"Glória ao cão de face humana que incandesce a abocadar os seus
próprios ossos e veias"
José Emílio-Nelson, "Distichen" in Ameaçando Vivendo - Obra Poética II, Porto: Edições Afrontamento, p. 78.
"A noite descia. As estrelas começaram a acender-se no céu, e em baixo, na pequena aldeia, as luzes acenderam-se também, fazendo brilhar os olhos dos homens. Nessa noite todos conversavam - os homens sentiam que Deus, como um leão bondoso, tinha entrado na aldeia."
"- Agora, a noite vai chegar, com a sombra, filha de Deus, e as suas caravanas de estrelas... - disse para consigo o filho de Maria. E, fitando o céu, a sua cabeça ficou repleta de estrelas."
"- Aqui - disse -, encontrarás pão e água; o amor só mais longe, em Magdala. Pegou num pequeno pão, que guardava no tabuleiro do forno, junto com outros. - Toma, este é o pão que guardamos de cada fornada. Chamamos-lhe o pão da cigarra e é para os que passam. Não é meu, é teu. Corta-o e come."
"Apertou com força o lenço, aferrolhou a porta e também ela tomou o caminho da montanha, para ver a crucificação, para passar o tempo."
"Estava em pé, tinha uma rosa vermelha na mão e olhava as raparigas da aldeia, que dançavam sob um grande choupo de folhagem nova. E enquanto olhava, enquanto pesava os pós e os contras, porque as queria todas, porque o seu coração não podia escolher, ouviu atrás de si um riso sonoro, como água fresca saindo das entranhas da terra. Voltou-se e viu a dirigir-se a ele, com todos os seus ornamentos, anéis de bronze nos tornozelos, braceletes, brincos nas orelhas, sandálias encarnadas e os cabelos soltos, como se fora uma fragata ao vento, a filha única do rabino, do irmão de seu pai, Madalena. O espírito do jovem perturbou-se. «É aquela que eu quero», gritou. «É aquela que eu quero», e estendeu a mão para lhe oferecer a rosa. Mas no momento em que estendeu a mão, duas garras pousaram sobre a sua cabeça, duas asas frenéticas bateram por cima dele e sentiu que lhe apertavam dolorosamente as fontes. Deu um grito estridente e tombou de rosto contra a terra, escumando. Então, a sua pobre mãe cobriu-lhe o rosto com o lenço, ergueu-o nos braços e, esmagada pela vergonha, partiu e levou-o com ela."
"Não há, pois, estofo mais resistente nem mais substancial. Pois a nossa duração não é um instante que substitui outro instante: nunca haveria então senão presente, não haveria prolongamento do passado no presente, nem evolução, nem duração concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que desgasta o futuro e que incha ao avançar. Ao mesmo tempo que o passado cresce sem cessar, também se conserva indefinidamente."
"A correr pela margem, fui-lhe gritando que não tivesse medo e se deixasse ir, que em frente da cidade, ao pé dos navios, chamasse para lhe acudirem. Flutuava como uma folha sobre a corrente. Dali à Casa Amarela era muito longe e não pude pedir socorro. Já estava a anoitecer. Talvez ao passar em frente da cidade a vissem e a salvassem. Ou talvez não quisesse voltar. Preferiu fugir de mim e ficar na dúvida do que vir a sofrer uma desilusão?Queria poder aceitar esta ideia romântica. Mas as mulheres nunca preferem a dúvida."
"Naquela noite eu vagueava sem destino. Ah! Vaguear de noite pelas ruas desertas, sem destino, é saborear uns restos do sonho e da inquietação de andar num mundo desconhecido e maravilhoso. É um prazer que pouca gente pode ter. Só as pessoas com imaginação e espírito bem individualizado."
"Percorrera vários quilómetros pelas ruas, e sentia a úlcera varicosa a latejar. Pela segunda vez em três semanas que não aparecia ao fim da tarde no Centro Comunitário: atitude arriscada, pois sem dúvida que o número de presenças no Centro estava cuidadosamente controlado. Em princípio, um membro do Partido não dispunha de tempo livre, e nunca estava sozinho a não ser na cama. Partia-se do princípio de que quando não estivesse a trabalhar, a comer ou a dormir estaria a participar nalgum tipo de divertimento colectivo: era sempre um tanto ou quanto perigoso fazer algo que sugerisse gosto pela solidão, até mesmo passear sozinho. Havia para isso uma palavra em novilíngua: proprivida, que significava individualismo e excentricidade."
"- A Décima Primeira Edição vai ser a edição definitiva - disse. - Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto. A Décima Primeira Edição não há-de conter uma única palavra susceptível de se tornar obsoleta antes do ano 2050."
"A natureza intrínseca das coisas está intimamente ligada às manifestações sensórias, e na sensação que nos dá a coisa observada objectivamente. Um certo aspecto do rosto, uma certa expressão fisionómica revela-nos um certo estado de alma, que não poderíamos conhecer sem aquela impressão."