Monday, August 17, 2026

AS FACES


 



"Laura corara até aos lóbulos das orelhas.
As faces diziam que lá dentro lavrava lume de amor. Não lavrava nada. O corar é uma cláusula de temperamentos. Tem a mesma origem que a vertoeja, e a herpes e a impingem. O sangue que acereja a epiderme das faces revela, quanto muito, a compleição sanguínea da pessoa."

 
Camilo Castelo Branco, A Mulher Fatal, 10.ª ed., conforme a 2.ª, a última revista pelo autor, Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968, p. 54.

Sunday, August 16, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE 2

 



" - Mas como vai reconhecer o tal rio? - indagou Kim, acocorando à sombra de uma árvore.
- Diante do Rio, uma graça divina iluminar-me-á. Não é este o Rio que procuro, não estou a sentir que não é. Ó regato pequenino, se pudesses dizer-me onde corre o meu Rio!... Mas apesar da tua mudez, bendito sejas, tu que fazes pojar os campos.
- Olhe, olhe! - gritou Kim lançando-se ao velho e puxando-o para trás. - Uma ondulação pardo-amarela mexeu-se entre os caniços e espichou a cabeça para a água, uma enorme cobra de olhos sem pálpebras muito fixos.
- Um pau, um pau, para quebrar-lhe a espinha! - gritava o menino, procurando em redor.
- Para quê? Ela está, como nós, amarrada à Roda que sobe e desce, e muito longe ainda da libertação. Grande pecado deve ter cometido a alma presa a esse invólucro!
- Detesto todas as cobras - confessou Kim, que tinha no sangue branco a correr-lhe nas veias o instintivo horror ocidental pelas serpentes.
- Ela que viva a sua vida - murmurou o lama com placidez, enquanto a cobra sibilava e distendia o capelo. - Possa a tua libertação chegar em breve, irmã. Terás tu por acaso conhecimento do meu Rio?
Kim estava impressionado.
- Nunca vi homem assim - murmurou. - Será que as cobras compreendem as suas palavras?
- Quem sabe lá?"


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 51.

Saturday, August 15, 2026

SANTO DE VERDADE

 




"Vieram a saber que já tinha sido mestre na leitura das mãos e dos horoscópios, e pediram-lhe que expusesse os seus métodos, cada qual dando aos planetas nomes que o lama não podia entender. As crianças da casa vinham-lhe mexer nas contas do rosário; e o velho esqueceu a regra que lhe mandava não pôr olhos em mulheres, ao narrar os incidentes da sua peregrinação, as grandes neves encontradas, as avalanchas nas montanhas, os desfiladeiros bloqueados, os remotos países de safira e turquesa por onde passa a estrada maravilhosa que vai ter à Grande China.
- Que pensa deste homem? - perguntou o lavrador ao sacerdote.
- Que é um santo, um santo de verdade. Os seus deuses não são os nossos, mas ele firma os pés no Caminho. E os seus horoscópios parecem cheios de base."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 45-46.

Friday, August 14, 2026

DOS LUGARES DOS IBEROS

 




"Verânio, que dos meus trezentos mil
amigos és o primeiro, será que
regressaste a casa, aos teus Penates,
aos teus adorados irmãos e irmãs e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei, agora são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares dos Iberos, dos seus feitos, das suas gentes,
como é teu hábito, e pendurado ao teu pescoço
a boca adorada e os olhos te beijarei.
Oh, de todos os homens felizes do mundo,
algum mais alegre e feliz do que eu será?"


Catulo, Os Poemas, 9, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 42.

Wednesday, August 12, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE

 



"antes do véu da noite
já os medronheiros
anoitecem o jardim

rendilhados estáticos
amparam ainda a luz
enlanguescida do céu
em devaneios góticos

a luz
desprende-se
sobre as copas-escudos
assim
na atmosfera
se acolhesse o dia
e
no jardim
se resguardasse toda a negridão
da noite
a quietude
estende-se
pelos ramos
e desce à vegetação
do solo

rosas
desfolham-se
pelo céu

serenidade
                            silêncio
                                        antar mouna"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 107-108.

O ECLIPSE

 



"Aquele que discerniu todas as luminárias do grande mundo,
               que das estrelas conheceu a ascensão e também o declínio
como o brilho flamejante do Sol impetuoso e obscurecido,
              como astros se retiram em certas épocas"


Catulo, Os Poemas, 66, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 147.

IDENTIDADE

 


(Lourdes Castro)


"E tu, e nós quem somos? Figuras que emergem ou se desvanecem, palpites, rabiscos indecifrados. Palavra, sussurro, alusão, passo no silêncio."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 65. 

