
"A Mãe Negra mantém-se atrás do pensamento, tal como a Perdida atrás do corpo que surge neste mundo. É assim que cada corpo que aparece no mundo é o seu vestígio. Tal como a fera está atrás da pegada que abandonou sem pensar no solo. A Perdida é a Sereia, onde além disso se misturam antigas escamas, velhas penas, grandes asas abertas para envolver o canto, feminino, soprano, apaziguador, que atrai. Na palavra grega seirén, ser significa ligar. A sereia é o próprio vínculo maternal: o atilho das faixas a jusante do apertado cordão umbilical. A palavra «seira» definia o «laço» nos citas. O pensamento é essa perdida voz singular, que religa entre si os ausentes, os defuntos, as pegadas, os excrementos, os vestígios, as impressões, as recordações, as imagens. A operação de pensar é essa «emoção» que transfere todos os nomes que os mortos carregam e todas as palavras que os mortos pronunciavam nos rostos e nos lábios dos vivos. Tal como a religação supõe a ligação, o pensamento supõe a ligadora, a Sirene, a Grande Mãe da fecundidade, a deusa de todas as mulheres, Hera. E, mais antiga ainda, a que preside aos partos, a mestre de todos os animais, deusa da montanha e da floresta, Ártemis caçadora - no templo da qual Heráclito, o servidor de Hera, recusando a realeza de Éfeso, vem depositar o seu livro antes de fugir para a montanha, veado entre os veados, de ouvidos à escuta entre os que estão de ouvidos à escuta, perseguido pelos cães que ladram e as crianças que o apedrejam."
Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, pp. 61-62.