Friday, July 31, 2026

VIDA ONÍRICA PROFUNDA

 



" - Os sonhos são algo maravilhoso, não são? - dizia David. - Conseguem ser belos de uma forma especial, ímpar. Nos sonhos, até mesmo as coisas horríveis têm classe, ao contrário das coisas reais, que nos repugnam, como ver os cães a comer.
- Há uma inocência refrescante e pura em certas imagens dos sonhos - disse Monty -, mas não devemos interrogar-nos demasiado acerca delas.
- Quer dizes, como o meu pai?
- Deixa-as apenas surgir, visitar-te, como se fossem pássaros.
- Não acreditas «na vida onírica profunda da qual toda a vida emerge», como refere o meu pai no seu último artigo?
- Não - disse Monty. - Um sonho é uma história que se tem vontade de contar ao pequeno-almoço."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 128.

Thursday, July 30, 2026

NO SILÊNCIO DESTA ÁLEA




"Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore
                [que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou"



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, pp. 56-57.

Wednesday, July 29, 2026

SAGRADO

 




" - O inconsciente é tão grosseiro. Ele ainda anda de joelhos pelo quarto a tocar nas coisas?
- Está rodeado dos deuses que tem de aplacar. Tudo é sagrado. Noutra era tê-lo-iam venerado como um santo.
- Pobre criatura doida.
- O homem primitivo vivia num mundo de divindades menores e assustadoras. Os católicos romanos ainda vivem.
- Eu sei que para ti todas as religiões não passam de uma obsessão!
- Querida, eu não penso nada tão disparatado. A religião é muito importante. Simplesmente, não é o que parece. Das coisas muito importantes, poucas o são."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 30-31.

Tuesday, July 28, 2026

SORRISO ARCAICO

 


"Tornara-se intocável e Harriet, com o seu hábito antigo de tocar, encontrava-se de súbito num dilema, numa angústia. Assaltavam-na anseios fantasmagóricos de uma precisão alarmante. Sentimentos muito idênticos ao suplício de um amor não correspondido faziam-na corar e tremer. Com efeito, assemelhava-se de forma terrível a um estado de paixão. Queria abraçá-lo de novo, cobri-lo de beijos, desenlear com dedos acariciadores aquele cabelo loiro e sujo e agora de um comprimento absurdo. Mas nada era mais impossível. No último ano, como se fosse para a confundir mais, adquirira uma beleza espantosa. Aquilo a que Blaise chamava o «sorriso arcaico» de David obcecava-a como um enigma erótico."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 20. 

Monday, July 27, 2026

PENSAMENTO/PASSAMENTO

 


"Recordava com carinho estas visitas intensas e, no entanto, vagas e quase destituídas de sentido. Era tão importante ter pensamentos tranquilos e afectuosos acerca das pessoas nas alturas de ócio, em especial, talvez, em relação aos mortos que, sendo imateriais, precisam desesperadamente que pensemos neles."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 18. 

Sunday, July 26, 2026

MÃES

 


"Filhos. Trememos que sejam atropelados na rua, espreitamos ansiados a sua respiração ofegante em suas noites febris e nas crianças um qualquer nada faz subir o termómetro e o pavor na alma dos pais, descobrimos com riso o alvorejar do primeiro dente, as graças dos primeiros sorrisos que já nos entendem conhecem, os bracitos estendidos para nós, os gargarejos que são as suas primeiras falas monólogos incoerentes e logo mais depois o soletrar aldrabado das primeiras palavras, as mais importantes para nós e eles: ma-mã, pa-pá, papa papinha, , teté..., as gracinhas amorosamente pacientemente ensinadas por avós tias amas criadas: como vai a tua vidinha? e o puto com a mãozita abanica para dizer assim-assim... Filhos: lemos com assustado alvoroço notícias terríveis macabras nos jornais de crianças raptadas violadas assassinadas e pomos num calafrio o caso em nós neles; olhamos para longe para os anos futuros já rapazes e ficamos dementes de os adivinhar vê-los fardados, mortos ou então heróis assassinados, ou estropiados ou bêbedos ou doidos de crueldades que nem relatam e praticaram, a que assistiram, ou cornudos, que é o costume nas guerras."


Luiz Pacheco, «O caso das criancinhas desaparecidas», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 116. 

