Wednesday, May 18, 2022

VISÕES

 



"As delícias intelectuais e artísticas que Deus nos proporciona são visões, e, sendo visões, pagamos um preço por elas; e a sede da visão não acarreta necessariamente consigo uma sede do sofrimento concomitante. Olhando para trás, vejo que sofri, não o meu quinhão, mas o suficiente para lhe chamar sofrimento, embora haja um fabuloso saldo a meu favor. Meu bom Deus, por favor, envia-me a Tua Graça."



Flannery  O'Connor, Um Diário de Preces, trad. Paulo Faria, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 40. 

Tuesday, May 17, 2022

FECHAR OS OLHOS NO MURO

 



"A criança fecha os olhos no muro
Conta o tempo que os amigos demoram
A transformar-se

Fecha os olhos no interior dos números
Olha para dentro e em redor e encontra-se
A si mesma

A criança pergunta se há-de ir ter consigo
Ela quer encontrar os amigos, ela quer
Que lhe respondam. Ela calcula a voz alta
A altura do muro, a progressão do silêncio"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 292. 

Monday, May 16, 2022

PORTA

 



"Penso em portas. Descubro uma tese académica com título «Kafka e as Portas» e pergunto-me: porquê as portas? Para mim, Kafka são castelos, praças escurecidas, Kafka são corredores apertados dentro de casa, mas não são portas. Lembro-me de perceber a presença de K. em Praga, no centro histórico, a meio de uma praça à noite. Onde mais senti K. presente foi nos velhos batentes dos portões das igrejas e dos edifícios municipais. Agarrava o batente de uma porta e imaginava um K. miúdo, a fazer o mesmo. Afinal, sim: Kafka são portas."


José Gardeazabal, Quarentena - Uma História de Amor, Lisboa: Penguin Random House/Companhia das Letras, 2021, p. 82. 

Sunday, May 15, 2022

A JANELA

 



"Conduz-me a brisa a momentos que nunca vivi;
de tão certo os tomo, que na verdade lhes pertenço sem contar. 

Daí a pouco, fecho a janela. Chega de sonhar."


Pedro Moreira, Viagens  de Ida e Volta, Vila Nova de Famalicão: Editorial Novembro, 2022, p. 67. 

Friday, May 13, 2022

A PRESSA

 



"O passado tornou-se personagem de filme de ação, cabe-nos acreditar nos seus malabarismos. Há tanta pré-história! E agora a doença e a morte. Algumas pessoas desesperam por um Messias participativo. Não temos pressa de morrer, morrer é antigo, a morte não tem conteúdo, pensamos nela, na melhor das hipóteses, como uma linha reta no céu, acima do horizonte, à altura das nuvens. Não tem conteúdo, a linha aérea da morte. Não queremos que o passado caia no esquecimento. Não queremos que o passado caia."


José Gardeazabal, Quarentena - Uma História de Amor, Lisboa: Penguin Random House/Companhia das Letras, 2021, p. 29. 

Thursday, May 12, 2022

FRACTAL

 




"dentro de cada coração
há uma língua de fogo
dentro da língua de fogo
um pendão azul
dentro do pendão azul
uma centelha negra
dentro da centelha negra
uma gota de luz
dentro da gota de luz
um eco de cada coração"



Alexandra Soares Rodrigues, Il n' y a aucune raison de ne pas aller à Cluny, Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, p. 84. 

Wednesday, May 11, 2022

HÁ IMENSO TEMPO

 



"o meu futuro contigo     há imenso tempo
tem sido sempre o mesmo
os teus olhos
a tua noite
cada coisa tem a sua luz
como frigoríficos fechados
como cozinhar todos os dias
e eu    mulher     não sou uma coisa
não sou armário nem fábrica têxtil
tecer e desmanchar teias é um sonho masculino"


José Gardeazabal, Penélope Está de Partida, Lisboa: Relógio D'Água, 2022, p. 50. 

Tuesday, May 10, 2022

CAMINHO

 



"Ai, por que será que sempre reclamamos
Da providência de Deus ou da Fortuna?
Que nos trazem sempre, de maneiras várias, 
Bem mais do que esperamos?
Alguns homens anseiam por riqueza, 
Que lhes causa a morte ou a enfermidade, 
E outros pedem que os libertem da prisão, 
E pelos criados que são mortos na sua própria casa.
Não conhecemos o que desejamos.
Caminhamos como os ébrios.
Um homem bêbado bem sabe que tem casa, 
Mas não sabe ao certo o caminho para lá chegar,
E para ele o caminho é uma charada. 
E assim também caminhamos nós. 
Procuramos com ânsia a felicidade, 
Mas muitas vezes erramos o caminho."