Tuesday, August 11, 2026

CLARA


"Um dia veio ter com ela uma irmã cheia de santo fervor e rogou-lhe que lhe emprestasse o cilício de crinas de cavalo. Foi-lhe deferido o pedido, e sentiu grande consolação espiritual, mas, logo que experimentou usá-lo, os nós feriram-na de tal modo que julgou morrer de dor. Imediatamente, o tirou e restituiu à santa abadessa. Então esta, sorrindo, disse-lhe que na qualidade de mãe tinha de se mortificar mais, não só por si mas por todas as almas que lhe estavam confiadas."


Joaquim Capela, o.f.m., Santa Clara de Assis, Braga: Edição das «Missões Franciscanas», 1949, p. 95.

 

Monday, August 10, 2026

COISAS REAIS

 


"«Uuuhhh...» guinchou prostrado no chão  «uuhh... uhm... um... umm... umm... um...» e nestes sons profundos e moles desejava perder-se, derreter a cabeça, o peito. Sentiu como sempre que chegava a um limite, a um limiar extremo. Em que lhe era dado ainda o parar, voltar atrás, manter vivo na noite o lume, na tempestade. E agarrou-se a palavras, aos nomes de coisas reais, visíveis, concretas. Pronunciou em voz alta: «Terra. Pedra. Desvario. Casa. Forno. Pão. Oliveira. Alfarrobeira. Sumagre. Cabra. Sal. Burro. Forte. Templo. Cisterna. Muralha. Piteira. Pinheiro. Palmeira. Castelo. Céu. Corvo. Pega. Pomba. Tentilhão. Nuvem. Sol. Arco-Íris...» pronunciou como se quisesse redenominar, recrear o mundo. Recomeçar a partir do momento em que nada havia acontecido, nada se perdera ainda, e as coisas se desenrolavam serenas, sereno o tempo."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 40.

 

Sunday, August 9, 2026

QUALIDADES

 


"«Que género de pessoa é ela, então?», pergunta-lhe.
O irmão pensa, antes de responder. «Não é ninguém que já tenhas conhecido. Não lhe importa o que as pessoas pensem dela. Limita-se a seguir o seu próprio caminho.» Inclina-se para a frente, apoia os cotovelos nos joelhos, e reduz a voz a um murmúrio. «É capaz de olhar para uma pessoa e ver-lhe a própria alma. Não há nela uma gota de severidade. Aceita uma pessoa por aquilo que ela é, não por aquilo que não é ou que deveria ser.» Olha para a irmã. «São qualidades raras, não são?»"
 

Maggie O'Farrel, Hamnet, trad. Margarida Periquito, Lisboa: Relógio D'Água, 2021, p. 73. 

Saturday, August 8, 2026

CANES DEI

 




"Meu santo reino espiritual, que eu vejo,
Como através da morte, quando a luz
De profunda emoção aquece e doira
Meu corpo - árvore verde e negra cruz...
Vejo-te, num delírio, como as árvores
Avistam, dentro de alma, os passarinhos...
E assim os olhos gélidos dos mármores
Têm a visão confusa das florestas...
E como a terra vê, quando beijada
Pela graça da névoa que se eleva,
O grão que sobe em baste para o sol
E desce em raiz faminta para a treva..."


Teixeira de Pascoaes, "As Sombras" in Obras, Lisboa: Círculo de Leitores, 1973, p. 129.

Thursday, August 6, 2026

COMO SE ELE PUDESSE SER

 


"Ela passou por ele sem o ver, o que lhe permitiu afinal de contas fixar bem o seu rosto, antes de voltar a sair, sob os olhares espantados dos funcionários par quem a sua atitude tinha um ar de perseguição, como se ele pudesse ser um fauno, embora o bigode lhe desse um ar equívoco ao rosto, com algo de sensual, que no entanto a austeridade com se vestia atenuava bastante."


Nuno Júdice, A mulher escarlate, col. Brevísssima, 28, Porto: Livraria Civilização Editora, 1997, p. 13. 

Wednesday, August 5, 2026

NOTÁVEL

 


" - Eu amo-te, Monty - disse Kiki. - Há mal nisso?
- Se alguma coisa está mal, sou eu - disse Monty, ajustando o cinto. - Muita gente chamaria a isto um crime. Se tiver consequências infelizes para ti, será uma prova a favor de quem pensa que sim. É algo que tens de ser tu a cuidar por mim. Tudo isto aconteceu em parte por eu confiar em ti para esse efeito.
- Não compreendo e, no entanto, compreendo - disse Kiki.
- Mas é-me impossível não te amar para sempre e isto também pesa.
- Uma rapariga da tua idade não sabe o que é para sempre.
- No entanto, eu acho que sei - afirmou Kiki. - Sei o que é. Sou uma rapariga notável."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 361.