Saturday, July 25, 2026

CHAMADO ZEBEDEU

 



"Até ela aquele foi levado, glorioso, eleito
para a recompensa, tendo-a obtido pelo martírio
de Cristo; Tiago, chamado Zebedeu, 
cumprindo devidamente o seu estatuto apostólico, 
arrebata, vencedor, os estigmas da paixão. 

Pois, esmagando, sem dúvida com o auxílio divino, 
as cóleras criminosas dos magos, reprime e castiga
a maldade dos demónios, cheios de inveja.
Por fim, ao insensato é dada uma palavra vivificante
e insigne, e um coração que, arrependido, passa a crer."



«Hino para o Dia de São Tiago» (séc. VIII), vv. 31-40., in Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, vol. 12, Lisboa: FLUL, 2016, p. 48. 

Friday, July 24, 2026

SE JÁ REGRESSEI DAS PALAVRAS NOCTURNAS

 



"onde me queres,
se já regressei das palavras nocturnas?
onde queres que o rosto efémero e frágil caia?

hoje estremeço em museu, fogueira com luto
tristeza com lenço, cotovelo, sangue escuro.
fui certeza em terra, fui inútil,
caçador, sacrifício e peditório:
medronho, maçãs, flores e juncos.

talvez espalme as mãos na terra,
as costas, o umbigo e os pés também.
talvez duas faces escuras,
pintem a casa de verde
com a cor do rosto que se esconde."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 64.

Thursday, July 23, 2026

A ZONA CINZENTA

 


"- Meu caro senhor, ao que parece, és ateu, mas defendes a zona cinzenta onde moram os demónios - repreendeu-o Lukas.
- Procuro lugar para eles, para que tu, meu senhos, possas enxotá-los e exorcizá-los. Eu falo como se tudo isto existisse, como se existisse... A existência de demónios não é tangível. Os demónios são o exército de Proteu, transformam-se sempre e regressam com novos corpos, com novos cenários.
- Eu diria que é antes um nada que tem o poder de assumir diversas formas mais ou menos agoirentas - retorquiu Longin Lukas. - O nada que seduz e enfeitiça, suborna, actua sempre desta maneira estranha, como se estivesse e não estivesse presente num dado momento. É construído a partir das nossas projecções, medos, e alimenta-se de bom grado do nosso pavor."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 275.

Wednesday, July 22, 2026

MADALENA

 




"Estas três mulheres são verdadeiramente três? Ou não fazem senão uma? Para os Gregos, que honram a Madalena desde o século VI, trata-se de três pessoas distintas. Nunca eles imaginaram que Maria Madalena tivesse sido pecadora."


José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, vol. II, 3.ª edição corrigida e aumentada, Braga: Editorial A.O., 1994, p. 453. 

Tuesday, July 21, 2026

GASTAR TEMPO

 


"depois que os anos vieram e todas as coisas com eles vieram (e só talvez isso: anos e anos que vieram sem nós darmos por tanto tempo gasto a gastar tempo horas mornas paz podre escorrendo para trás e sempre as mesmas e sempre o mesmo, a mesma merda, e esta, sabeis? somos nós parados presos num tempo (paz podre) que não era o nosso ou o que nós queríamos que fosse o nosso mas foi o que nos deram (achámos) e ali aqui ficámos por não ter outro por não poder não saber conquistarmos outro."


Luiz Pacheco, «Os Namorados», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 37. 

Monday, July 20, 2026

PUREZA ANTIGA

 


"Onde estarão agora os que foram meninos comigo, meus companheiros de bibe-e-calção? gostava de ir lá vê-los à nossa infância, de irmos todos, reconhecermos todos como nossa ainda a pureza antiga, os projectos que enterrámos, as ilusões, os actos falhados. E, com efeito, o mundo dos adultos está cada vez mais triste, mais crápula, mais ratazana. É uma bicharada que vai a correr pró buraco do coval, comprometida e lassa, sem alegria, sem carácter, sem sentimentos, sem dignidade nenhuma. Não são gente: são baratas medrosas, assustadas sempre, que andam de luto por eles-mesmos e se escondem quando pressentem uma luz, a ousadia dum gesto, a virtude duma palavra. Adultos, cadáveres de jovens. Metem dó, metem nojo, tão velhinhos e tão resignados. Cagarolas. Gostaria de os tornar a ver como eram, na infância."