Geoffrey Chaucer, "O Conto do Cavaleiro", in Contos de Cantuária, trad. Linguagest, Barcelona: Mediasat Group, 2004, p. 46. 

Monday, May 9, 2022

VOLUPTAS

 



"A primavera chegara mais cedo numa abundância de seiva.
A natureza acordava em miríades de rumores. 
A folhagem trémula, nova, dum verde tenro e claro, balançava-se sob a pressão genésica dos insetos na ânsia de se multiplicarem, mordendo-se frementes e insaciados.
A terra abria as suas entranhas em rubras emanações, fecundada pelo sol. 
O espasmo glorioso da reprodução acendia-se e crepitava em toda a parte, desde o escarpado dos montes até  aos mais ignorados recantos. 
A asa rubra do desejo, palpitando, irmanava os seres da mesma angústia, no mesmo ardor, na mesma ânsia...
Um sopro de volúpia turbador e excitante subia em eflúvios cálidos, pondo nas almas uma nova alegria de viver."


Judith Teixeira, "Satânia", in Poesia e Prosa, org. Cláudia Paços Alonso e Fabio Mario da Silva, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2015, p. 301. 

Sunday, May 8, 2022

LIÇÃO

 



"Só é imoral
sermos mortos-vivos, 
sol apagado, 
e gastarmos forças a pôr os outros
fora do sol."


D. H. Lawrence, Sol, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2021, p. 159. 

Saturday, May 7, 2022

PRIVILÉGIOS

 




"o teu problema     Ulisses     não foi a viagem mas o regresso
a poligamia tarda-te a navegação
apura-te o ouvido para sereias
adoça-te a cama de Circe
eu sei    matas monstros   dormes com deusas
a tua odisseia é um saco de palavras
mais monstro      menos monstro
mais olho     menos olho
e     olhado de fora     imensas mulheres
Circe    Calipso    todas
sonhei sê-las
sereias?     cantei com elas
(ouviste?)
a oralidade da odisseia não te desculpa
gozas privilégios de grego antigo     de literatura
aos heróis dão palavras suficientes
e a mim tecidos    silêncios
a ti o verbo e a história
a mim espera e memória
Ulisses
não te quis artimanhas     quis-te homem
to que massacras sem te rires
quero-te a chorar para dentro
quero-te deus feito passarinho"


José Gardeazabal, Penélope Está de Partida, Lisboa: Relógio D'Água, 2022, p. 16. 

Friday, May 6, 2022

VALORAR

 


"O pensar contra «os valores» não afirma que tudo aquilo que se declara como «valores», a «cultura», a «arte», a «ciência», a «dignidade do homem», «mundo» e «Deus», seja sem valor. Ao contrário, importa, finalmente, reconhecer que, justamente pela caracterização de algo como «valor», rouba-se a dignidade daquilo que é assim valorado. Isto quer dizer: ao avaliar algo como valor, aquilo que foi valorado é apenas admitido como objecto para a avaliação pelo homem. Mas aquilo que é algo em seu ser, não se esgota em sua objectividade e, sobretudo, de modo algum então, quando a objectividade tem o carácter de valor. Todo valorar, mesmo onde é um valorar positivamente, é uma subjectivação. O valorar não deixa o ente ser, mas todo valorar deixa apenas valer o ente como objecto do seu operar. O esdrúxulo empenho em demonstrar a objectividade dos valores, não saber o que faz. Quando se proclama «Deus» como «o valor supremo», isto significa uma degradação de Deus.  O pensar através de valores é, aqui, e em qualquer outra situação, a maior blasfémia que se pode pensar em face do ser. Pensar contra os valores não significa, portanto, propagar que o ente é destituído de valor e que é sem importância; mas isto significa: levar para diante do pensar a clareira da verdade do ser contra a subjectivação do ente em simples objecto."


Martin Heidegger, Carta sobre o humanismo, trad. Arnaldo Stein, Lisboa: Guimarães Editores, 1973, pp. 97-98. 

