Friday, March 27, 2026

FORÇOSO

 




"Forçoso é que a solidão transcenda
que a alma envenenando tem cativa
da teia do silêncio, e com nativa
voz novamente à humanidade ascenda.
E pura seja a força que me atenda,
mais forte do que a dúvida furtiva,
para encontrar de novo, rediviva,
a confiança que esta angústia fenda.
Pois se no mundo é difícil ser
maior que a dor, do tempo consciente,
inútil é da sorte algo esperar.
Que tudo o que é possível de querer
só cada um de si a si consente
na eterna maravilha de se achar."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 70.

AUSÊNCIA EM VIDA ADIVINHADA

 




"Passando, faz-se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela-me sabê-lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça-forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo -
que da razão já sinto descolada -
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 64.

Monday, March 23, 2026

VEM VINDO

 



"Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume, 
o seu lume breve. 
Palavras que muito amei, 
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua."


Eugénio de Andrade, 5 poemas, Porto: Campo das Letras/Fundação Eugénio de Andrade, 1997, p. 17. 

Sunday, March 22, 2026

LAZARE, VENI FORAS

 


"20. A morte é vencida, o homem é restabelecido, as cadeias dos infernos são quebradas. E depois de quatro dias a língua de Lázaro volta a mexer-se, as mãos aprestam-se para o trabalho, os olhos giram nas suas órbitas, os seus passos voltam a deixar pegadas, a audição retorna aos ouvidos e o olhar volta-se para os seus parentes. A vista revitalizada reconhece os familiares e a voz da sua família penetra nos seus ouvidos. Os pés do Salvador, por onde quer que se movam, encontram beijos por toda a parte. Pede-se água fresca, não se recusa o pão, toma-se o caminho de casa, relatam-se os milagres de Cristo."


Potâmio de Lisboa, «Acerca de Lázaro», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 122. 

FORÇA ASCENCIONAL

 


"O sofrimento humano, a totalidade do sofrimento difundido, a cada instante, pela terra inteira, que imenso oceano! Mas de que é formada essa massa? De escuridão, de lacunas, de perdas?... Não, mas, devemos repeti-lo sempre, de energia possível. No sofrimento esconde-se, com uma intensidade extrema, a força ascensional do Mundo. Toda a questão está em libertá-la, dando-lhe a consciência de que ela significaria e daquilo de que ela é capaz. Ah, que salto não daria o Mundo em direcção a Deus se todos os doentes ao mesmo tempo transformassem as suas dores num desejo comum de que o Reino de Deus amadureça rapidamente através da conquista e organização da Terra!"


Pierre Teilhard de Chardin, Hino do Universo, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Editorial Notícias, 1995, p. 90. 

Saturday, March 21, 2026

DIA DA ÁRVORE


 "E assim o demónio, que tinha vencido na árvore da ciência do bem e do mal, onde Adão e Eva pecaram, foi vencido na árvore da vida, que é a árvore da vera Cruz: onde o Senhor acabou seus trabalhos, para começarem nossos descansos."

 
Frei Heitor Pinto, Imagem da Vida Cristã, vol. II, cap. XXVI, Lisboa: Sá da Costa, 1940, pp. 313-314. 

DIA DA POESIA

 



"Vejo com os olhos de Deus,
adormeço com ele sobre as paisagens,
dispus cuidadosamente o sangue nas areias,
ao dobrar o cabo dos anos, calei-me.

O tempo vai esmorecendo nas pobres vozes,
é uma terra parada a que nos deixa a descobrir
e Deus cala-se a meu lado, adormecido
como o melro docemente tranquilo."


Rui Cóias, Europa, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 30.

Friday, March 20, 2026

IGUALDADE

 


"Deus nunca se manifesta. Assistiu Ele o seu filho no Jardim das Oliveiras? Não o abandonou Ele na sua angústia suprema? Oh que loucura pueril é invocar o seu socorro! Todo o mal e todas as provações, residem apenas em nós. Ele tem perfeita confiança na obra amassada pelas suas mãos. E tu traíste a sua confiança. Mar divino, não te espantes com a minha linguagem. Todas as coisas são iguais perante o Senhor. A soberba razão dos homens não vale mais, na balança do infinito, que o pequeno olho raiado de um dos teus animais. Deus dá tanto valor ao grão de areia como ao imperador."

 

Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 64. 

JOSÉ

 


"Os solitários e os doentes vêm para nos ver, e as velhas acendem luzes para nós nas cabanas. Tocam para nós os sinos das igrejas. Os camponeses levantam-se dos regos para nos espreitar. Até os animais ficam a olhar para nós e nunca fogem. E desde que caminhamos o sol foi ficando mais quente e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes se podem entrançar nas mesmas formas, e as nossas cruzes estão sempre frescas. Por isso temos muita esperança, e brevemente veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir ao seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas alegrar-se-ão na noite."


Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 38. 

