Tuesday, August 11, 2026

CLARA


"Um dia veio ter com ela uma irmã cheia de santo fervor e rogou-lhe que lhe emprestasse o cilício de crinas de cavalo. Foi-lhe deferido o pedido, e sentiu grande consolação espiritual, mas, logo que experimentou usá-lo, os nós feriram-na de tal modo que julgou morrer de dor. Imediatamente, o tirou e restituiu à santa abadessa. Então esta, sorrindo, disse-lhe que na qualidade de mãe tinha de se mortificar mais, não só por si mas por todas as almas que lhe estavam confiadas."


Joaquim Capela, o.f.m., Santa Clara de Assis, Braga: Edição das «Missões Franciscanas», 1949, p. 95.

 

Monday, August 10, 2026

COISAS REAIS

 


"«Uuuhhh...» guinchou prostrado no chão  «uuhh... uhm... um... umm... umm... um...» e nestes sons profundos e moles desejava perder-se, derreter a cabeça, o peito. Sentiu como sempre que chegava a um limite, a um limiar extremo. Em que lhe era dado ainda o parar, voltar atrás, manter vivo na noite o lume, na tempestade. E agarrou-se a palavras, aos nomes de coisas reais, visíveis, concretas. Pronunciou em voz alta: «Terra. Pedra. Desvario. Casa. Forno. Pão. Oliveira. Alfarrobeira. Sumagre. Cabra. Sal. Burro. Forte. Templo. Cisterna. Muralha. Piteira. Pinheiro. Palmeira. Castelo. Céu. Corvo. Pega. Pomba. Tentilhão. Nuvem. Sol. Arco-Íris...» pronunciou como se quisesse redenominar, recrear o mundo. Recomeçar a partir do momento em que nada havia acontecido, nada se perdera ainda, e as coisas se desenrolavam serenas, sereno o tempo."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 40.

 

Sunday, August 9, 2026

QUALIDADES

 


"«Que género de pessoa é ela, então?», pergunta-lhe.
O irmão pensa, antes de responder. «Não é ninguém que já tenhas conhecido. Não lhe importa o que as pessoas pensem dela. Limita-se a seguir o seu próprio caminho.» Inclina-se para a frente, apoia os cotovelos nos joelhos, e reduz a voz a um murmúrio. «É capaz de olhar para uma pessoa e ver-lhe a própria alma. Não há nela uma gota de severidade. Aceita uma pessoa por aquilo que ela é, não por aquilo que não é ou que deveria ser.» Olha para a irmã. «São qualidades raras, não são?»"
 

Maggie O'Farrel, Hamnet, trad. Margarida Periquito, Lisboa: Relógio D'Água, 2021, p. 73. 

Saturday, August 8, 2026

CANES DEI

 




"Meu santo reino espiritual, que eu vejo,
Como através da morte, quando a luz
De profunda emoção aquece e doira
Meu corpo - árvore verde e negra cruz...
Vejo-te, num delírio, como as árvores
Avistam, dentro de alma, os passarinhos...
E assim os olhos gélidos dos mármores
Têm a visão confusa das florestas...
E como a terra vê, quando beijada
Pela graça da névoa que se eleva,
O grão que sobe em baste para o sol
E desce em raiz faminta para a treva..."


Teixeira de Pascoaes, "As Sombras" in Obras, Lisboa: Círculo de Leitores, 1973, p. 129.

Thursday, August 6, 2026

COMO SE ELE PUDESSE SER

 


"Ela passou por ele sem o ver, o que lhe permitiu afinal de contas fixar bem o seu rosto, antes de voltar a sair, sob os olhares espantados dos funcionários par quem a sua atitude tinha um ar de perseguição, como se ele pudesse ser um fauno, embora o bigode lhe desse um ar equívoco ao rosto, com algo de sensual, que no entanto a austeridade com se vestia atenuava bastante."


Nuno Júdice, A mulher escarlate, col. Brevísssima, 28, Porto: Livraria Civilização Editora, 1997, p. 13. 

Wednesday, August 5, 2026

NOTÁVEL

 


" - Eu amo-te, Monty - disse Kiki. - Há mal nisso?
- Se alguma coisa está mal, sou eu - disse Monty, ajustando o cinto. - Muita gente chamaria a isto um crime. Se tiver consequências infelizes para ti, será uma prova a favor de quem pensa que sim. É algo que tens de ser tu a cuidar por mim. Tudo isto aconteceu em parte por eu confiar em ti para esse efeito.
- Não compreendo e, no entanto, compreendo - disse Kiki.
- Mas é-me impossível não te amar para sempre e isto também pesa.
- Uma rapariga da tua idade não sabe o que é para sempre.
- No entanto, eu acho que sei - afirmou Kiki. - Sei o que é. Sou uma rapariga notável."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 361.