Thursday, May 5, 2022

DIFERENTE

 



"E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta, 
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha. 

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas, 
Nas assinaturas complicadas (ou tam simples e esguias) dos velhos livros.
(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte, 
Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!)
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações, 
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam. 

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime, 
Tudo o que diz o que não diz, 
E a alma sonha, diferente e distraída."


Álvaro de Campos, Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 471. 

Wednesday, May 4, 2022

DO AMOR UNIVERSAL (ESTREIA)

 



"só aquele que observa
e não deseja
acolhe o amor
universal

só o ser
absolutamente solitário
sem desejo do outro
respira o amor
universal

amor puro
resplandecência límpida
amor amor em si mesmo
rejúbilo 
na noz do coração
noz como mente

a consciência
talvez
uma estrela
seja esse ser
puro

resplandecência de amor na luz

uma estrela
incomburível
eterna
o brilho alimentando o brilho

uma estrela

onde caiba 
o brilho do universo
pulsando
anenergético
sem sorver 
sem criar

o todo em si mesmo
não fechado
não aberto
abarcando o todo
proanaléptico
no amor
universal"


Alexandra Soares Rodrigues, Il n' y a aucune raison de ne pas aller à Cluny, Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2022, pp. 37-38.

Tuesday, May 3, 2022

AREAL

 



"Agora eu digo, Fernando, que naquele dia
O espírito vadiava como vadia uma traça,
Entre as flores para lá do areal imenso;

E que o mínimo rumor do vaivém das ondas
Nas algas marinhas e nas pedras submersas
Não incomodava nem o mais ocioso ouvido. 

Foi então que aquela monstruosa traça
Que ficara imóvel pregada no azul
E no púrpura colorido do mar preguiçoso, 

E dormitara ao longo de litorais ossudos, 
Surda para a conversa que as águas fiavam, 
Se ergueu perlada e buscou o rubro ardente

Salpicada de pólen amarelo - tão rubro
Como a bandeira no cimo do velho café - 
E por ali vadiou toda a estúpida tarde."


Wallace Stevens, Harmónio, trad. Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa: Relógio D'Água, 2006. p. 59. 

Monday, May 2, 2022

TEMPO PARA COGITAÇÕES

 



"O amor não é apenas a presença, o amor é também uma memória condividida. 
Quem é o morto e quem é o vivo, se num sonho morte e vida coincidem?
Ai está, uma pessoa tem, enquanto passeia, tempo para cogitações. Sobretudo quando o Sol amolece o crânio e não se topa com um ser falante, durante a caminhada, um dia inteiro."


Gerrit Komrij, Um Almoço de Negócios em Sintra, trad. Fernando Venâncio, Lisboa: Guerra & Paz, 2022, p. 66. 

Sunday, May 1, 2022

MÃE

 



"e os filhos calam-se
lábios fechados perante o
nosso olhar como
uma mudez que lhes seguramos
pela mão"

valter hugo mãe, publicação da mortalidade, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 142. 

METAPSICOLOGIA

 



"Essas imagens apagam o mundo e não têm passado. Não procedem de qualquer experiência anterior. Estamos certos de que são metapsicológicas. Dão-nos uma lição de solidão. É preciso, por um instante, tomá-las apenas para nós. Se as tomarmos em sua instantaneidade, perceberemos que só pensamos nisso, que estamos por inteiro no ser dessa expressão. Se nos submetermos à força hipnótica de tais expressões, vemos que cabemos por inteiros na redondeza do ser, que vivemos na redondeza da vida, como a noz que se arredonda em sua casca. O filósofo, o pintor, o poeta e o fabulista deram-nos um documento de fenomenologia pura. Cabe-nos agora utilizá-lo para captarmos a agregação do ser em seu centro; cabe-nos também sensibilizar o documento multiplicando as suas variações."

Gaston Bachelard, A Poética do Espaço, trad. Antônio de Pádua Danesi, São Paulo: Martins Fontes, 2000, pp. 236-237. 

Saturday, April 30, 2022

ANIVERSÁRIO

 



"Num mundo onde se combate o paganismo intelectual, não podemos invocar o culto do homem ininteligível sem que nos acusem de ódio. É o que fazemos. Nesta negação de pacto com as coisas infrutiferamente exploradas pelo cérebro, há uma atitude nova, o fundamento dum novo amor ou, se quiserem, da sua integridade universal."

