Wednesday, April 17, 2024

BALOUÇAR

 


"Queridas e dedicadas flores, como sois tranquilas. Não vos moveis, não tendes olhos nem orelhas e tão-pouco podereis dar um passeio, algo que, porém, é tão agradável. Às vezes parece mesmo que poderíeis falar, mas decerto que tendes sensibilidade e um sentimento próprio. Tantas vezes me deu a impressão de que pudésseis estar a meditar e a ter toda a espécie de pensamentos. Decerto me equivoco, mas penso em vós e de bom grado viveria convosco, com todo o prazer seria como uma de vós, deixando-me acariciar pela luz do sol, balouçando-me, num embalo, ao vento."


Robert Walser, Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos, trad. e seleç. Ricardo Gil Soeiro, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 103. 

Monday, April 15, 2024

ARVOREZINHA

 




"Vejo-a, mesmo quando distraidamente passo por ela. Não foge, fica muito quieta, não consegue pensar, não consegue desejar seja o que for, não, limita-se a crescer, a estar no espaço e a ter folhas que ninguém toca e que se limitam a ser vistas. Diante da sombra que ela projecta passam a correr os apressados.
      Nunca te dei nada? Mas ela não precisa de felicidade. Talvez ela fique contente se alguém a achar bonita. Acham que sim? Quantas inocências sagradas falam através dela. Não se sabe de nada, apenas está ali para o meu bel-prazer. Nunca me vê sorrir à saudação que a própria me lança inadvertidamente.
     Por que razão não pode ela estimar o meu amor, quando lhe digo algo de bom, apesar de ela nada dizer em troca? Morrer aos pés deste ser, como que pintado por Courbet, que se despede para sempre!
     Mas se eu irei sobreviver, o que será de ti?"



Robert Walser, Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos, trad. e seleç. Ricardo Gil Soeiro, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 85.

Sunday, April 14, 2024

PECULIARIDADE

 


"Agora, lanço ao leitor a pergunta, tão educada quanto devota, sobre se ele porventura alguma vez bateu na água com a palma da mão. É uma experiência muito interessante, repleta de estranheza e peculiaridade. Bater palmas na água é para mim um maravilhoso passatempo de Verão, se tal não for pecado. A água é tão agradável, possui uma leve dureza apetitosa, uma firme suavidade, uma elasticidade cheia de carácter. É, por assim dizer, algo que resiste para depois ceder por bondade. Quase que poderíamos dizê-lo assim. A água é em si mesma algo bastante curioso. De que forma chegou a existir? Terá havido um tempo em que não existiu água? Talvez possa sucumbir aqui nas mais intrincadas investigações, se não bater em retirada tão rapidamente quanto possível."


Robert Walser, Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos, trad. e seleç. Ricardo Gil Soeiro, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, pp. 30-31. 

Saturday, April 13, 2024

ILUDAMO-NOS

 




"Desenganos do passado,
Não servireis ao porvir?
Sempre a perder ilusões,
Sempre ilusões a sentir!

Não mais, não mais; nesta vida
Ainda esperar é loucura.
Sofrer: eis o destino!
Sonhar: eis toda a ventura!

Soframos, pois... Não, sonhemos,
Criando mundos ideais,
E com mentidos prazeres,
Curemos penas reais.

Ilusões, sede bem-vindas,
Povoai-me o pensamento:
Convosco, sim, a ventura
Se goza por um momento."


Júlio Dinis, Poesias, Lisboa: Círculo de Leitores, 1992, p. 106.

Friday, April 12, 2024

BULÍCIO

 


"Notável: o tempo passava por cima de todos os bons princípios como por cima de todas as falhas que não se consegue domar. Havia nesta passagem do tempo uma beleza que fazia esquecer e perdoar. O tempo passava pelo mendigo como pelo Presidente da República, pela pecadora e pela mulher casta. Tornava as coisas pequenas e insignificantes, porque só o tempo que passa é grande e sublime. O que eram todo o bulício da vida, toda a agitação quando comparados com o tempo altaneiro, que não quer saber se um homem é um homem ou um basbaque, que é indiferente a quem busca a justiça e a bondade?"


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 199. 

