"Do tempo
Relógio solar
Filtro de areia e marca de água
Combinação de terra argila e pedras
E a mão primeira onde nasceu o sangue
Talhando ancestral a imagem de deus"
José Pedro F. Leite, Outros Litorais, ed. autor, 2009, p. 84.
"Outras pessoas tinham estado ali antes dele - de resto, sentia uma curiosa sensação de companheirismo. Pequenas oferendas votivas ao Poder supremo achavam-se fixadas à casca - minúsculos braços, pernas e olhos de lata, grotescas maquetas de cérebros ou de corações -, símbolos de alguma recuperação de força, sabedoria ou amor. Não havia ali nada que se assemelhasse à solidão da natureza, dado que até as mágoas e as alegrias da humanidade tinham passado para o seio da árvore. Ele abriu os braços, apoiou-se na madeira macia e carbonizada e, depois, lentamente, inclinou-se para trás, até o corpo estar encostado atrás de si. De olhos fechados, teve a estranha sensação de alguém que se move e, ainda assim, se acha tranquilo - a sensação de um nadador que, depois de se debater muito tempo contra mares agrestes, descobre que, afinal de contas, a corrente arrastá-lo-á para o seu destino."
E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 97.
"Eustace Robinson, de catorze anos, achava-se de camisa de noite, a saudar, a louvar e a abençoar as grandes forças e manifestações da natureza.Falou primeiro da noite e das estrelas e dos planetas sobre a sua cabeça, das miríades de pirilampos e das grandes rochas cobertas de anémonas e conchas que dormiam no mar invisível. Falou de rios e de quedas-d'água, de cachos de uvas a amadurecerem, do cone fumegante do Vesúvio e das chaminés ocultas que produziam o fumo, da profusão de lagartos que se achavam enroscados nas quentes fissuras da terra, e das bátegas de pétalas de rosas brancas emaranhadas no seu cabelo. E, depois, falou da chuva e do vento que tudo modificam, do ar por meio do qual tudo vive, e dos bosques onde tudo se pode ocultar."E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 85.
"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41.
" - Aquelas montanhas à nossa direita... deixe-me mostrar-lhas. - E afastou uma persiana de metal. Viu-se a cordilheira principal dos Himalaias. - Outrora chamavam o Tecto do Mundo àquelas montanhas.- Que nome tão tolo!- É preciso ter em mente que, antes do alvor da civilização, elas pareciam ser um muro impenetrável que tocava nas estrelas. Supunha-se que só os deuses poderiam viver acima dos seus cumes. Como nós progredimos, graças à Máquina!- Como nós progredimos, graças à Máquina! - concordou Vashti.- Como nós progredimos, graças à Máquina! - repetiu o passageiro que deixara cair o Livro na noite anterior e que se encontrava no corredor."E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 30.
"O universo era um lugar sagrado que os homens de outrora encheram da loucura dos deuses. Agora, o sentido da palavra terá surgido do nada, ignorando os limites do infinito. Sabemos que a explosão cósmica nos trouxe cada estrela, cada ponto de luz, cada lugar da escuridão que nos inquieta. O movimento dos astros, acreditam alguns, determina o destino, destino esse que escolhemos dia a dia até à morte."
Graça Pires, «Caderno de Significados», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 47.
"Penetraram por fim num mundo dentro do mundo - num vale enorme, cujas pequenas elevações como que eram formadas pelos destroços das alturas. Um dia de caminho naquele ponto parecia não levá-los mais adiante que passos dados em pesadelos. Penosamente costearam durante horas uma «montanha» e por fim viram que não passava de um morrozinho que ao longe era nada diante do maciço principal. Um pasto que visto de longe parecia coisa de presépio, ao ser alcançado tornava-se num enorme planalto. Três dias depois, novamente visto de longe, voltava a ser a mesma coisinha de presépio.- Aqui é que devem viver os deuses - murmurou Kim impressionado pelo silêncio e pelo pavoroso dispersar das nuvens depois das cargas de água. - Isto não é lugar de gente."Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 240-241.
"O ponto fundamental do conto é a experiência mística que os três cavaleiros buscam, algumas vezes acompanhados por Artur, através da visão do Santo Graal. A religiosidade do escritor é, entretanto, rude e bárbara. A nova lei, o cristianismo, teve de ser imposta na ponta da espada. Percival, depois de uma grande matança de infiéis que estavam infiltrados em meio aos habitantes do castelo, diz: «Eles, que não querem acreditar em Deus, devem morrer como loucos e os demônios». Ele «imediatamente matou todos os outros, pois não estavam dispostos a acreditar. No castelo, então, não havia mais nenhuma pessoa descrente». As forças que lutavam nas Cruzadas tinham o mesmo sentimento. Ricardo assassinou cruelmente centenas de prisioneiros, e Saladino declarou que, enquanto um só pagão permanecesse vivo, somente a morte o faria baixar a espada."