 

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Lisboa: Amigos do Livro/TV Guia, 1986, p. 145. 

Friday, April 29, 2022

COMPREENDER

 



"Na arte não procuremos compreender; compreender é, as mais das vezes, um jogo pueril e ingénuo, a confissão de uma sensibilidade amortecida, a vingança intelectual do espectador incomodado por anestesia artística. Aquele que não compreende e se obstina a compreender, é a priori o que não sente."


Victor Segalen, O Duplo Rimbaud, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2022, p. 47. 

Wednesday, April 27, 2022

ONDE COMEÇA

 



"Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem."

João Cabral de Melo Neto, "O Cão Sem Plumas", in Poesia Completa - 1940-1980, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1986, p. 386. 

Tuesday, April 26, 2022

REVOADAS

 



"Perco-me entre azuis: o do céu, 
o do mar, o dos riachos...
Contra o azul trinam os pássaros
e fazem seus ninhos nas árvores próximas. 
Vejo nitidamente as revoadas de pássaros no céu
como se fossem uma nuvem escura.
A natureza escreve dentro dos meus olhos, 
dá-me as imagens que levam às palavras.
E nas palavras esconde sons que alguns, 
depois, vão adivinhar. 
Minha mãe saiu hoje.
Pediu-me que comprasse pão e trouxesse
os ovos das galinhas do campo.
Uma mãe pede, mas recebe muito mais. 
O sorriso é como uma luz
que lhe ilumina o rosto. 
As suas tarefas fazem-na cantar."


Maria Teresa Dias Furtado, Ofício da água, Braga: Poética Edições, 2022, p. 41.

Monday, April 25, 2022

SENSAÇÕES

 



"Sensações, disse-lhe o seu amigo, não mais um desconhecido. Sentimentos. O que tu queres é um sinal, um sinal de verdade, digno de um profeta. Se és um profeta, seria justo que se tratassem como tal. Quando Jonas fugiu às suas responsabilidades, foi lançado para um ventre de trevas durante três dias e depois vomitado no destino da sua missão. Isso foi um sinal; não foi nenhuma sensação. 
Preciso de queimar todo o meu tempo a endireitar-te as ideias. Olha bem para ti, disse-lhe ele - a frequentar aquele bordel de Deus, para lá sentado feito macaco a deixar aquela pirralha encher-te os ouvidos. O que esperavas encontrar ali? O que esperavas ouvir? Deus fala aos profetas pessoalmente e nunca te falou a ti, nunca mexeu uma palha, nunca esboçou um gesto. E quanto àquela estranheza que sentes nas entranhas, ela vem de ti, e não de Deus. Quando eras menino tiveste lombrigas. Não é de todo improvável que as tenhas outra vez."


Flannery O’Connor, O Céu É dos Violentos, trad. Luís Coimbra, Lisboa: Relógio D’Água, 2014, p. 130. 

Sunday, April 24, 2022

O DIA DO LIVRO

 



"Dizer que lemos - o mundo, o livro, o corpo - não é suficiente. A metáfora da leitura requer, por sua vez, uma outra metáfora, necessita de ser explicada em imagens que se encontram fora da biblioteca do leitor e, no entanto, dentro do seu corpo, de modo que a função de ler se relacione com as nossas outras funções orgânicas essenciais."


Alberto Manguel, Uma História da Leitura, trad. Ana Saldanha, Lisboa: Editorial Presença, 1998, p. 179. 

Friday, April 22, 2022

DA CASA

 



"Uma Casa a Sério não precisa de ser logo um monumento, mas há-de ter uma porta na frente e uma porta atrás, um sótão e uma cave, uma chaminé só para ela, e poder andar-se-lhe à volta. Uma Casa a Sério é uma casa como as crianças a desenham. Com um atalho que serpentei até ela.  Com fumo a sair em volutas da chaminé. Com o espaço para a arvorezinha e o bichinho. 
Um andar, ou uma casa em banda, ou um apartamento não serão nunca uma Casa a Sério, porque o chão é o tecto do vizinho. Ou o quarto ao lado pertence a outro número de porta. Uma Casa a Sério não tem número de porta."


Gerrit Komrij, Um Almoço de Negócios em Sintra, trad. Fernando Venâncio, Lisboa: Guerra & Paz, 2022, p. 15. 


