"À espera
de ser
luz
setembro
cansa
a terra sobre
o corpo"
"Decorridos alguns segundos, que pareceram longuíssimos, Pessoa interrogou-nos com a distraída vacuidade de um gesto. Logo porém, e agora de viva voz, continuou o que lhe iria dentro e, evidentemente, sem de mim esperar qualquer espécie de resposta.- Sabe, inspector? É essa gente turística que vai ao Louvre, onde, como presumo que o senhor não ignora, eu nunca fui. Incapazes de reflectir, esses andarilhos do simplesmente ver para dizerem aos outros que já viram, olham fatalmente a mobilidade oculta da estátua-enigma e limitam-se a lhar. Vêem que ela tem partidos os braços, que é como quem diz, que ela não tem braços. Só que tal rebanho não goza da capacidade para se interrogar, e eu pergunto-me qual na verdade seria, pela orientação dos cotos, o sentido exacto do seu gesto."Fernando Luso Soares, O Poeta Era um Fingidor, Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 26.
"O homem romântico sabe que morre, com uma exasperante consciência da morte. Ele sabe que existe apenas para e por uma breve duração. [Como uma linha que tanto é nova, como velha, tal qual o indivíduo que se renova na morte e envelhece por meio de infindos nascimentos.] O mundo existiu antes dele e existirá depois dele, sem a sua presença. Esta certeza ultrapassa as possibilidades do pensamento."
João Miguel Fernandes Jorge, «A Hora da mais Curta Sombra», in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 107.
"O meu amigo, que não via há muito, regressou à sua cidade, à sua aldeia, à sua casa, ao seu sepulcro de pedra.O melhor é esquecermo-nos das coisas visíveis e não deixarmos fugir as de maior engano, vindas de nenhum tempo."João Miguel Fernandes Jorge, «Por entre os caminhos do bosque", in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 72.
"Outras pessoas tinham estado ali antes dele - de resto, sentia uma curiosa sensação de companheirismo. Pequenas oferendas votivas ao Poder supremo achavam-se fixadas à casca - minúsculos braços, pernas e olhos de lata, grotescas maquetas de cérebros ou de corações -, símbolos de alguma recuperação de força, sabedoria ou amor. Não havia ali nada que se assemelhasse à solidão da natureza, dado que até as mágoas e as alegrias da humanidade tinham passado para o seio da árvore. Ele abriu os braços, apoiou-se na madeira macia e carbonizada e, depois, lentamente, inclinou-se para trás, até o corpo estar encostado atrás de si. De olhos fechados, teve a estranha sensação de alguém que se move e, ainda assim, se acha tranquilo - a sensação de um nadador que, depois de se debater muito tempo contra mares agrestes, descobre que, afinal de contas, a corrente arrastá-lo-á para o seu destino."
E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 97.
"Eustace Robinson, de catorze anos, achava-se de camisa de noite, a saudar, a louvar e a abençoar as grandes forças e manifestações da natureza.Falou primeiro da noite e das estrelas e dos planetas sobre a sua cabeça, das miríades de pirilampos e das grandes rochas cobertas de anémonas e conchas que dormiam no mar invisível. Falou de rios e de quedas-d'água, de cachos de uvas a amadurecerem, do cone fumegante do Vesúvio e das chaminés ocultas que produziam o fumo, da profusão de lagartos que se achavam enroscados nas quentes fissuras da terra, e das bátegas de pétalas de rosas brancas emaranhadas no seu cabelo. E, depois, falou da chuva e do vento que tudo modificam, do ar por meio do qual tudo vive, e dos bosques onde tudo se pode ocultar."E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 85.
"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41.
" - Aquelas montanhas à nossa direita... deixe-me mostrar-lhas. - E afastou uma persiana de metal. Viu-se a cordilheira principal dos Himalaias. - Outrora chamavam o Tecto do Mundo àquelas montanhas.- Que nome tão tolo!- É preciso ter em mente que, antes do alvor da civilização, elas pareciam ser um muro impenetrável que tocava nas estrelas. Supunha-se que só os deuses poderiam viver acima dos seus cumes. Como nós progredimos, graças à Máquina!- Como nós progredimos, graças à Máquina! - concordou Vashti.- Como nós progredimos, graças à Máquina! - repetiu o passageiro que deixara cair o Livro na noite anterior e que se encontrava no corredor."E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 30.
"O universo era um lugar sagrado que os homens de outrora encheram da loucura dos deuses. Agora, o sentido da palavra terá surgido do nada, ignorando os limites do infinito. Sabemos que a explosão cósmica nos trouxe cada estrela, cada ponto de luz, cada lugar da escuridão que nos inquieta. O movimento dos astros, acreditam alguns, determina o destino, destino esse que escolhemos dia a dia até à morte."
Graça Pires, «Caderno de Significados», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 47.
"Penetraram por fim num mundo dentro do mundo - num vale enorme, cujas pequenas elevações como que eram formadas pelos destroços das alturas. Um dia de caminho naquele ponto parecia não levá-los mais adiante que passos dados em pesadelos. Penosamente costearam durante horas uma «montanha» e por fim viram que não passava de um morrozinho que ao longe era nada diante do maciço principal. Um pasto que visto de longe parecia coisa de presépio, ao ser alcançado tornava-se num enorme planalto. Três dias depois, novamente visto de longe, voltava a ser a mesma coisinha de presépio.- Aqui é que devem viver os deuses - murmurou Kim impressionado pelo silêncio e pelo pavoroso dispersar das nuvens depois das cargas de água. - Isto não é lugar de gente."Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 240-241.
"O ponto fundamental do conto é a experiência mística que os três cavaleiros buscam, algumas vezes acompanhados por Artur, através da visão do Santo Graal. A religiosidade do escritor é, entretanto, rude e bárbara. A nova lei, o cristianismo, teve de ser imposta na ponta da espada. Percival, depois de uma grande matança de infiéis que estavam infiltrados em meio aos habitantes do castelo, diz: «Eles, que não querem acreditar em Deus, devem morrer como loucos e os demônios». Ele «imediatamente matou todos os outros, pois não estavam dispostos a acreditar. No castelo, então, não havia mais nenhuma pessoa descrente». As forças que lutavam nas Cruzadas tinham o mesmo sentimento. Ricardo assassinou cruelmente centenas de prisioneiros, e Saladino declarou que, enquanto um só pagão permanecesse vivo, somente a morte o faria baixar a espada."
Elizabeth Jenkins, Os Mistérios do Rei Artur, trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima, São Paulo: Companhia dos Melhoramentos, 1994, p. 100.