Tuesday, August 4, 2026

UM BELO ROSTO

 


"Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio. Enquanto que o carácter deixa no rosto as marcas de palavras não ditas, de intenções não realizadas, enquanto que a face do animal parece sempre estar a ponto de proferir palavras, a beleza humana abre o rosto ao silêncio. Mas o silêncio - aquele que advém daqui - não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem."


Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 112. 

Monday, August 3, 2026

LUZ FULGURANTE

 


"O amor erótico, intenso e recíproco, o amor que envolve com a carne o mais refinado ser sexual do espírito, que revela e talvez mesmo crie ex nihilo o espírito como sexo, é um amor relativamente raro neste mundo incómodo. O amor apresenta-se como um valor tão estonteantemente elevado que falar em «desfrutá-lo» parece um sacrilégio. É algo a ser vivido de joelhos. E, sempre que existe, apenas terá de derramar uma luz fulgurante de justificação sobre a sua própria cena, uma luz que pode deixar o resto do mundo na obscuridade."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 293. 

Sunday, August 2, 2026

HOSTIARIUS

 


"Em primeiro lugar, é ordenado hostiário: são-lhe entregues as chaves da igreja, que ele fechava com piedoso cuidado, pois anteriormente, segundo dizem, estava patente, por negligência, a animais imundos, ou seja, cabras e porcos. Do mesmo modo, às horas convenientes a abria, expulsava, com zelo cristão, excomungados e infiéis, e guardava religiosamente tudo o que estava dentro e fora."


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, p. 8. 

RECOLAM MEMORIAM ILLIUS LITTERIS

 


"É por isso que quantas vezes me esforço por começar a falar, outras tantas se me enchem os olhos de lágrimas, se me embarga a voz e os soluços me interceptam as palavras ao escrever. Que hei-de eu fazer? Hei-de acrescentar mais lágrimas? Mas a Sagrada Escritura o proíbe. Por isso não chorarei a sua morte, porque creio que ressuscita com Cristo. Sei de certeza que ele está com Cristo. Portanto, hei-de alegrar-me e regozijar-me, porque foi arrebatado, para que o mal não alterasse o seu espírito, porque a sua alma agradara a Deus? Mas não posso suportar a saudade da sua ausência, e a sua afeição por tão grande homem dilacera o meu espírito. Não posso dissimular a dor que sofro. Contudo, não é a situação dele que eu lamento, mas a minha, porque quanto mais feliz ele é, tanto mais eu sinto a dor, por me faltar tão grande bem." 


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, pp. 5-6.

Friday, July 31, 2026

VIDA ONÍRICA PROFUNDA

 



" - Os sonhos são algo maravilhoso, não são? - dizia David. - Conseguem ser belos de uma forma especial, ímpar. Nos sonhos, até mesmo as coisas horríveis têm classe, ao contrário das coisas reais, que nos repugnam, como ver os cães a comer.
- Há uma inocência refrescante e pura em certas imagens dos sonhos - disse Monty -, mas não devemos interrogar-nos demasiado acerca delas.
- Quer dizes, como o meu pai?
- Deixa-as apenas surgir, visitar-te, como se fossem pássaros.
- Não acreditas «na vida onírica profunda da qual toda a vida emerge», como refere o meu pai no seu último artigo?
- Não - disse Monty. - Um sonho é uma história que se tem vontade de contar ao pequeno-almoço."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 128.

Thursday, July 30, 2026

NO SILÊNCIO DESTA ÁLEA




"Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore
                [que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou"



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, pp. 56-57.

Wednesday, July 29, 2026

SAGRADO

 




" - O inconsciente é tão grosseiro. Ele ainda anda de joelhos pelo quarto a tocar nas coisas?
- Está rodeado dos deuses que tem de aplacar. Tudo é sagrado. Noutra era tê-lo-iam venerado como um santo.
- Pobre criatura doida.
- O homem primitivo vivia num mundo de divindades menores e assustadoras. Os católicos romanos ainda vivem.
- Eu sei que para ti todas as religiões não passam de uma obsessão!
- Querida, eu não penso nada tão disparatado. A religião é muito importante. Simplesmente, não é o que parece. Das coisas muito importantes, poucas o são."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 30-31.

Tuesday, July 28, 2026

SORRISO ARCAICO

 


"Tornara-se intocável e Harriet, com o seu hábito antigo de tocar, encontrava-se de súbito num dilema, numa angústia. Assaltavam-na anseios fantasmagóricos de uma precisão alarmante. Sentimentos muito idênticos ao suplício de um amor não correspondido faziam-na corar e tremer. Com efeito, assemelhava-se de forma terrível a um estado de paixão. Queria abraçá-lo de novo, cobri-lo de beijos, desenlear com dedos acariciadores aquele cabelo loiro e sujo e agora de um comprimento absurdo. Mas nada era mais impossível. No último ano, como se fosse para a confundir mais, adquirira uma beleza espantosa. Aquilo a que Blaise chamava o «sorriso arcaico» de David obcecava-a como um enigma erótico."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 20. 

