Thursday, August 6, 2026

COMO SE ELE PUDESSE SER

 


"Ela passou por ele sem o ver, o que lhe permitiu afinal de contas fixar bem o seu rosto, antes de voltar a sair, sob os olhares espantados dos funcionários par quem a sua atitude tinha um ar de perseguição, como se ele pudesse ser um fauno, embora o bigode lhe desse um ar equívoco ao rosto, com algo de sensual, que no entanto a austeridade com se vestia atenuava bastante."


Nuno Júdice, A mulher escarlate, col. Brevísssima, 28, Porto: Livraria Civilização Editora, 1997, p. 13. 

Wednesday, August 5, 2026

NOTÁVEL

 


" - Eu amo-te, Monty - disse Kiki. - Há mal nisso?
- Se alguma coisa está mal, sou eu - disse Monty, ajustando o cinto. - Muita gente chamaria a isto um crime. Se tiver consequências infelizes para ti, será uma prova a favor de quem pensa que sim. É algo que tens de ser tu a cuidar por mim. Tudo isto aconteceu em parte por eu confiar em ti para esse efeito.
- Não compreendo e, no entanto, compreendo - disse Kiki.
- Mas é-me impossível não te amar para sempre e isto também pesa.
- Uma rapariga da tua idade não sabe o que é para sempre.
- No entanto, eu acho que sei - afirmou Kiki. - Sei o que é. Sou uma rapariga notável."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 361.

Tuesday, August 4, 2026

UM BELO ROSTO

 


"Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio. Enquanto que o carácter deixa no rosto as marcas de palavras não ditas, de intenções não realizadas, enquanto que a face do animal parece sempre estar a ponto de proferir palavras, a beleza humana abre o rosto ao silêncio. Mas o silêncio - aquele que advém daqui - não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem."


Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 112. 

Monday, August 3, 2026

LUZ FULGURANTE

 


"O amor erótico, intenso e recíproco, o amor que envolve com a carne o mais refinado ser sexual do espírito, que revela e talvez mesmo crie ex nihilo o espírito como sexo, é um amor relativamente raro neste mundo incómodo. O amor apresenta-se como um valor tão estonteantemente elevado que falar em «desfrutá-lo» parece um sacrilégio. É algo a ser vivido de joelhos. E, sempre que existe, apenas terá de derramar uma luz fulgurante de justificação sobre a sua própria cena, uma luz que pode deixar o resto do mundo na obscuridade."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 293. 

Sunday, August 2, 2026

HOSTIARIUS

 


"Em primeiro lugar, é ordenado hostiário: são-lhe entregues as chaves da igreja, que ele fechava com piedoso cuidado, pois anteriormente, segundo dizem, estava patente, por negligência, a animais imundos, ou seja, cabras e porcos. Do mesmo modo, às horas convenientes a abria, expulsava, com zelo cristão, excomungados e infiéis, e guardava religiosamente tudo o que estava dentro e fora."


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, p. 8. 

RECOLAM MEMORIAM ILLIUS LITTERIS

 


"É por isso que quantas vezes me esforço por começar a falar, outras tantas se me enchem os olhos de lágrimas, se me embarga a voz e os soluços me interceptam as palavras ao escrever. Que hei-de eu fazer? Hei-de acrescentar mais lágrimas? Mas a Sagrada Escritura o proíbe. Por isso não chorarei a sua morte, porque creio que ressuscita com Cristo. Sei de certeza que ele está com Cristo. Portanto, hei-de alegrar-me e regozijar-me, porque foi arrebatado, para que o mal não alterasse o seu espírito, porque a sua alma agradara a Deus? Mas não posso suportar a saudade da sua ausência, e a sua afeição por tão grande homem dilacera o meu espírito. Não posso dissimular a dor que sofro. Contudo, não é a situação dele que eu lamento, mas a minha, porque quanto mais feliz ele é, tanto mais eu sinto a dor, por me faltar tão grande bem." 


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, pp. 5-6.

Friday, July 31, 2026

VIDA ONÍRICA PROFUNDA

 



" - Os sonhos são algo maravilhoso, não são? - dizia David. - Conseguem ser belos de uma forma especial, ímpar. Nos sonhos, até mesmo as coisas horríveis têm classe, ao contrário das coisas reais, que nos repugnam, como ver os cães a comer.
- Há uma inocência refrescante e pura em certas imagens dos sonhos - disse Monty -, mas não devemos interrogar-nos demasiado acerca delas.
- Quer dizes, como o meu pai?
- Deixa-as apenas surgir, visitar-te, como se fossem pássaros.
- Não acreditas «na vida onírica profunda da qual toda a vida emerge», como refere o meu pai no seu último artigo?
- Não - disse Monty. - Um sonho é uma história que se tem vontade de contar ao pequeno-almoço."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 128.