Thursday, April 11, 2024

ENTRADA

 




"- Então o que tem Badajoz melhor do que Elvas? acudiu Jaime sorrindo.
- Ora essa, tornou o espanhol, em Badajoz ninguém entra sem que os de dentro queiram. São canhões por todas as bandas. Fortes para aqui, muralhas para acolá. Ah! senhor, ali não entram, ni los pajarillos del cielo... ni Dios!
O bom saltimbanco fora enumerando com tal entusiasmo as maravilhas da sua terra natal, que estava vermelho como um tomate e chegara enfim a soltar a impiedade acima referida.
- Nem Deus! acudiu Jaime olhando para ele, pasmado da espanholada.
O saltimbanco entendeu que fora efectivamente muito adiante e julgou que devia transigir.
Tirou o barrete e acrescentou, com modo maus de condescendência do que de convicção:
- Deus, sim! Deus pode ser que entre... pero con alguna dificultad."


Manuel Pinheiro Chagas, Os Guerrilheiros da Morte, Lisboa: Esfera do Caos Editores, 2006, p. 125.

Wednesday, April 10, 2024

ANIVERSÁRIO

 



"A manhã move a pedra sem raiz
O seu repouso de árvore em flor.
Qualquer astro é menos que o repouso
De uma pedra em flor."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 23. 

Tuesday, April 9, 2024

ÚLTIMA EXORTAÇÃO AO MEU ANJO (para a memória de Eugénio Lisboa)

 




"Um dia, quando a tarde, arrefecendo,
Cinzenta se fizer, e eu for, também, anoitecendo,
E as aves, já perdendo o gosto de cantar,
Se calem, quando eu próprio me calar,
Meu Anjo! ao meu gelado desespero
Baixa, mais uma vez,
Teus olhos inclementes!
Clemências não nas quero!
Não quero nada que por dó me dês.
Não quero emolientes.
Quero, ao morrer, ouvir-me dizer: «morro.»
Não me dês nada, pois senão que eu morra
Digno do teu socorro,
Sem que ele me socorra!"


José Régio, Colheita da Tarde, Porto: Brasília Editora, 1984, p. 79.

Monday, April 8, 2024

A ESTRADA

 



"Vamos ter com os que estão longe
e vamos encontrá-los nas manhãs com sol.
Já se desmontam as tendas
nas manhãs aquém estrada, movimentos há
na combinação de trajetos.
Dispersão de caminhos,
confluências que trouxeram retornos, pessoas
que se conheceram um dia.
Olha-se em volta e veem-se as planuras
ao sol; um sol que não queima
e que é agradável; vasto talvez a
mais, na planura onde incide.

Já se desmontam as tendas
nas manhãs aquém estradas, movimentos houve
na combinação de trajetos, na combinação
para que todos se encontrem, um dia."


Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Turquesa, Lisboa: INCM, 2019, p. 428.

Sunday, April 7, 2024

ARGUTO

 



"«Na cidade, falta a devida distância à fé em Deus. A religião tem aqui pouco céu e pouco cheiro a terra. Não sei bem como dizer, e que tenho eu que ver com isso? A religião é, na minha experiência, o amor à vida, um apego íntimo à terra, a alegria do momento, a confiança no belo, a crença nos homens, a ausência de preocupações e o convívio com os amigos, a vontade de meditar e um sentimento de irresponsabilidade em caso de desgraça, é sorrir diante da morte e mostrar coragem em todos os desafios que a vida oferece. Nos últimos tempos, a nossa religião passou a ser um sentimento profundo e humano de decência. Se os homens forem decentes entre si, também o serão aos olhos de Deus. Que mais pode Deus querer? O coração e uma sensibilidade refinada podem em conjunto criar um sentido de decência que agradará mais a Deus do que uma fé fanática e obscurantista. Esta última, aliás, só poderá desconcertar a divindade, que por fim já não quererá ouvir orações tonitruantes nas suas nuvens. Que importância podem ter as orações que tentam impor-se com sobranceria e deselegância, como se Deus fosse duro de ouvido? Não teremos de o imaginar, se é que podemos imaginá-lo, com o ouvido argutíssimo? Será que os sermões e a música de órgão lhe agradam, a ele, o indizível? Pois bem, ele sorrirá diante dos nossos esforços sempre tão cegos e terá a esperança de que um dia nos ocorra dar-lhe um pouco de sossego.»"


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 171. 

