Saturday, January 22, 2022

INVULNERÁVEL

 



"Só o eterno 
é invulnerável ao tempo.
Para que uma obra de arte 
possa ser sempre admirada, 
para que um amor, uma amizade
possam durar a vida inteira
(e até durar talvez um dia inteiro
na sua absoluta pureza), 
para que um entendimento
da condição humana
possa permanecer inalterável 
através das múltiplas experiências
e das vicissitudes da fortuna
- é preciso haver uma inspiração
que desça do outro lado do céu."


Simone Weil, À porta do farol faz escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 63. 


Friday, January 21, 2022

RISCO

 



"O homem
não escapa às leis deste mundo
senão durante o espaço
de um relâmpago. 

Instantes de pausa, de contemplação, 
de intuição pura, 
de vazio mental, 
de aceitação do vazio moral.
É durante estes instantes
que ele é capaz de sobrenatural.

Quem suporta o vazio durante um momentos, 
ou recebe o pão sobrenatural, 
ou se despenha. 
Risco terrível, 
que é preciso correr, 
incluindo um momento sem esperança. 
Mas também não é preciso
precipitar-se nele."



Simone Weil, À porta do farol faz escuro, trad. Manuel Simões, Braga: Editorial A.O., 1991, p. 19. 

Wednesday, January 19, 2022

POSSIBILIDADE



"É possível que ninguém seja completo antes de descobrir o lugar que sempre esperou por ele, o lugar que o reflecte, e de certo modo o integra."


Cristina Campo, Sob um Falso Nome, trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 157. 

Tuesday, January 18, 2022

A VIRTUDE HUMANA

 


"«Pude verificar», escreve o conde, «que os espertos se tornem estúpidos, os sábios, insensatos, os verdadeiros profetas, mentirosos, os amantes da verdade, falsos. Nenhuma virtude humana é constante, à exceção de uma única: a de uma verdadeira piedade. A fé não nos pode desiludir, porque nada nos promete na terra. O verdadeiro crente não nos desilude, porque não procura nenhuma vantagem na terra.»"

Joseph Roth, O Busto do Imperador, trad. Álvaro Gonçalves, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, pp. 85-86. 

Monday, January 17, 2022

ASTENIA

 


"Os inquéritos confirmam estas análises. Na alvorada do III milénio os valores mais apreciados na sociedade francesa são, por ordem: a honestidade, a justiça, a amizade, a igualdade, a família, o respeito pelo ambiente; o patriotismo chega em vígésimo segundo lugar. Os valores «de proximidade» são privilegiados: não sofrer e não mais fazer sofrer são os imperativos mais acatados, com uma nítida vontade de reconciliar prazer e bem. Praticar o bem sem dor: esta atitude é reveladora do abandono da culpa e da ideia de pecado original. Daí os acessos de generosidade orquestrados pelos media, associando dons e divertimentos, ao estilo televisivo. As causas humanitárias, as catástrofes, suscitam a formação de comités de apoio que, na Internet, avizinham com os clubes de especulação bolsista e os de pornografia. 
Paradoxalmente, o desejo de ser feliz a qualquer preço age como uma nova angústia: «Sede felizes» tornou-se o primeiro mandamento. Este é objecto de um tal consenso que se transforma numa pressão culpabilizante para muitos indivíduos que não conseguem encaixar-se no modelo de felicidade transmitido pelos media. Stress e depressão conjugam-se admiravelmente, como que numa evocação da expulsão do paraíso, momento a partir do qual «a felicidade já não é deste mundo»"


Georges Minois, As Origens do Mal, trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Lisboa: Teorema, 2004, pp. 433-434. 

Sunday, January 16, 2022

HOMEM DE BEM

 




"Confúcio diz: O homem de bem tem respeito por três coisas: os Decretos do Céu, os homens eminentes e as palavras do Sábio. O homem medíocre não teme a Vontade Celeste pela simples razão de não a conhecer, toma liberdades com os grande e põe a ridículo as palavras do Sábio."


Conversações de Confúcio, trad. M. F. Gonçalves de Azevedo sobre a versão francesa de Anne Cheng, Lisboa: Editorial Estampa, 1991, p. 167. 

Saturday, January 15, 2022

MIL RUMORES

 



"É esta salvação: o mar, o entardecer que se estende pelo horizonte, os mil rumores submissos que precedem o sono, a cantilena duma mulher: pormenores que palpitam como ténues, milagrosas luzes, sobre um fundo de sombra e parecem arrastar as suas existências até ao preciso momento em que vão morrer. A sua possibilidade de vibração surge disso, para que a hora se cumpra no seu pleno significado e se torne, por assim dizer, eterna."


