"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."
Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.
"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro"
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74.
"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64.
"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."
Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65.
"O CEGO - Não vejo, mas ouço! Ouço a âncora arrastar o lodo do fundo, como quando se arranca o anzol do peixe e lhe sai também pelas goelas o coração! - O meu filho, o meu único filho vai partir e cruzar o mar infinito em direcção a terras desconhecidas. Só posso acompanhá-lo em pensamento. - Estou a ouvir a corrente a ranger - e - há qualquer coisa a bater ao vento como roupa a secar na corda... lenços molhados talvez - e ouço soluços e gemidos como seres humanos a chorar... serão as ondas contra o costado do navio ou as raparigas na praia - é que o mar era salgado, e a criança que tinha o pai embarcado respondeu logo: o mar é salgado porque os marinheiros choram muito. - E porque é que os marinheiros choram muito? - E ela respondeu: porque estão sempre de partida. - E secam sempre os lenços no alto dos mastros! - E eu perguntei, porque é que o ser humano chora quando está triste? - E ela disse: porque os vidros dos olhos têm de se lavar de vez em quando para vermos melhor!-"
August Strindbergh, Um Sonho, trad. Cristina Reis, Luís Miguel Cintra e Melanie Mederlind, Lisboa: ed. Teatro da Cornucópia, 1998, p. 44.
"A vida seria bela, se todos cumpríssemos os nossos deveres para com ela. Se todos soubéssemos viver a vida! Viver, é dar-se à verdade e amar a todos e a tudo. Dar o seu casaco quente à mulher que passa cheia de filhos, de fome e de frio, tendo apenas farrapos para se aquecer.
E os mais miseráveis, ainda as deixam ficar e fogem.
E a vida começa a ser negra e triste como a noite. O que se passa além já não é viver, é andar no mondo aos tropeções. Cai aqui, levanta acolá!"
Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 54.
"Com capelinhas de pedra tosca, com a arte própria do tempo e da classe, estão as estradas nortenhas guarnecidas de longe, a longe, com as «Alminhas» a chamar à vida, aquelas que estão a arder nas labaredas que lhe cobrem a cara e as mãos.As pessoas param. Ficam e rezam; e as «Alminhas», de mãos erguidas, esperam impacientemente a hora do resgate e da purificação."Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 51.
"O tempo estava a mudar; uma neblina fria e triste ia e vinha, como um véu, que vindo das alturas envolve tudo: esfumando os penedos, as árvores, a encosta da serra, escondendo aos nossos olhos, cansados de meditar, naquilo que o mundo murmurava além. Ao longe, as pedras, os penedos e as escadas incertas, mais duvidosas ainda pela luz que ia faltando, no caminho que nos levava a nossa casa. Os cães latiam e era o único ruído que nos dava a certeza da vida, no meio daquele silêncio da morte."Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 16.
"E eu o que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas, Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como é a vontade, É uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada, Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta com Baltasar, para isso viemos aqui, Não posso, jurei que nunca o veria por dentro, Então comigo."José Saramago, Memorial do Convento, 21.ª ed., Lisboa: Caminho, 1992, p. 124.
"Suponho que há escritores loquazes e escritores silenciosos. Falar e escrever são, para mim, exercícios completamente diferentes. Pertenço mais ao género dos parcos que ao dos loquazes, e, cada vez mais, por motivos óbvios. Segui sempre o conselho daquele que antes de falar mordia dez vezes a língua. Se à décima mordidela continuava a pensar a mesma coisa, dizia-a; se hesitava, ficava calado. Passo a duvidar de se vale a pena dizer o que estou a dizer. Tomar a palavra, de certa maneira, é vergonhoso, é como dizer; eu, sim, tenho qualquer coisa para dizer, ouçam-me. Pelo contrário... não estou muito certo de ter alguma coisa interessante para dizer. Na verdade, sinto-me esmagado pelo penso das palavras."
Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 31.
"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.
(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)
No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.
Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."
Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62.
"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras:«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"
Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29.
"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."
Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18.
"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.
"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."
João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177.
"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.