Saturday, June 6, 2026

LENTIDÃO

 


"Uma das vezes em que insistiu com mais veemência em falar com Alfredo da Cunha, o médico perguntou-lhe se ela não receava um «acto violento» por parte do marido. «Não» - respondeu-lhe categoricamente. Medo à morte rápida, «nunca teve». Horrorizava-a, isso sim, a «agonia lenta» em que a vida se pode afundar, arrastando consigo «esperanças e ilusões, indispensáveis à existência de todos, porque sem elas o mundo não seria suportável»."


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 83. 

Friday, June 5, 2026

ARCÁDIA DE ESPECTROS

 


"Inspirado, o escritor recorda os poetas mortos que perpassaram «naquele interior gracioso do século XVIII» desfilando «em êxtase, entre uma nuvem de Amores côr de rosa», e que evocados pela voz angélica e incomparável da leitora, foram «enchendo, povoando, coalhando» o enorme salão, «encostando-se aos bufetes, debruçando-se sobre os livros, vivendo, familiares e graves», como se Alfredo da Cunha, reerguendo na mão a lira de prata dos árcades, os tivesse convocado a todos para «uma Arcádia de espectros»". 


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 30.

Thursday, June 4, 2026

LUA CHEIA

 



"Nossa Senhora faz meia
com linha branca de luz:
O novelo é a Lua Cheia,
As meias são para Jesus."


António Nobre, , Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p. 83.

CORPO

 



"Sacrifício imolado
pelos deuses amado
pelos anjos visitado
protegido dos espíritos
de o corpo trancado."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 222.

Wednesday, June 3, 2026

REGRESSO À MEMÓRIA

 



"regresso à memória
deus de um baralho.
um gigante de músculo breve,
sins líquidos, aqui de barcos
em praia seca.
sim, mentira
ar amigo, onde o vento te leva?
(nos leva).

agora estamos com pressa:
um só momento na maré,
e só um frémito frágil,
nada de mais com joelho,
pão amigo
e deus de um baralho.
primeiros de tu:
depois mais
intervalos de corpo
nos partem em manhãs
como azulejo mais antigo."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 68.

Tuesday, June 2, 2026

PLANAR / FLANAR

 



"calam as paredes, os nomes nos estuques
ávidos de água, os peixes
encontram as raízes
dos peixes a planar
outros
lumes na terra germinam e no mar"


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 41.

Sunday, May 31, 2026

TRINDADE

 



"ao atingir o teu espírito
a refractabilidade do Espírito
lerás o livro sem letras
e a tua sede
será
o delíquio de todas as rosas

conhecerás que
a Esfinge da Trindade
se explica
pela refractabilidade da Luz

carne
mente
espírito

filho
pai
paracleto

e a coroa
gotejada a rubro
da cabeça do Pintassilgo

aprenderás que
é isto
que faz o sentido de qualquer livro
translúcido e uno

água que escorre
da única fonte"



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, pp. 139-140.

Saturday, May 30, 2026

DANAÇÃO

 




"Dizem que as mulheres danadas
Em cada noite sem Lua
Procuram a língua fria dos lobisomens
Então velam-nos as fadas
E caem suspiros à rua
Quando o suor vem molhar as palmas das mãos dos homens

Dizem que os beijos dos loucos
Rasgam os nossos vestidos
E então velam-nos no ventre em todos os instantes
São deles os prantos roucos
Que nos mordem os ouvidos
De cada vez que entramos pelo corpo dos amantes

Dizem também que os lagartos
Nos vêem beber o vinho
Com que cada mês pagamos pelos pecados
Dos nossos cabelos fartos
Do nosso prazer daninho
De cravarmos fundo os dentes na pele dos nossos amados"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p. 55.

Friday, May 29, 2026

AMABILIDADE

 



"Não sabemos
o que sustém
a amabilidade do corolário
das pétalas de uma rosa

talvez
os fios finos
da Luz
forças cósmicas
invisíveis
dedos
flamejando a inteireza
do espaço subtil"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 82.

