"Sacrifício imolado
pelos deuses amado
pelos anjos visitado
protegido dos espíritos
de o corpo trancado."
"Talvez acabe por preferir a solidão. A solidão é como uma dádiva, nela se não precisa mais do que finura, um certo engenho para contemplarmos com o nosso universo interior cada pedaço do céu ou cada rosa-dos-ventos. Serenos. Receber-lhe as variações. Do mesmo lugar, e sentido o que somos capazes de poder sentir."
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 187.
"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro"
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74.
"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64.
"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65.
"O CEGO - Não vejo, mas ouço! Ouço a âncora arrastar o lodo do fundo, como quando se arranca o anzol do peixe e lhe sai também pelas goelas o coração! - O meu filho, o meu único filho vai partir e cruzar o mar infinito em direcção a terras desconhecidas. Só posso acompanhá-lo em pensamento. - Estou a ouvir a corrente a ranger - e - há qualquer coisa a bater ao vento como roupa a secar na corda... lenços molhados talvez - e ouço soluços e gemidos como seres humanos a chorar... serão as ondas contra o costado do navio ou as raparigas na praia - é que o mar era salgado, e a criança que tinha o pai embarcado respondeu logo: o mar é salgado porque os marinheiros choram muito. - E porque é que os marinheiros choram muito? - E ela respondeu: porque estão sempre de partida. - E secam sempre os lenços no alto dos mastros! - E eu perguntei, porque é que o ser humano chora quando está triste? - E ela disse: porque os vidros dos olhos têm de se lavar de vez em quando para vermos melhor!-"
August Strindbergh, Um Sonho, trad. Cristina Reis, Luís Miguel Cintra e Melanie Mederlind, Lisboa: ed. Teatro da Cornucópia, 1998, p. 44.
"A vida seria bela, se todos cumpríssemos os nossos deveres para com ela. Se todos soubéssemos viver a vida! Viver, é dar-se à verdade e amar a todos e a tudo. Dar o seu casaco quente à mulher que passa cheia de filhos, de fome e de frio, tendo apenas farrapos para se aquecer.
E os mais miseráveis, ainda as deixam ficar e fogem.
E a vida começa a ser negra e triste como a noite. O que se passa além já não é viver, é andar no mondo aos tropeções. Cai aqui, levanta acolá!"
Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 54.