"Queres ver como as coisas corriam do ponto de vista do marido -
vamos até lá atrás,
ali a esposa
agarrando os cotovelos com as mãos e de frente para o marido.
Lágrimas não diz ele, lágrimas outra vez não. Mas ainda assim elas caem.
Ela observa-o.
Desculpa diz ele. Acreditas em mim.
Observa.
Nunca te quis magoar.
Observa.
Isto é banal. Parece Backett. Diz alguma coisa!
Creio
que chegou o teu táxi disse ela.
Ele olhou para a rua lá em baixo. Ela tinha razão. Aferroou-o.
o pathos da aguda audição dela.
Ali estava ela, uma pessoa de traços particulares,
um certo coração, a vida dentro dela a pulsar em frente.
Ele faz sinal ao taxista, cinco minutos.
Agora as lágrimas dela pararam.
Que fará ela depois de eu ir? pergunta-se ele. A noite dela. Cortou-se-lhe a respiração.
A sua estranha noite.
Bom disse ele.
Sabes começou ela.
O quê.
Se pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti.
Porquê.
Para lhe contar isto.
A perfeição repousou sobre eles por um momento como a calma na superfície de um lago.
A dor repousou.
A beleza não repousa.
O marido tocou a têmpora da mulher
e voltou-se
e correu
escada
abaixo."
Anne Carson, A beleza do marido, 2.ª ed., trad. Tatiana Faia, Lisboa: não (edições), 2020, pp. 67-68.






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