Thursday, July 30, 2026

NO SILÊNCIO DESTA ÁLEA




"Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore
                [que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou"



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, pp. 56-57.

Wednesday, July 29, 2026

SAGRADO

 




" - O inconsciente é tão grosseiro. Ele ainda anda de joelhos pelo quarto a tocar nas coisas?
- Está rodeado dos deuses que tem de aplacar. Tudo é sagrado. Noutra era tê-lo-iam venerado como um santo.
- Pobre criatura doida.
- O homem primitivo vivia num mundo de divindades menores e assustadoras. Os católicos romanos ainda vivem.
- Eu sei que para ti todas as religiões não passam de uma obsessão!
- Querida, eu não penso nada tão disparatado. A religião é muito importante. Simplesmente, não é o que parece. Das coisas muito importantes, poucas o são."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 30-31.

Tuesday, July 28, 2026

SORRISO ARCAICO

 


"Tornara-se intocável e Harriet, com o seu hábito antigo de tocar, encontrava-se de súbito num dilema, numa angústia. Assaltavam-na anseios fantasmagóricos de uma precisão alarmante. Sentimentos muito idênticos ao suplício de um amor não correspondido faziam-na corar e tremer. Com efeito, assemelhava-se de forma terrível a um estado de paixão. Queria abraçá-lo de novo, cobri-lo de beijos, desenlear com dedos acariciadores aquele cabelo loiro e sujo e agora de um comprimento absurdo. Mas nada era mais impossível. No último ano, como se fosse para a confundir mais, adquirira uma beleza espantosa. Aquilo a que Blaise chamava o «sorriso arcaico» de David obcecava-a como um enigma erótico."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 20. 

Monday, July 27, 2026

PENSAMENTO/PASSAMENTO

 


"Recordava com carinho estas visitas intensas e, no entanto, vagas e quase destituídas de sentido. Era tão importante ter pensamentos tranquilos e afectuosos acerca das pessoas nas alturas de ócio, em especial, talvez, em relação aos mortos que, sendo imateriais, precisam desesperadamente que pensemos neles."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 18. 

Sunday, July 26, 2026

MÃES

 


"Filhos. Trememos que sejam atropelados na rua, espreitamos ansiados a sua respiração ofegante em suas noites febris e nas crianças um qualquer nada faz subir o termómetro e o pavor na alma dos pais, descobrimos com riso o alvorejar do primeiro dente, as graças dos primeiros sorrisos que já nos entendem conhecem, os bracitos estendidos para nós, os gargarejos que são as suas primeiras falas monólogos incoerentes e logo mais depois o soletrar aldrabado das primeiras palavras, as mais importantes para nós e eles: ma-mã, pa-pá, papa papinha, , teté..., as gracinhas amorosamente pacientemente ensinadas por avós tias amas criadas: como vai a tua vidinha? e o puto com a mãozita abanica para dizer assim-assim... Filhos: lemos com assustado alvoroço notícias terríveis macabras nos jornais de crianças raptadas violadas assassinadas e pomos num calafrio o caso em nós neles; olhamos para longe para os anos futuros já rapazes e ficamos dementes de os adivinhar vê-los fardados, mortos ou então heróis assassinados, ou estropiados ou bêbedos ou doidos de crueldades que nem relatam e praticaram, a que assistiram, ou cornudos, que é o costume nas guerras."


Luiz Pacheco, «O caso das criancinhas desaparecidas», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 116. 

Saturday, July 25, 2026

CHAMADO ZEBEDEU

 



"Até ela aquele foi levado, glorioso, eleito
para a recompensa, tendo-a obtido pelo martírio
de Cristo; Tiago, chamado Zebedeu, 
cumprindo devidamente o seu estatuto apostólico, 
arrebata, vencedor, os estigmas da paixão. 

Pois, esmagando, sem dúvida com o auxílio divino, 
as cóleras criminosas dos magos, reprime e castiga
a maldade dos demónios, cheios de inveja.
Por fim, ao insensato é dada uma palavra vivificante
e insigne, e um coração que, arrependido, passa a crer."



«Hino para o Dia de São Tiago» (séc. VIII), vv. 31-40., in Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, vol. 12, Lisboa: FLUL, 2016, p. 48. 

