Saturday, October 17, 2026

IMAGENS IRMÃS

 



"O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração

contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso."


António Ramos Rosa, "Mediadoras", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 998-999.

FORTIFICADA

 



"O Rei Gilgamés enuncia em Uruque: Ou uma cidade ou a selva.
O Rei de Uruque ama a cidade fortificada cujas leis decide, cuja imagem denteada coloca sobre os cabelos, cujas mulheres domina pelo direito que decreta sobre elas, gosta de caçar fora dos muros os animais ferozes do mundo selvagem. Porém, de repente, um dia, algo acontece; apaixona-se pela fera ao apaixonar-se por Enquidu; ama aquele que morre; continua a amar aquele que está morto. Decide dirigir-se à morada dos mortos para tentar reencontrar o seu companheiro. É o primeiro romance escrito neste mundo, no final do quarto milénio antes de Cristo."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 146.

Friday, October 16, 2026

INTRANSPONÍVEL

 


"Tal como o abismo celeste entre os imortais e aqueles que morrem é intransponível, o abismo individual (entre si mesmo e a sua fonte) é intransponível."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 110. 

Thursday, October 15, 2026

O CULTO DOS LUGARES

 



"Abençoado por rituais que decifram
tudo o que está para além de tudo
ele reconhecia os lugares sagrados.

Na demanda de árvores prenhes de luz
escutava a voz úbere da terra
e o cântico subterrâneo das fontes.

Sobre a humidade da folhagem
vêm agora aves solares
em silenciado voo purificar-lhe os passos
com rasgos de confidência
para que sempre lhe pertença
a simbologia e o culto dos lugares."


Graça Pires, «O improviso de viver», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 250.

Tuesday, October 13, 2026

VOAR NOUTROS CÉUS

 


"347

A Arte é uma coisa (um objecto) que sorri ou sofre (um sentimento) e que, desde o seu ninho, pode voar noutros céus e, nunca se sabe como, transformá-los. Cada um dos seus instantes saberá, ou não, como."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 80-81. 

Monday, October 12, 2026

DA MISÉRIA HUMANA

 


"294

O homem que sou, e o mundo em que vivo, sempre em estado de desgraça, essa trágica fonte de poesia. O poeta, em estado de graça? A musa bebe na miséria humana, na ironia terrível da natureza."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 69. 

Sunday, October 11, 2026

OLHAR ABSTRACTO

 



"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."


Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139. 

Friday, October 9, 2026

NOBEL




"Queres ver como as coisas corriam do ponto de vista do marido -
vamos até lá atrás,
ali a esposa
agarrando os cotovelos com as mãos e de frente para o marido.
Lágrimas não diz ele, lágrimas outra vez não. Mas ainda assim elas caem.
Ela observa-o.
Desculpa diz ele. Acreditas em mim.
Observa.
Nunca te quis magoar.
Observa.
Isto é banal. Parece Backett. Diz alguma coisa!
Creio

que chegou o teu táxi disse ela.
Ele olhou para a rua lá em baixo. Ela tinha razão. Aferroou-o.
o pathos da aguda audição dela.
Ali estava ela, uma pessoa de traços particulares,
um certo coração, a vida dentro dela a pulsar em frente.
Ele faz sinal ao taxista, cinco minutos.
Agora as lágrimas dela pararam.
Que fará ela depois de eu ir? pergunta-se ele. A noite dela. Cortou-se-lhe a respiração.

A sua estranha noite.
Bom disse ele.
Sabes começou ela.
O quê.
Se pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti.
Porquê.
Para lhe contar isto.
A perfeição repousou sobre eles por um momento como a calma na superfície de um lago.

A dor repousou.
A beleza não repousa.
O marido tocou a têmpora da mulher
e voltou-se
e correu
escada
abaixo."


Anne Carson, A beleza do marido, 2.ª ed., trad. Tatiana Faia, Lisboa: não (edições), 2020, pp. 67-68.

Tuesday, October 6, 2026

NOVO

 



"Por definição, o novo é a parte das coisas que desaparecerá. O perigo do novo é o de o deixar de ser automaticamente, e deixa-o com um simples prejuízo. Como acontece com a juventude e a vida. Criar qualquer oposição a tal prejuízo equivale a actuar e a construir contra o novo.
Assim, busca o novo como um artista é tratar de desaparecer ou procurar sob o nome do novo, algo completamente distinto e expor-se a um equívoco."


