Tuesday, October 13, 2026

VOAR NOUTROS CÉUS

 


"347

A Arte é uma coisa (um objecto) que sorri ou sofre (um sentimento) e que, desde o seu ninho, pode voar noutros céus e, nunca se sabe como, transformá-los. Cada um dos seus instantes saberá, ou não, como."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 80-81. 

Monday, October 12, 2026

DA MISÉRIA HUMANA

 


"294

O homem que sou, e o mundo em que vivo, sempre em estado de desgraça, essa trágica fonte de poesia. O poeta, em estado de graça? A musa bebe na miséria humana, na ironia terrível da natureza."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 69. 

Sunday, October 11, 2026

OLHAR ABSTRACTO

 



"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."


Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139. 

Friday, October 9, 2026

NOBEL




"Queres ver como as coisas corriam do ponto de vista do marido -
vamos até lá atrás,
ali a esposa
agarrando os cotovelos com as mãos e de frente para o marido.
Lágrimas não diz ele, lágrimas outra vez não. Mas ainda assim elas caem.
Ela observa-o.
Desculpa diz ele. Acreditas em mim.
Observa.
Nunca te quis magoar.
Observa.
Isto é banal. Parece Backett. Diz alguma coisa!
Creio

que chegou o teu táxi disse ela.
Ele olhou para a rua lá em baixo. Ela tinha razão. Aferroou-o.
o pathos da aguda audição dela.
Ali estava ela, uma pessoa de traços particulares,
um certo coração, a vida dentro dela a pulsar em frente.
Ele faz sinal ao taxista, cinco minutos.
Agora as lágrimas dela pararam.
Que fará ela depois de eu ir? pergunta-se ele. A noite dela. Cortou-se-lhe a respiração.

A sua estranha noite.
Bom disse ele.
Sabes começou ela.
O quê.
Se pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti.
Porquê.
Para lhe contar isto.
A perfeição repousou sobre eles por um momento como a calma na superfície de um lago.

A dor repousou.
A beleza não repousa.
O marido tocou a têmpora da mulher
e voltou-se
e correu
escada
abaixo."


Anne Carson, A beleza do marido, 2.ª ed., trad. Tatiana Faia, Lisboa: não (edições), 2020, pp. 67-68.

Tuesday, October 6, 2026

NOVO

 



"Por definição, o novo é a parte das coisas que desaparecerá. O perigo do novo é o de o deixar de ser automaticamente, e deixa-o com um simples prejuízo. Como acontece com a juventude e a vida. Criar qualquer oposição a tal prejuízo equivale a actuar e a construir contra o novo.
Assim, busca o novo como um artista é tratar de desaparecer ou procurar sob o nome do novo, algo completamente distinto e expor-se a um equívoco."


Paul Valéry, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & Outros, trad. Luís Fernando Quaresma, Lisboa: Editora Pergaminho, 1994, p. 22.

Monday, October 5, 2026

O ESPANTO

 


"O Deus a que me liguei é mais um estado de enamoramento do que um nome próprio. É o espanto, o respeito e mesmo o amor pela realidade do mistério que nos envolve. São isso os seres humanos: nada de mais grandioso e misterioso, rodeados de promessas que ainda não fomos capazes de cumprir. Eu sei que os acontecimentos que sucedem na terra podem ser horríveis, mas a fé é uma aposta que nos ajuda a compreendê-los e a saber que tudo assim acontece porque fomos feitos com liberdade."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 145. 

PÁTRIA

 




"Ciganus

Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.


Opiparus

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro unicamente."



Guerra Junqueiro, "Pátria", in Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 573.

Sunday, October 4, 2026

RELAÇÃO COM DEUS

 



"A vida de S. Francisco de Assis, por exemplo, só é compreensível noutro contexto social e noutra mentalidade: S. Francisco, e todos os seus irmãos, seriam hoje uns maluquinhos, masoquistas com uma relação com Deus, com o mundo e com os homens que não sei se deverá ser seguida nos nossos dias, mas ficou aquele grande exemplo do amor, do despojamento e da paz.
Acho que nós temos tido mais moral do que religião. Não é da essência de uma religião impor modelos de comportamento e não é necessária uma religião para se ter um comportamento digno. É isso que me faz sentir que a relação com Deus está muito para além daquilo que temos que dar aos outros na área dos comportamentos."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 102.