Wednesday, April 20, 2022

PERDURAÇÃO

 



"A conspícua e quase festiva maneira como Teresina evocava os últimos momentos da irmã e a sua infância comum causava-lhe um sentimento de frieza e até de repugnância. Porque mexer nas cinzas porque carregar o peso dos mortos? A memória é quase sempre uma espécie de despeito dos que não têm futuro, é a musa de toda a impotência, é um vaso que contém a história e as formas falíveis ou fraudulentas da sua perduração."


Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Lisboa: Amigos do Livro/TV Guia, 1986, p. 172. 

Tuesday, April 19, 2022

BROTAR

 


"Como os rios, brotamos continuamente, vencendo a escuridão da terra, vencendo a pedra e a montanha; como o trovão, suspendemos o silêncio, e como o vento o arrebatamos. O amor é da ordem do universo, a sua lei eterna e que proíbe a emancipação da matéria. Servimos e participamos, somos benéficos e destruidores, e Deus vela sobre a razão do bem e do mal."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Lisboa: Amigos do Livro/TV Guia, 1986, p. 125. 

Monday, April 18, 2022

FULMINADO


“A cabeça de Rayber, como se tivesse sido fulminada por um raio invisível, caiu de cima do parapeito. Ele agachou-se no chão, com os olhos furiosos toldados pelos óculos a brilharem atrás do arbusto. Lá dentro, ela continuou a guinchar: «Estão surdos à Palavra de Deus? A Palavra de Deus é uma Palavra ardente que vos purificará pelo fogo, queima homens e crianças, homens e crianças por igual, meu povo! Sejam salvos no fogo do Senhor, ou deixem-se consumir pelas vossas próprias chamas! Sejam salvos…»”

Flannery O’Connor, O Céu É dos Violentos, trad. Luís Coimbra, Lisboa: Relógio D’Água, 2014, p. 110.

Sunday, April 17, 2022

COROA

 


“Deus, cuja existência é eterno ato, não tem passado nem futuro; a tradição, por conseguinte, não é elemento necessário à existência de Deus. O homem, porém, que vive no tempo, e vai do ventre à sepultura, através de sucessiva cadeia de instantes, não poderia, nem a tradição, estabelecer a unidade dos instantes, nem certificar-se da identidade de sua vida.”

 

Camilo Castelo Branco, Divindade de Jesus, 6.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1927, p. 147. [ort. at.] 

ALEGRIA PASCAL

 


“A Ressurreição 
é o perdão de Cristo
àqueles que O mataram,
o testemunho de que
fazendo-lhe todo o mal possível
não lhe fizeram mal nenhum.”


Simone Weil, À Porta do Farol Faz Escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 98. 

Saturday, April 16, 2022

O MUNDO

 


“«Os mortos querem lá saber de pormenores», atalhou o rapaz.
O velho agarrou-o pela frente das jardineiras, caçou-o de encontro à lateral do caixão e olhou irado para o rosto pálido do rapaz. «O mundo foi feito para os mortos. Pensa em quantos mortos há aqui», disse-lhe ele, e depois, como se tivesse concebido a resposta, para toda a insolência que há na Terra, acrescentou: «O número de mortos excede o dos vivos em milhões, e os mortos estão mortos milhões de anos mais do que vivem os vivos», e largou-o com uma gargalhada.”

Flannery O’Connor, O Céu É dos Violentos, trad. Luís Coimbra, Lisboa: Relógio D’Água, 2014, p. 22. 


Friday, April 15, 2022

LIVRE (para a memória de Eunice Muñoz)

 



Eunice Muños a representar lembra-me Agustina a escrever. 
Como a beleza são próximas e inacessíveis, como a poesia são cheias de ritmo e de ausência. Como a dança são precisas e livres. São graves e cheias de ternura, como só as mulheres podem ser.”


Daniel Faria, O Livro do Joaquim, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 65. 

PAIXÃO

 


“Cristo na cruz
teve compaixão das suas próprias dores
como se nele se concentrasse 
o sofrimento de toda a humanidade.

O seu grito: 
«Meu Deus, porque me abandonaste?»
foi lançado
em nome de todos os homens. 

Quando este grito 
Sobe de um coração humano, 
a dor acorda
nas profundezas da alma
a parte onde jaz, 
escondida sob crimes acumulados, 
uma inocência igual 
à inocência de Cristo.”