Luiz Pacheco, «O Teodolito», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 28. 

Sunday, July 19, 2026

EPICUREU

 




" - Irei morrer? - perguntava à vela.
Não respondia logo. A sua chama tremeluzia como que perturbada com a pergunta.
- Imortais são somente as coisas muito pequenas ou muito grandes - respondeu com cautela. - Os átomos são imortais e as galáxias são imortais. Eis o mistério. O alcance da morte é muito específico, é como uma onda de rádio."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 227.

OLHOS ENFRESTADOS

 



"Travessos olhos, que na travessia
Deixais os olhos todos derrubados,
Contra quem só três dedos cavalgados
São na manhã remédio a todo o dia:

Dos milagres, que fez Santa Luzia,
Nenhum sabemos de olhos enfrestados
E mais de olhos que são tão namorados,
Que olham um para o outro à mor porfia:

Ciosos olhos, pois essas meninas
Escondeis no mais alto das capelas,
Não consistais haver delas suspeita:

Torcei-lhe a condição de pequeninas,
Porque nunca se possa dizer delas
Quem torto nasce, tarde se endireita."



«Fénix - I, pág. 161», in Segismundo Spina e Maria Aparecida Santilli, Apresentação da Poesia Barrôca Portuguêsa, Assis: 1967, p. 119.

Friday, July 17, 2026

SISTEMA NERVOSO

 


"Eu tenho cá um sistema nervoso! E para que é que a gente quer o sistema nervoso? Para defendermos as nossas acções, para nos defendermos do que nos ameaça, e olhe que há quem o aproveite para defender as suas acções e até as dos outros, há até quem vá parar à cadeia para defender os interesses que não são os seus. O que é o sistema nervoso? É a nossa maneira de ser."

 

Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven, 2.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1980, p. 24. 

Thursday, July 16, 2026

SOL MADURO

 



"Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que só muito a custo
num corpo alagado de sol maduro, um corpo de laranjeira atulhada
de frutos,
resiste sem mácula ao desfazer repentino do verão
(esse baldio agachado de pressentimentos).
E um corpo neste estado, vulnerável,
a tresandar a raves,
põe-se a contar pelos dedos os brincos desirmanados,
os sapatos cambados, as portas sem batente,
a observar filamentos de lâmpadas incapazes
de entrar em falência.
Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que no desfazer repentino
do verão
(esse espartilho quase vitoriano),
um corpo alagado de sol maduro, domador de labirintos
está ali sentado como quem não quer na esplanada do café,
bate fortemente com os punhos no horizonte
que não é nem deixa de ser assim tão longe,
e a única coisa que sente é que continua espantosamente
vivo. Pleno de eternidade."


Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, p. 100.

Tuesday, July 14, 2026

ESPANTO II

 




"Deram meia-volta e passaram de novo por Frau Weber e Frau Brecht.
- Veja as coisas sob este prisma - acrescentou a meia-voz, quase a sussurrar. - A possibilidade de existir em triplicado espanta-me. Trata-se certamente de um atavismo insondável."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 70.

Monday, July 13, 2026

ESPANTO

 


"Em Görbersdorf não havia cemitério, disso Wojnicz tomou conhecimento para seu grande espanto. Morava ali tanta gente! E morria ali tanta gente! A sua morte, porém, passava algo despercebida, ajustando-se higiénica e diplomaticamente ao ritmo de vida do sanatório como uma dona de casa bem governada que consegue sempre graciosamente desfazer-se de todo o lixo e desperdício."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 66. 

Sunday, July 12, 2026

INEXPLICÁVEL

 


"As palavras de Anapaola, a propósito, creio que estavam mais revestidas de rancor, de ressentimento, que de verdadeiro carinho por Davanzati. Somos muito dados a melindres, nós, os seres humanos (sobretudo muito dados a melindrar-nos com as pessoas de quem gostámos), e atrás de uma frase aparentemente bondosa, há mais dardos e alfinetes que num insulto. Também ela, por muitos pormenores que soubesse da vida dele, não conseguira fazê-lo compreender cabalmente. E, no entanto, seremos nós capazes de compreender alguém completamente, se até connosco próprios nos enredamos? A ciência é capaz de desentranhar quase todos os mistérios que há numa gota de sangue, até a mais remota e curiosa palpitação das mitocôndrias, mas compreende muito pouco o que pensa ou sente um ser humano no fundo do seu coração, onde outrora se supunha estarem alojados os sentimentos mais profundos. Face à emoção que desperta em nós um rosto, uma melodia, uma sequência de palavras, todas as explicações cessam, porque o que se sente é, é assim e é inexplicável."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 205. 

