"Tal como o abismo celeste entre os imortais e aqueles que morrem é intransponível, o abismo individual (entre si mesmo e a sua fonte) é intransponível."
Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 110.
"Tal como o abismo celeste entre os imortais e aqueles que morrem é intransponível, o abismo individual (entre si mesmo e a sua fonte) é intransponível."
Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 110.
"347
A Arte é uma coisa (um objecto) que sorri ou sofre (um sentimento) e que, desde o seu ninho, pode voar noutros céus e, nunca se sabe como, transformá-los. Cada um dos seus instantes saberá, ou não, como."
Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 80-81.
"294
O homem que sou, e o mundo em que vivo, sempre em estado de desgraça, essa trágica fonte de poesia. O poeta, em estado de graça? A musa bebe na miséria humana, na ironia terrível da natureza."
Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 69.
"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."
Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139.
"Por definição, o novo é a parte das coisas que desaparecerá. O perigo do novo é o de o deixar de ser automaticamente, e deixa-o com um simples prejuízo. Como acontece com a juventude e a vida. Criar qualquer oposição a tal prejuízo equivale a actuar e a construir contra o novo.Assim, busca o novo como um artista é tratar de desaparecer ou procurar sob o nome do novo, algo completamente distinto e expor-se a um equívoco."
Paul Valéry, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & Outros, trad. Luís Fernando Quaresma, Lisboa: Editora Pergaminho, 1994, p. 22.
"O Deus a que me liguei é mais um estado de enamoramento do que um nome próprio. É o espanto, o respeito e mesmo o amor pela realidade do mistério que nos envolve. São isso os seres humanos: nada de mais grandioso e misterioso, rodeados de promessas que ainda não fomos capazes de cumprir. Eu sei que os acontecimentos que sucedem na terra podem ser horríveis, mas a fé é uma aposta que nos ajuda a compreendê-los e a saber que tudo assim acontece porque fomos feitos com liberdade."
António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 145.
"A vida de S. Francisco de Assis, por exemplo, só é compreensível noutro contexto social e noutra mentalidade: S. Francisco, e todos os seus irmãos, seriam hoje uns maluquinhos, masoquistas com uma relação com Deus, com o mundo e com os homens que não sei se deverá ser seguida nos nossos dias, mas ficou aquele grande exemplo do amor, do despojamento e da paz.Acho que nós temos tido mais moral do que religião. Não é da essência de uma religião impor modelos de comportamento e não é necessária uma religião para se ter um comportamento digno. É isso que me faz sentir que a relação com Deus está muito para além daquilo que temos que dar aos outros na área dos comportamentos."António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 102.
"A Bárbara interrompeu:- Eu acho que estou nesse estado. É quando estamos sem Deus que temos uma indefinível necessidade dele. Eu sinto esse vazio, essa imensa falta na minha inteligibilidade, como se o mundo pudesse passar sem Deus mas as pessoas não.- No fundo, eu continuava com uma concepção teória de Deus mas tu fizeste-me vir à terra e começo a pressentir a necessidade de viver tudo isto com intensidade. Eu estava preguiçoso em relação a Deus. como tu dizes, eu andava para aqui a empatar."António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 65.
"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.
"Respondi:- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.
"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.
"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13.