Simone Weil, À Porta do Farol Faz Escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 107. 

Thursday, April 14, 2022

CENA


"O próprio Cristo 
não julga. 
Ele é o julgamento.
A inocência sofredora
como medida. 

Julgamento, perspectiva. 

Neste sentido, todo o julgamento
julga aquele que o pronuncia. 
Não julgar. 

Não se trata de indiferença
ou de abstenção, 
mas de julgamento transcendente, 
imitação do juízo divino
que não está
ao nosso alcance.”


Simone Weil, À Porta do Farol Faz Escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 62. 

FUNDAÇÃO

 



“O Cristianismo precisa de ser estudado desprevenidamente, como quem estuda um objeto abstrato, cuja certeza ou falsidade pouco importa a quem o estuda. Cumpre assim falar ao ceticismo; se não, interrogamos logo sobre dificuldades histórias, dificuldades metafísicas, dificuldades da moral. Descrer é que não tem nenhumas dificuldades. 
Estude-se o cristianismo, se isto lhes quadra, como um problema de geometria; mas não valha ao incrédulo a evasiva de «não compreendo». É injudicioso negar a existência dos antípodas, por que não compreendemos os efeitos de Newton. 
O cristianismo é divino por ser fundador.”


Camilo Castelo Branco, Divindade de Jesus, 6.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1927, pp. 74-75. [ort. at.] 

Wednesday, April 13, 2022

VÉU

 


"Por outro lado, o contraste entre Jesus e Barrabás permitiu ilustrar a aceitação do pecador na cruz. De facto, Jesus ocupou literalmente o lugar daquele que merecia a morte. A crucifixão e a morte na cruz são apresentados cada vez mais como um acontecimento cósmico e histórico-salvífico. Quando o véu do Templo se rasga, no momento da morte de Jesus, abre-se o caminho que conduzia ao santo dos santos, que pode conduzir cada um à proximidade com Deus. Quando se abatem as trevas sobre toda a terra, toda a criação experimenta a morte do seu Senhor."

 Joachim Gnilka, Jesus de Nazaré - Mensagem e História, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 300. 

Tuesday, April 12, 2022

APREÇO

 



"Portanto, a serenidade e despreocupação, que não devem ser atenuadas, seriam mal compreendidas se fossem equiparadas a um dolce far niente. Jesus não se manifesta contra o trabalho, mas pressupõe uma natureza ainda intacta. O apreço pela vida causa um efeito libertador. A  vida (em grego: psuchê) é mais do que comida e vestuário. A pessoa, na sua preocupação com estas coisas, pode gastar a sua vida em vão, pode perder o sentido da vida em coisas de importância secundária. É um homem livre e feliz que diz palavras libertas de preocupações angustiantes. As palavras são tão preciosas também porque nos devolvem uma imagem de Jesus muitas vezes esquecida."

 

 Joachim Gnilka, Jesus de Nazaré - Mensagem e História, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 174. 

Monday, April 11, 2022

AS RAZÕES DO SOFRIMENTO

 


"Parece-me uma triste coisa tentar explorar as estrelas. Falamos do destino como de uma coisa que viesse sobre nós e esquecemos que todos os dias criamos o nosso destino. E, por destino, entendo eu os males que nos cercam; males que são apenas efeitos de causas que não são tão misteriosas como parecem. Muitas das penas que nos afligem são perfeitamente deduzíveis do nosso comportamento. As razões do sofrimento do homem não estão nas devastações causadas pelos terramotos e pelos vulcões, pelos tornados ou pelos macaréus; o homem sofre por causa das suas faltas, das suas loucuras, da sua ignorância, do seu desprezo pelas leis naturais. O homem pode eliminar a guerra, a doença, a velhice e, provavelmente, a morte. Não precisa de viver na pobreza, no vício, na ignorância, perdido em rivalidades e competições. Tudo isto lhe é devido e tudo isto o homem tem poderes para modificar. Mas essa alteração não se pode fazer se se contar apenas com o seu destino pessoal."


Henry Miller, Um Diabo no Paraíso, trad. Estêvão Sasportes, Lisboa: Livros do Brasil/Unibolso, s.d. pp. 88-89. 

Sunday, April 10, 2022

RAMOS/ANIVERSÁRIO

 



"Não adormeças, não adormeças ainda. Falta dizer-te que a mulher que vendia lixívia, no tempo da Páscoa, trazia tinta para tingir os ovos."