Elizabeth Jenkins, Os Mistérios do Rei Artur, trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima, São Paulo: Companhia dos Melhoramentos, 1994, p. 100.
" - Eram bonitas, não eram? Prometo-te que há-de haver outras...O sedutor e seu filho tomaram conjuntamente a decisão dilacerante de não as levarem. Gabriel chegara a propor dar-lhes hospitalidade na sua mala pessoal. Mas não, elas não teriam aguentado o caos da viagem.- Bem vês, Gabriel, as mulheres são ao mesmo tempo muito frágeis e muito pesadas."Erik Orsenna, A Exposição Colonial, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 68.
"(...)Na de S. Bento quebraram o Santo, queimaram o púlpito e parte do sobrado e as gavetas dos caixões, demoliram o altar, roubaram hum calis, humas cortinas, hum frontal branco de damasco, branco, duas vestimentas, huma branca de damasco e outra verde. Incendiaram vinte e duas casas e asa que não o foram, ficaram estragadas, queimando-lhe todos os móveis, sobrados, frontaes, forros, et cetera.Mataram coatro mulheres e três homens.Roubaram duzentas e setenta e duas ovelhas, cento e trinta e seis cabras, duas mullas, cinco jumentos, trezentos e doze alqueires de pam, mil e trezentos e quinze alqueires de milho grosso, cento e trinta e seis alqueires de feijam, coatro de trigo, dezanove galinhas. Queimaram ou roubaram sete carros e seis trados.Roubaram quase todas as roupas de lam e linho, innutilizando a outra, ficando a maior parte dos habitantes só com o vestido que traziam, e sem cama pera dormirem. E athé muitos enfermos que jaziam nas duras táboas, sem terem com que se cobrir. E assim, tem morrido muitos, como eu tenho observado.Hé o que o povo afirma, que por ser verdade, me assigno.Torroselo, 27 de Setembro de 1811.O Cura, José Garcia de Abranches"Sérgio Alves, Cartas dos Grandes e Graves Prejuízos - Relatos da Invasão Francesa nos Concelhos de Seia e Gouveia, ed. do Autor, 2025, p. 116.
"Um pesadelo vem muito a propósito. Assim:- Urr-urr-urr. Ya-la-la-la. Naraim! O churel! O churel...Churel é o perigosíssimo fantasma de uma mulher que morreu de parto. Assombra as estradas desertas, tem os pés voltados para trás e atormenta os homens."Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 144.
"No regresso (alcaçuzes ou doces de coco de quilómetro a quilómetro), explicava-me as suas ideias acerca da morte.- É claro que ela não está aqui, Gabriel, mas os mortos não são como nós, viajam muito mais do que nós. E vou dizer-te um segredo (e baixava a voz): todos os cemitérios do mundo estão ligados uns aos outros, não te esqueças nunca disto, todos os cemitérios estão ligados uns aos outros."
Erik Orsenna, A Exposição Colonial, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 34.
"Laura corara até aos lóbulos das orelhas.As faces diziam que lá dentro lavrava lume de amor. Não lavrava nada. O corar é uma cláusula de temperamentos. Tem a mesma origem que a vertoeja, e a herpes e a impingem. O sangue que acereja a epiderme das faces revela, quanto muito, a compleição sanguínea da pessoa."
Camilo Castelo Branco, A Mulher Fatal, 10.ª ed., conforme a 2.ª, a última revista pelo autor, Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968, p. 54.
" - Mas como vai reconhecer o tal rio? - indagou Kim, acocorando à sombra de uma árvore.- Diante do Rio, uma graça divina iluminar-me-á. Não é este o Rio que procuro, não estou a sentir que não é. Ó regato pequenino, se pudesses dizer-me onde corre o meu Rio!... Mas apesar da tua mudez, bendito sejas, tu que fazes pojar os campos.- Olhe, olhe! - gritou Kim lançando-se ao velho e puxando-o para trás. - Uma ondulação pardo-amarela mexeu-se entre os caniços e espichou a cabeça para a água, uma enorme cobra de olhos sem pálpebras muito fixos.- Um pau, um pau, para quebrar-lhe a espinha! - gritava o menino, procurando em redor.- Para quê? Ela está, como nós, amarrada à Roda que sobe e desce, e muito longe ainda da libertação. Grande pecado deve ter cometido a alma presa a esse invólucro!- Detesto todas as cobras - confessou Kim, que tinha no sangue branco a correr-lhe nas veias o instintivo horror ocidental pelas serpentes.- Ela que viva a sua vida - murmurou o lama com placidez, enquanto a cobra sibilava e distendia o capelo. - Possa a tua libertação chegar em breve, irmã. Terás tu por acaso conhecimento do meu Rio?Kim estava impressionado.- Nunca vi homem assim - murmurou. - Será que as cobras compreendem as suas palavras?- Quem sabe lá?"Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 51.