Cristina Campo, Sob um Falso Nome, trad. Armando Silva Carvalho, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 11.

Thursday, January 13, 2022

ÊXTASE

 



"A viagem é uma cronologia fantástica
de portos ignotos e países distantes,

às vezes os golfinhos cercam as cartas de marear
e inventam novos rumos no grande paraíso marítimo,

os porões enchem-se de filamentos de prata
que adensam a treva com o êxtase da aventura, 

o mistério prolonga-se entre Elêusis e Delos, 
corre no coração a volúpia incessante, 

as ilhas enchem-se de vozes íntimas, 
na face de Eurídice correm lágrimas ardentes."

 
Amadeu Baptista, Arte do Regresso, Porto: Campo das Letras, 1999, p. 71. 

Wednesday, January 12, 2022

INTERMITENTE

 


"O coração dos modernos é, pois, um coração intermitente e que não chega a conhecer-se. Nos modernos, não são só as obras que são inacabadas, mas o próprio mundo, tal como elas o expressam, é como que uma obra sem conclusão e acerca da qual não se sabe se alguma vez terá uma."

Maurice de Merleau-Ponty, Palestras, III, trad. Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2003, p. 65. 

Tuesday, January 11, 2022

ANOMALIA

 



"O ar, a nossa aura, desempenha a mesma função que o pêlo de uma raposa ou a casca de um caracol, mas é mais sensível e mais receptivo. É uma anomalia estranha e bela, não em si mesma uma coisa viva no mesmo sentido em que normalmente definimos coisas vivas, mas muito mais do que um véu gasoso insubstancial ou uma mistura aleatória de gases."


Lyall Watson, Uma História Natural do Vento, Porto: Bazarov, 2020, p. 35. 

Monday, January 10, 2022

LUGARES

 


"As coisas não são, portanto, diante de nós simples objectos neutros, que contemplaríamos; cada uma delas simboliza para nós uma certa conduta, lembra-no-la, provoca em nós reacções favoráveis ou desfavoráveis; é por isso que os gostos de um homem, o seu carácter, a atitude que tomou a respeito do mundo e do ser exterior, se leem nos objectos que escolheu rodear-se, nas cores que prefere, nos lugares de passeio que escolhe."


Maurice de Merleau-Ponty, Palestras, III, trad. Artur Morão, Lisboa: Edições 70, 2003, p. 35. 

Sunday, January 9, 2022

ATMOSFERA

 



"Uma atmosfera é o pré-requisito crucial para a vida e a mente. Sem ela, os mundos são desertos batidos, secos como ossos velhos, pisados por pés desconhecidos em silêncio, e onde até a poeira está morta. Com ela, tudo se torna possível. Pilhas de rochas em órbita organizam-se, assumindo a aparência reservada de seres vivos, dando e recebendo informações, aprendendo as competências essenciais necessárias para lidar com o sol."

Lyall Watson, Uma História Natural do Vento, Porto: Bazarov, 2020, p. 30. 

Saturday, January 8, 2022

ÉPOCA


"Apesar de tudo amo a minha época porque é a época em que falta tudo e, exactamente por isso, talvez seja o verdadeiro tempo do conto de fadas. E é claro que não entendo com isto a era dos tapetes voadores e dos espelhos mágicos, que o homem destruiu para sempre no acto de fabricá-los, mas sim a época da beleza em fuga, da graça e do mistério prestes a desaparecer, como as aparições e os sinais arcanos do conto de fadas: tudo aquilo a que certos homens nunca renunciam, que quanto mais os apaixona mais parece perdido e esquecido. Tudo o que se vai procurar bem longe, mesmo com risco de vida, como a rosa de Belinda em pleno Inverno. Tudo o que sempre se oculta sob peles cada vez mais impenetráveis, no fundo de cada vez mais horrendos labirintos."

Cristina Campo, Os Imperdoáveis, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, pp. 158-159. 

Thursday, January 6, 2022

MAGI

 



"Enquanto não estiver preparado progressivamente, por meio da noite obscura e cheia de aridez, ele não poderá sentir os prazeres e os bens espirituais; a secura e a repugnância terão dado lugar a essa suavidade que antes saboreava com tanta facilidade. De facto, aqueles que Deus começa a introduzir nas solidões do deserto são parecidos com os filhos de Israel. Logo que Deus os conduziu ao deserto, começou a dar-lhes o maná que caía do céu e que em si próprio continha todos os gostos e que, como se diz na Escritura, tomava o gosto que cada um desejava."

