory, a condessa sanguinária, trad. Helder Moura Pereira, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 126. 

MATÉRIA



"Morrer! Volver ao Nada! Oh! quimera ilusória!
Nada se extingue totalmente. Sob a lousa, 
Ainda resta do que foste alguma cousa.
Extingue-se somente a forma transitória. 

A matéria, essa não. Decomposta, fundida
Na retorta da cova,em seiva, pó disperso, 
De novo há de girar nas veias do Universo, 
Retomando outra forma, outro ser, outra vida. 

E em vão, em vão a própria forma se evapora. 
Sempre do morto amado a imagem ressuscita
E, no doce pungir da saudade infinita, 
Dentro da nossa alma eternamente mora."


Rodrigo Solano, Fumo, ed. at., Penafiel: Câmara Municipal de Penafiel, 2010, p. 78. 

Thursday, October 26, 2017

EMURCHECIDA



"Na floresta emurchecida há um canto de ave
que parece sem sentido, nesta floresta emurchecida. 
E, porém, o rotundo canto de ave descansa 
neste instante que o criou, 
amplo como um céu sobre a floresta emurchecida. 
Docilmente tudo se instala nesse grito:
o país inteiro parece repousar nele em silêncio, 
nele parece aninhar-se o grande vento, 
e o minuto, que quer continuar, 
dele se ergueu, pálido e silencioso, 
como se soubesse coisas que
matariam qualquer um."


Rainer Maria Rilke, O Livro das Imagens, trad. Maria João Costa Pereira, Lisboa: Relógio d'Água, 2005, p. 91. 

Wednesday, October 25, 2017

É TEMPO



"Senhor: é tempo. O Verão foi muito longo. 
Lança a tua sombra sobre os relógios de sol
e solta os ventos sobre os campos. 

Ordena aos últimos frutos que amadureçam;
dá-lhes ainda dois dias meridionais, 
apressa-os para a plenitude e verte
a última doçura no vinho pesado. 

Quem agora não tem casa, já não vai construí-la. 
Quem agora está só, assim ficará por muito tempo, 
velará, lerá, escreverá longas cartas
e vagueará inquieto pelas alamedas acima e abaixo, 
quando caírem as folhas."


Rainer Maria Rilke, O Livro das Imagens, trad. Maria João Costa Pereira, Lisboa: Relógio d'Água, 2005, p. 97. 

Tuesday, October 24, 2017

TARDE (para a memória de Pedro Lyra)



"Espero por ti e já é tarde

Petrifico e choro e já é tarde

Apenas os versos são de mármore

É líquido o mais e dói-me a sede
Deste fogo aceso que não arde"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 424. 

Sunday, October 22, 2017

INCÊNDIOS



"Esgotou-se a fonte de oiro dos dias, 
Os tons da tarde, azuis e outonais:
Morreram doces flautas pastorais
Os tons da tarde, azuis e outonais
Esgotou-se a fonte de oiro dos dias."


Georg Trakl, "Rondel",  in Expressionismo Alemão - Antologia Poética, trad. João Barrento, Lisboa: Ática, p. 155. 

Friday, October 20, 2017

ESTADOS


"As coisas frias aquecem-se, o quente arrefece-se, o húmido seca, o seco humidifica-se."

Heraclito, Fragmentos Contextualizados, trad. Alexandre Costa, Lisboa: IN-CM, 2005, p. 147. 

Wednesday, October 18, 2017

DA MÃO



"Terra negra, negra
terra, mãe das
horas
desespero:

Aquilo que da mão e da sua 
ferida a ti te
nasceu fecha
os teus cálices."


Paul Celan, "A Rosa de Ninguém", in Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética, trad. João Barrento, 2ª ed., Lisboa: Cotovia, 1996, p. 111. 

Tuesday, October 17, 2017

CRÍTICO



"Ama de um pirómano, não deu a vida
o exemplo que a patrística coou da prosa
e no boudoir de Agripina esqueceu Catão
e compostura, quem se perdoa pecado por política.

