Thursday, July 2, 2026

DAS ESFERAS INDIZÍVEIS

 



" - São mesmo fofas, não são? - emocionava-se a Joana, cheia de instintos maternais.
Cereja entrava primeiro e sorria, Branca de Neve maliciosa com uma voz de cristal. Levantava um bocadinho as sobrancelhas, mordiscava um bocadinho os lábios, descia as pestanas por um segundo e começava a cantar, grácil, virginal, Madame Butterfly das esferas indizíveis, pelas campinas gentis voam lindas borboletas. Com suas asas subtis verdes vermelhas ou pretas. Encarnación aproximava-se por trás e com as mãos nos bolsos, postava-se muito direita ao lado dela e irrompia no coro com um baixo rouco e possante, ai quem me dera voar, como tão lindos bichinhos. Só para as rosas beijar sem me picar nos espinhos."


Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, pp. 82-83.

Wednesday, July 1, 2026

INSTRUMENTALIZÁVEL

 


"Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável. O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, pp. 70-71. 

BESTA

 



"A Celeste acenou com a cabeça, pensativa:
- Pois é - comentou - A Catarina tem mesmo a cara ideal para usar cabelo curto. Eu, por exemplo, fico horrível. Pareço um abutre. Não, uma abutreza. É assim que se diz? Quer dizer, como é que se chama a mulher do abutre?
- Os abutres não têm mulher, sua burra - grunhi eu.
- Por isso é que são necrófagos - disse logo ela.
- Porque são uma ave de inteligência superior, dos poucos animais, para além do homem, que utilizam objectos na obtenção de alimento - rematei eu, que em momentos de rara felicidade consigo ser uma verdadeira enciclopédia de referências inúteis."



Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, p. 48.