"Outras pessoas tinham estado ali antes dele - de resto, sentia uma curiosa sensação de companheirismo. Pequenas oferendas votivas ao Poder supremo achavam-se fixadas à casca - minúsculos braços, pernas e olhos de lata, grotescas maquetas de cérebros ou de corações -, símbolos de alguma recuperação de força, sabedoria ou amor. Não havia ali nada que se assemelhasse à solidão da natureza, dado que até as mágoas e as alegrias da humanidade tinham passado para o seio da árvore. Ele abriu os braços, apoiou-se na madeira macia e carbonizada e, depois, lentamente, inclinou-se para trás, até o corpo estar encostado atrás de si. De olhos fechados, teve a estranha sensação de alguém que se move e, ainda assim, se acha tranquilo - a sensação de um nadador que, depois de se debater muito tempo contra mares agrestes, descobre que, afinal de contas, a corrente arrastá-lo-á para o seu destino."
E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 97.
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