"Disse-lhe que estas palavras se podiam aplicar a mim à letra: de hoje em diante, ele seria a arma escondida, a armadura invisível, o talismã mágico que alentaria na minha carreira.- Tudo é um combate - acrescentei -, combate entre a luz e as trevas, entre a beleza e a fealdade, entre a inteligência e a estupidez, entre a verdade e a hipocrisia, em suma, entre tudo o que representas e o que representa a maior parte da sociedade."Roger Peyrefitte, O Nosso Amor, trad. Manuel Crespo, Lisboa 2: Ulisseia, 1969, p. 52.
LVSIOS
Tuesday, February 17, 2026
BACO
PLAUSÍVEL
"ah, a velocidade com que por mim passa o mundo imaginário,
estive sempre em lugares que não existem, a saber
que tudo é plausível à minha volta, palavras que ouvi,
como um castelo de cartas, açoites e arroubos de melancolia,
telhados que ruíram, orações perdidas, ásperas borrascas."
Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, pp. 57-58.
Monday, February 16, 2026
O CAMINHO DE HERACLITO
"Agora quando já sabia ser eu deixei de me lembrar do meu nome.
Busquei no fundo de mim mas o fundo de mim não é meu.
As casas do meu corpo trespassaram as recordações que eram minhas
Enquanto eu vou na direcção da casa tormentosa.
Por certo voltei para trás, por certo enganei-me no caminho.
Ouço ao longe o coro dos sem voz.
Eu era o diadema.
Chamas-me e eu vou
Mas tenho de voltar.
Porque tenho de passar por esta prova?"
Sunday, February 15, 2026
NEUROTICISMO
"O que se passa com o presente que está sempre ansioso por julgar o passado? Há sempre algum neuroticismo ligado ao presente, que se crê superior ao passado mas não consegue superar a irritante ansiedade de que pode não o ser. E atrás disto vem outra questão: que autoridade temos nós para julgar?Somos o presente, o passado é o passado: habitualmente isto é suficiente para muitos de nós. E quando mais se recua no passado, tanto mais atraente se torna simplificá-lo. Por mais grosseira que a nossa acusação possa ser, o passado nunca responde, permanece em silêncio."
Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, p. 197.
Saturday, February 14, 2026
A PURA ETERIDADE
"acima dos fantasmas
está
a Luz
a pura Eteridade
descalça-se
espojando-se
de gotículas iridientes
aspergindo-as em bruma iridescente
acima dos rostos
está
a invisibilidade
do universo
mistério irresolúvel e opaco
da luminescência
espraiando-se infinitamente
em volatilidade de um Anjo
acima dos passos
está
a transparência
do silêncio do sinal
permanente e constante
filtrando-se pela ondulosidade
perfeita
respiração
em espiral"
SOBERANO DAS COISAS TRANSITÓRIAS
" Em 1893, Montesquiou enviou a Proust uma fotografia sua com a dedicatória: «Sou o soberano das coisas transitórias.» Proust já lhe tinha dado a alcunha de «Professor da Beleza». Era também conhecido como «Comandante dos Odores Delicados», enquanto Yturri era o «Chanceler das Flores». Nos anos finais de vida, de decadência, o Conde costumava consolar-se repetindo «Sou bom, tenho uma alma bonita», como se lhe coubesse decidir sobre qualquer uma dessas questões. Gostava de citar um dístico de um colega poeta alemão (e igualmente conde), Platen: «Aquele que olha a Beleza de frente / Já está dedicado à morte.» Para Montesquiou, a Beleza - quer fosse a beleza interior da própria alma, quer fosse o conceito e expressão de beleza do mundo exterior - é um espaço no qual a pessoa se recolhe, uma maneira de viver que diferencia, que a mantém afastada do mundo. É uma coisa privada, partilhada com iniciados. Muitos dos quais reconhecem quem é o iniciado principal."
Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, pp. 80-81.
Friday, February 13, 2026
PAUSA FRIA
Wednesday, February 11, 2026
PRECE
"Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.
Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.
Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"
Fernando Pessoa, "Prece", Mensagem, 19.ª ed., Lisboa: Ática, 1997, p. 75.
Sunday, February 8, 2026
HOMEM NOVO, HOMEM VELHO
AÍ DO ALTO
"aí do alto do corpo que conheça,
a noite revê-se enxuta
expondo a cidade: a secura
das esfinges gravadas
mais pela água.
daí donde invadem as atmosferas
e se partem os corpos em poalhas,
só limpa é a altura na dispersão."
Óscar Possacos, curva, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 60.