Daniel Faria, Sétimo Dia, I: 19., Lisboa: Assírio & Alvim, 2021, p. 51. 

Friday, April 8, 2022

COISA BELA

 




"Uma coisa bela
não contém nenhum bem, 
a não ser ela própria, 
na sua totalidade, 
tal como nos aparece. 

Vamos até ela
sem saber que lhe pedir. 
E ela oferece-nos a própria existência.
Não desejamos outra coisa, 
já possuímos
mas desejamos ainda. 
Só que ignoramos
absolutamente o quê."


Simone Weil, À porta do farol faz escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 83. 

Wednesday, April 6, 2022

COMO OS RIOS

 



"Como os rios, brotamos continuamente, vencendo a escuridão da terra, vencendo a pedra e a montanha; como o trovão, suspendemos o silêncio, e como o vento o arrebatamos. O amor é da ordem do universo, a sua lei eterna e que proíbe a emancipação da matéria. Servimos e participamos, como benéficos e destruidores, e Deus vela sobre a razão do bem e do mal."


Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Lisboa: Amigos do Livro/TV Guia, 1986, p. 125. 

Tuesday, April 5, 2022

REGRESSAR

 



"No turbilhão da vida, só serão felizes os homens
que se julgam sábios e os que não procuram instruir-se.
Fui debruçar-me sobre todos os segredos do universo
e regressei à minha solidão, invejando os cegos que encontrava."


Omar Khayyam, Rubaiyat, trad. Fernando Castro, 3ª ed., Lisboa: Editorial Estampa, 1999, p. 43. 

Monday, April 4, 2022

GANHAR O TEMPO

 


"Agora é o tempo da decisão. O presente está sob o impacto do futuro, um futuro premente. Mas o acento não é colocado neste, antes, é colocado no presente criado pelo futuro. Quem compreende o presente, se decide correctamente agora, ganha tempo, ganha o futuro. No  que diz respeito à soberania de Deus, isto significa que ela já se encontra presente, é definitivamente iminente. A soberania de Deus revelar-se-á definitivamente no futuro, mas já qualifica o presente, através da actuação de Jesus. No presente, a soberania de Deus é algo ameaçado, combatido, rejeitado, que exige do ser humano uma tomada de posição."


Joachim Gnilka, Jesus de Nazaré - Mensagem e História, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 141. 

Sunday, April 3, 2022

PASSOS

 



"Portanto, pode dizer-se, tanto do comportamento de Jesus como das suas parábolas, que o perdão desencadeia um recomeço, quer dizer, a conversão, porque a possibilita. Primeiro, está o perdão, a oferta de salvação, não a exigência de conversão. Para Jesus, a conversão só é possível neste sentido."


Joachim Gnilka, Jesus de Nazaré - Mensagem e História, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Editorial Presença, 1999, p. 107. 

VERDE E QUENTE (para a memória de Lygia Fagundes Telles)

 


"Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim reiniciando o seu afectuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente."


Lygia Fagundes Telles, "Natal na Barca", in Antes do Baile Verde, Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 140. 

Saturday, April 2, 2022

PRINCÍPIO E CONSUMAÇÃO

 


"Como ousamos subdividir o tempo, como queremos dar às épocas um nome e uma sinalização própria? Assim é. Em tudo há um princípio e uma consumação, na vida, nas coisas do espírito, na criação das grandes ideias, na sua aplicação e desfalecimento. Olhamos como uma lufada faz estremecer as folhas distantes de nós, e sabemos o tempo que demora para sentirmos o vento no próprio rosto. Prevêem-se as trajectórias dos astros e das mensagens do homem e os fenómenos que provocam. De tudo o que passa há um resultado em que se edificam novas leis - nada é fatal."

Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Lisboa: Amigos do Livro/TV Guia, 1986, p. 104. 

Friday, April 1, 2022

ABRIL NOVENTA E UM

 



"Pita e Eusébia dão as mãos. No princípio do andar
Está o pensar pronto a desatar os passos que se
Ensarilham. Para já, nas mãos cobertas de rugas
Fortes, seus olhos vivos continuam a reflectir-se 
Na inexperiência."


Maria Gabriela Llansol, O Começo de um Livro é Precioso, Lisboa: Assírio & Alvim, 
2003, n.º 91.