LVSIOS
Sunday, February 8, 2026
HOMEM NOVO, HOMEM VELHO
AÍ DO ALTO
"aí do alto do corpo que conheça,
a noite revê-se enxuta
expondo a cidade: a secura
das esfinges gravadas
mais pela água.
daí donde invadem as atmosferas
e se partem os corpos em poalhas,
só limpa é a altura na dispersão."
Óscar Possacos, curva, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 60.
Saturday, February 7, 2026
O DIA DEU EM CHUVOSO
" O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso."
Álvaro de Campos, «Trapo», in Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 431-432.
Friday, February 6, 2026
O TEMPO
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província."
Thursday, February 5, 2026
LAGO
Monday, February 2, 2026
CANDEIAS
"Vi-me no assombro da aparição, ao alto, de Maria
Purgada de unção, pasma lívida,
E, por descuido, aspergindo-a no colo.
Vi-me no assombro, erecto, deleitoso.
Quando de pálpebras fechadas eu me aproximava
Em haustos e a prendia nos dentes e, nesse esgar,
Lhe pesava os cabelos, abaixou-se confusa,
A praguejar, aonde permaneceu muda.
(Os brancos olhos mordiam a boca que secava.)
Ó amada ofegante, repousada,
Acima do manto que manchava,
<Ali se vê etérea, de delicado áureo.>"
José Emílio-Nelson, Bacchanalia, s.l.: Edições Sem Nome, 2014, p. 56.
Sunday, February 1, 2026
ACREDITAR
Saturday, January 31, 2026
JARDIM (para a memória de Catherine O'Hara)
"Talvez toda a gente tenha um jardim do Éden, não sei; mas dificilmente o terão visto antes de verem a espada flamejante. Ou talvez a vida ofereça apenas a escolha entre lembrar-se do jardim ou esquecê-lo. De todo o modo, recordar exige outra, e é preciso ser um herói para se ser capaz de ambas. As pessoas que se lembram cortejam a loucura através da dor, a dor da morte da inocência repetindo-se para sempre; as pessoas que se esquecem cortejam outro tipo de loucura, a loucura da negação da dor e do ódio à inocência. E o mundo divide-se fundamentalmente entre loucos que esquecem e loucos que se lembram. Os heróis são raros."
James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 36.
FORÇA DE VONTADE
"Porque eu sou - ou era - uma daquelas pessoas que se orgulham da sua força de vontade, da sua capacidade de tomar uma decisão e de a levar avante. Esta virtude, como a maior parte das virtudes, é a própria ambiguidade. As pessoas que acreditam na sua força de vontade e em serem donos dos seus próprios destinos só conseguem manter essa crença tornando-se especialistas em se enganarem a si próprios As suas decisões não são de todo decisões - uma decisão de verdade torna-os humildes, pois sabemos que esta está à mercê de mais coisas do que as que podem ser enumeradas -, mas sistemas elaborados de evasão e de ilusão, concebidos para fazerem o mundo e eles próprios parecem aquilo que o mundo e eles próprios não são."
James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 31.
Friday, January 30, 2026
A RONDA
"Dois soldados
passam
de mãos dadas
como amantes
Não tardará
a ronda
a procurá-los
como cães
Soldados
de mãos dadas
têm nome
Não chegarão a ver as montras
e o rio
os dois soldados
e a sentar-se
num banco
de jardim
A ronda
não tardará
a alcançá-los"
António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 78.
EXPRESSÃO (para a memória de João Canijo)
"Clitemnestra - Criatura sem vergonha! Eu, as minhas palavras e os meus actos obrigam-me a dirigir-te insultos!
Electra - Não sou eu, és tu quem os profere, porque praticas as obras e as obras buscam a sua expressão nas palavras."
Sófocles, Electra, trad. Pe. E. Dias Palmeira, Lisboa: Sá da Costa, 1973, pp. 85-86.
Thursday, January 29, 2026
PEQUENAS POÇAS DE ÁGUA
"O poeta recorre à sucessão das imagens, o pintor à sua simultaneidade. Por exemplo: olho para os pássaros, que se banham numa pequena poça de água que se costuma formar, nos dias de chuva, no chumbo que recobre a saliência lisa de um telhado; reparo portanto, ao mesmo tempo, numa imensidade de coisas que o poeta não pode sequer mencionar, já não digo descrever, sob pena de se tornar cansativo e de acumular volumes sobre volumes dando apenas dessas coisas uma noção imperfeita. E note-se que citei somente um instantâneo. Agora um pássaro mergulha na água; vejo a sua cor, a parte inferior de prata, das suas pequenas asas, da sua cor, a forme ligeira, as gotas de água que ele solta sob o intenso sol... Este pequeno pássaro é a prova manifesta, da impotência da arte do poeta. De todas estas impressões ele tem de escolher a de maior impacto, de forma a que eu consiga imaginar as outras."Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 184.
ENCANTO
"A arte é tão morosa que é preciso a vida inteira para chegar a sistematizar alguns princípios que, no fundo, regem cada uma das suas partes. Os talentos natos descobrem instintivamente a maneira de conseguir exprimir as suas ideias; neles existe um amálgama de impulsos espontâneos e de aproximações, através dos quais a ideia acaba por transparecer com um encanto talvez mais agradável do que o que resultaria do trabalho de um mestre consumado."Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 165.
Sunday, January 25, 2026
VIAGEM
"Embarquei certo dia
Na esfera transparente
De um misterioso engenho.
Só eu e o desespero
Sulcávamos o espaço
Naquela estranha nave.
Nada, nem as estrelas,
Conseguia alcançar-nos
Na aventura sem par.
Vencêramos o tempo.
O futuro já era
O presente e o passado.
Cingidos num abraço,
Nenhum de nós podia
Desfazer esse abraço.
Assim, unidos sempre,
Demos a volta aos mundos
Num fantástico vôo.
E em toda a parte vi
Seguirem abraçados
O homem e o desespero."
Américo Durão, Sinal, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1963, pp. 85-86.
Saturday, January 24, 2026
A CHUVA
Thursday, January 22, 2026
OBJECTOS
Wednesday, January 21, 2026
DELÍCIA
Tuesday, January 20, 2026
O DEVOTO



















