"Foi-me tão longa e funda a solidão
que vi a dor mudar em pensamento;
neutralizado assim o sofrimento,
julguei ter o governo da emoção.
E dela livre, p'la imaginação,
até onde podia ir o meu alento,
arroguei-me do' humano sentimento
enquanto ia vazando o coração.
Mas sem que o perigo apercebesse,
em máscaras de mim me extraviei
negando em cada uma outra verdade.
E reaver-me agora me parece -
na ausência viva que enganar não sei -
a última ironia da saudade..."
Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 72.