Saturday, April 26, 2014

OCASIÃO



"Glória ao cão de face humana que incandesce a abocadar os seus
                                      próprios ossos e veias"


José Emílio-Nelson, "Distichen" in Ameaçando Vivendo - Obra Poética II, Porto: Edições Afrontamento, p. 78. 

Friday, April 25, 2014

SALGUEIRO MAIA, 40 ANOS DEPOIS



"Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância 
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com sua ignorância ou vício

Aquele que foi «Fiel à palavra dada à ideia tida»
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse"



Sophia de Mello Breyner Andresen, Musa, 4ª ed., Lisboa: Caminho, 2001, p. 15. 

Thursday, April 24, 2014

SAGRADO



"homem sagrado
como de braços abertos
todos os homens são uma
cruz e na remoção das
almas valesse a forma

uma imagem que iludisse 
a natureza

ou se deus se vendesse, 
quem o poderia comprar"


valter hugo mãe, o resto da minha alegria seguido de a remoção das almas, Porto: Cadernos do Campo Alegre, 2003, p. 56. 

Wednesday, April 23, 2014

DESEJAR



"Notre crime est d'être homme et de vouloir connaître:
Ignorer et servir, c'est la loi de notre être."


Lamartine, Méditations Poétiques, Paris: Le Livre de Poche, 2006, p. 78. 

Tuesday, April 22, 2014

DEBAIXO DO CÉU



"A noite descia. As estrelas começaram a acender-se no céu, e em baixo, na pequena aldeia, as luzes acenderam-se também, fazendo brilhar os olhos dos homens. Nessa noite todos conversavam - os homens sentiam que Deus, como um leão bondoso, tinha entrado na aldeia."

Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 328. 

Thursday, April 17, 2014

O FILHO DE MARIA


"- Agora, a noite vai chegar, com a sombra, filha de Deus, e as suas caravanas de estrelas... - disse para consigo o filho de Maria. E, fitando o céu, a sua cabeça ficou repleta de estrelas."

Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 131. 

Wednesday, April 16, 2014

CHAGAS



" - Sete demónios te possuem, impudica! - gritou, então, o jovem, rubro de vergonha, até à raiz dos cabelos. - O teu pobre pai tem razão. 
Madalena estremeceu, juntou os cabelos com um gesto de cólera, enrolou-os e prendeu-os com uma fita de seda vermelha. Ficou um momento em silêncio e, por fim, os seus lábios voltaram a mover-se.
- Não são sete demónios, filho de Maria, são sete chagas. A mulher é corça ferida, que não tem outra alegria, a infeliz, senão a de lamber as suas próprias feridas..."


Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 94. 

A VIDA



"- Aqui - disse -, encontrarás pão e água; o amor só mais longe, em Magdala. Pegou num pequeno pão, que guardava no tabuleiro do forno, junto com outros. - Toma, este é o pão que guardamos de cada fornada. Chamamos-lhe o pão da cigarra e é para os que passam. Não é meu, é teu. Corta-o e come."


Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 75. 

Saturday, April 12, 2014

PASSOS




"Apertou com força o lenço, aferrolhou a porta e também ela tomou o caminho da montanha, para ver a crucificação, para passar o tempo."

Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 37. 

Friday, April 11, 2014

TENTAÇÃO



"Estava em pé, tinha uma rosa vermelha na mão e olhava as raparigas da aldeia, que dançavam sob um grande choupo de folhagem nova. E enquanto olhava, enquanto pesava os pós e os contras, porque as queria todas, porque o seu coração não podia escolher, ouviu atrás de si um riso sonoro, como água fresca saindo das entranhas da terra. Voltou-se e viu a dirigir-se a ele, com todos os seus ornamentos, anéis de bronze nos tornozelos, braceletes, brincos nas orelhas, sandálias encarnadas e os cabelos soltos, como se fora uma fragata ao vento, a filha única do rabino, do irmão de seu pai, Madalena. O espírito do jovem perturbou-se. «É aquela que eu quero», gritou. «É aquela que eu quero», e estendeu a mão para lhe oferecer a rosa. Mas no momento em que estendeu a mão, duas garras pousaram sobre a sua cabeça, duas asas frenéticas bateram por cima dele e sentiu que lhe apertavam dolorosamente as fontes. Deu um grito estridente e tombou de rosto contra a terra, escumando. Então, a sua pobre mãe cobriu-lhe o rosto com o lenço, ergueu-o nos braços e, esmagada pela vergonha, partiu e levou-o com ela."


Nikos Kazantzakis, A Última Tentação de Cristo, trad. Jorge Feio, Lisboa: Círculo de Leitores, 1988, p. 31. 

Thursday, April 10, 2014

ANIVERSÁRIO




"E os cavalos passam
Sobre o chão de cinza

E no voo das aves
Ateiam suas crinas"




Daniel Faria, "A Casa dos Ceifeiros", in Poesia, edição de Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2012, p. 426. 

Wednesday, April 9, 2014

DURAÇÃO



"Não há, pois, estofo mais resistente nem mais substancial. Pois a nossa duração não é um instante que substitui outro instante: nunca haveria então senão presente, não haveria prolongamento do passado no presente, nem evolução, nem duração concreta. A duração é o progresso contínuo do passado que desgasta o futuro e que incha ao avançar. Ao mesmo tempo que o passado cresce sem cessar, também se conserva indefinidamente."

Henri Bergson, A Evolução Criadora, trad. Pedro Elói Duarte, Lisboa: Edições 70, 2008, p. 367. 

Tuesday, April 8, 2014

NUMEN



"Meu coração tem catedrais imensas. 
Templos de priscas e longínquas datas. 
Onde um nume de amor, em serenatas, 
Canta a aleluia virginal das crenças. 

