Sunday, May 3, 2026

MATERNIDADE

 


"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.
Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:
- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"


Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.

MULHERES

 



"Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos.
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na Cruz.
- Infâncias que foram
De fadas e flores."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. II, Lisboa: INCM, 1994, p. 25.

Saturday, May 2, 2026

O RETRATO

 


"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177. 

Friday, May 1, 2026

ENTRADA

 



"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.
Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.