Friday, April 24, 2026

TODOS OS DEUSES

 



"Penelopando tramas de espertina
em minha teia de defesas castas
espero adiar em mim noites madrastas
cujo terror pressinto. Em surdina

teço de esperançada e caprina
malícia, entre um tédio de pilastras,
a imensa tessitura de infastas
razões não e razões sim. Na neblina

leve e futurada em que concentro
o intento focadíssimo do olhar,
alevantam-se as rolas do escarmento

de, irra, todos os deuses! Penelopar
adianta? Sei lá bem! Mas experimento
esta expedita forma de adiar."


João Pedro Grabato Dias, in Colóquio Letras, n.º 4, dezembro de 1971, p. 71.

Thursday, April 23, 2026

OUTREM

 


"PHILIPPE NEMO - Outrem é rosto; mas outrem, igualmente, fala-me, e eu falo-lhe. Será que o discurso humano não é também uma maneira de romper com o que chama «totalidade»?

EMMANUEL LEVINAS - Certamente. Rosto e discurso estão ligados. O rosto fala. Fala, porque é ele que torna possível e começa todo o discurso. Recusei, agora mesmo, a noção de visão para descrever a relação autêntica com outrem: o discurso, e mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que é esta relação autêntica."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 79. 

Wednesday, April 22, 2026

 


"PHILIPPE NEMO - Um silêncio sussurrante?

EMMANUEL LEVINAS - Algo que se parece com aquilo que se ouve ao aproximarmos do ouvido uma concha vazia, como se o vazio estivesse cheio, como se o silêncio fosse um barulho. Algo que se pode experimentar também quando se pensa que, ainda se nada existisse, o facto de que «há» não se poderia negar. Não que haja isto ou aquilo; mas a própria cena  do ser estava aberta: há. No vazio absoluto, que se pode imaginar, antes da criação - há."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 40. 

Sunday, April 19, 2026

ANJO

 




"... Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos."


Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, 8.ª ed., São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 107.

PRAÇA-FORTE


 

"Foi-me tão longa e funda a solidão
que vi a dor mudar em pensamento;
neutralizado assim o sofrimento, 
julguei ter o governo da emoção.
E dela livre, p'la imaginação, 
até onde podia ir o meu alento, 
arroguei-me do' humano sentimento
enquanto ia vazando o coração.
Mas sem que o perigo apercebesse, 
em máscaras de mim me extraviei
negando em cada uma outra verdade.
E reaver-me agora me parece -
na ausência viva que enganar não sei - 
a última ironia da saudade..."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 72. 

Saturday, April 18, 2026

DAMA NA TORRE

 



"A dama na torre está
a torre ébria como um boi
um boi sangrento
que come bolotas
ao levantar-se
e cospe sangue
ao deitar-se

A dama na torre está
A torre era tão alta
a dama era tão pequena
que uma pessoa se enganava
era essa a paga
No salgueiral
todos os nabos
se mimavam

A dama era tão pequena
a torre tão grande era
que as amêndoas
e as amantes
se amavam nos desvãos"



Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 91.

Friday, April 17, 2026

UM PÁSSARO

 



"Pode demorar mil anos
Ou o tempo de um rio
O beijo que pouso no teu ombro
Um pássaro
Um poema nascente do fogo
Lado direito do teu corpo
E na noite
Átrio de silêncio
Para dizer amor
Há uma corda de palavras estancadas
Quase sussurros

E a eternidade resume-se
À certeza morna dos teus dedos
Escorrendo através dos meus lábios"


José Pedro Leite, Respiração Vertical, ed. autor, 2011, p. 56.

Tuesday, April 14, 2026

MÃOS

 



"O homem descobre a poesia circular
Apercebe-se de que ela rola e baloiça
como as vagas da botânica
e prepara periodicamente o fluxo e o refluxo

Ó santos porque não sois cingidos de seios sãos
O vosso selo seria uma mão feita de polegares
agitada por tremor alcoólico
Ó santos que tendes vós na mão
Será uma mão mais pequena
que envolve uma outra mão mais pequena
e por aí fora até à extinção das mãos

A poeira agita-se na sua solidão
Quer que o silêncio que a envolve
se povoe de fantasmas alados
com vozes de tronco podre
de mulheres leves como a dama branca

de velhotes que descem da montanha
a braços com as neves eternas
das grandes montanhas moles
onde giram rodopiam e mergulham
as sapatilhas de dança"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 52.

Sunday, April 12, 2026

MONTANHAS

 


"As montanhas saíram do fundo do mar, a terra nasceu do seio das ondas, embora sempre rodeada pelo vasto oceano. É imóvel porque o universo se afasta dela em todos os sentidos com igual força: caiu tanto de toda a parte que já não pode cair de nenhuma; é o centro e, ao mesmo tempo, o lugar mais baixo de todo o universo."


Marcus Manilius, Os Astrológicos ou a Ciência Sagrada dos Céus, I, trad. Inês Guerreiro, Lisboa: Arcádia, s.d., p.16.