Areia sem cal - em seu favor, tal crítico
ser Calígula, que seria devasso, mas não tolo. 
Em muito grão vendeu o que não tinha: 
ideias, humor que não fosse melancolia, 

qualquer melena menos beata, outra toga menos
puída de hipocrisia. À força de enganar ofensas, 
aconteceu-lhe o mais corrente: a paciência."


José Alberto Oliveira, O Que Vai Acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 75. 

Monday, October 16, 2017

TÓXICO


" - O homem - afirmou Versiero - é um anjo incurável. 
- Não - respondi - o homem é um anjo intoxicado."

Giovanni Papini, Vigia do Mundo, Lisboa: Livros do Brasil, 1955, p. 59. 

Sunday, October 15, 2017

O TEMPO



"O que pode pode representar perder ou ganhar tempo? Acha que isso é possível? Acha que o tempo pode outra coisa que não seja perder-se?"

Ana Hatherly, "63 Tisanas (N.ºs 40 a 102)", in Poesia - 1958-1978, Lisboa: Moraes Editores, 1980, p. 169. 

Saturday, October 14, 2017

CÍRCULOS



"A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim, 
E fora de mim, 
Ainda a mim se prende. 

A senda mais perigosa
Em nós se consumando, 
Passamos a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando."


Ana Hatherly, Poesia - 1958-1978, Lisboa: Moraes Editores, 1980, p. 27. 

Friday, October 13, 2017

NARCISO


"De modo que o Narciso do mito não é o Narciso da sabedoria popular, mas exatamente o contrário. No relato de Ovídio, Narciso não se apaixona por si próprio mas pela imagem refletida na água; no relato de Ovídio, Narciso na realidade odeia-se a si próprio, horroriza-se consigo próprio com todas as suas forças e despreza-se, por isso morre quando se vê."

Javier Cercas, O impostor, trad. Helena Pita, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 167. 

Thursday, October 12, 2017

ESTIAGEM



"Da redenção à queda, a estrada já construída
e a ponte que derrocou melancolia, 
a estiagem alongou-lhe pilares,
que o musgo e hera perseguiram. 

Nem mais depressa chega, rútila, vaidade, 
nem fama que fosse de calúnias investida, 
mas riquezas que se colhem por enganos, 
tarde que afeiçoa vinho duvidoso:

em estrumar leiras, lorear charnecas, 
encarteirar aos nabos um fio de água
ou rezar que seja outro conserto mais suave

que azáfama de incrédulos ou luar de
morticínios - na retirada mediu a distância ao Inferno, 
não em léguas, mas em tercetos, hendecassílabos."


José Alberto Oliveira, O Que Vai Acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 47. 

Tuesday, October 10, 2017

AS CIDADES


"Nas cidades
não faz já tempo bom, nem mau sequer - 
o ar das cidades é sempre benzina ou fumos de combustível, 
óleo lubrificante, gases de escapes.

Tal como os fumos sobre um pântano profundo
adensam miasmas, os fumos de automóveis
adensam espessos nas cidades. 


Na Roma antiga, pelas ruas de multidão
não deixavam passar carros de rodas nem quadrigas insolentes.
Só havia passos, passos
de gente
e o suave trotar dos moços das liteiras. 

Em Minos, em Micenas
em todas as cidades de portas de leões
os mortos sulcavam os ares, deixavam-se ficar
deixavam-se ficar à sombra da terra
e inclinavam-se para os lares de outrora. 


Em Londres, Nova Iorque, Paris, 
nas cidades desfeitas 
a custo caminham os mortos pelo ar de lama
pelo paul dos fumos
a custo, calcando cansados os nossos corações."


D. H. Lawrence, Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, pp. 87; 89. 

Monday, October 9, 2017

FUNDO



"A tua vida não podia ser a minha.
Eu não vi a eternidade 
em pôr-do-sol de Alexandria

e no fundo dos copos
procurei como um trapezista
que neles encontra
o pouco talento
e os bolsos rotos."