Saturday, April 6, 2024

FLUTUANTE

 


"Numa manhã de sair à rua, como esta, como são magníficos os olhos das mulheres que fitam a distância. Os olhos que nos ignoram são ainda mais bonitos do que aqueles que nos observam. É como se perdessem com isso. Quando caminhamos com pressa, também pensamos e sentimos com pressa. Mas não olhes para o céu! Não, é melhor sentir que lá em cima, sobre a cabeça e sobre as casas, paira uma coisa bonita e larga, flutuante, alada, arrebatadora. Trazemos connosco qualquer coisa que tem de ser conferida e entregue, para que possamos apresentar-nos como pessoa de confiança, e neste momento é para mim um prazer apresentar-me  como pessoa de confiança. A natureza? Por ora, pode manter-se escondida. Sim, tenho a impressão de que ela se esconde algures por ali, atrás das longas fileiras de casas."


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 128. 

Friday, April 5, 2024

PLANURA

 




"Numa planura em que terminava a colina, estava o cemitério da paróquia, um cemitério de aldeia; não to descrevo. Imagina-lo sem isso, não é verdade?
Continuava-se com o cemitério um prado extenso, todo orlado de álamos gigantes e revestido de relva. Era no meio dele que se elevava a velha igreja paroquial, cujo estado de ruína, devido à sua remota antiguidade, a fizera, de há muito, abandonar de pároco e paroquianos. Em mais completa ruína se achava ainda a casa do abade, que, apesar disso, ali vivera sempre e atrás de cujo féretro se haviam fechado as portas da residência para nunca mais se abrirem."



Diana de Aveleda/Júlio Dinis, Cartas a Cecília e outra correspondência, Ribeirão: Edições Húmus, 2021, p. 15.

LIBERDADE

 




"Quase sempre saía só, levando apenas um livro comigo.
Só, só, repara bem! Só por meio dos campos, só à sombra dos bosques, só pelas margens arrelvadas dos ribeiros! Que vida! Que desafogo! Que liberdade de respirar e, o que é mais ainda, de cismar!"


Diana de Aveleda/Júlio Dinis, Cartas a Cecília e outra correspondência, Ribeirão: Edições Húmus, 2021, p. 8.

Thursday, April 4, 2024

POÉTICO E NATURAL


 

"Podia-se dizer e pensar o que quisesse, tudo o que fosse dito ou pensado continuava por dizer e por pensar! Tudo era leve e pesado, extático e doloroso, poético e natural. Compreendia-se então os poetas, não, na verdade, não se compreendia, porque enquanto se caminhava, a preguiça era demasiada para imaginar o que compreendiam os poetas. Não era preciso compreender coisa alguma, nada se compreendia e, por outro lado, tudo se compreendia de moto próprio, porque tudo se dissolvia na tentativa de escutar um ruído ou na contemplação da distância ou na lembrança de que agora já era mesmo tempo de ir para casa e de cumprir um qualquer dever, por mais insignificante, porque também na Primavera os deveres esperam ser cumpridos."


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 105. 

Wednesday, April 3, 2024

EM BANDO

 




"O papel não tinha consumo normal e era coisa fina, ténue, melindrosa e pela qual havia tanto respeito e veneração que, por mais sujo, sempre era papel e digno de cobrir pela Páscoa uma parede defumada, de debruar o buraco da copeira ou a tosca prateleira da cozinha onde se guardava sagradamente o pão, mais pelo que representava de sangue dos trabalhadores e pela mística de ser o corpo de Jesus Cristo do que para o preservar da porcaria que, a bem dizer, era indiferente.
Na Páscoa, festa da limpeza, chegado o domingo de Ramos, às portas da Semana Santa, toda a mulher se preparava para esfregar o sobrado - quem o tinha - os tarecos na rua, água para cima com ou sem sabão, às vezes apenas com um punhado de cinza para arrancar as nódoas de gordura e principalmente o esterco que um ano inteiro deixou acumular. Lavavam-se as caras, por vezes havia até quem tomasse banho, se o calendário atirava com a festa lá mais para diante e o tempo não vinha frio, que «em Abril queima a velha o carro e o carril», irregular como é a Primavera naquelas paragens. Então, tudo mais ou menos lavado, buscavam um jornal, mesmo imundo. Aí iam as mulheres, em bando, aos gravatinhas - que elas bem sabiam quem os recebia e quem os não recebia - pedir um jornalzinho para pôr na prateleira da cozinha ou para tapar o buraco da parede no dia de o padre tirar o folar."


Luís de Carvalho e Oliveira, Santofâmia, Lisboa: searanova, 1962, p. 179.