Saturday, February 7, 2026
O DIA DEU EM CHUVOSO
" O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.
Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...
O dia deu em chuvoso."
Álvaro de Campos, «Trapo», in Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 431-432.
Friday, February 6, 2026
O TEMPO
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província."
Thursday, February 5, 2026
LAGO
Monday, February 2, 2026
CANDEIAS
"Vi-me no assombro da aparição, ao alto, de Maria
Purgada de unção, pasma lívida,
E, por descuido, aspergindo-a no colo.
Vi-me no assombro, erecto, deleitoso.
Quando de pálpebras fechadas eu me aproximava
Em haustos e a prendia nos dentes e, nesse esgar,
Lhe pesava os cabelos, abaixou-se confusa,
A praguejar, aonde permaneceu muda.
(Os brancos olhos mordiam a boca que secava.)
Ó amada ofegante, repousada,
Acima do manto que manchava,
<Ali se vê etérea, de delicado áureo.>"
José Emílio-Nelson, Bacchanalia, s.l.: Edições Sem Nome, 2014, p. 56.
Sunday, February 1, 2026
ACREDITAR
Saturday, January 31, 2026
JARDIM (para a memória de Catherine O'Hara)
"Talvez toda a gente tenha um jardim do Éden, não sei; mas dificilmente o terão visto antes de verem a espada flamejante. Ou talvez a vida ofereça apenas a escolha entre lembrar-se do jardim ou esquecê-lo. De todo o modo, recordar exige outra, e é preciso ser um herói para se ser capaz de ambas. As pessoas que se lembram cortejam a loucura através da dor, a dor da morte da inocência repetindo-se para sempre; as pessoas que se esquecem cortejam outro tipo de loucura, a loucura da negação da dor e do ódio à inocência. E o mundo divide-se fundamentalmente entre loucos que esquecem e loucos que se lembram. Os heróis são raros."
James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 36.
FORÇA DE VONTADE
"Porque eu sou - ou era - uma daquelas pessoas que se orgulham da sua força de vontade, da sua capacidade de tomar uma decisão e de a levar avante. Esta virtude, como a maior parte das virtudes, é a própria ambiguidade. As pessoas que acreditam na sua força de vontade e em serem donos dos seus próprios destinos só conseguem manter essa crença tornando-se especialistas em se enganarem a si próprios As suas decisões não são de todo decisões - uma decisão de verdade torna-os humildes, pois sabemos que esta está à mercê de mais coisas do que as que podem ser enumeradas -, mas sistemas elaborados de evasão e de ilusão, concebidos para fazerem o mundo e eles próprios parecem aquilo que o mundo e eles próprios não são."
James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 31.
Friday, January 30, 2026
A RONDA
"Dois soldados
passam
de mãos dadas
como amantes
Não tardará
a ronda
a procurá-los
como cães
Soldados
de mãos dadas
têm nome
Não chegarão a ver as montras
e o rio
os dois soldados
e a sentar-se
num banco
de jardim
A ronda
não tardará
a alcançá-los"
António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 78.
EXPRESSÃO (para a memória de João Canijo)
"Clitemnestra - Criatura sem vergonha! Eu, as minhas palavras e os meus actos obrigam-me a dirigir-te insultos!
Electra - Não sou eu, és tu quem os profere, porque praticas as obras e as obras buscam a sua expressão nas palavras."
Sófocles, Electra, trad. Pe. E. Dias Palmeira, Lisboa: Sá da Costa, 1973, pp. 85-86.
Thursday, January 29, 2026
PEQUENAS POÇAS DE ÁGUA
"O poeta recorre à sucessão das imagens, o pintor à sua simultaneidade. Por exemplo: olho para os pássaros, que se banham numa pequena poça de água que se costuma formar, nos dias de chuva, no chumbo que recobre a saliência lisa de um telhado; reparo portanto, ao mesmo tempo, numa imensidade de coisas que o poeta não pode sequer mencionar, já não digo descrever, sob pena de se tornar cansativo e de acumular volumes sobre volumes dando apenas dessas coisas uma noção imperfeita. E note-se que citei somente um instantâneo. Agora um pássaro mergulha na água; vejo a sua cor, a parte inferior de prata, das suas pequenas asas, da sua cor, a forme ligeira, as gotas de água que ele solta sob o intenso sol... Este pequeno pássaro é a prova manifesta, da impotência da arte do poeta. De todas estas impressões ele tem de escolher a de maior impacto, de forma a que eu consiga imaginar as outras."Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 184.



