José Alberto Oliveira, O Que Vai Acontecer?, Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, p. 24. 

Sunday, October 8, 2017

OUTONAL



"Somos do universo da rosa entreaberta,
A explícita
A cândida revelação."


D. H. Lawrence, Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, p. 43. 

Saturday, October 7, 2017

VOLTAR


"Baixa a maré e o corpo como concha desgastada
emerge das águas misterioso e belo.
E a barca pequena regressa vacilante, caindo 
pela maré de rosa
e a frágil alma de volta a casa desembarca 
e enche de paz o coração. 

O coração refeito embala-se na paz
do próprio esquecimento. 

Oh! prepara a tua barca da morte prepara
que vais precisar dela!
Pois a viagem do esquecimento está à tua espera."


D. H. Lawrence, "The Ship of death", in Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, pp. 107-109. 

Friday, October 6, 2017

PARTIR



"E tudo partiu, partiu o corpo
submerso, sumido, inteiramente ausente. 
No cimo a escuridão é tão densa como em baixo
e entre elas a pequena barca
partiu
partiu mesmo.

Chegou o fim, chegou o esquecimento."


D. H. Lawrence, "The Ship of death", in Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, p. 105. 

Thursday, October 5, 2017

QUIETUDE



"Oh! falemos antes da nossa quietude conhecida
ou a conhecer, essa quietude bela, profunda, 
de um coração tranquilo e firme!

Como podemos tornar nosso este repouso?"


D. H. Lawrence, "The Ship of death", in Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, p. 101. 

Wednesday, October 4, 2017

PREPARAR



"Já tens pronta a tua barca da morte, já tens?
Oh! apronta a tua barca da morte que vais precisar dela.

A geada cruel já se anuncia quando caírem as maçãs
densas quase como trovões na terra endurecida. 

E a morte paira nos ares como perfume de cinzas!
Ah! não sentes o perfume?

E no corpo rasgado, a alma receosa
aconchega-se mais fugindo ao frio
que lhe sopra das frestas."


D. H. Lawrence, "The Ship of death", in Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, pp. 99; 101. 

Tuesday, October 3, 2017

EU CAÍDO



"Chegou o outono já e é tempo de cair a fruta
e da longa viagem rumo ao esquecimento. 

Vão caindo as maçãs como grossas gotas de orvalho
rasgando a casca por onde se libertam.

E é tempo de partir, dizer adeus
ao próprio Eu e buscar modos de fugir
do Eu caído."


D. H. Lawrence, "The Ship of death", in Gencianas Bávaras e outros poemas, versão de João Almeida Flor, Lisboa: Na Regra do Jogo, 1983, p. 99. 

Monday, October 2, 2017

CORPO FRIO


"Sem amor. Deserto.

Como as cidades hão-de ser no Fim.
E a Terra há-de ser, glacial. 
E

Este pássaro que canta interrompeu-me.

E o Sol há-de ser um corpo frio. 
E ao mesmo tempo, há-de bulir ao vento
noutra galáxia, a flor da Vida...

O Absoluto é o pássaro que canta."


José Fernandes Fafe, Poesia (Quase toda e até agora), Lisboa: IN-CM, 1987, p. 132. 

Sunday, October 1, 2017

REFERENDUM



"Agora Barcelona, como a fêmea de uma espécie rara que acaba de parir uma ninhada numerosa, jazia exangue e esventrada; das gretas escorriam fluxos pestilentos, eflúvios fétidos tornavam o ar irrespirável nas ruas e nas habitações. Entre a população reinava o cansaço e o pessimismo. Somente alguns mentecaptos, como o senhor Braulio, viam a vida cor-de-rosa."

Eduardo Mendoza, A Cidade dos Prodígios, trad. José Teixeira de Aguilar, Lisboa: Publicações Dom Quixote/RBA Editores, 1994, pp. 18-19.