Sunday, March 8, 2026

DIA DA MULHER

 


"Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como outro qualquer. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria..."


João de Araújo Correia, "A Árvore de Judas", in Montes Pintados, Imprensa do Douro, 1999, p. 37. 

ESTADO PRIMEIRO

 


"O meu corpo dançava, livre, respirava com os materiais, e observava como cada coisa se liga de volta à sua origem, retomando a si: pneus, luvas, galochas e brinquedos de borracha regressavam à saringueira amazónica, outros liquefaziam-se no petróleo, as roupas desfaziam-se em fios gerando a fibra do linho e a flor do algodão; o café aninhava-se no grão original. Os prédios implodiam lentamente, desfeitos em pó e em terra; não sobrava nada de pé. Na farmácia, os medicamentos voltavam a ser planta e a mercearia cobria-se dos cereais dos quais extraímos o pão e a cerveja. Na rua, diferentes metais fundiam-se no subsolo; e partículas dos mais variados elementos voavam com o vento, de volta ao começo. A cidade assumia o seu estado primeiro, vegetal, simbiótico. O oxigénio revinha às plantas. Os humanos que sobreviviam eram os que aprendiam a fazer parte, a colaborar. Os livros, todos eles, cada um, encaixavam-se de volta na árvore."

Joana Bértholo, Natureza Urbana, Lisboa: Relógio D' Água, 20203, p. 46.

Saturday, March 7, 2026

EXERCÍCIO DE ESTILO

 


"O estilo é a fisionomia da mente. É menos enganadora que a do corpo. Imitar o estilo de outra pessoa é usar uma máscara, e, por muito bela que ela possa ser, a sua falta de vida fá-la em breve parecer insípida e insuportável, de modo que é preferível o mais feio dos rostos. 
A afectação estilística pode ser comparada a fazer caretas."

Arthur Schopenhauer, Aforismos, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1998, pp. 90-91. 

Friday, March 6, 2026

IMPERMANÊNCIA

 


"já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
e deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja"


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 134. 

ANJO MORTUÁRIO (para a memória de António Lobo Antunes)

 


"Um anjo mortuário, de asas tombadas de morcego, esmagava-lhe a barriga, uma paz de sesta sem sono crescia-lhe no corpo. O cigano regressou do mar, a bronquite dos cachorros cantava-me aos ouvidos. Manoel de Sousa de Sepúlveda fechou os olhos enquanto o sol começava, devagar, a colori-lo:
- Vou dormir um bocadinho, pensou ele a esconder os tornozelos na areia. Assim como assim já não tenho nada que me possam roubar."


António Lobo Antunes, As Naus, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988, p. 88. 

Tuesday, March 3, 2026

GINECEU

 


"Tudo na Borralha era misterioso. Uma espécie de maldição. Às vezes penso, sem grande fundamento, reconheço, que tudo o que se passou na Borralha foi uma vingança da madre-terra por lhe terem violado as entranhas. Repare. A gente semeia e colhe. Corta uma flor, uma árvore, nasce outra. Mas o minério não se regenera. Uma vez extraído, a integridade da terra nunca mais se recompõe. O homem devia pensar nisso. Mas o homem só pensa em dinheiro."

Bento da Cruz, A Fárria, Lisboa: Âncora Edições, 2009, p. 52. 

Monday, March 2, 2026

LEVANTAR OS BRAÇOS PARA O ALTO


 

"a poesia é a raposa prateada que atravessa o caminho,
não sabemos o que existe quando se esconde na sombra, 
mas um dia sentimos-lhes a falta, falta-nos a glória
no bolso da camisa, a leveza de um peso
na cabeça, uma fornalha no espírito, 
alguma coisa que nos situe a volúpia e o deleite, 
a transgressão, a aprendizagem, uns versos
que se amontoem na nossa cama, nos nossos
gestos. a poesia é o que nos faz desvendar o dissídio
e levantar os braços para o alto, fechando
os punhos, ou abrindo-os, para que um rasto
de fluorescências se possa ver, alguma luz
parada sobre o rumo dos agouros, ou das pulsões, 
ou das sombras espessas, a poesia é o que convoca, 
o que não cessa, um homem sai de casa e quer bebê-la, 
a mulher sustenta-a com os sonhos que tem, a pensar
no jacarandá que só muito tarde irá florir, 
porque a poesia é o que tarda, o que temos connosco,
o que nos rasga por dentro como um acendimento
e faz com que as dores se exprimam e possam desaparecer."


Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, p. 62. 
 

Sunday, March 1, 2026

CAPAZ DE ENTENDER

 


"não te sentes hoje capaz de entender
o dia de hoje, baby?
espera que ele seja o dia de ontem.

não te sentes capaz de entender
o dia de ontem, baby?
espera que ele seja o dia de amanhã.

não te sentes capaz de entender 
o dia de amanhã, baby?
espera que ele seja o dia de hoje."


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 47. 

Saturday, February 28, 2026

SABEDORIA

 


"O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito bem, ser falar mal e sem falar demasiado."


Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 13. 

LES POLICHINELLES

 


"lado a lado
os dois chefes de estado
posam para o futuro
com um gesto do passado"



Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 30. 