São João da Cruz, A Noite Obscura, trad. Teresa Antunes Cardoso e Armando Pereira da Silva, Lisboa: Editorial Estampa, 1993, pp. 68-69. 

Wednesday, January 5, 2022

PENSAMENTO

 


"E é essa a mensagem que querias enviar aos homens?
- Não, David. Os homens são capazes de muita coisa. Virá certamente o dia em que conseguirão vencer esta inimiga com as armas da ciência e da perseverança. Não se trata disso. 
- Como é que poderiam então aliviar o trabalho do cocheiro?
- Em breve virá a manhã do primeiro dia do ano, David, e , ao acordarem, o primeiro pensamento dos homens será para o novo ano; pensarão em tudo o que esperam e desejam que este anos lhes traga e depois pensarão no futuro. E o que eu queria era poder aconselhá-los a não pedirem nem a felicidade do amor nem o sucesso, nem a riqueza ou a longa vida, nem sequer a saúde. Não, que se limitem a juntar as mãos e a concentrar as ideias num único pedido: «Senhor, fazei com que a minha alma alcance a maturidade antes de ser ceifada!»"


Selma Lagerlöf, O Cocheiro da Morte, trad. Maria de Fátima Lourenço Godinho, Lisboa: Editorial Estampa, 1975, p. 102. 

Tuesday, January 4, 2022

LIBERTAR-SE

 


"Queria libertar-se para correr atrás do ser fugitivo, mas é subitamente impedido por algo que o paralisa ainda mais que as cordas e as correntes. É o amor, o amor das almas, ao pé do qual o amor dos homens é apenas um pálido reflexo, e que novamente, tal como no leito de morte de Edite, o subjuga. Este amor penetrou-o lentamente, como um fogo recém-acendido penetra lentamente na madeira. Nada se sabe da sua obra; lança, de quando em quando, uma faísca que prova que não está morto. É uma pequena faísca deste género que acaba de se acender nele. Não brilha ainda com toda a intensidade, mas a sua luz é já suficiente para lhe mostrar a bem-amada tão bela que ele se curva, receoso, sentindo que não ousa, não quer aproximar-se dela, que não o suportaria..."

Selma Lagerlöf, O Cocheiro da Morte, trad. Maria de Fátima Lourenço Godinho, Lisboa: Editorial Estampa, 1975, pp. 78-79. 

Monday, January 3, 2022

IMPERSCRUTÁVEL

 


"(Assim, na poesia, a imagem preexiste à ideia a correr por dentro dela. Durante anos pode seguir um poeta: fabulosa e doméstica, angustiante e familiar. Quase sempre uma imagem da primeira infância: a etiqueta encantatória numa velha árvore do parque, o retorno, na vigília e no sonho, de uma figura de mulher que arruma fruta numa mesa. Imperscrutável e suave, ela espera pacientemente que a revelação - que o destino - a cumule)."

Cristina Campo, Os Imperdoáveis, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 48. 

Sunday, January 2, 2022

PARADOXAL

 


"Como é paradoxal então, apesar de exactíssima, a ideia de viagem, de esforço, de paciência. É neste paradoxo que se situa a encruzilhada entre o eterno e o tempo, dado que a forma tem de se destruir por si própria, mas só no momento em que se cumprir perfeitamente."

Cristina Campo, Os Imperdoáveis, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Assírio & Alvim, 2005, p. 26. 

Saturday, January 1, 2022

PROPORÇÃO DIVINA

 


"A Proporção Divina é uma expressão da nossa relação com o todo. Um dos grandes paradoxos da tradição ocidental é a crença na singularidade de Deus e a unidade da existência - e a respeito da multiplicidade existente no mundo que experimentamos. O problemático resultado disto é a inadequada crença de que estamos separados de alguma forma do resto da vida."

 

Priya Hemenway, O Código Secreto, trad. Maria do Rosário Quintela, Colónia: Evergreen, 2010, p. 170.  

IANUARIUS

 


"Aquilo que é mais atraente e que mais pessoas fascina na Proporção Divina provém da referência subliminar da razão a nós próprios, pois o seu aspecto mais profundo é explicitamente evocado quando colocamos o ser humano em equação e percebemos a proporção como uma relação que nos inclui a nós próprios. Ao observarmos o nosso lugar na equação, descobrimos que, variavelmente, somos o todo, somos a maior, e somos a mais pequena das partes - sempre numa razão perfeitamente equilibrada do todo para o maior e do maior para o mais pequeno."


Priya Hemenway, O Código Secreto, trad. Maria do Rosário Quintela, Colónia: Evergreen, 2010, p. 8.