Saturday, October 31, 2026

REVENANT

 




"Calculou que seria a ordenança, embriagada como de costume, voltando de alguma aventura nocturna. Mas não; era um passo desconhecido. Alguém caminhava, arrastando suavemente os pés. A porta abriu-se e entrou no quarto uma mulher vestida de branco.
Supôs que era a sua velha ama e admirou-se. Que podia trazê-la assim, àquelas horas? Mas a mulher vestida de branco aproximou-se mais, colocou-se diante dele e Hermann reconheceu a condessa.
- Vim a tua casa contra a minha vontade - disse em voz firme. - Mas foi-me ordenado que satisfizesse o teu pedido. Terno... sete... ás... ganharão a seguir, mas é preciso que jogues só uma carta por noite e que nunca mais voltes a jogar em toda a tua vida. Perdoar-te-ei a minha morte com a condição de casares com a minha protegida Lisaveta Ivanovna.
Proferidas estas palavras, dirigiu-se lentamente para a porta e desapareceu, arrastando as pantufas. Hermann ouviu bater a porta da antecâmara e viu, de novo, os olhos colados à vidraça que o fitaram.
Ficou assim durante muito tempo sem conseguir voltar a si. Por fim, levantou-se e entrou no quarto contíguo."


Alexander Pushkin, A Dama de Espadas, trad. José Marinho, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007, pp. 61-62.

FEITIÇOS

 



"Vejo-te, outra vez, pela berma das levadas,
descer para o vale.
É a hora do lobo e dos medos nos invernos
antigos.
Na aldeia súbita que se desvenda, elas dançam
em círculo,
agitando as lanternas,
mas tu não sabes que prodígio se constrói no
âmago das trevas.
Elas cantam,
mas tu,
viajante das noites profundas, não conheces
o idioma das rainhas destronadas pelo dia.
A sua música de guizos vai para onde vais.
A água das levadas pára, transformada
em pedra.
O mar é negro e sobe até ao céu e depois
cai, como a grande solidão,
sobre as espáduas.
Em frente, na colina do terror, o teu filho
chora."


José Agostinho Baptista, Ahora y en la hora de nuestra muerte / Agora e na hora da nossa morte, trad. Antón Castro, Zaragoza: Olifante, 2001, p. 122.

Friday, October 30, 2026

FORTIS EST UT MORS DILECTIO

 





"A vista desempenha um papel fundamental na eclosão do amor. Na segunda parte do Romance da Rosa, Jean de Meun escreveu por volta de 1270-1280 o seguinte: «Após reflexão ponderada, o amor é uma doença do pensamento que atinge de maneira conjunta duas pessoas de sexo diferente, ambas livres, e que se manifesta por um ardente desejo, nascido de olhares apaixonados, de abraçar, de se dar beijos e de desfrutar juntos do prazer carnal.
Os provérbios medievais insistem no papel da visão: «Onde está o amor, também estão os olhos», proclama um deles que data do século XIII.
André le Chapelain, autor de um Traité de l'amour courtois, escrito em 1186, chega a afirmar que uma pessoa cega não pode amar, pois, não vendo, o seu espírito não pode ser objecto de reflexões obsessivas."


Jean Verdon, O Prazer na Idade Média, trad. José Luís Luna, Lisboa: Difusão Cultural, 1998, pp. 13-14. 

BELA




"Podia admirar-se uma mulher geometricamente bela no tempo em que a mulher era apenas um objecto de arte destinado a impressionar agradavelmente os olhos sem nada dizer ao espírito, uma ave do paraíso, cuja plumagem se contemplava sem nunca convidar a cantar. Uma bela ateniense era tão bem proporcionada, tão branca e tão fria como a coluna de um templo. O senhor Mérinay mostrou-me num livro que a coluna jónica não era mais do que uma mulher disfarçada. O pórtico do templo de Érechtée, na acrópole de Atenas, assenta ainda sobre quatro atenienses do século de Péricles. As mulheres de hoje são pequenos seres alados, ligeiros, remexidos e principalmente pensantes, criados não para carregarem templos à cabeça, mas para despertarem o génio, para alegrarem o trabalho, para incitarem à coragem e para iluminarem o mundo com as centelhas do seu espírito. O que amamos nelas e o que faz a sua beleza não é a regularidade compassada das suas feições, é a expressão viva e móvel de sentimentos mais delicados do que os nossos; é a expansão do pensamento em volta deste frágil invólucro que não é suficiente para o conter; é o jogo petulante de uma fisionomia animada. Eu não sou escultor, mas se soubesse manejar o cinzel e se me dessem para fazer a estátua alegórica da nossa época, juro-lhe que ela teria uma covinha na face esquerda e o nariz arrebitado."


 Edmond About, O Rei da Montanha, s. trad., Lisboa: Amigos do Livro Editores, s.d., pp. 59-60. 

