"Depois da ceia e quando já haviam entoado os cânticos de louvor, Jesus saiu da cidade acompanhado pelos discípulos até ao vizinho Monte das Oliveiras e, chegando a um lugar de nome Getsémani, disse-lhes que ficassem ali e rezassem. E Ele afastou-se um pouco, ajoelhou-se e começou a orar: «Pai, se tu quiseres afasta de mim este cálice! No entanto, que seja feita a Tua vontade e não a minha.» E foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse-lhes: «Porque estais a dormir? Levantai-vos e rezai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito é forte, mas a carne é fraca.» (Cf. Lc 22, 39-46). Quase atraiçoara a voz que lhe anunciara a sua escolha e qualidade de Filho de Deus, mas cedera à tentação de aproveitar o escuro da noite para fugir de Getsémani para prolongar a vida sob um nome falso. Sujeitou-se à vontade de Seu Pai que estava no Céu, bebendo o cálice que já anteriormente suspeitara ser-Lhe destinado."David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, pp. 99-100.
LVSIOS
Thursday, April 2, 2026
JARDIM
CEIA
"Segundo os três primeiros Evangelhos que aqui estamos a seguir, a última refeição foi uma ceia pascal; Jesus sacrificou antes, por conseguinte, o cordeiro pascal. Na medida em que estava prescrito que o cordeiro assado fosse comido na própria cidade, Jesus não foi passar a última noite a Betânia, mas pernoitou em Jerusalém. O nome da hospedaria não passou à tradição, dado os peregrinos serem na altura recebidos gratuitamente e com agrado em toda a parte. E quando anoiteceu, sentou-se à mesa com os doze discípulos e disse-lhes: «Desejei muito comer esta Páscoa convosco, antes de morrer. Pois eu vos digo: Não a comerei de novo, até que se cumpra no Reino de Deus.» E aceitou um cálice com vinho, deu graças e disse: «Tomai isto e passai-o de um para outro entre vós; pois eu vos digo: doravante, não beberei mais do produto da videira até que chegue o Reino de Deus.» Pegou num pão, deu graças e disse: «Isto é o meu corpo!»"David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 99.
Wednesday, April 1, 2026
PRÁTICA DE AMOR
"Quem outrora escutava a prática de amor pronunciada por Jesus podia deixar-se envolver na mesma. Muitos assim o pensaram noutros tempos. Na pureza das frases sentia-se forçosamente, na verdade, algo de estranho. Jesus não recolheu tudo o que outrora se pensava e ensinava no judaísmo. Embora não fosse realmente um fariseu intrínseco, foi o fariseu do amor da escola de Hillel que, no entanto, levou a sua doutrina mais longe até ao amor incondicional, tanto para com os inimigos como para os pecadores. Ainda veremos que não se tratou de uma doutrina sentimentalista."David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 63.
Tuesday, March 31, 2026
JOUFFLUS
"Descobrir uma invectiva contra Cupido. Em ligação com as invectivas do alegorista contra a mitologia, que tão bem correspondem às dos clérigos dos começos da Idade Média. Na passagem em questão, Cupido pode ter recebido o epíteto de joufflu (bochechudo). A aversão de Baudelaire contra ele tem as mesmas raízes que o seu ódio a Béranger."Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 176.
SOUVENIR
"O souvenir é o complemento da «vivência». Nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos. No século XIX a alegoria abandonou o mundo exterior para se instalar no mundo interior. A relíquia vem do cadáver, o souvenir vem da experiência morta que, eufemisticamente, se designa de vivência."Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 177.