SAIR DA TERRA

 




"A Bárbara interrompeu:
- Eu acho que estou nesse estado. É quando estamos sem Deus que temos uma indefinível necessidade dele. Eu sinto esse vazio, essa imensa falta na minha inteligibilidade, como se o mundo pudesse passar sem Deus mas as pessoas não.
- No fundo, eu continuava com uma concepção teória de Deus mas tu fizeste-me vir à terra e começo a pressentir a necessidade de viver tudo isto com intensidade. Eu estava preguiçoso em relação a Deus. como tu dizes, eu andava para aqui a empatar."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 65.

SERAPHICUS

 





"Seráfico Francisco, assinalado
Naquelas cinco partes, onde estava
Amor, quando por si te trasladava
Para mostrar em ti o seu traslado:

Assi como na Cruz fora pregado,
Assi consigo mesmo te pregava:
Das chagas de que nela se chagava,
Dessas mesmas te deixa a ti chagado.

Que seguro te deu da glória sua,
Selado com seu selo impresso, escrito
Vivendo na vencida carne tua!

Vencida é tão conforme a teu espírito,
Que nem se apartou dela em terra nua,
Qual o Senhor da Cruz em ti bendito!"



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 67.

Friday, October 2, 2026

ARCANJOS

 



"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.

Wednesday, September 30, 2026

RELAÇÃO

 



"Respondi:
- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.

Tuesday, September 29, 2026

NO TEMPO DE ANGÚSTIA

 



"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»
Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"


José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.

Monday, September 28, 2026

PEDAÇOS DE LUZ

 



"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13. 

Sunday, September 27, 2026

HUMANIDADE

 



"Amei verdadeiramente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
- Então, absolvo-te, disse Pessoa, absolvo-te, julgava que na tua vida só tinhas amado a teoria.
- Não, disse Campos aproximando-se da cama, também amei a vida, e se as minhas odes futuristas e furibundas foram blague, se nas minhas poesias niilistas destruí tudo, até eu mesmo, fica a saber que também eu amei na minha vida, com uma dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve."


António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa - um delírio, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Quetzal Editores, 1995, p. 23.

ETIMOLOGIAS

 




"Depois de um tempo de alqueive
rasguei o fundo obscuro da palavra
para que o semeador de alfabetos
aí fizesse a sua lavra.
É nesta margem que garimpo vozes
soterradas no olvido,
ressuscitar a morte
é devolver à vida
um sentido."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 20.

Friday, September 25, 2026

NOS LONGES

 



"Invoco, nos longes, a minha presença impossível.
Os longes são permanentes.
Lá, onde a beleza reside, deliquescentes
azuis, sois e luares, são permanência intangível.

Lá.
Ser incluso pormenor naquela bruma,
esboçado apenas como um desenho por acabar.
Ser lá, presente como aqui; uma
como nenhuma
distância entre o meu ser aqui e o meu estar lá.

Ir-me além, naquele cerro a ascender-se.
Ver-me daqui a subi-lo.
Perguntar-me «o que é aquilo?»,
imperceptível mexer-se.

Eucaliptos, casas, montes,
águas, pedras, horizontes,
coisas finitas em si.
Outeiros, vales, caminhos,
sebes, rochedos, moinhos...
Tudo no mundo. E eu daqui."



António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 56-57.

Thursday, September 24, 2026

CATÁBASE

 




"Desci como Orfeu ao fundo dos infernos
para a purificação no fogo
e o renascer da ausência
e da dor que me persegue

Quero ser o leito para adormecer
e que Eurídice sobreviva no meu sono
e na imagem que passa no fundo da caverna
Nas trevas acendo a luz e o alimento

de uma esperança cega de nascença
Há sempre um mito
cravado na alma do poeta

mas a mãe grande de toda a utopia
é a reconstrução da migração das aves
a partir do caos."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 14.

Wednesday, September 23, 2026

ANJO

 



"Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em voz de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.
Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 37-38.

Tuesday, September 22, 2026

MOINHO SEM VELAS

 



"Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 18-19.