Tuesday, April 2, 2024

REZAR

 





"«Porque reza antes de comer?», perguntou Simon sem mais.
«Rezo porque preciso de rezar», respondeu o velho.
«Nesse caso, fico contente por tê-lo visto a rezar. Tinha apenas interesse em saber que sentimento o poderia levar a rezar.»
«São muitos os sentimentos que temos quando rezamos, meu rapaz! Você, por exemplo, certamente não reza. A juventude de hoje em dia já não tem tempo, nem vontade de rezar. Compreendo. Quando eu rezo, limito-me a continuar um hábito, porque já me acostumei a rezar e porque me consola.»
«O senhor foi sempre pobre?»
«Sempre.»"


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 45.

Monday, April 1, 2024

ELEVAR

 


"O que é a poesia? O transfundir o ideal no real - o aproximar o céu da terra, e elevar esta até o céu."



Alexandre Herculano, Cenas de um Ano da Minha Vida / Apontamentos de Viagem, Lisboa: Livraria Bertrand, 1973, p. 102. 

SONHOS

 


"Klara trazia um vestido branco como a neve, as mangas largas pendiam pesadamente dos braços bonitos e das mãos. Tinha tirado o chapéu e soltado o cabelo com um gesto bonito e espontâneo da mão. A boca dela sorria para a boca do homem mais acima. Ela não sabia o que dizer e também não queria dizer nada. «Como é bonita a água, parece um céu», disse ela. A sua fronte era serena como o lago, como as margens e o céu sem nuvens que a rodeavam. O azul do céu era riscado por linhas brancas reluzentes e perfumadas. O branco turvava um pouco o azul, refinava-o, tornava-o mais nostálgico e oscilante e suave. O sol brilhava em parte velado, como o sol que brilha nos sonhos."


Robert Walser, Os Irmãos Tanner, trad. Isabel Castro Silva, Lisboa: Relógio D'Água, 2009, p. 41. 

Sunday, March 31, 2024

RESSUSCITOU

 



"Verdade, amor, razão, merecimento,
Qualquer alma farão segura e forte;
Porém, fortuna, caso, tempo e sorte,
Têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento
E não sabe a que causa se reporte:
Mas sabe que o que é mais que vida e morte,
Não se alcança de humano entendimento.

Doctos varões darão razões subidas,
Mas são experiências mais provadas:
E por isso é melhor ter muito visto.

Coisas há que passam sem ser cridas:
E coisas cridas há sem ser passadas.
Mas o melhor de tudo é crer em Cristo."



Luís de Camões, Lírica, Lisboa: Editores Reunidos/RBA Editores, 1996, pp. 66-67.

Saturday, March 30, 2024

OS SEGUIDORES

 


“Jesus pensava que o Reino de Deus estava prestes a chegar e os seus discípulos aceitaram a sua mensagem. Como acabei de sugerir, é possível que ele tenha morrido desiludido. Os seus discípulos, pensando, com razão, que seriam os próximos, esconderam-se. Algumas das seguidoras – que estavam seguras e, possivelmente, eram mais corajosas, assistiram à sua morte e viram como José de Arimateia sepultou o seu corpo. Suponho que, para além de terem medo que Caifás e Pilatos se virassem contra eles a seguir, os seguidores de Jesus ficaram todos desapontados. O Reino de Deus que estava prestes a chegar tinha soado tão bem! Os últimos seriam os primeiros, os mansos herdariam a terra. Estas expectativas não se cumpriram, pelo menos, não de uma maneira óbvia. O que aconteceu foi uma surpresa.”


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 343.

Friday, March 29, 2024

PASSIO



“Por que razão ordenou Pilatos a execução de Jesus? Porque o sumo sacerdote lha recomendou e porque lhe forneceu uma acusação forte: Jesus pensava que era o rei dos judeus. Pilatos percebeu que Jesus era um potencial rei sem exército e, por isso, não fez nenhum esforço por perseguir e executar os seguidores deste. É provável que o tenha considerado um fanático religioso, cujo fanatismo se tinha tornado tão extremo que se tinha transformado numa ameaça à Lei e à ordem pública.”


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 340.

Thursday, March 28, 2024

O REINO

 



“É possível que, quando Jesus bebeu o seu último cálice de vinho e previu que voltaria a bebê-lo no Reino de Deus, pensasse que o Reino de Deus viria imediatamente. Depois de estar na cruz durante algumas horas, desesperou e exclamou que tinha sido abandonado. Esta especulação constitui apenas uma explicação possível. Não sabemos o que ele estava a pensar quando estava na cruz, em agonia. Morreu, depois de um período relativamente curto de sofrimento e alguns dos seus seguidores e simpatizantes sepultaram-no apressadamente.”


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 341.

