"Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante."
"Tal como nos outros países da Europa, também em Portugal a lepra se desenvolveu mais intensamente depois dos maiores contactos com o Oriente, através das Cruzadas. E também, como por toda a parte, aqui se disseminou uma rede de leprosarias, onde os gafos se isolavam, fugiam à execração pública e diminuíam o perigo de contágio.Eram sobretudo numerosas no Norte do País, mas também bastante espalhadas pela parte central e pela beira-mar. Nunca, porém, atingiram as elevadas cifras que outras áreas da Europa registaram, porque o nosso país foi um dos menos atingidos pela doença."Iria Gonçalves, Imagens do Mundo Medieval, Lisboa: Livros Horizonte, 1988, p. 61.
"Na verdade, absolutizar uma única dimensão do ser humano é sempre errado. Com efeito, não é apenas a escassez que gera a desordem. Também aquilo que cresce sem medida pode tornar-se uma forma de pobreza. Num ecossistema, a harmonia rompe-se quando uma única espécie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano, quando uma faculdade pretende tornar-se a medida de tudo. Assim, a inteligência, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimensões essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedicação e a relação. O poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e de exclusão. Não se trata, evidentemente, de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana."Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 114.
"Hoje, entre os bens que se destinam universalmente a todos, devemos contar ainda as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados. Num contexto em que a riqueza das nações depende cada vez mais de conhecimentos e tecnologias, quando estes bens permanecem concentrados nas mãos de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos, entre quem pode participar na revolução digital e quem fica à margem. Além disso, o cuidado da Casa comum e a responsabilidade para com os pobres e as gerações futuras exigem que a utilização dos bens da criação e das novas possibilidades oferecidas pela técnica seja regulada de modo a respeitar o ambiente, evitando desperdícios e novas formas de pilhagem."
Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 82.
" - São mesmo fofas, não são? - emocionava-se a Joana, cheia de instintos maternais.Cereja entrava primeiro e sorria, Branca de Neve maliciosa com uma voz de cristal. Levantava um bocadinho as sobrancelhas, mordiscava um bocadinho os lábios, descia as pestanas por um segundo e começava a cantar, grácil, virginal, Madame Butterfly das esferas indizíveis, pelas campinas gentis voam lindas borboletas. Com suas asas subtis verdes vermelhas ou pretas. Encarnación aproximava-se por trás e com as mãos nos bolsos, postava-se muito direita ao lado dela e irrompia no coro com um baixo rouco e possante, ai quem me dera voar, como tão lindos bichinhos. Só para as rosas beijar sem me picar nos espinhos."Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, pp. 82-83.
"Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável. O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar."
Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, pp. 70-71.
"E o padre Bernard, que passou os seus últimos anos numa capela abandonada na Grécia, venerado e acarinhado como o louco da aldeia, fazendo sermões às pessoas e às aves marinhas, escreveu numa carta que para encontrar o real bastava olhar para as pedras, o pão que os camponeses lhe traziam, uma nascente, a água, as ondas, a linha do horizonte. Tudo é sagrado. E quando a perceção é pura o mundo material e o mundo espiritual vibram como um só. O contacto, de que falava Plotino. Não se trata de ver porque quando vemos ainda estamos separados. Conhecimento puro, como o dos anjos. A linguagem dos anjos, a linguagem dos pássaros; a que diz a realidade do mundo."
Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 147.
"Conheces Deus, parte dele, um dia vou conhecê-lo todo. Não, isto seria demasiado para alguém conhecer, ficarias cega. Aprende a conhecer rochas, árvores, flores, estrelas, sol, são parte de Deus. Aprende a conhecer o mar... Eram frases soltas de um filme, uma menina de dezasseis anos com um vestido amarelo, um pistoleiro que fazia versos em troca de um copo de whisky, um ramo de primaveras; e ela dizia baixinho, para si mesma, quando ele chegava a casa com um ramo de flores do campo, uma rosa, uma pedra que encontrava no parque. Estou apaixonada, como se fosse o princípio de qualquer coisa. E pratiquei a morte todos os dias da minha vida... E todas as vidas ficam inacabadas."
Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 113.
"Nós vivemos fechados no nosso mundo, e um dia descobrimos que existe mais alguém, é isso apaixonar-se, tomar consciência da realidade de alguém além de nós. Sair da caverna e descobrir o mundo. E de novo a ideia do santo, o santo esquece-se de si mesmo e vê aquilo que existe, e identifica-se com aquilo que existe. Não se trata de fazer milagres, ou caminhar sobre as águas, ou trazer os mortos de regresso à vida, isso são apenas sinais, é um estado de consciência..."
Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 61-62.
" - Meu amigo, disse-lhe eu depois de um grande silêncio, se as acusações do mundo pudessem chegar até vós, a vossa felicidade clamaria bem alto.- Sois moço, respondeu ele, para vós, consciência ingénua e pura não maculada pelo mundo, a nossa felicidade é sinal da nossa virtude, para o mundo é o factor do nosso crime. Ide, a solidão é boa, e os homens não valem uma saudade."George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 338.
"A sua voz tornou-se muito baixa e era tão sedutora que provocava vertigens a Margaret, como uma fragância por de mais inebriante.- Garanto-lhe que nada é impossível a essa arte. Ela comanda os elementos, conhece a linguagem das estrelas e dirige os planetas nas suas órbitas. À sua ordem, a Lua tinge-se de sangue e despenha-se dos céus. Os mortos erguem-se das sepulturas e fazem proferir palavras agoirentas ao vento que atravessa os seus crânios a gemer. Céu e Inferno são os seus domínios, e todas as formas, adoráveis e hediondas, e o amor e o ódio. Com a varinha de Circe, pode transformar homens em animais, e aos animais pode comunicar a sua humanidade monstruosa. A vida e a morte estão na mão direita e na esquerda daquele que lhe conhece os segredos. Ela confere a riqueza pela transmudação dos metais e a humanidade pela sua quinta-essência.Margaret já não podia ouvi-lo. Uma espécie de letargia apoderava-se dela pouco a pouco sob aquele olhar maléfico e faltavam-lhe até as forças para desejar libertar-se. Parecia estar já unida a ele por cadeias invisíveis."