Monday, March 30, 2026
SINÓPTICO
"É sabido que o Jesus sinóptico nunca infringiu a lei de outrora - com a única excepção, de facto, relativamente ao colher das espigas ao sábado. A mais elucidativa da velha narrativa é a de Lucas (6, 1-5): «Aconteceu, então, num sábado, que Ele passava pelas searas e os Seus discípulos arrancavam e comiam espigas, esfregando-as nas mãos. Vendo isto, alguns fariseus disseram: "Por que fazeis o que não é lícito no sábado?"» A interpretação geral era a de que, ao sábado, apenas se podiam esfregar espigas caídas, com os dedos, mas, segundo a opinião do Rabi Judas, que também era um galileu como Jesus, também se podia fazê-lo «com a mão». O tradutor grego da narrativa original não estava então familiarizado com os hábitos do povo e, a fim de ilustrar a cena, acrescentou o arrancar das espigas sem suspeitar de que, mediante a única infracção à lei, se inseria na tradição sinóptica."David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 36.
Sunday, March 29, 2026
BEATA PERDIÇÃO
"Vi-Lhe o Rosto por detrás de véus frondosos
E não quis sossegar nas criaturas.
Desejei a morte e ainda roubo letras ao trabalho dos meus dias.
Volto os olhos para o mar saudoso.
O mundo, porém, persistiu em chamar por mim
E parecia-me a Sua voz que ordenava:
«Volta para tua casa!»
Voltei e estou a agir como deve ser.
Ninguém desconfia do meu gozo em negar-me quando me afirmo.
Eis-me naufragado na beata perdição."
RAMOS
"Deus está entre as portas
Nas encruzilhadas
Onde um dá lugar ao outro
Elo em tudo o que acontece
Ponto por ponto.
Por isso é que o tempo não é inimigo de Deus
Sendo de bom senso homologar
Que tudo é um só Nome: Transcendente.
Portanto, a conclusão é simples:
Não podes parar ou deixar de dar as mãos."
Friday, March 27, 2026
FORÇOSO
"Forçoso é que a solidão transcenda
que a alma envenenando tem cativa
da teia do silêncio, e com nativa
voz novamente à humanidade ascenda.
E pura seja a força que me atenda,
mais forte do que a dúvida furtiva,
para encontrar de novo, rediviva,
a confiança que esta angústia fenda.
Pois se no mundo é difícil ser
maior que a dor, do tempo consciente,
inútil é da sorte algo esperar.
Que tudo o que é possível de querer
só cada um de si a si consente
na eterna maravilha de se achar."
Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 70.
AUSÊNCIA EM VIDA ADIVINHADA
"Passando, faz-se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela-me sabê-lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça-forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo -
que da razão já sinto descolada -
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento."
Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 64.
Monday, March 23, 2026
VEM VINDO
Sunday, March 22, 2026
LAZARE, VENI FORAS
"20. A morte é vencida, o homem é restabelecido, as cadeias dos infernos são quebradas. E depois de quatro dias a língua de Lázaro volta a mexer-se, as mãos aprestam-se para o trabalho, os olhos giram nas suas órbitas, os seus passos voltam a deixar pegadas, a audição retorna aos ouvidos e o olhar volta-se para os seus parentes. A vista revitalizada reconhece os familiares e a voz da sua família penetra nos seus ouvidos. Os pés do Salvador, por onde quer que se movam, encontram beijos por toda a parte. Pede-se água fresca, não se recusa o pão, toma-se o caminho de casa, relatam-se os milagres de Cristo."
Potâmio de Lisboa, «Acerca de Lázaro», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 122.
FORÇA ASCENCIONAL
"O sofrimento humano, a totalidade do sofrimento difundido, a cada instante, pela terra inteira, que imenso oceano! Mas de que é formada essa massa? De escuridão, de lacunas, de perdas?... Não, mas, devemos repeti-lo sempre, de energia possível. No sofrimento esconde-se, com uma intensidade extrema, a força ascensional do Mundo. Toda a questão está em libertá-la, dando-lhe a consciência de que ela significaria e daquilo de que ela é capaz. Ah, que salto não daria o Mundo em direcção a Deus se todos os doentes ao mesmo tempo transformassem as suas dores num desejo comum de que o Reino de Deus amadureça rapidamente através da conquista e organização da Terra!"