Tuesday, August 4, 2026

UM BELO ROSTO

 


"Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio. Enquanto que o carácter deixa no rosto as marcas de palavras não ditas, de intenções não realizadas, enquanto que a face do animal parece sempre estar a ponto de proferir palavras, a beleza humana abre o rosto ao silêncio. Mas o silêncio - aquele que advém daqui - não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem."


Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 112. 

Monday, August 3, 2026

LUZ FULGURANTE

 


"O amor erótico, intenso e recíproco, o amor que envolve com a carne o mais refinado ser sexual do espírito, que revela e talvez mesmo crie ex nihilo o espírito como sexo, é um amor relativamente raro neste mundo incómodo. O amor apresenta-se como um valor tão estonteantemente elevado que falar em «desfrutá-lo» parece um sacrilégio. É algo a ser vivido de joelhos. E, sempre que existe, apenas terá de derramar uma luz fulgurante de justificação sobre a sua própria cena, uma luz que pode deixar o resto do mundo na obscuridade."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 293. 

Sunday, August 2, 2026

HOSTIARIUS

 


"Em primeiro lugar, é ordenado hostiário: são-lhe entregues as chaves da igreja, que ele fechava com piedoso cuidado, pois anteriormente, segundo dizem, estava patente, por negligência, a animais imundos, ou seja, cabras e porcos. Do mesmo modo, às horas convenientes a abria, expulsava, com zelo cristão, excomungados e infiéis, e guardava religiosamente tudo o que estava dentro e fora."


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, p. 8. 

RECOLAM MEMORIAM ILLIUS LITTERIS

 


"É por isso que quantas vezes me esforço por começar a falar, outras tantas se me enchem os olhos de lágrimas, se me embarga a voz e os soluços me interceptam as palavras ao escrever. Que hei-de eu fazer? Hei-de acrescentar mais lágrimas? Mas a Sagrada Escritura o proíbe. Por isso não chorarei a sua morte, porque creio que ressuscita com Cristo. Sei de certeza que ele está com Cristo. Portanto, hei-de alegrar-me e regozijar-me, porque foi arrebatado, para que o mal não alterasse o seu espírito, porque a sua alma agradara a Deus? Mas não posso suportar a saudade da sua ausência, e a sua afeição por tão grande homem dilacera o meu espírito. Não posso dissimular a dor que sofro. Contudo, não é a situação dele que eu lamento, mas a minha, porque quanto mais feliz ele é, tanto mais eu sinto a dor, por me faltar tão grande bem." 


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, pp. 5-6.

Friday, July 31, 2026

VIDA ONÍRICA PROFUNDA

 



" - Os sonhos são algo maravilhoso, não são? - dizia David. - Conseguem ser belos de uma forma especial, ímpar. Nos sonhos, até mesmo as coisas horríveis têm classe, ao contrário das coisas reais, que nos repugnam, como ver os cães a comer.
- Há uma inocência refrescante e pura em certas imagens dos sonhos - disse Monty -, mas não devemos interrogar-nos demasiado acerca delas.
- Quer dizes, como o meu pai?
- Deixa-as apenas surgir, visitar-te, como se fossem pássaros.
- Não acreditas «na vida onírica profunda da qual toda a vida emerge», como refere o meu pai no seu último artigo?
- Não - disse Monty. - Um sonho é uma história que se tem vontade de contar ao pequeno-almoço."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 128.

Thursday, July 30, 2026

NO SILÊNCIO DESTA ÁLEA




"Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore
                [que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou"



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, pp. 56-57.

Wednesday, July 29, 2026

SAGRADO

 




" - O inconsciente é tão grosseiro. Ele ainda anda de joelhos pelo quarto a tocar nas coisas?
- Está rodeado dos deuses que tem de aplacar. Tudo é sagrado. Noutra era tê-lo-iam venerado como um santo.
- Pobre criatura doida.
- O homem primitivo vivia num mundo de divindades menores e assustadoras. Os católicos romanos ainda vivem.
- Eu sei que para ti todas as religiões não passam de uma obsessão!
- Querida, eu não penso nada tão disparatado. A religião é muito importante. Simplesmente, não é o que parece. Das coisas muito importantes, poucas o são."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 30-31.