Thursday, October 15, 2026

O CULTO DOS LUGARES

 



"Abençoado por rituais que decifram
tudo o que está para além de tudo
ele reconhecia os lugares sagrados.

Na demanda de árvores prenhes de luz
escutava a voz úbere da terra
e o cântico subterrâneo das fontes.

Sobre a humidade da folhagem
vêm agora aves solares
em silenciado voo purificar-lhe os passos
com rasgos de confidência
para que sempre lhe pertença
a simbologia e o culto dos lugares."


Graça Pires, «O improviso de viver», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 250.

Tuesday, October 13, 2026

VOAR NOUTROS CÉUS

 


"347

A Arte é uma coisa (um objecto) que sorri ou sofre (um sentimento) e que, desde o seu ninho, pode voar noutros céus e, nunca se sabe como, transformá-los. Cada um dos seus instantes saberá, ou não, como."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 80-81. 

Monday, October 12, 2026

DA MISÉRIA HUMANA

 


"294

O homem que sou, e o mundo em que vivo, sempre em estado de desgraça, essa trágica fonte de poesia. O poeta, em estado de graça? A musa bebe na miséria humana, na ironia terrível da natureza."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 69. 

Sunday, October 11, 2026

OLHAR ABSTRACTO

 



"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."


Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139. 

Friday, October 9, 2026

NOBEL




"Queres ver como as coisas corriam do ponto de vista do marido -
vamos até lá atrás,
ali a esposa
agarrando os cotovelos com as mãos e de frente para o marido.
Lágrimas não diz ele, lágrimas outra vez não. Mas ainda assim elas caem.
Ela observa-o.
Desculpa diz ele. Acreditas em mim.
Observa.
Nunca te quis magoar.
Observa.
Isto é banal. Parece Backett. Diz alguma coisa!
Creio

que chegou o teu táxi disse ela.
Ele olhou para a rua lá em baixo. Ela tinha razão. Aferroou-o.
o pathos da aguda audição dela.
Ali estava ela, uma pessoa de traços particulares,
um certo coração, a vida dentro dela a pulsar em frente.
Ele faz sinal ao taxista, cinco minutos.
Agora as lágrimas dela pararam.
Que fará ela depois de eu ir? pergunta-se ele. A noite dela. Cortou-se-lhe a respiração.

A sua estranha noite.
Bom disse ele.
Sabes começou ela.
O quê.
Se pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti.
Porquê.
Para lhe contar isto.
A perfeição repousou sobre eles por um momento como a calma na superfície de um lago.

A dor repousou.
A beleza não repousa.
O marido tocou a têmpora da mulher
e voltou-se
e correu
escada
abaixo."


Anne Carson, A beleza do marido, 2.ª ed., trad. Tatiana Faia, Lisboa: não (edições), 2020, pp. 67-68.

Tuesday, October 6, 2026

NOVO

 



"Por definição, o novo é a parte das coisas que desaparecerá. O perigo do novo é o de o deixar de ser automaticamente, e deixa-o com um simples prejuízo. Como acontece com a juventude e a vida. Criar qualquer oposição a tal prejuízo equivale a actuar e a construir contra o novo.
Assim, busca o novo como um artista é tratar de desaparecer ou procurar sob o nome do novo, algo completamente distinto e expor-se a um equívoco."


Paul Valéry, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & Outros, trad. Luís Fernando Quaresma, Lisboa: Editora Pergaminho, 1994, p. 22.

Monday, October 5, 2026

O ESPANTO

 


"O Deus a que me liguei é mais um estado de enamoramento do que um nome próprio. É o espanto, o respeito e mesmo o amor pela realidade do mistério que nos envolve. São isso os seres humanos: nada de mais grandioso e misterioso, rodeados de promessas que ainda não fomos capazes de cumprir. Eu sei que os acontecimentos que sucedem na terra podem ser horríveis, mas a fé é uma aposta que nos ajuda a compreendê-los e a saber que tudo assim acontece porque fomos feitos com liberdade."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 145. 

PÁTRIA

 




"Ciganus

Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.


Opiparus

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro unicamente."



Guerra Junqueiro, "Pátria", in Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 573.

