"O tempo passava
junto à bifurcação
do sentido, ia
ao litoral da palavra
e já na boca
vinha substantivo
um jardim
que a língua dava
de delícias."
José Carlos Soares, Camel Blue, Lisboa: Averno, 2018, p. 140.
"A sua voz tornou-se muito baixa e era tão sedutora que provocava vertigens a Margaret, como uma fragância por de mais inebriante.- Garanto-lhe que nada é impossível a essa arte. Ela comanda os elementos, conhece a linguagem das estrelas e dirige os planetas nas suas órbitas. À sua ordem, a Lua tinge-se de sangue e despenha-se dos céus. Os mortos erguem-se das sepulturas e fazem proferir palavras agoirentas ao vento que atravessa os seus crânios a gemer. Céu e Inferno são os seus domínios, e todas as formas, adoráveis e hediondas, e o amor e o ódio. Com a varinha de Circe, pode transformar homens em animais, e aos animais pode comunicar a sua humanidade monstruosa. A vida e a morte estão na mão direita e na esquerda daquele que lhe conhece os segredos. Ela confere a riqueza pela transmudação dos metais e a humanidade pela sua quinta-essência.Margaret já não podia ouvi-lo. Uma espécie de letargia apoderava-se dela pouco a pouco sob aquele olhar maléfico e faltavam-lhe até as forças para desejar libertar-se. Parecia estar já unida a ele por cadeias invisíveis."
"«A humanidade é pagã. Nunca qualquer religião a penetrou. Nem está na alma do homem vulgar o poder crer na sobrevivência dessa mesma alma. O homem é um animal que desperta, sem que saiba onde nem para quê.«Quando adora os Deuses, adora-os como feitiços. A sua religião é uma bruxaria. Assim foi, assim é, e assim será. As religiões são somente o que extravasa dos mistérios para a profanidade e dela não é entendido, pois, por natureza, não o pode ser.»"Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, ed. Teresa Rita Lopes, 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 50.
"5. Ao Diabo é fácil transformar-se para fazer o mal. E assim, de noite, fizeram tal alarido que todo o lugar parecia mover-se. Parecia que os demónios, como se rompessem as quatro paredes do pequeno espaço, entravam por elas adentro, transfigurados em imagens de animais selvagens e de serpentes. 6. E, naquele momento, o lugar encheu-se de imagens de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos. Cada um destes animais movia-se conforme a sua própria natureza. 7. O leão rugia, desejando atacar; o touro parecia investir; a serpente rastejava, mas sem chegar a tocar Antão; e o lobo atirava-se; mas detinha-se. Terríveis eram o furor de todas as aparições e os ruídos dos rugidos."
Santo Atanásio de Alexandria, Vida de Santo Antão, 9, 5-7, trad. Ricardo Figueiredo, Prior Velho: Edições Paulinas, 2026, p. 59.
"Devorava-lhe a vida uma insaciável necessidade de episódios e de emoções. Apreciava a sociedade com as suas leis e as suas limitações porque lhe oferecia alimentos de combate e de resistência, e se tinha horror às perturbações e ao desregramento, era porque lhe proporcionavam prazeres frouxos e fáceis."
George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 99.
"Raymon tinha artes de se mostrar culpado sem se fazer detestar, às vezes esquisito, sem ser chocante, conseguindo até, também, fazer-se lamentar por pessoas que mais tinham a queixar-se dele. Há homens assim viciados por tudo o que deles se aproxima. Uma figura simpática e uma elocução viva, constituem toda a sua sensibilidade. Não pretendemos julgar com tanto rigor o senhor Raymon de Ramière, nem traçar o seu retrato antes de o pôr em acção."
George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 37.
"Uma das vezes em que insistiu com mais veemência em falar com Alfredo da Cunha, o médico perguntou-lhe se ela não receava um «acto violento» por parte do marido. «Não» - respondeu-lhe categoricamente. Medo à morte rápida, «nunca teve». Horrorizava-a, isso sim, a «agonia lenta» em que a vida se pode afundar, arrastando consigo «esperanças e ilusões, indispensáveis à existência de todos, porque sem elas o mundo não seria suportável»."
Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 83.
"Inspirado, o escritor recorda os poetas mortos que perpassaram «naquele interior gracioso do século XVIII» desfilando «em êxtase, entre uma nuvem de Amores côr de rosa», e que evocados pela voz angélica e incomparável da leitora, foram «enchendo, povoando, coalhando» o enorme salão, «encostando-se aos bufetes, debruçando-se sobre os livros, vivendo, familiares e graves», como se Alfredo da Cunha, reerguendo na mão a lira de prata dos árcades, os tivesse convocado a todos para «uma Arcádia de espectros»".
Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 30.