Friday, February 27, 2026

EMOÇÃO

 


"Além disso, o pudor impede-me de falar da minha própria emoção perante a pintura. Não falo dela. A não ser, como o fiz para Skira e em curtos textos dedicados às obras dos meus amigos, colocando a obra, enquanto historiador, no centro de um sistema de correspondências, com o propósito de ajudar, talvez, a melhor penetrar nos seus encantos. Silenciosamente."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

CONTEMPLAR

 



"A obra de arte é feita para ser contemplada no silêncio, não para servir de pretexto a discursos, que, muitas vezes, longe de a esclarecer, a ofuscam. Penso, com Julien Green, que «a beleza escapa sempre às palavras que a querem abarcar»."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

Sunday, February 22, 2026

A VOZ DO CHÃO

 



"Senhor, deito-me na cama
coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.


Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não,
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro dum inimigo...
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo."


Miguel Torga, Diário I, Lisboa: Planeta DeAgostini, 2000, p. 19.

Saturday, February 21, 2026

O PALCO CONSTRUÍDO

 



"Henri Gouhier aproxima o ofício do historiador do do encenador. O palco construído, o cenário montado, o texto redigido, trata-se de apresentar o espectáculo, de fazer passar o texto, dar-lhe vida, e é isto o essencial: convencemo-nos disso quando, depois de ler uma tragédia, a escutamos, a vemos representada. Ao historiador cabe esta mesma função mediadora: comunicar pela escrita a chama, o «calor», reconstituir a «própria vida». Ora, que não haja mal entendidos, esta vida que ele tem por missão insuflar é a sua. Consegue-o tanto mais quanto mais sensível for. Deve controlar as suas paixões, mas sem contudo as abafar, e cumpre tanto melhor o seu papel quanto mais se deixa, aqui e ali, levar um pouco por elas. Longe de o afastarem da verdade, elas têm a possibilidade de o aproximarem ainda mais dela. À história árida, fria, impassível, eu prefiro a história apaixonada. Não estou longe de pensar que ela é mais verdadeira."


Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 55. 

Friday, February 20, 2026

SINAIS

 


"Uma luz, um som, um aroma,
nos circuitos da memória colhe
o devir esquivo.

Sinais que regista
o computador privativo
de recuperar o passado."


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 179. 

Thursday, February 19, 2026

SEMIDEUSES

 




"Os semideuses são boxeurs, ciclistas,
Futebolistas ou chauffeurs; e Deus,
Com semideuses tais, deserta uns céus
Que a ninguém, já, lograva dar nas vistas.

Para salvar o mundo, há um rol de listas
De provérbios arianos ou judeus;
Mas ninguém quer ser salvo! E os vãos troféus
Bolorecem nas mãos propagandistas.

Aristo, demo-cratas e mais cratas
Vão, de atómicas bombas na algibeira,
Contratar paz com artes diplomatas.

O amor dispensa as setas e a seteira.
E em tal progresso, os santos da Reacção
Masturbam-se na imensa solidão..."



José Régio, A Chaga do Lado - Sátiras e Epigramas, 2.ª ed., Lisboa: Portugália Editora, 1956, pp. 55-56.

Wednesday, February 18, 2026

CINZAS

 



"La calavera, el corazón secreto,
Los caminos de sangre que no veo,
Los túneles del sueño, ese Proteo,
Las vísceras, la nuca, el esqueleto.
Soy esas cosas. Increíblemente
Soy también la memoria de una espada
Y la de un solitario poniente
Que se dispersa en oro, en sombra, en nada.
Soy el que ve las proas desde el puerto;
Soy los contados libros, los contados
Grabados por el tiempo fatigados;
Soy el que envidia a los que ya se han muerto.
Más raro es ser el hombre que entrelaza
palabras en un cuarto de una casa."


Jorge Luis Borges, Obra Poética 1923/1977, 3.ª ed., Madrid: Alianza Editorial, 1983, p. 421. 

Tuesday, February 17, 2026

BACO


 

"Disse-lhe que estas palavras se podiam aplicar a mim à letra: de hoje em diante, ele seria a arma escondida, a armadura invisível, o talismã mágico que alentaria na minha carreira.
- Tudo é um combate - acrescentei -, combate entre a luz e as trevas, entre a beleza e a fealdade, entre a inteligência e a estupidez, entre a verdade e a hipocrisia, em suma, entre tudo o que representas e o que representa a maior parte da sociedade."


Roger  Peyrefitte, O Nosso Amor, trad. Manuel Crespo, Lisboa 2: Ulisseia, 1969, p. 52. 

PLAUSÍVEL

 





"ah, a velocidade com que por mim passa o mundo imaginário,
estive sempre em lugares que não existem, a saber
que tudo é plausível à minha volta, palavras que ouvi,
como um castelo de cartas, açoites e arroubos de melancolia,
telhados que ruíram, orações perdidas, ásperas borrascas."



Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, pp. 57-58.

Monday, February 16, 2026

O CAMINHO DE HERACLITO

 




"Agora quando já sabia ser eu deixei de me lembrar do meu nome.
Busquei no fundo de mim mas o fundo de mim não é meu.
As casas do meu corpo trespassaram as recordações que eram minhas
Enquanto eu vou na direcção da casa tormentosa.
Por certo voltei para trás, por certo enganei-me no caminho.
Ouço ao longe o coro dos sem voz.
Eu era o diadema.
Chamas-me e eu vou
Mas tenho de voltar.
Porque tenho de passar por esta prova?"


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 286.