Wednesday, March 27, 2024

AD CENAM AGNI PROVIDI

 



"Com vestes brancas de neve
E o Mar Vermelho passado,
Cantemos Cristo Senhor,
O Cordeiro imaculado.

Do seu corpo sacrossanto,
No altar da cruz imolado,
O róseo sangue bebendo,
Viveremos sem pecado.

E protegidos seremos
Do anjo devastador;
Arrebatados do duro
Faraónico terror."


Os Hinos de Santo Hilário de Poitiers, trad. Albino de Almeida Matos, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001, 55.

Tuesday, March 26, 2024

NÃO SABER

 


"Gostava de poder explicar, mas não é fácil. O grande espinho é não sabermos, nestes casos, o que Deus pensa de nós e dos outros. E no fundo são questões em que Deus não toma partido, tenho a certeza. Mas terei?"


Esther de Lemos, "O Genuflexório", in Terra de Ninguém, 2.ª ed., Lisboa: Grifo, 1999, p. 77. 

LIBERTAR

 


"Jesus Cristo não fez outra coisa senão mostrar aos homens que eles se amavam a si mesmos, que eram escravos, cegos, doentes, desgraçados e pecadores; que era preciso que ele os libertasse, esclarecesse, beatificasse e curasse; que isto se faria odiando-se a si mesmos, e seguindo-o na miséria e na morte na cruz."


Pascal, Pensamentos, trad. Salette Tavares, Lisboa: Círculo do Humanismo Cristão/Livraria Morais Editora, 1959, 689, p. 280. 

Sunday, March 24, 2024

REI

 


"O  terceiro motivo pelo qual o estudo dos títulos não nos diz nada sobre o que Jesus pensava sobre si próprio está relacionado com o facto de dispormos de informações melhores. Jesus pensava que os doze discípulos representavam as tribos de Israel, mas também que iriam julgá-las. Jesus estava claramente acima dos discípulos; uma pessoa que está acima dos juízes de Israel está, de facto, numa posição muito elevada. Sabemos igualmente que ele considerava a sua missão como sendo algo de absoluta importância e que estava convencido de que a forma como as pessoas respondiam à sua mensagem era mais importante do que outras obrigações importantes. Ele pensava que Deus estava prestes a trazer o Seu Reino e que ele, Jesus, era o último enviado por Deus. Por isso, pensava que era, de certa maneira, «rei». Entrou em Jerusalém montado num burro, evocando uma profecia sobre o rei montado num burro, e foi executado por ter reivindicado ser «rei dos judeus»."


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, pp. 309-310. 

RAMOS

 



"Uma árvore invisível
cria suas raízes aqui.
Com ela o nomadismo
recolhe seus confins
ao abrigo da poeira
revolvida dos caminhos.
A sombra que expande
é um círculo que fecunda
a mente de cada dia.
Tudo o que foi a alimenta."


Flor Campino, Reflexão dos Dias, Porto: Afrontamento, 2022, p. 18.

Saturday, March 23, 2024

NICHO



" - Sabes, menino- dizia ela um dia -, a morte a bem dizer não existe...
- Não existe, tia?
- Bem.. - a tia Stella pôs a cabeça de lado, com aquele seu jeito meio intrigado, meio indeciso, onde havia um grão de inocência e outro de ironia. - Como é que eu te hei-de dizer... Nós falamos da morte, vemos a morte das pessoas, claro. Mas nunca a experimentámos, sempre estamos vivos quando pensamos que havemos de morrer! E não sabemos como é... Por mais que os Santos olhem para as caveiras... é sempre para as caveiras dos outros!"


Esther de Lemos, "O nicho das almas", in Terra de Ninguém, 2.ª ed., Lisboa: Grifo, 1999, p. 133. 

JANELAS

 



"As janelas que se partem
não têm vidros. Atiro-lhes pedras:
e o ruído de vidros que se partem
vem do gesto que faço, e não
dos vidros que se partem
nas janelas sem vidros. Mas
se não atirar a pedra, se ficar
com a mão atrás das costas
e a pedra fechada na mão,
a janela começa a bater
como se estivesse vento,
e obriga-me a fazer o gesto
de atirar a pedra
para que os vidros se partam
na janela sem vidros."


Nuno Júdice, Meditação sobre ruínas, 3ª ed., Lisboa: Quetzal Editores, 1999, p. 103.

