Thursday, April 9, 2026

COMUNICAR


 

"Se alguma vez Victor sentiu-se no coração de sua religião, foi neste momento e esta mesma religião, ele talvez nunca a sentira no fundo do seu coração. A solidão desta pequena igreja no campo, a singularidade da relíquia que ela guardava, o desencadeamento da natureza uniam-se para dar-lhe a impressão de uma divindade que sabe comunicar-se por todos os meios: os mais terríveis, os mais comoventes, os mais absurdos. Um dia divertira-se ao saber que havia uma oração contra os terremotos, mas hoje compreendia que havia gente para recitar esta oração quando a terra se punha a tremer. «Nós só temos na noite uma pequena luz para nos conduzir, disse um filósofo, e a religião a apaga»: a religião é também esta pequena luz na noite."

Roger Peyrefitte, As Chaves de São Pedro, trad. Heitor Martins, Rio de Janeiro: Editora Júpiter, 1961, p. 269. 

Wednesday, April 8, 2026

APRENDIZAGEM

 


"Entretanto, que aprendera até então com tamanha fadiga? Nada de positivo entre os antigos, nada de belo entre os modernos. O passado e o presente são duas estátuas incompletas. Uma saiu toda mutilada dos escombros do tempo. A outra não recebeu nada ainda do acabamento do futuro."


François René de Chateaubriand, René, trad. Vergílio Godinho, Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 99. 

Tuesday, April 7, 2026

ÁGUA QUE NÃO SE BEBE

 




"Estamos longe ou então
Há água que não se bebe
é água potável
Há pessoas que não se vêem
são os mortos
e também não as ouvimos
Porque é que afirma o contrário
Porque é que gritou tão alto
Bem vê que vamos morrer
E eu não faço questão"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 15.

Monday, April 6, 2026

DELIMITADOS SOMOS PELOS DEUSES

 


"Delimitados somos pelos deuses

Antes que se evapore de repente
Escrever o problema com mestria
Eterna fixação que o canto inscreve

Meu coração partiu-se em quatro partes
Não posso a minha dama desfrutar
Chegado ao termo de lavor tão duro

Tudo perdemos sempre que chegamos
Delimitados somos pelos deuses

Dos deuses é o silêncio periférico
o nível e o espaço, o firmamento."


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 306. 

A RAIZ DA TERRA

 



"Pode um homem correr mundo
nos quatro ventos plantar
o rosto, a alma e o fundo
de tudo quanto é seu
que nenhum vento pode arrancar
a raiz da terra onde nasceu"


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 286.

Sunday, April 5, 2026

QUEM ESCOLHE O CAMINHO DAS PEDRAS

 



"Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte"



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 179.

NO INTERIOR DA TERRA


 

"Vimos a pedra vazia no interior da terra
A manhã. Nós não tocámos a luz
Inesperada. Pensámos
Que já o sono sendo eterno te afastara
E que farol que foste
Agora onda após onda, brasa extinta, naufragava

Nunca mais, pensámos, dormirias na proa
E quase desaprendêramos a guiar o barco
Em nossas viagens não amainaria mais, pensámos, e chegar a casa
Seria ver multiplicar-se
A nossa fome como o peixe e como o pão

Chegámos a terra porém e esperavas-nos
Os pés furados como conchas sobre a areia
E sentámo-nos em redor para comer"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 264. 

Saturday, April 4, 2026

O SILÊNCIO

 



"É mais de terra feito
que doutra matéria e matizes:
Pesa na fronte e no peito
sobre o tumulto das raízes...

E as raízes deitam fora
dedos, mãos, braços, 
de plantas plantadas na hora
dos passos longos, dos longos passos...

E das plantas 
há tantas
que mal ou bem
ficam no gesto de quem plantou, 
à espera do sol que não vem
ou tardiamente chegou."



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 37. 

Friday, April 3, 2026

SOFREDOR

 


"Assim, não sabemos precisamente quem foi responsável pela prisão, julgamento e execução de Jesus; nem sabemos o que tinha em mente quando se dirigiu para a morte. Aqueles que mantêm que se identificava com o Servo Sofredor acreditam que se considerava o seu sofrimento como expiação pelos pecados dos homens; os que não mantêm, não têm essa pretensão a respeito dele."


Humphrey Carpenter, Jesus, trad. Maria Manuela Pecegueiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982, p. 165. 

GÓLGOTA


 "O corteja saíra da cidade para chegarem ao lugar da Caveira, no Gólgota. Judeus caritativos tentaram dar-Lhe vinho misturado com mirra, para que não sentisse tanto a morte, mas Jesus recusou. Depois crucificaram três: os dois «bandidos», um à sua direita e outro à sua esquerda e Jesus no meio, pois era executado com o «rei dos Judeus». Mas Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!» Os soldados distribuíram entre si as roupas d'Ele e uma multidão curiosa observava a crucifixão."



David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 110. 

Thursday, April 2, 2026

JARDIM


 

"Depois da ceia e quando já haviam entoado os cânticos de louvor, Jesus saiu da cidade acompanhado pelos discípulos até ao vizinho Monte das Oliveiras e, chegando a um lugar de nome Getsémani, disse-lhes que ficassem ali e rezassem. E Ele afastou-se um pouco, ajoelhou-se e começou a orar: «Pai, se tu quiseres afasta de mim este cálice! No entanto, que seja feita a Tua vontade e não a minha.» E foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse-lhes: «Porque estais a dormir? Levantai-vos e rezai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito é forte, mas a carne é fraca.» (Cf. Lc 22, 39-46). Quase atraiçoara a voz que lhe anunciara a sua escolha e qualidade de Filho de Deus, mas cedera à tentação de aproveitar o escuro da noite para fugir de Getsémani para prolongar a vida sob um nome falso. Sujeitou-se à vontade de Seu Pai que estava no Céu, bebendo o cálice que já anteriormente suspeitara ser-Lhe destinado."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, pp. 99-100. 