Saturday, July 11, 2026

BENEDICTUS

 



"Está com Deus. A margem
de estar ali o completa.
Uma enseada de felicidade
descobre o nome próximo da festa
que é estarmos vendo como Deus o sabe
por dentro da substância a ele aberta.
Está com Deus. Um regozijo de aves
respira o mundo em expansão. Quem pensa?"



Fernando Echevarría, «Introdução à Filosofia», in Obra Inacabada, Porto: Edições Afrontamento, 2006, p. 213.

Friday, July 10, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA 2

 


"Mas quem decide
assim
do teu destino
aldeia
alcandorada
em ossos
com tuas casas
moles
- mãe de sapos?

Quem passa
nestas ruas
ao luar
remoto mar
de lua
sobre os membros
melhor que o sonho
sonha sonegar.

Quem passa aqui
tem os membros de pedra
sabe de cor
a colecção dos sinos
sabe passar
sem pressa
e sem pensar
acode-lhe sorrir
ao cão do dia
saborear a fruta
e mastigar
dormir dormir
amamentar
sem pranto
um filho que paria.

E quando
os bois começam
no seu choro
babando as ruas
dobando o fio dos chifres
numa impossível teia
quem passa
nesta aldeia
ceia com vagares
e não sabe se sonha
cisma
ou devaneia."


Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 65-67.

Thursday, July 9, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA

 



"Ainda teimaste
em som
sarcofagado
afago
solidon

aldeia circunstrita
a um saloon

funiculada imagem
suicida

pedrinha pobre
em seu castelo
bacoco

abriste
as pregas
às aves más
do tempo

tens sol
acumulado
nas narinas
e doem-te
os dentes
que afinal são d'oiro

velha porcelana
alambicada
onde o sangue
crisalidou
em chá

o mar
esse cansou-se
de apalpar teus
seios
de matrona exausta."



Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 63-64.

Wednesday, July 8, 2026

PROFANO

 


"Ele apercebeu-se da resistência por mim ainda antes de eu lhe responder o que quer que fosse, como, aliás, sucedia sempre.
- Já sei - exclamou resignado: - é a velha história. Não leves a coisa demasiado a sério! Mas sempre quero dizer-te o seguinte: estamos perante um dos pontos fracos bem evidentes nesta nova religião. Refiro-me ao aspecto de este Deus da Antiga e da Nova Aliança ser uma figura soberba, mas não representar aquilo que, efectivamente, seria necessário. Ele é o bem, o louvável, o amoroso, o belo e também o nobre e o sentimental... muito bem! Porém, o mundo é igualmente constituído pelo resto e tudo isto é muito simplesmente imputado ao Demónio; toda esta parcela do mundo, metade do universo, é soterrada e sepucralmente silenciada. Precisamente do mesmo modo que chamam a Deus «o pai de todos os seres vivos», mas se escusam a tudo quanto diga respeito à sexualidade, da qual toda a vida depende e, se bem calhar, consideram-na coisa do demónio e pecaminosa! Não tenho nada contra o facto de se adorar este Deus Jeová, absolutamente nada; mas acho que deveríamos adorar tudo, considerar tudo sagrado, todo o universo e não somente esta metade isolada e sancionada. Neste caso, teríamos de, a par do ofício divino, celebrar igualmente um ofício satânico. Isso já estaria correcto. Ou, então, deveríamos conceber um Deus que abarcasse também o demónio no seu seio, diante do qual não fosse necessário esconder-se quando sucedem as coisas mais naturais deste mundo."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 59. 

