"Ávido das chamas
cedi à fome e engoli o fogo.
Fui delírio, fui delito.
Eis-me agora:
pequeno incêndio,
um perigo intacto.
O mais brilhante segredo desta esfera."
Ricardo Gil Soeiro, Pirilampos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 59.
"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.
(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)
No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.
Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."
Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62.
"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras:«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"
Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29.
"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."
Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18.
"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.
"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."
João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177.
"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.
"Procurava uma palavra que exprimisse a sua maravilhosa surpresa e não a encontrava. A solidão exaltada de que se nutria tanto tempo o seu jovem orgulho, entre esses homens grosseiros que ele temia e desprezava ao mesmo tempo, não se quebraria num dia, mas ele sentia-a prestes a ceder, a abrir-se, como um muro batido pelo mar. Qualquer palavra, aliás, teria parecido vil ao seu coração pleno. Os seus grandes olhos encheram-se de lágrimas."George Bernanos, Um crime, trad. Ersílio Cardoso, Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 54.
"... Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos."Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, 8.ª ed., São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 107.
"As montanhas saíram do fundo do mar, a terra nasceu do seio das ondas, embora sempre rodeada pelo vasto oceano. É imóvel porque o universo se afasta dela em todos os sentidos com igual força: caiu tanto de toda a parte que já não pode cair de nenhuma; é o centro e, ao mesmo tempo, o lugar mais baixo de todo o universo."
Marcus Manilius, Os Astrológicos ou a Ciência Sagrada dos Céus, I, trad. Inês Guerreiro, Lisboa: Arcádia, s.d., p.16.