Saturday, April 11, 2026

LANGUIDEZ

 


"E depois começaram a abafar na avenida. Nunca ela tivera tão ardentes frémitos; nunca o chão, esse campo em que dormiam as últimas ossadas do antigo cemitério, tinha deixado escapar mais inebriantes exalações. Ainda eles tinham em si bastante infância para saborear o voluptuoso encanto desse buraco solitário, febril de primavera. As ervas subiam-lhe até aos joelhos; caminhavam a custo; e, quando esmagavam os rebentos, certas plantas deitavam cheiros acres que os embriagavam. Então, tomados de estranhas fadigas, perturbados e vacilantes, com os pés como que ligados pelas ervas, encostavam-se contra a parede, de olhos semi-cerrados, sem poder avançar. Parecia que toda a languidez do céu neles se instilava."


Émile Zola, A Fortuna dos Rougons, trad. Barros Lobo, Lisboa: Guimarães Editores, s.d., p. 233-234. 

Friday, April 10, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Eles abrem a palavra
A pequena giesta — essa luz

Abrem uma pinha na infância

Quando despertam
Quando abrem as mãos à pulsação
Dos livros, eles abrem
No favo o sinal

A pequena nascente no mel"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 203. 

Thursday, April 9, 2026

COMUNICAR


 

"Se alguma vez Victor sentiu-se no coração de sua religião, foi neste momento e esta mesma religião, ele talvez nunca a sentira no fundo do seu coração. A solidão desta pequena igreja no campo, a singularidade da relíquia que ela guardava, o desencadeamento da natureza uniam-se para dar-lhe a impressão de uma divindade que sabe comunicar-se por todos os meios: os mais terríveis, os mais comoventes, os mais absurdos. Um dia divertira-se ao saber que havia uma oração contra os terremotos, mas hoje compreendia que havia gente para recitar esta oração quando a terra se punha a tremer. «Nós só temos na noite uma pequena luz para nos conduzir, disse um filósofo, e a religião a apaga»: a religião é também esta pequena luz na noite."

Roger Peyrefitte, As Chaves de São Pedro, trad. Heitor Martins, Rio de Janeiro: Editora Júpiter, 1961, p. 269. 

Wednesday, April 8, 2026

APRENDIZAGEM

 


"Entretanto, que aprendera até então com tamanha fadiga? Nada de positivo entre os antigos, nada de belo entre os modernos. O passado e o presente são duas estátuas incompletas. Uma saiu toda mutilada dos escombros do tempo. A outra não recebeu nada ainda do acabamento do futuro."


François René de Chateaubriand, René, trad. Vergílio Godinho, Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 99. 

Tuesday, April 7, 2026

ÁGUA QUE NÃO SE BEBE

 




"Estamos longe ou então
Há água que não se bebe
é água potável
Há pessoas que não se vêem
são os mortos
e também não as ouvimos
Porque é que afirma o contrário
Porque é que gritou tão alto
Bem vê que vamos morrer
E eu não faço questão"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 15.

Monday, April 6, 2026

DELIMITADOS SOMOS PELOS DEUSES

 


"Delimitados somos pelos deuses

Antes que se evapore de repente
Escrever o problema com mestria
Eterna fixação que o canto inscreve

Meu coração partiu-se em quatro partes
Não posso a minha dama desfrutar
Chegado ao termo de lavor tão duro

Tudo perdemos sempre que chegamos
Delimitados somos pelos deuses

Dos deuses é o silêncio periférico
o nível e o espaço, o firmamento."


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 306. 

A RAIZ DA TERRA

 



"Pode um homem correr mundo
nos quatro ventos plantar
o rosto, a alma e o fundo
de tudo quanto é seu
que nenhum vento pode arrancar
a raiz da terra onde nasceu"


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 286.

Sunday, April 5, 2026

QUEM ESCOLHE O CAMINHO DAS PEDRAS

 



"Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte"



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 179.

NO INTERIOR DA TERRA


 

"Vimos a pedra vazia no interior da terra
A manhã. Nós não tocámos a luz
Inesperada. Pensámos
Que já o sono sendo eterno te afastara
E que farol que foste
Agora onda após onda, brasa extinta, naufragava

Nunca mais, pensámos, dormirias na proa
E quase desaprendêramos a guiar o barco
Em nossas viagens não amainaria mais, pensámos, e chegar a casa
Seria ver multiplicar-se
A nossa fome como o peixe e como o pão

Chegámos a terra porém e esperavas-nos
Os pés furados como conchas sobre a areia
E sentámo-nos em redor para comer"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 264. 

Saturday, April 4, 2026

O SILÊNCIO

 



"É mais de terra feito
que doutra matéria e matizes:
Pesa na fronte e no peito
sobre o tumulto das raízes...

E as raízes deitam fora
dedos, mãos, braços, 
de plantas plantadas na hora
dos passos longos, dos longos passos...

E das plantas 
há tantas
que mal ou bem
ficam no gesto de quem plantou, 
à espera do sol que não vem
ou tardiamente chegou."



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 37. 

Friday, April 3, 2026

SOFREDOR

 


"Assim, não sabemos precisamente quem foi responsável pela prisão, julgamento e execução de Jesus; nem sabemos o que tinha em mente quando se dirigiu para a morte. Aqueles que mantêm que se identificava com o Servo Sofredor acreditam que se considerava o seu sofrimento como expiação pelos pecados dos homens; os que não mantêm, não têm essa pretensão a respeito dele."


Humphrey Carpenter, Jesus, trad. Maria Manuela Pecegueiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982, p. 165.