
"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."
Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139.