Thursday, October 29, 2026

A PEQUENA CONSOLAÇÃO

 



"O Espírito Santo é chamado O Consolador. Quanto mais nós próprios formos pessoas consoladoras, pessoas de uma bondade consoladora, mais Deus nos ajudará no Espírito Santo.
Isto significa também que não devemos ser daqueles para quem a pequena consolação do dia a dia é insignificante e que dizem: «Não, este sistema tem de ser mudado. Precisamos de um mundo em que a consolação já não seja necessária, ou, como Bert Brecht formulou de modo exagerado: «Queremos um mundo em que já não precisemos do amor.»"


Joseph Ratzinger/Bento XVI, Por Amor, trad. Luísa Silva Maneiras, Cascais: Edição Lucerna, 2019, p. 19.

Wednesday, October 28, 2026

ROSÁRIO DE OVOS

 


"Um encantador poeta chinês, o célebre A-Scholl, afirma que cada homem tem no coração um rosário de ovos, cada um dos quais contém o amor. Para os fazer eclodir, basta o olhar de uma mulher. Sou demasiado erudito para ignorar que esta hipótese não assenta em nenhuma base sólida, e que está em contradição formal com todos os factos revelados pela anatomia. Contudo, devo constatar que o primeiro olhar de miss Simons me causou uma perturbação sensível na região do coração. Sentia uma comoção totalmente desusada e que, no entanto, nada tinha de doloroso, e pareceu-me que algo se quebrara na caixa óssea do meu peito, por debaixo do osso chamado esterno. No mesmo instante, o sangue correu-me em ondas violentas e as artérias das fontes bateram-me com tanta força que eu podia contar as pulsações."


Edmond About, O Rei da Montanha, s. trad., Lisboa: Amigos do Livro Editores, s.d., pp. 55-56.

Tuesday, October 27, 2026

DIRECÇÃO

 


"«Nós sabemos que passámos da morte para a vida». O Cristianismo é, portanto, a inversão da direção normal da nossa existência. A vida humana é, segundo a sua tendência natural, um caminho em direção à morte. O processo da vida é em si uma progressão em direcção à morte, em direcção à dissolução da síntese maravilhosa que é a vida. Provavelmente, São João, com a sua definição de existência cristã, pretende mostrar não só a inversão da tendência normal de cada vivência, do novo processo batismal, mas também ainda a origem da história humana. O primeiro homem, de acordo com o plano de Deus, começa a sua existência no Paraíso, isto é na proximidade de Deus, na amizade fraterna com todas as criaturas, na correspondência perfeita com a mulher e, por conseguinte, numa segurança sem sombra de medo e numa riqueza que não depende de ter, de grandes posses materiais, mas da harmonia profunda de todas as criaturas, entre si e com o seu Criador."


Joseph Ratzinger/Bento XVI, Por Amor, trad. Luísa Silva Maneiras, Cascais: Edição Lucerna, 2019, pp. 9-10. 

Monday, October 26, 2026

INCLINAÇÃO DO DIA

 



"Todos os passos conduzem à inclinação do
dia.
Os girassóis voltam-se para a luz e depois,
timidamente,
observam o chão.
A hora mais triste é aquela que, sem pressas,
se aproxima dos candelabros.
Intercalam-se gemidos de crepuscular evidência.
O orvalho regressa à transparência dos vidros e
não é tarde nem cedo para a agonia das
crianças destroçadas.
O dia e a noite são o mesmo corredor que
traça a linha cruel dos labirintos.
O pavor não tem nome nem perfil.
Está ali sempre, simplesmente."


José Agostinho Baptista, Ahora y en la hora de nuestra muerte / Agora e na hora da nossa morte, trad. Antón Castro, Zaragoza: Olifante, 2001, p. 74.

Sunday, October 25, 2026

À EVIDÊNCIA DO PÓ

 




"E tudo se resumiu à evidência do pó,
Uma lenda, um ofício, uma teia de
apertadas mágoas que nunca mais
deixará passar a luz.
A tua luz, sol, lua ou juvenil chama dos
campos livres,
apagou-se violentamente.
Nos aquários da noite caiu uma estrela.
O mundo caiu sobre os teus ombros."



José Agostinho Baptista, Ahora y en la hora de nuestra muerte / Agora e na hora da nossa morte, trad. Antón Castro, Zaragoza: Olifante, 2001, p. 24.

AS MESCLAS DAS CORES COMO SE FAZEM

 


"Primeiramente, o Rosado se faz de Alvaiade & Lacra. O Pombinho se faz de Alvaiade & Lacra, & cinzas, & na paleta se vai fazendo a vontade. A púrpura se faz desde Pombinho, & depois lhe misturam mais Cinzas. Dos verdes já fica dito. O encarnado se faz de Alvaiade, & uma ponta de Vermelhão. Os encarnados rusticos se fazem com Alvaiade, & Zarcão, & uma ponta de sombra de cintra. O pardo se faz de Ocre claro, & sombra de cintra. Todas estas cores são concertadas na paleta à vontade do que as lavra."