CEIA


"Segundo os três primeiros Evangelhos que aqui estamos a seguir, a última refeição foi uma ceia pascal; Jesus sacrificou antes, por conseguinte, o cordeiro pascal. Na medida em que estava prescrito que o cordeiro assado fosse comido na própria cidade, Jesus não foi passar a última noite a Betânia, mas pernoitou em Jerusalém. O nome da hospedaria não passou à tradição, dado os peregrinos serem na altura recebidos gratuitamente e com agrado em toda a parte. E quando anoiteceu, sentou-se à mesa com os doze discípulos e disse-lhes: «Desejei muito comer esta Páscoa convosco, antes de morrer. Pois eu vos digo: Não a comerei de novo, até que se cumpra no Reino de Deus.» E aceitou um cálice com vinho, deu graças e disse: «Tomai isto e passai-o de um para outro entre vós; pois eu vos digo: doravante, não beberei mais do produto da videira até que chegue o Reino de Deus.» Pegou num pão, deu graças e disse: «Isto é o meu corpo!»"


 David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 99.

Wednesday, April 1, 2026

PRÁTICA DE AMOR



"Quem outrora escutava a prática de amor pronunciada por Jesus podia deixar-se envolver na mesma. Muitos assim o pensaram noutros tempos. Na pureza das frases sentia-se forçosamente, na verdade, algo de estranho. Jesus não recolheu tudo o que outrora se pensava e ensinava no judaísmo. Embora não fosse realmente um fariseu intrínseco, foi o fariseu do amor da escola de Hillel que, no entanto, levou a sua doutrina mais longe até ao amor incondicional, tanto para com os inimigos como para os pecadores. Ainda veremos que não se tratou de uma doutrina sentimentalista."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 63. 

Tuesday, March 31, 2026

JOUFFLUS

 


"Descobrir uma invectiva contra Cupido. Em ligação com as invectivas do alegorista contra a mitologia, que tão bem correspondem às dos clérigos dos começos da Idade Média. Na passagem em questão, Cupido pode ter recebido o epíteto de joufflu (bochechudo). A aversão de Baudelaire contra ele tem as mesmas raízes que o seu ódio a Béranger."



Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 176. 

SOUVENIR

 



"O souvenir é o complemento da «vivência». Nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos. No século XIX a alegoria abandonou o mundo exterior para se instalar no mundo interior. A relíquia vem do cadáver, o souvenir vem da experiência morta que, eufemisticamente, se designa de vivência."


Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 177. 

Monday, March 30, 2026

SINÓPTICO

 



"É sabido que o Jesus sinóptico nunca infringiu a lei de outrora - com a única excepção, de facto, relativamente ao colher das espigas ao sábado. A mais elucidativa da velha narrativa é a de Lucas (6, 1-5): «Aconteceu, então, num sábado, que Ele passava pelas searas e os Seus discípulos arrancavam e comiam espigas, esfregando-as nas mãos. Vendo isto, alguns fariseus disseram: "Por que fazeis o que não é lícito no sábado?"» A interpretação geral era a de que, ao sábado, apenas se podiam esfregar espigas caídas, com os dedos, mas, segundo a opinião do Rabi Judas, que também era um galileu como Jesus, também se podia fazê-lo «com a mão». O tradutor grego da narrativa original não estava então familiarizado com os hábitos do povo e, a fim de ilustrar a cena, acrescentou o arrancar das espigas sem suspeitar de que, mediante a única infracção à lei, se inseria na tradição sinóptica."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 36. 

Sunday, March 29, 2026

BEATA PERDIÇÃO

 



"Vi-Lhe o Rosto por detrás de véus frondosos
E não quis sossegar nas criaturas.
Desejei a morte e ainda roubo letras ao trabalho dos meus dias.
Volto os olhos para o mar saudoso.
O mundo, porém, persistiu em chamar por mim
E parecia-me a Sua voz que ordenava:
«Volta para tua casa!»
Voltei e estou a agir como deve ser.
Ninguém desconfia do meu gozo em negar-me quando me afirmo.
Eis-me naufragado na beata perdição."


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 294.

RAMOS

 



"Deus está entre as portas
Nas encruzilhadas
Onde um dá lugar ao outro
Elo em tudo o que acontece
Ponto por ponto.
Por isso é que o tempo não é inimigo de Deus
Sendo de bom senso homologar
Que tudo é um só Nome: Transcendente.
Portanto, a conclusão é simples:
Não podes parar ou deixar de dar as mãos."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 244.

Friday, March 27, 2026

FORÇOSO

 




"Forçoso é que a solidão transcenda
que a alma envenenando tem cativa
da teia do silêncio, e com nativa
voz novamente à humanidade ascenda.
E pura seja a força que me atenda,
mais forte do que a dúvida furtiva,
para encontrar de novo, rediviva,
a confiança que esta angústia fenda.
Pois se no mundo é difícil ser
maior que a dor, do tempo consciente,
inútil é da sorte algo esperar.
Que tudo o que é possível de querer
só cada um de si a si consente
na eterna maravilha de se achar."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 70.

AUSÊNCIA EM VIDA ADIVINHADA

 




"Passando, faz-se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela-me sabê-lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça-forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo -
que da razão já sinto descolada -
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 64.