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas. 

Com os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas, 
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!"


Augusto dos Anjos, in A Poesia no Brasil, org. Sônia Brayner, vol. I, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981, p. 360. 

Monday, April 7, 2014

LUNÁRICO



"A correr pela margem, fui-lhe gritando que não tivesse medo e se deixasse ir, que em frente da cidade, ao pé dos navios, chamasse para lhe acudirem. Flutuava como uma folha sobre a corrente. Dali à Casa Amarela era muito longe e não pude pedir socorro. Já estava a anoitecer. Talvez ao passar em frente da cidade a vissem e a salvassem. Ou talvez não quisesse voltar. Preferiu fugir de mim e ficar na dúvida do que vir a sofrer uma desilusão?Queria poder aceitar esta ideia romântica. Mas as mulheres nunca preferem a dúvida."


Branquinho da Fonseca, Rio Turvo, Lisboa: Editorial Verbo, s.d., p. 53. 

Sunday, April 6, 2014

PLENILÚNIO



"Ouvia lá fora as corujas à caça, que poisavam nas árvores e piavam. Era uma vida intensa na sua plenitude a expandir-se, desde as rãs aos ralos, às águas do rio que por vezes me parecia ouvir também, como se a torrente tivesse crescido e inundado as margens, uma vida latente e realizada em tudo. Só eu ali deitado a negar-me o caminho verdadeiro. Nunca fui para limites nem renúncias. E o rio turvo crescia, crescia sempre, passava sobre o mundo e levava tudo..."


Branquinho da Fonseca, Rio Turvo, Lisboa: Editorial Verbo, s.d., p. 49. 

Saturday, April 5, 2014

LOBO BRANCO




"Era o lagareiro quem dava as novidades.
- E o Inácio, não sei se já saberá?, matou a mulher. 
- O quê?! Mas porquê? 
- Diz que foi o Lobo Branco. 
Um dos pastores comentou em voz baixa:
- Lá isso, foi verdade. 
- Vocês sempre acreditam em cada uma! Essa é das tais patranhas que não cabem na cabeça de ninguém.
- Mas, ó patrão, como é que eu o vi e fiquei variado, que já toda a gente descorçoava de mim, e fiz uma espera ao Tocha, que foi uma sorte a escorva estar molhada?
- Variado és tu de nascença. Qual Lobo Branco?! Pode ser que ande por aí algum, mas é um lobo como os outros. 
- Ah!, patrão! será: mas oxalá que nunca lhe apareça. 
- Oxalá que apareça quando eu vá preparado para lhe tirar a pele, que dá uma boa gola ali para a Gertrudes. 
- Cruzes! Abrenúncio!
E a velha, benzendo-se, fugiu para um canto. O Lobo Branco era o fantasma de toda a serra. Diziam que quem o via ficava possesso do espírito mau. E quando o julgavam desaparecido, lá voltava como um grande cão manso de que os homens fugiam."


Branquinho da Fonseca, "O Lobo Branco", in Caminhos Magnéticos, Lisboa: Portugália Editora, 1967, pp. 83-84. 

Friday, April 4, 2014

VÁGUO



"Naquela noite eu vagueava sem destino. Ah! Vaguear de noite pelas ruas desertas, sem destino, é saborear uns restos do sonho e da inquietação de andar num mundo desconhecido e maravilhoso. É um prazer que pouca gente pode ter. Só as pessoas com imaginação e espírito bem individualizado."

Branquinho da Fonseca, "Um Pobre Homem", Lisboa: Editorial Verbo, s.d., p. 91. 

Thursday, April 3, 2014

PROPRIVIDA


"Percorrera vários quilómetros pelas ruas, e sentia a úlcera varicosa a latejar. Pela segunda vez em três semanas que não aparecia ao fim da tarde no Centro Comunitário: atitude arriscada, pois sem dúvida que o número de presenças no Centro estava cuidadosamente controlado. Em princípio, um membro do Partido não dispunha de tempo livre, e nunca estava sozinho a não ser na cama. Partia-se do princípio de que quando não estivesse a trabalhar, a comer ou a dormir estaria a participar nalgum tipo de divertimento colectivo: era sempre um tanto ou quanto perigoso fazer algo que sugerisse gosto pela solidão, até mesmo passear sozinho. Havia para isso uma palavra em novilíngua: proprivida, que significava individualismo e excentricidade."

George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, trad. Ana Luísa Faria, 3ª ed., Lisboa: Edições Antígona, 1999, p. 88. 

Wednesday, April 2, 2014

OBSOLETO




"- A Décima Primeira Edição vai ser a edição definitiva - disse. - Estamos a dar ao idioma a sua forma final, a forma que há-de ter quando ninguém falar nenhuma outra língua. Quando chegarmos ao fim, pessoas como tu terão que aprendê-la de novo. Julgas com certeza que a nossa principal tarefa é inventar palavras novas. Mas não é nada disso! Estamos é a destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto. A Décima Primeira Edição não há-de conter uma única palavra susceptível de se tornar obsoleta antes do ano 2050."

George Orwell, Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, trad. Ana Luísa Faria, Lisboa: Antígona, 1999, pp. 56-57. 

Tuesday, April 1, 2014

SENSÓRIO



"A natureza intrínseca das coisas está intimamente ligada às manifestações sensórias, e na sensação que nos dá a coisa observada objectivamente. Um certo aspecto do rosto, uma certa expressão fisionómica revela-nos um certo estado de alma, que não poderíamos conhecer sem aquela impressão."

Júlio Lourenço Pinto, Estética Naturalista, Lisboa: IN-CM, 1996, p. 35.