Thursday, March 21, 2024

DIA DA ÁRVORE

 



"O paraíso terrestre é uma flor verde.
As árvores abrem-se ao meio.
O que é sucessivo perde-se.
Se o tempo modifica os seres e os objectos
eu sinto a diferença e gasto-me.
O sol é um erro de gramática, a luz da madrugada
uma folha branca à transparência da lâmpada.
Soam então os barulhos. Soam
de dentro das janelas,
de dentro das caixas fechadas há mais tempo,
de dentro das chávenas meias de café.
É tarde e és tu,
acima de tudo,
entre a manhã e as árvores,
à luz dos olhos,
à luz só do límpido olhar."


Nuno Júdice, "O mecanismo romântico da fragmentação", in Obra Poética (1972-1985), Lisboa: Quetzal, 1991, p. 168.

Tuesday, March 19, 2024

JOSEPH

 




"Joseph


Tomai, Senhora, conselho
Pois que Deos nos quis ouvir,
vedes hi um manto velho
com que podereis cobrir
este verdadeiro espelho.
Embulhai-o aqui, senhora,
porque esta noute é mui fria
e quando vier o dia
buscaremos lá por fora
outra melhor companhia."



Baltasar Dias, Auto do Nascimento de Nosso Señor Jesu Christo, in Autos, Romances e Trovas, ed. Alberto Figueira Gomes, Lisboa: IN-CM, 1985, pp. 76-77.

Sunday, March 17, 2024

AO LUME APAGADO (para a memória de Nuno Júdice)

 



"Para me ouvir, precisei que a linguagem pusesse em orde
o secreto mundo do sacrifício. Não são as virtudes «abstractas»
da matéria verbal que libertam o poema do seu peso solar;
e a recordação da loucura não deixa de atormentar
o cérebro que pensa, nem quando as rodas do tempo humilham
a luminosa precisão do cântico. Agora, a voz visível
do espírito oval traça os contornos da sacrílega escala.
A evidência do corpo subtrai-se à inesperada
aparição, e as sombras descem sobre a figura surpreendida
na boca. Chamei-me do rebordo vazio do verso, cujos ombros
de argila o meu tronco vergava, e voltei-me na total negação
sobre mim próprio, para dentro da viscosa cavidade."


Nuno Júdice, "As inumeráveis águas", in Obra Poética (1972-1985), Lisboa: Quetzal, 1991, p. 114.

PASSOS

 



"Que lugar acharei no pensamento
Tão áspero, medonho, triste, escuro,
Donde, meu Redentor, estê seguro
De mais vos ofender um só momento?

Não digo pelo meu comportamento,
Que brando me faria outro mais duro;
Mas por não ser ingrato a amor tão puro,
Que morreu por me dar merecimento.

Como vos servirei, pois vos não amo?
Como vos amarei, pois vos ofendo?
E sempre cada vez mais gravemente.

Nestes frios suspiros que derramo
Sem servir, sem amar, Senhor, entendo
Que não há poder ser, viver contente."



Frei Agostinho da Cruz, Poesia Selecta, ed. José Cândido de Oliveira Martins, Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2021, p. 49.

HODIERNO

 


"Existe, em frente às termas de Jakobsbad, um edifício barroco que parece um mosteiro. Trata-se, provavelmente, de um lar de idosos. Eu: «Vamos ver o interior?» Robert: «Tudo isso é mais bonito de fora. Não se deve querer desvendar todos os segredos. Pensei assim a vida toda. Que belo é haver na nossa existência tantas coisas alheias e insólitas, como que escondidas por detrás de um muro coberto de trepadeiras! Isso confere-lhe um encanto indizível, que se perde cada vez mais. Hoje em dia, tudo é cobiçado e possuído com brutalidade."


Carl Serlig, Caminhadas com Robert Walser, trad. Bernardo Ferro, BCF Editores, 2019, p. 45. 

Friday, March 15, 2024

IDOS

 


"Eu era um animal surdo e cego!... Como pude com um tal cinismo, descoroçoador, blasfemar da infinita beleza da Forma, que vai do homem ao animal, do animal à planta, da planta à montanha, da montanha à nuvem e da nuvem à luz, que nos seus reflexos contém todo o esplendor da vida."


Octave Mirbeau, O Jardim dos Suplícios, trad. Terêncio Figueiroa, Lisboa: Arcádia, 1972, p. 71. 

Thursday, March 14, 2024

SEGUIDOR


 

"Sendo assim, é altamente improvável que os Evangelhos ou os primeiros cristãos tenham inventado que Jesus iniciou a sua vida pública como seguidor de João. Estando eles interessados em colocar Jesus acima do Baptista, não teriam inventado a história segundo a qual Jesus tinha sido seguidor deste. Portanto, podemos concluir que Jesus foi de facto baptizado por João. Isto significa, por seu turno, que Jesus concordava com a mensagem de João: era tempo de fazer penitência, face à ira e à redenção iminentes."