SOBRE TODAS AS LEIS

 



"Nunca tive medo das horas sem alma
Em que se confundem a noite e o dia
E os espíritos piam cânticos ateus
Sempre confiei na luz das manhãs
Quis a companhia muda das geadas
E nunca esperei pelo perdão de Deus

Nunca tive medo das encruzilhadas
Das juras quebradas e das salamandras
Que nascem da chama acesa dos braseiros
Sempre me esqueci de casas e camas
Só quis ter por âncora as minhas canções
E as marés que são sempre mais que os marinheiros

Nunca tive medo dos olhos dourados
dos lobos que a neve lança nos caminhos
Nos natais mais agrestes de chuva e granizo
Só temia o amor que nos rouba a vontade
Quando arrasa as muralhas da nossa razão
E rebenta por dentro do nosso juízo

Mas eu gosto de ti sobre todo o meu medo
Sobre todas as leis que governam os homens
E há centenas de anos que foram lavradas
Contigo eu estou pronta a lutar noutras guerras
A pousar a bagagem na porta de entrada
E sacudir da roupa o pó das estradas"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp. 71-72.

Thursday, May 28, 2026

ANIVERSÁRIO

 




"não te refugies
no morto
que não te deu refúgio em vida

a memória
é a sombra da muralha
esboroada por mil pensamentos
e o véu
entornado sobre ela
apenas se crisalidiza
no anoitecer"




Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 67.

Wednesday, May 27, 2026

PREFERÊNCIA

 


"Talvez acabe por preferir a solidão. A solidão é como uma dádiva, nela se não precisa mais do que finura, um certo engenho para contemplarmos com o nosso universo interior cada pedaço do céu ou cada rosa-dos-ventos. Serenos. Receber-lhe as variações. Do mesmo lugar, e sentido o que somos capazes de poder sentir."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 187. 

Monday, May 25, 2026

NA TERRA PLANTADA

 



"Rosa, na terra plantada,
Entre espinhos e abrolhos,
Volves a nós d'essa morada,
Onde foste arrebatada,
Os teus compassivos olhos!

Vê, Senhora, que eu hei posto
Só em ti minha esp'rança:
Se de mim foge o teu rosto,
Eu não fujo ao meu desgosto,
Que bem rápido me alcança.

Invoquei-te na tristeza
Do meu tão penoso exílio;
Dentro em mim senti acesa
Uma luz, cuja viveza
Era a fé no teu auxílio.

Desde então, mal sinto as dores
De quem fui escravo já...
Busco os dons animadores,
Mando ao céu os meus clamores,
E o céu graças me dá.

Mãe dos órfãos desvalidos
A ti devo quanto alcanço;
Mudos foram meus gemidos...
São meus dias sucedidos
Na doçura do descanso.

Mas se o teu divino amparo
Me abandona um só instante,
É então que em mim reparo,
E as fraquezas só deparo
Do pecado triunfante.

Um momento n'esta vida
Não me deixe o teu amor!
Faz do fraco um homem forte,
E por mim pede na morte
Na presença do Senhor!"



Camilo Castelo Branco, Duas Épocas da Vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, pp. 257-258.

Sunday, May 24, 2026

MYSTICA

 



"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.

Saturday, May 23, 2026

RESPLANDECE

 



"resplandece
a árvore do silêncio
de cujo centro
flui
o rendilhado
de luz

dela irradia
a lactescência do universo
a constância do etéreo
a solenidade da calma

o leito que esperas
para o entardecer"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 32.

UM TEMPO AINDA OUTRO

 


"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro" 

 

Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74. 

Friday, May 22, 2026

MISERICÓRDIA

 



"Cada homem se leva, por si ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se da sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia."


Armindo Trevisan, «Sexta Opção» in "9 Poemas", Colóquio-Letras, n.º 2, junho de 1971, p. 68.

Thursday, May 21, 2026

A PORTA

 


"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64. 

ANTIGAMENTE


 


"Antigamente é que era, hem!?, hem?!...
Rei contra rei. Pronto. Sobe em cima do cavalo, pega na espada, defende, luta, dá morte, pronto, cai no chão, assim é que era! Agora estes são o quê?, querem o quê?, sim, o que é que eles querem?... Ver os outros ali adiante, ver além lutar os outros, os outros a lutar! Olhem lá que coragem!"


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 143.

Monday, May 18, 2026

CORAÇÕES CONTENTES

 


"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65.