Sunday, March 15, 2026

O TRABALHO HUMANO

 



"O trabalho humano! explosão que ilumina de quando em quando o meu abismo!
«Nada é vaidade; pela ciência, marchar», grita o Eclesiastes moderno, isto é, Toda a Gente, E no entanto os cadáveres dos maus e dos vadios caem em cima do coração dos outros... Ah! depressa, depressa, depressa um pouco; lá longe, além da noite, as recompensas futuras... eternas... fugir-nos-ão?
- Que lhe hei-de fazer? Conheço o trabalho, e a ciência é por demais vagarosa. Que a oração galopa e a luz atroa... vejo eu bem. É demasiado simples e faz muito calor; haverão de dispensar-me. Tenho o meu dever e, como tantos outros, sentir-me-ei orgulhoso de lhe passar ao lado."


Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 169.

Saturday, March 14, 2026

NADA ESTÁ PERDIDO

 




"se na raiz das palavras vigiadas
ressoa o velho rio
se para cá os erros de ontem
mora a verdade anterior
se na cruz das grades se engavinha
a hera renovada
que havia à nossa porta
então amiga nada está perdido
pois tudo recomeça"


José Magro, Torre Cinzenta, Lisboa: Edições «Avante!», 1980, p. 35.

Thursday, March 12, 2026

CALAR

 


"O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas há que ser sempre sincero; podemos reter alguns pensamentos, mas não devemos disfarçar nenhum. Há maneiras de nos calarmos sem fecharmos o coração; de sermos discretos sem sermos obscuros e taciturnos; de esconder algumas verdades sem as cobrir de mentiras."


Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 18. 

O NOSSO TEMPO (para a memória de Mário Zambujal)

 


"Agora as pessoas
não sabem morrer
estar doentes
ter prazer
tocar-se
dantes também não
(ó mais nu
e branco dos homens)"


Adília Lopes, "O Peixe na Água", in Caras Baratas - Antologia, selec. Elfriede Englemayer, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 112.

Tuesday, March 10, 2026

ANIVERSÁRIO

 



"Este arbusto e a seu lado esta jovem mulher
Esta luz em redor desta jovem mulher
Esta penumbra a voz desta jovem mulher
Este livro escutando esta jovem mulher
Esta música aos pés desta jovem mulher

Esta vida nas mãos desta jovem mulher."



David Mourão-Ferreira, Poesia (1948-1988), 3.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, p. 316.

Sunday, March 8, 2026

DIA DA MULHER

 


"Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como outro qualquer. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria..."


João de Araújo Correia, "A Árvore de Judas", in Montes Pintados, Imprensa do Douro, 1999, p. 37. 

ESTADO PRIMEIRO

 


"O meu corpo dançava, livre, respirava com os materiais, e observava como cada coisa se liga de volta à sua origem, retomando a si: pneus, luvas, galochas e brinquedos de borracha regressavam à saringueira amazónica, outros liquefaziam-se no petróleo, as roupas desfaziam-se em fios gerando a fibra do linho e a flor do algodão; o café aninhava-se no grão original. Os prédios implodiam lentamente, desfeitos em pó e em terra; não sobrava nada de pé. Na farmácia, os medicamentos voltavam a ser planta e a mercearia cobria-se dos cereais dos quais extraímos o pão e a cerveja. Na rua, diferentes metais fundiam-se no subsolo; e partículas dos mais variados elementos voavam com o vento, de volta ao começo. A cidade assumia o seu estado primeiro, vegetal, simbiótico. O oxigénio revinha às plantas. Os humanos que sobreviviam eram os que aprendiam a fazer parte, a colaborar. Os livros, todos eles, cada um, encaixavam-se de volta na árvore."

Joana Bértholo, Natureza Urbana, Lisboa: Relógio D' Água, 20203, p. 46.

Saturday, March 7, 2026

EXERCÍCIO DE ESTILO

 


"O estilo é a fisionomia da mente. É menos enganadora que a do corpo. Imitar o estilo de outra pessoa é usar uma máscara, e, por muito bela que ela possa ser, a sua falta de vida fá-la em breve parecer insípida e insuportável, de modo que é preferível o mais feio dos rostos. 
A afectação estilística pode ser comparada a fazer caretas."

Arthur Schopenhauer, Aforismos, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1998, pp. 90-91. 

Friday, March 6, 2026

IMPERMANÊNCIA

 


"já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
e deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja"


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 134. 

ANJO MORTUÁRIO (para a memória de António Lobo Antunes)

 


"Um anjo mortuário, de asas tombadas de morcego, esmagava-lhe a barriga, uma paz de sesta sem sono crescia-lhe no corpo. O cigano regressou do mar, a bronquite dos cachorros cantava-me aos ouvidos. Manoel de Sousa de Sepúlveda fechou os olhos enquanto o sol começava, devagar, a colori-lo:
- Vou dormir um bocadinho, pensou ele a esconder os tornozelos na areia. Assim como assim já não tenho nada que me possam roubar."


António Lobo Antunes, As Naus, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988, p. 88. 

Tuesday, March 3, 2026

GINECEU

 


"Tudo na Borralha era misterioso. Uma espécie de maldição. Às vezes penso, sem grande fundamento, reconheço, que tudo o que se passou na Borralha foi uma vingança da madre-terra por lhe terem violado as entranhas. Repare. A gente semeia e colhe. Corta uma flor, uma árvore, nasce outra. Mas o minério não se regenera. Uma vez extraído, a integridade da terra nunca mais se recompõe. O homem devia pensar nisso. Mas o homem só pensa em dinheiro."

Bento da Cruz, A Fárria, Lisboa: Âncora Edições, 2009, p. 52.