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 128. 

Wednesday, March 13, 2024

NOVALIS NADA

 



"Deixemos o misterioso de lado
e contentemo-nos com o mundano,
Ao infinito retiro o in
e rapidamente ficamos diminuídos
à nossa quotidiana e finda monotonia.

Novalis quando estiveres perto
da imensidão da alta montanha chama-me
e rapidamente atirar-me-ei ao abismo
e contigo toda a nostalgia da noite!
Que culpa tenho eu das tuas paranoias depressivas
e do teu amor pelo infinito?
Deixemos ao valor do Nada
a tua impertinente presença.

E a poesia seria muito mais Humana."


Vítor Teves, Amarna - Odes Altermodernas, Lisboa: Poesia Impossível, 2023, p. 26.

Tuesday, March 12, 2024

REI

 


"Numa manhã primaveril, por volta do ano 30 da era cristã, as autoridades romanas executaram três homens na Judeia. Dois eram salteadores - homens que tinham sido ladrões ou bandidos, cujo único interesse era o seu próprio  proveito, mas que também podiam ter sido insurrectos cujo banditismo tinha um objectivo político. O terceiro foi executado como um outro tipo de criminoso político. Não tinha roubado, pilhado, assassinado, nem sequer acumulado armas. Foi condenado, no entanto, com base na acusação de se ter afirmado que era «rei dos judeus» - um título político."


E. P. Sanders, A Verdadeira História de Jesus, trad. Teresa Martinho Toldy e Marian Toldy, Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 15. 

Sunday, March 10, 2024

ANIVERSÁRIO

 



"Com nada te espantes: talvez essa atitude, ó Numício,
seja a única que possa fazer e manter alguém feliz.
Este Sol e as estrelas e as estações do ano que passam
na altura certa: há homens que os observam sem estarem
imbuídos de medo. O que pensas dos dons da terra
ou do mar que torna ricos os longínquos Árabes e Indos?"


Horácio, Epístolas, 1.6, 1-6, in Poesia Completa, trad. Frederico Lourenço, Lisboa: Quetzal, 2023, p. 469.

OS TEMPOS

 




"A virtude consiste em fugir do vício; e a sabedoria primeira é
livrar-se da estupidez. Vês - em relação às coisas que pensas
serem os maiores males: a fortuna exígua e a desonrosa derrota eleitoral -
quando as evitas com esforço de espírito e com risco de vida."



Horácio, Epístolas, 1.1, 41-44, in Poesia Completa, trad. Frederico Lourenço, Lisboa: Quetzal, 2023, p. 453.

Saturday, March 9, 2024

CHUVISCO

 


"Celebremos mais uma vez o sacramento, a três: tu estás ajoelhado, eu de pé por detrás de ti, com a pele seca. O suor alarga os poros. O Sr. Padre coloca a hóstia sobre a tua língua carregada. No momento anterior, todos três podíamos ser englobados no mesmo número, mas eis que, movida por um mecanismo, a tua língua desaparece na boca. Os teus lábios unem-se. A tua deglutição propaga-se, e enquanto o objecto de ferro vibra num eco, eu sei que Mahlke, o Grande, sairá fortificado da capela de Santa Maria; e isso fará secar o suor; se um instante mais tarde o rosto lhe luzia, húmido, era apenas por causa da chuva. Fora, diante da capela, chuviscava."


Günter Grass, O Gato e o Rato, trad. Carmen Gonzalez, Lisboa: Círculo de Leitores, s.d., p. 136. 

Thursday, March 7, 2024

MORTAL

 



"E se trevas eu padeço
em minha vida mortal,
não é tão grande o meu mal.
porque, se de luz careço,
tenho a vida celestial;
porque o amor dá tal vida
quando mais cego vai sendo,
que tem a alma rendida,
sem luz e às escuras vivendo."


S. João da Cruz, "Glosa", in Poesias Completas, trad. José Bento, 3.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2024, p. 63.

Tuesday, March 5, 2024

ARTEFACTO

 


"O universo considerado como um raio. Tu és um artefacto do espaço. Nós somos um artefacto do tempo."


Velimir Khlébnikov, Histórias, Equações, Relâmpagos, trad. Sara Veiga, Porto: Editora Exclamação, 2022, p. 64. 