Monday, July 27, 2026

PENSAMENTO/PASSAMENTO

 


"Recordava com carinho estas visitas intensas e, no entanto, vagas e quase destituídas de sentido. Era tão importante ter pensamentos tranquilos e afectuosos acerca das pessoas nas alturas de ócio, em especial, talvez, em relação aos mortos que, sendo imateriais, precisam desesperadamente que pensemos neles."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 18. 

Sunday, July 26, 2026

MÃES

 


"Filhos. Trememos que sejam atropelados na rua, espreitamos ansiados a sua respiração ofegante em suas noites febris e nas crianças um qualquer nada faz subir o termómetro e o pavor na alma dos pais, descobrimos com riso o alvorejar do primeiro dente, as graças dos primeiros sorrisos que já nos entendem conhecem, os bracitos estendidos para nós, os gargarejos que são as suas primeiras falas monólogos incoerentes e logo mais depois o soletrar aldrabado das primeiras palavras, as mais importantes para nós e eles: ma-mã, pa-pá, papa papinha, , teté..., as gracinhas amorosamente pacientemente ensinadas por avós tias amas criadas: como vai a tua vidinha? e o puto com a mãozita abanica para dizer assim-assim... Filhos: lemos com assustado alvoroço notícias terríveis macabras nos jornais de crianças raptadas violadas assassinadas e pomos num calafrio o caso em nós neles; olhamos para longe para os anos futuros já rapazes e ficamos dementes de os adivinhar vê-los fardados, mortos ou então heróis assassinados, ou estropiados ou bêbedos ou doidos de crueldades que nem relatam e praticaram, a que assistiram, ou cornudos, que é o costume nas guerras."


Luiz Pacheco, «O caso das criancinhas desaparecidas», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 116. 

Saturday, July 25, 2026

CHAMADO ZEBEDEU

 



"Até ela aquele foi levado, glorioso, eleito
para a recompensa, tendo-a obtido pelo martírio
de Cristo; Tiago, chamado Zebedeu, 
cumprindo devidamente o seu estatuto apostólico, 
arrebata, vencedor, os estigmas da paixão. 

Pois, esmagando, sem dúvida com o auxílio divino, 
as cóleras criminosas dos magos, reprime e castiga
a maldade dos demónios, cheios de inveja.
Por fim, ao insensato é dada uma palavra vivificante
e insigne, e um coração que, arrependido, passa a crer."



«Hino para o Dia de São Tiago» (séc. VIII), vv. 31-40., in Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, vol. 12, Lisboa: FLUL, 2016, p. 48. 

Friday, July 24, 2026

SE JÁ REGRESSEI DAS PALAVRAS NOCTURNAS

 



"onde me queres,
se já regressei das palavras nocturnas?
onde queres que o rosto efémero e frágil caia?

hoje estremeço em museu, fogueira com luto
tristeza com lenço, cotovelo, sangue escuro.
fui certeza em terra, fui inútil,
caçador, sacrifício e peditório:
medronho, maçãs, flores e juncos.

talvez espalme as mãos na terra,
as costas, o umbigo e os pés também.
talvez duas faces escuras,
pintem a casa de verde
com a cor do rosto que se esconde."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 64.

Thursday, July 23, 2026

A ZONA CINZENTA

 


"- Meu caro senhor, ao que parece, és ateu, mas defendes a zona cinzenta onde moram os demónios - repreendeu-o Lukas.
- Procuro lugar para eles, para que tu, meu senhos, possas enxotá-los e exorcizá-los. Eu falo como se tudo isto existisse, como se existisse... A existência de demónios não é tangível. Os demónios são o exército de Proteu, transformam-se sempre e regressam com novos corpos, com novos cenários.
- Eu diria que é antes um nada que tem o poder de assumir diversas formas mais ou menos agoirentas - retorquiu Longin Lukas. - O nada que seduz e enfeitiça, suborna, actua sempre desta maneira estranha, como se estivesse e não estivesse presente num dado momento. É construído a partir das nossas projecções, medos, e alimenta-se de bom grado do nosso pavor."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 275.

Wednesday, July 22, 2026

MADALENA

 




"Estas três mulheres são verdadeiramente três? Ou não fazem senão uma? Para os Gregos, que honram a Madalena desde o século VI, trata-se de três pessoas distintas. Nunca eles imaginaram que Maria Madalena tivesse sido pecadora."


José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, vol. II, 3.ª edição corrigida e aumentada, Braga: Editorial A.O., 1994, p. 453.