Friday, July 24, 2026

SE JÁ REGRESSEI DAS PALAVRAS NOCTURNAS

 



"onde me queres,
se já regressei das palavras nocturnas?
onde queres que o rosto efémero e frágil caia?

hoje estremeço em museu, fogueira com luto
tristeza com lenço, cotovelo, sangue escuro.
fui certeza em terra, fui inútil,
caçador, sacrifício e peditório:
medronho, maçãs, flores e juncos.

talvez espalme as mãos na terra,
as costas, o umbigo e os pés também.
talvez duas faces escuras,
pintem a casa de verde
com a cor do rosto que se esconde."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 64.

Thursday, July 23, 2026

A ZONA CINZENTA

 


"- Meu caro senhor, ao que parece, és ateu, mas defendes a zona cinzenta onde moram os demónios - repreendeu-o Lukas.
- Procuro lugar para eles, para que tu, meu senhos, possas enxotá-los e exorcizá-los. Eu falo como se tudo isto existisse, como se existisse... A existência de demónios não é tangível. Os demónios são o exército de Proteu, transformam-se sempre e regressam com novos corpos, com novos cenários.
- Eu diria que é antes um nada que tem o poder de assumir diversas formas mais ou menos agoirentas - retorquiu Longin Lukas. - O nada que seduz e enfeitiça, suborna, actua sempre desta maneira estranha, como se estivesse e não estivesse presente num dado momento. É construído a partir das nossas projecções, medos, e alimenta-se de bom grado do nosso pavor."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 275.

Wednesday, July 22, 2026

MADALENA

 




"Estas três mulheres são verdadeiramente três? Ou não fazem senão uma? Para os Gregos, que honram a Madalena desde o século VI, trata-se de três pessoas distintas. Nunca eles imaginaram que Maria Madalena tivesse sido pecadora."


José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, vol. II, 3.ª edição corrigida e aumentada, Braga: Editorial A.O., 1994, p. 453. 

Tuesday, July 21, 2026

GASTAR TEMPO

 


"depois que os anos vieram e todas as coisas com eles vieram (e só talvez isso: anos e anos que vieram sem nós darmos por tanto tempo gasto a gastar tempo horas mornas paz podre escorrendo para trás e sempre as mesmas e sempre o mesmo, a mesma merda, e esta, sabeis? somos nós parados presos num tempo (paz podre) que não era o nosso ou o que nós queríamos que fosse o nosso mas foi o que nos deram (achámos) e ali aqui ficámos por não ter outro por não poder não saber conquistarmos outro."


Luiz Pacheco, «Os Namorados», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 37. 

Monday, July 20, 2026

PUREZA ANTIGA

 


"Onde estarão agora os que foram meninos comigo, meus companheiros de bibe-e-calção? gostava de ir lá vê-los à nossa infância, de irmos todos, reconhecermos todos como nossa ainda a pureza antiga, os projectos que enterrámos, as ilusões, os actos falhados. E, com efeito, o mundo dos adultos está cada vez mais triste, mais crápula, mais ratazana. É uma bicharada que vai a correr pró buraco do coval, comprometida e lassa, sem alegria, sem carácter, sem sentimentos, sem dignidade nenhuma. Não são gente: são baratas medrosas, assustadas sempre, que andam de luto por eles-mesmos e se escondem quando pressentem uma luz, a ousadia dum gesto, a virtude duma palavra. Adultos, cadáveres de jovens. Metem dó, metem nojo, tão velhinhos e tão resignados. Cagarolas. Gostaria de os tornar a ver como eram, na infância."


Luiz Pacheco, «O Teodolito», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 28. 

Sunday, July 19, 2026

EPICUREU

 




" - Irei morrer? - perguntava à vela.
Não respondia logo. A sua chama tremeluzia como que perturbada com a pergunta.
- Imortais são somente as coisas muito pequenas ou muito grandes - respondeu com cautela. - Os átomos são imortais e as galáxias são imortais. Eis o mistério. O alcance da morte é muito específico, é como uma onda de rádio."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 227.

OLHOS ENFRESTADOS

 



"Travessos olhos, que na travessia
Deixais os olhos todos derrubados,
Contra quem só três dedos cavalgados
São na manhã remédio a todo o dia:

Dos milagres, que fez Santa Luzia,
Nenhum sabemos de olhos enfrestados
E mais de olhos que são tão namorados,
Que olham um para o outro à mor porfia:

Ciosos olhos, pois essas meninas
Escondeis no mais alto das capelas,
Não consistais haver delas suspeita:

Torcei-lhe a condição de pequeninas,
Porque nunca se possa dizer delas
Quem torto nasce, tarde se endireita."



«Fénix - I, pág. 161», in Segismundo Spina e Maria Aparecida Santilli, Apresentação da Poesia Barrôca Portuguêsa, Assis: 1967, p. 119.