Monday, March 4, 2024

RESPLENDORES

 



"   Oh lâmpadas de fogo,
     em cujos resplendores
as profundas cavernas do sentido,
     escuro e cego, logo
     com estranhos primores
calor e luz dão junto ao seu querido!"



S. João da Cruz, "Chama de amor viva", in Poesias Completas, trad. José Bento, 3.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2024, p. 45.

Sunday, March 3, 2024

RECORDAR

 



"Com esta verdade me calo, feliz por ter visto o lobo desnudo passar, segundos depois da mulher desnuda, que me causou igualmente alegria. Desse conluio nasceu a geração sem-nome. Uma temível geração. Não só capaz de metabolismo, mas igualmente de metamorfose. O que não podia deixar de ser assinalado."


Maria Gabriela Llansol, Parasceve, Lisboa: Relógio D'Água, 2001, p. 56.

REGRESSOS

 




"O céu é azul é azul.
E com isto está tudo dito
sobre o céu azul.

Pelo contrário estes enigmas voadores. -
embora com solução sempre diferente,
todos o sabem decifrar.

Inatingíveis lá nas alturas,
nebulosos. E como é suave
a sua morte! Tão indolor

aqui é raro. As nuvens
não têm medo, como se soubessem
que voltam sempre ao mundo."


Hans Magnus Enzensberger, 66 poemas, trad. Alberto Pimenta, s. l.: Edições do Saguão, 2019, p. 173; 175.

Saturday, March 2, 2024

NOBRE CAUSA

 


"Santa fora a nobre causa da emancipação do povo, se a cruz se hasteasse sobre o pendão da liberdade. Quando irmãos nos repelem, quando ante nós caminha o espanto e as públicas imprecações sussurravam em nossos ouvidos, fora-nos ao menos consolação o esperar em Deus. Sem aliados no mundo, teríamos a Providência no céu, e os séculos de liberdade e religião pura, que hão-de vir após esta era de monstruosa servidão e licença, de incredulidade e de superstições, abençoariam duplicadamente a nossa memória."

 

Alexandre Herculano, Cenas de um Ano da Minha Vida / Apontamentos de Viagem, Lisboa: Livraria Bertrand, 1973, p. 49. 

Friday, March 1, 2024

OS CIMOS

 


"Não assim os países das montanhas: aí tudo é vivo, tudo fala, tudo ri ou ameaça. Aí os cimos das serras se prolongam ora nus e brancos, como uma ossada esquecida em campo de batalha, ora negros como as bordas de um vulcão, ora cobertos de pinhais cerrados, que faz gemer o bafo do vento, e que na sua cor triste semelham a uma viúva assentada sobre pedra de sepulcro: lá de qualquer modo que serranias se coroem, contrastam na sua gravidade selvagem com a macia verdura dos vales, cultivados pela mão do homem: lá a luz do dia, quebrada pelos rochedos, varia de estação em estação, diremos de hora em hora, o aspecto da paisagem; e a existência sente-se passar a cada instante, e não se escoa como um rio adormecido."


Alexandre Herculano, Cenas de um Ano da Minha Vida / Apontamentos de Viagem, Lisboa: Livraria Bertrand, 1973, p. 114. 

Thursday, February 29, 2024

REAL

 


"Da mesma forma, a magia contida numa palavra continua a ser magia, mesmo que não seja compreendida. A palavra nunca perde o seu poder. Os poemas podem ou não ser compreensíveis, mas têm de ser admiráveis, têm de ser reais."


Velimir Khlébnikov, Histórias, Equações, Relâmpagos, trad. Sara Veiga, Porto: Editora Exclamação, 2022, p. 67. 

Tuesday, February 27, 2024

ANIVERSÁRIO

 



"Deixa-me olhar-te pássaro real
A saltitar nesta tarde esquecida
Como uma clara afirmação de vida
Mesmo porque esse teu corpo vale.

Que alguma coisa morre em cada qual
Leio-o nessa cabeça ao alto erguida
Mas tens a alegria extrovertida
De não sentir em ti o nosso mal.

Somos contemporâneos meu amigo
Por isso posso conviver contigo
Compartilhar o orgulho de estar vivo.

Eu penso e tu não pensas é que é certo:
Tu a saltar e eu aqui tão perto
A pensar que da morte não me privo."




Ruy Belo, “Homem de Palavra[s]”, in Todos os Poemas, 4.ª ed. , Lisboa: Assírio & Alvim, 2014, p. 311.