Sunday, October 4, 2026

RELAÇÃO COM DEUS

 



"A vida de S. Francisco de Assis, por exemplo, só é compreensível noutro contexto social e noutra mentalidade: S. Francisco, e todos os seus irmãos, seriam hoje uns maluquinhos, masoquistas com uma relação com Deus, com o mundo e com os homens que não sei se deverá ser seguida nos nossos dias, mas ficou aquele grande exemplo do amor, do despojamento e da paz.
Acho que nós temos tido mais moral do que religião. Não é da essência de uma religião impor modelos de comportamento e não é necessária uma religião para se ter um comportamento digno. É isso que me faz sentir que a relação com Deus está muito para além daquilo que temos que dar aos outros na área dos comportamentos."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 102.

SAIR DA TERRA

 




"A Bárbara interrompeu:
- Eu acho que estou nesse estado. É quando estamos sem Deus que temos uma indefinível necessidade dele. Eu sinto esse vazio, essa imensa falta na minha inteligibilidade, como se o mundo pudesse passar sem Deus mas as pessoas não.
- No fundo, eu continuava com uma concepção teória de Deus mas tu fizeste-me vir à terra e começo a pressentir a necessidade de viver tudo isto com intensidade. Eu estava preguiçoso em relação a Deus. como tu dizes, eu andava para aqui a empatar."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 65.

SERAPHICUS

 





"Seráfico Francisco, assinalado
Naquelas cinco partes, onde estava
Amor, quando por si te trasladava
Para mostrar em ti o seu traslado:

Assi como na Cruz fora pregado,
Assi consigo mesmo te pregava:
Das chagas de que nela se chagava,
Dessas mesmas te deixa a ti chagado.

Que seguro te deu da glória sua,
Selado com seu selo impresso, escrito
Vivendo na vencida carne tua!

Vencida é tão conforme a teu espírito,
Que nem se apartou dela em terra nua,
Qual o Senhor da Cruz em ti bendito!"



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 67.

Friday, October 2, 2026

ARCANJOS

 



"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.

Wednesday, September 30, 2026

RELAÇÃO

 



"Respondi:
- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.

Tuesday, September 29, 2026

NO TEMPO DE ANGÚSTIA

 



"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»
Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"


José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.

Monday, September 28, 2026

PEDAÇOS DE LUZ

 



"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13. 

Sunday, September 27, 2026

HUMANIDADE

 



"Amei verdadeiramente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
- Então, absolvo-te, disse Pessoa, absolvo-te, julgava que na tua vida só tinhas amado a teoria.
- Não, disse Campos aproximando-se da cama, também amei a vida, e se as minhas odes futuristas e furibundas foram blague, se nas minhas poesias niilistas destruí tudo, até eu mesmo, fica a saber que também eu amei na minha vida, com uma dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve."


António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa - um delírio, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Quetzal Editores, 1995, p. 23.

ETIMOLOGIAS

 




"Depois de um tempo de alqueive
rasguei o fundo obscuro da palavra
para que o semeador de alfabetos
aí fizesse a sua lavra.
É nesta margem que garimpo vozes
soterradas no olvido,
ressuscitar a morte
é devolver à vida
um sentido."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 20.

Friday, September 25, 2026

NOS LONGES

 



"Invoco, nos longes, a minha presença impossível.
Os longes são permanentes.
Lá, onde a beleza reside, deliquescentes
azuis, sois e luares, são permanência intangível.

Lá.
Ser incluso pormenor naquela bruma,
esboçado apenas como um desenho por acabar.
Ser lá, presente como aqui; uma
como nenhuma
distância entre o meu ser aqui e o meu estar lá.

Ir-me além, naquele cerro a ascender-se.
Ver-me daqui a subi-lo.
Perguntar-me «o que é aquilo?»,
imperceptível mexer-se.

Eucaliptos, casas, montes,
águas, pedras, horizontes,
coisas finitas em si.
Outeiros, vales, caminhos,
sebes, rochedos, moinhos...
Tudo no mundo. E eu daqui."



António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 56-57.

Thursday, September 24, 2026

CATÁBASE

 




"Desci como Orfeu ao fundo dos infernos
para a purificação no fogo
e o renascer da ausência
e da dor que me persegue

Quero ser o leito para adormecer
e que Eurídice sobreviva no meu sono
e na imagem que passa no fundo da caverna
Nas trevas acendo a luz e o alimento

de uma esperança cega de nascença
Há sempre um mito
cravado na alma do poeta

mas a mãe grande de toda a utopia
é a reconstrução da migração das aves
a partir do caos."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 14.

Wednesday, September 23, 2026

ANJO

 



"Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em voz de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.
Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 37-38.