Sunday, May 24, 2026

MYSTICA

 



"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.

Saturday, May 23, 2026

RESPLANDECE

 



"resplandece
a árvore do silêncio
de cujo centro
flui
o rendilhado
de luz

dela irradia
a lactescência do universo
a constância do etéreo
a solenidade da calma

o leito que esperas
para o entardecer"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 32.

UM TEMPO AINDA OUTRO

 


"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro" 

 

Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74. 

Friday, May 22, 2026

MISERICÓRDIA

 



"Cada homem se leva, por si ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se da sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia."


Armindo Trevisan, «Sexta Opção» in "9 Poemas", Colóquio-Letras, n.º 2, junho de 1971, p. 68.

Thursday, May 21, 2026

A PORTA

 


"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64. 

ANTIGAMENTE


 


"Antigamente é que era, hem!?, hem?!...
Rei contra rei. Pronto. Sobe em cima do cavalo, pega na espada, defende, luta, dá morte, pronto, cai no chão, assim é que era! Agora estes são o quê?, querem o quê?, sim, o que é que eles querem?... Ver os outros ali adiante, ver além lutar os outros, os outros a lutar! Olhem lá que coragem!"


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 143.

Monday, May 18, 2026

CORAÇÕES CONTENTES

 


"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65. 

Sunday, May 17, 2026

VISÃO

 


"O CEGO - Não vejo, mas ouço! Ouço a âncora arrastar o lodo do fundo, como quando se arranca o anzol do peixe e lhe sai também pelas goelas o coração! - O meu filho, o meu único filho vai partir e cruzar o mar infinito em direcção a terras desconhecidas. Só posso acompanhá-lo em pensamento. - Estou a ouvir a corrente a ranger - e - há qualquer coisa a bater ao vento como roupa a secar na corda... lenços molhados talvez - e ouço soluços e gemidos como seres humanos a chorar... serão as ondas contra o costado do navio ou as raparigas na praia - é que o mar era salgado, e a criança que tinha o pai embarcado respondeu logo: o mar é salgado porque os marinheiros choram muito. - E porque é que os marinheiros choram muito? -  E ela respondeu: porque estão sempre de partida. - E secam sempre os lenços no alto dos mastros! - E eu perguntei, porque é que o ser humano chora quando está triste? - E ela disse: porque os vidros dos olhos têm de se lavar de vez em quando para vermos melhor!-"


August Strindbergh, Um Sonho, trad. Cristina Reis, Luís Miguel Cintra e Melanie Mederlind, Lisboa: ed. Teatro da Cornucópia, 1998, p. 44. 

Saturday, May 16, 2026

PESO ABENÇOADO

 



"Nessa árvore que o fruto mal sustém, 
Avergada ao seu peso abençoado, 
Nessas árvores sorri um ar sagrado, 
Todo perdão e piedoso bem,,,

Ouve-se nela a Natureza... «Vem», 
Fala esta ao faminto, ao desgraçado. - 
«Vem comer o meu fruto! Filho amado, 
«Vem beber o meu leite alvo de Mãe...»

E a árvore, a Natureza, este anseio, 
(Mãe terna dando ao filho o farto seio...)
À fera e ao verme faz igual pregão.

E como o verme a rastejar na lama
Lhe não alcance o seio, estende a rama,
Baixando o fruto, o seio, até ao chão..."



Bernardo de Passos, «Grão de Trigo», in Poesia da Árvore - Antologia Poética, org. Eng. Resina Rodrigues, 1979, p. 51. 

Friday, May 15, 2026

CHAMAR À VIDA II

 


"A vida seria bela, se todos cumpríssemos os nossos deveres para com ela. Se todos soubéssemos viver a vida! Viver, é dar-se à verdade e amar a todos e a tudo. Dar o seu casaco quente à mulher que passa cheia de filhos, de fome e de frio, tendo apenas farrapos para se aquecer.
E os mais miseráveis, ainda as deixam ficar e fogem.
E a vida começa a ser negra e triste como a noite. O que se passa além já não é viver, é andar no mondo aos tropeções. Cai aqui, levanta acolá!"


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 54.

CHAMAR À VIDA

 



"Com capelinhas de pedra tosca, com a arte própria do tempo e da classe, estão as estradas nortenhas guarnecidas de longe, a longe, com as «Alminhas» a chamar à vida, aquelas que estão a arder nas labaredas que lhe cobrem a cara e as mãos.
As pessoas param. Ficam e rezam; e as «Alminhas», de mãos erguidas, esperam impacientemente a hora do resgate e da purificação."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 51.

Thursday, May 14, 2026

ESFUMANDO

 


"O tempo estava a mudar; uma neblina fria e triste ia e vinha, como um véu, que vindo das alturas envolve tudo: esfumando os penedos, as árvores, a encosta da serra, escondendo aos nossos olhos, cansados de meditar, naquilo que o mundo murmurava além. Ao longe, as pedras, os penedos e as escadas incertas, mais duvidosas ainda pela luz que ia faltando, no caminho que nos levava a nossa casa. Os cães latiam e era o único ruído que nos dava a certeza da vida, no meio daquele silêncio da morte."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 16.

Wednesday, May 13, 2026

VONTADES


 

"E eu o que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas, Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como é a vontade, É uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada, Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta com Baltasar, para isso viemos aqui, Não posso, jurei que nunca o veria por dentro, Então comigo."


José Saramago, Memorial do Convento, 21.ª ed., Lisboa: Caminho, 1992, p. 124. 

Monday, May 11, 2026

LOQUAZ

 


"Suponho que há escritores loquazes e escritores silenciosos. Falar e escrever são, para mim, exercícios completamente diferentes. Pertenço mais ao género dos parcos que ao dos loquazes, e, cada vez mais, por motivos óbvios. Segui sempre o conselho daquele que antes de falar mordia dez vezes a língua. Se à décima mordidela continuava a pensar a mesma coisa, dizia-a; se hesitava, ficava calado. Passo a duvidar de se vale a pena dizer o que estou a dizer. Tomar a palavra, de certa maneira, é vergonhoso, é como dizer; eu, sim, tenho qualquer coisa para dizer, ouçam-me. Pelo contrário... não estou muito certo de ter alguma coisa interessante para dizer. Na verdade, sinto-me esmagado pelo penso das palavras."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 31. 

Saturday, May 9, 2026

ÁVIDO

 



"Ávido das chamas
cedi à fome e engoli o fogo.

Fui delírio, fui delito.

Eis-me agora:
pequeno incêndio,
um perigo intacto.

O mais brilhante segredo desta esfera."



Ricardo Gil Soeiro, Pirilampos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 59.

Friday, May 8, 2026

MINICÉU

 


"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.

(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)

No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.

Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."


Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62

Thursday, May 7, 2026

A ROSA DO ENCOBERTO

 


"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras: 
«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"

Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29. 

Tuesday, May 5, 2026

AS PALAVRAS

 


"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18. 

Sunday, May 3, 2026

MATERNIDADE

 


"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.
Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:
- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"


Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.

MULHERES

 



"Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos.
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na Cruz.
- Infâncias que foram
De fadas e flores."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. II, Lisboa: INCM, 1994, p. 25.