Pierre Teilhard de Chardin, Hino do Universo, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Editorial Notícias, 1995, p. 90.
Saturday, March 21, 2026
DIA DA ÁRVORE
"E assim o demónio, que tinha vencido na árvore da ciência do bem e do mal, onde Adão e Eva pecaram, foi vencido na árvore da vida, que é a árvore da vera Cruz: onde o Senhor acabou seus trabalhos, para começarem nossos descansos."
Frei Heitor Pinto, Imagem da Vida Cristã, vol. II, cap. XXVI, Lisboa: Sá da Costa, 1940, pp. 313-314.
DIA DA POESIA
"Vejo com os olhos de Deus,
adormeço com ele sobre as paisagens,
dispus cuidadosamente o sangue nas areias,
ao dobrar o cabo dos anos, calei-me.
O tempo vai esmorecendo nas pobres vozes,
é uma terra parada a que nos deixa a descobrir
e Deus cala-se a meu lado, adormecido
como o melro docemente tranquilo."
Rui Cóias, Europa, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 30.
Friday, March 20, 2026
IGUALDADE
"Deus nunca se manifesta. Assistiu Ele o seu filho no Jardim das Oliveiras? Não o abandonou Ele na sua angústia suprema? Oh que loucura pueril é invocar o seu socorro! Todo o mal e todas as provações, residem apenas em nós. Ele tem perfeita confiança na obra amassada pelas suas mãos. E tu traíste a sua confiança. Mar divino, não te espantes com a minha linguagem. Todas as coisas são iguais perante o Senhor. A soberba razão dos homens não vale mais, na balança do infinito, que o pequeno olho raiado de um dos teus animais. Deus dá tanto valor ao grão de areia como ao imperador."
Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 64.
JOSÉ
"Os solitários e os doentes vêm para nos ver, e as velhas acendem luzes para nós nas cabanas. Tocam para nós os sinos das igrejas. Os camponeses levantam-se dos regos para nos espreitar. Até os animais ficam a olhar para nós e nunca fogem. E desde que caminhamos o sol foi ficando mais quente e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes se podem entrançar nas mesmas formas, e as nossas cruzes estão sempre frescas. Por isso temos muita esperança, e brevemente veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir ao seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas alegrar-se-ão na noite."
Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 38.
Sunday, March 15, 2026
O TRABALHO HUMANO
"O trabalho humano! explosão que ilumina de quando em quando o meu abismo!«Nada é vaidade; pela ciência, marchar», grita o Eclesiastes moderno, isto é, Toda a Gente, E no entanto os cadáveres dos maus e dos vadios caem em cima do coração dos outros... Ah! depressa, depressa, depressa um pouco; lá longe, além da noite, as recompensas futuras... eternas... fugir-nos-ão?- Que lhe hei-de fazer? Conheço o trabalho, e a ciência é por demais vagarosa. Que a oração galopa e a luz atroa... vejo eu bem. É demasiado simples e faz muito calor; haverão de dispensar-me. Tenho o meu dever e, como tantos outros, sentir-me-ei orgulhoso de lhe passar ao lado."Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 169.
Saturday, March 14, 2026
NADA ESTÁ PERDIDO
ressoa o velho rio
se para cá os erros de ontem
mora a verdade anterior
se na cruz das grades se engavinha
a hera renovada
que havia à nossa porta
então amiga nada está perdido
pois tudo recomeça"
José Magro, Torre Cinzenta, Lisboa: Edições «Avante!», 1980, p. 35.
Thursday, March 12, 2026
CALAR
"O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas há que ser sempre sincero; podemos reter alguns pensamentos, mas não devemos disfarçar nenhum. Há maneiras de nos calarmos sem fecharmos o coração; de sermos discretos sem sermos obscuros e taciturnos; de esconder algumas verdades sem as cobrir de mentiras."
Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 18.



