Paul Valéry, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & Outros, trad. Luís Fernando Quaresma, Lisboa: Editora Pergaminho, 1994, p. 22.

Monday, October 5, 2026

O ESPANTO

 


"O Deus a que me liguei é mais um estado de enamoramento do que um nome próprio. É o espanto, o respeito e mesmo o amor pela realidade do mistério que nos envolve. São isso os seres humanos: nada de mais grandioso e misterioso, rodeados de promessas que ainda não fomos capazes de cumprir. Eu sei que os acontecimentos que sucedem na terra podem ser horríveis, mas a fé é uma aposta que nos ajuda a compreendê-los e a saber que tudo assim acontece porque fomos feitos com liberdade."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 145. 

PÁTRIA

 




"Ciganus

Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.


Opiparus

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro unicamente."



Guerra Junqueiro, "Pátria", in Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 573.

Sunday, October 4, 2026

RELAÇÃO COM DEUS

 



"A vida de S. Francisco de Assis, por exemplo, só é compreensível noutro contexto social e noutra mentalidade: S. Francisco, e todos os seus irmãos, seriam hoje uns maluquinhos, masoquistas com uma relação com Deus, com o mundo e com os homens que não sei se deverá ser seguida nos nossos dias, mas ficou aquele grande exemplo do amor, do despojamento e da paz.
Acho que nós temos tido mais moral do que religião. Não é da essência de uma religião impor modelos de comportamento e não é necessária uma religião para se ter um comportamento digno. É isso que me faz sentir que a relação com Deus está muito para além daquilo que temos que dar aos outros na área dos comportamentos."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 102.

SAIR DA TERRA

 




"A Bárbara interrompeu:
- Eu acho que estou nesse estado. É quando estamos sem Deus que temos uma indefinível necessidade dele. Eu sinto esse vazio, essa imensa falta na minha inteligibilidade, como se o mundo pudesse passar sem Deus mas as pessoas não.
- No fundo, eu continuava com uma concepção teória de Deus mas tu fizeste-me vir à terra e começo a pressentir a necessidade de viver tudo isto com intensidade. Eu estava preguiçoso em relação a Deus. como tu dizes, eu andava para aqui a empatar."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 65.

SERAPHICUS

 





"Seráfico Francisco, assinalado
Naquelas cinco partes, onde estava
Amor, quando por si te trasladava
Para mostrar em ti o seu traslado:

Assi como na Cruz fora pregado,
Assi consigo mesmo te pregava:
Das chagas de que nela se chagava,
Dessas mesmas te deixa a ti chagado.

Que seguro te deu da glória sua,
Selado com seu selo impresso, escrito
Vivendo na vencida carne tua!

Vencida é tão conforme a teu espírito,
Que nem se apartou dela em terra nua,
Qual o Senhor da Cruz em ti bendito!"



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 67.

Friday, October 2, 2026

ARCANJOS

 



"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.

Wednesday, September 30, 2026

RELAÇÃO

 



"Respondi:
- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.

Tuesday, September 29, 2026

NO TEMPO DE ANGÚSTIA

 



"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»
Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"


José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.

Monday, September 28, 2026

PEDAÇOS DE LUZ

 



"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13. 

Sunday, September 27, 2026

HUMANIDADE

 



"Amei verdadeiramente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
- Então, absolvo-te, disse Pessoa, absolvo-te, julgava que na tua vida só tinhas amado a teoria.
- Não, disse Campos aproximando-se da cama, também amei a vida, e se as minhas odes futuristas e furibundas foram blague, se nas minhas poesias niilistas destruí tudo, até eu mesmo, fica a saber que também eu amei na minha vida, com uma dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve."


António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa - um delírio, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Quetzal Editores, 1995, p. 23.

ETIMOLOGIAS

 




"Depois de um tempo de alqueive
rasguei o fundo obscuro da palavra
para que o semeador de alfabetos
aí fizesse a sua lavra.
É nesta margem que garimpo vozes
soterradas no olvido,
ressuscitar a morte
é devolver à vida
um sentido."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 20.