Filipe Nunes, Arte da Pintura, Symetria, E Perspectiva, fac-símile da edição de 1615 com um estudo introdutório de Leontina Ventura. Porto: Editorial Paisagem, 1982, pp. 104-105. 

Saturday, October 24, 2026

PELO LADO MAIS INTRANQUILO DA LUZ

 



"Pelo lado mais intranquilo da luz,
há vozes alheias
que me inquietam as mãos.
Um estranho signo
risca-me no ventre
a feminina morte
de todas as infâncias
em que, sílaba a sílaba,
me procurei na mais espessa
das noites, sem medo de emergir
de qualquer sombra."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 148.

Friday, October 23, 2026

NUM FABULÁRIO AINDA POR ENCONTRAR

 



"A uma bordadora de um paiz longinquo foi encommendado pela sua rainha que bordasse, sobre sêda ou setim, entre folhas uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquella rosa branca perfeitissima, em cuja semelhança bordasse a sua. Succedeu que umas rosas eram menos bellas do que lhe serviria, e que outras não eram do branco que ella buscava. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com sêda, e, como nos paizes longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ella sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ella não bordasse a rosa branca.
Porfim, não tendo outro remedio, bordou de memoria de não sabia que rosa, a rosa branca que lhe haviam encommendado. Depois de a bordar foi comparal-a com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Succedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ella bordara, que cada uma d«ellas era exactamente aquella.
Ella levou o trabalho ao palacio e deve ter casado com o Principe."


Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, org. Jerónimo Pizarro, Lisboa: Texto Editores, 2009, pp. 368-369.

Wednesday, October 21, 2026

A MIM CRIANÇA ASSUSTADA

 




"Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com as mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem.
Esconjuro os sustos."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 202.

Tuesday, October 20, 2026

EXPEDIENTE

 



"Nessa altura, o hábil negociante recorreu a um expediente desesperado para não perder a posição que ocupava no seio da comunidade. Tendo até ali permanecido solteiro, resolveu então contrair casamento e escolheu para noiva uma jovem senhora cuja posição social tornasse impossível o ostracismo a que estava condenado. É mesmo possível que ele tivesse razões profundas para querer casar; razões de tal modo exteriores à nossa esfera cósmica que só pelos documentos encontrados século e meio depois da sua morte se veio a suspeitar, embora continue a ignorar-se quais terão sido."

 

H. P. Lovecraft, O Caso de Charles Dexter Ward, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987, pp. 25-26. 

Monday, October 19, 2026

A LEVANTE DO DESTINO




"Há falsos profetas a levante do destino.
É preciso fechar por dentro
as águas-furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço:
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões."



Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 76.

Sunday, October 18, 2026

A PASSAGEM DO TEMPO

 




"Dantes a passagem do tempo deixava-se adivinhar
nos contornos imperfeitos das pedras que pisamos.
Os antigos conheciam os segredos dos caminhos
e dos muros e contavam velhas estórias
de sustos e de choro.
Agora, como marionetas cujo fio mágico
irrompe, giratório, à boca da cena,
assim a dança dos dias no calendário.
Com sinais de urgência.
Com movimentos apressados onde o caos se instala.
Com vozes que são água tão funda sob o peito
que perturbam o imenso silêncio das estrelas."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 169. 

Saturday, October 17, 2026

IMAGENS IRMÃS

 



"O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração

contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso."


António Ramos Rosa, "Mediadoras", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 998-999.

FORTIFICADA

 



"O Rei Gilgamés enuncia em Uruque: Ou uma cidade ou a selva.
O Rei de Uruque ama a cidade fortificada cujas leis decide, cuja imagem denteada coloca sobre os cabelos, cujas mulheres domina pelo direito que decreta sobre elas, gosta de caçar fora dos muros os animais ferozes do mundo selvagem. Porém, de repente, um dia, algo acontece; apaixona-se pela fera ao apaixonar-se por Enquidu; ama aquele que morre; continua a amar aquele que está morto. Decide dirigir-se à morada dos mortos para tentar reencontrar o seu companheiro. É o primeiro romance escrito neste mundo, no final do quarto milénio antes de Cristo."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 146.

Friday, October 16, 2026

INTRANSPONÍVEL

 


"Tal como o abismo celeste entre os imortais e aqueles que morrem é intransponível, o abismo individual (entre si mesmo e a sua fonte) é intransponível."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 110. 

Thursday, October 15, 2026

O CULTO DOS LUGARES

 



"Abençoado por rituais que decifram
tudo o que está para além de tudo
ele reconhecia os lugares sagrados.

Na demanda de árvores prenhes de luz
escutava a voz úbere da terra
e o cântico subterrâneo das fontes.

Sobre a humidade da folhagem
vêm agora aves solares
em silenciado voo purificar-lhe os passos
com rasgos de confidência
para que sempre lhe pertença
a simbologia e o culto dos lugares."


Graça Pires, «O improviso de viver», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 250.