Tuesday, July 7, 2026

INDIVÍDUO

 


"A vida do indivíduo é uma caminhada em direcção a si mesmo, a procura de um rumo e o esboçar de um trilho. Jamais alguém, em momento algum, conseguiu tornar-se coerente com o seu interior; contudo, todos aspiram a alcançar essa harmonia. Quer a procurem com menor habilidade, quer persigam esse ideal com perspicácia, cada qual realiza-o conforme pode, mas todas as pessoas arrastam consigo e até ao fim restos do seu nascimento, mucos e membranas de um mundo primevo. Há quem nunca chegue a tornar-se num ser humano e permaneça rã ou lagarto ou então formiga. Há quem seja pessoa por cima e peixe por baixo. No entanto, cada indivíduo é uma criação da natureza em ordem ao homem. Procedemos de uma só origem - a mãe - e provimos da mesma embocadura; mas, seja qual for a pessoa, ela procurará elevar-se do abismo, em direcção ao seu destino. Sabemos entender-nos mutuamente, mas somente cada qual tem a capacidade para interpretar a sua própria vida."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 8. 

Monday, July 6, 2026

ÓRBITA DE VERÃO


 


"Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante."



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, p. 17.

Sunday, July 5, 2026

ASSISTÊNCIA

 


"Tal como nos outros países da Europa, também em Portugal a lepra se desenvolveu mais intensamente depois dos maiores contactos com o Oriente, através das Cruzadas. E também, como por toda a parte, aqui se disseminou uma rede de leprosarias, onde os gafos se isolavam, fugiam à execração pública e diminuíam o perigo de contágio.
Eram sobretudo numerosas no Norte do País, mas também bastante espalhadas pela parte central e pela beira-mar. Nunca, porém, atingiram as elevadas cifras que outras áreas da Europa registaram, porque o nosso país foi um dos menos atingidos pela doença."


Iria Gonçalves, Imagens do Mundo Medieval, Lisboa: Livros Horizonte, 1988, p. 61.

DESORDEM

 



"Na verdade, absolutizar uma única dimensão do ser humano é sempre errado. Com efeito, não é apenas a escassez que gera a desordem. Também aquilo que cresce sem medida pode tornar-se uma forma de pobreza. Num ecossistema, a harmonia rompe-se quando uma única espécie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano, quando uma faculdade pretende tornar-se a medida de tudo. Assim, a inteligência, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimensões essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedicação e a relação. O poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e de exclusão. Não se trata, evidentemente, de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 114.

Friday, July 3, 2026

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

 


"Hoje, entre os bens que se destinam universalmente a todos, devemos contar ainda as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados. Num contexto em que a riqueza das nações depende cada vez mais de conhecimentos e tecnologias, quando estes bens permanecem concentrados nas mãos de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos, entre quem pode participar na revolução digital e quem fica à margem. Além disso, o cuidado da Casa comum e a responsabilidade para com os pobres e as gerações futuras exigem que a utilização dos bens da criação e das novas possibilidades oferecidas pela técnica seja regulada de modo a respeitar o ambiente, evitando desperdícios e novas formas de pilhagem."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 82. 

Thursday, July 2, 2026

DAS ESFERAS INDIZÍVEIS

 



" - São mesmo fofas, não são? - emocionava-se a Joana, cheia de instintos maternais.
Cereja entrava primeiro e sorria, Branca de Neve maliciosa com uma voz de cristal. Levantava um bocadinho as sobrancelhas, mordiscava um bocadinho os lábios, descia as pestanas por um segundo e começava a cantar, grácil, virginal, Madame Butterfly das esferas indizíveis, pelas campinas gentis voam lindas borboletas. Com suas asas subtis verdes vermelhas ou pretas. Encarnación aproximava-se por trás e com as mãos nos bolsos, postava-se muito direita ao lado dela e irrompia no coro com um baixo rouco e possante, ai quem me dera voar, como tão lindos bichinhos. Só para as rosas beijar sem me picar nos espinhos."


Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, pp. 82-83.

Wednesday, July 1, 2026

INSTRUMENTALIZÁVEL

 


"Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável. O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, pp. 70-71. 

BESTA

 



"A Celeste acenou com a cabeça, pensativa:
- Pois é - comentou - A Catarina tem mesmo a cara ideal para usar cabelo curto. Eu, por exemplo, fico horrível. Pareço um abutre. Não, uma abutreza. É assim que se diz? Quer dizer, como é que se chama a mulher do abutre?
- Os abutres não têm mulher, sua burra - grunhi eu.
- Por isso é que são necrófagos - disse logo ela.
- Porque são uma ave de inteligência superior, dos poucos animais, para além do homem, que utilizam objectos na obtenção de alimento - rematei eu, que em momentos de rara felicidade consigo ser uma verdadeira enciclopédia de referências inúteis."



Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, p. 48.