Saturday, July 11, 2026

BENEDICTUS

 



"Está com Deus. A margem
de estar ali o completa.
Uma enseada de felicidade
descobre o nome próximo da festa
que é estarmos vendo como Deus o sabe
por dentro da substância a ele aberta.
Está com Deus. Um regozijo de aves
respira o mundo em expansão. Quem pensa?"



Fernando Echevarría, «Introdução à Filosofia», in Obra Inacabada, Porto: Edições Afrontamento, 2006, p. 213.

Friday, July 10, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA 2

 


"Mas quem decide
assim
do teu destino
aldeia
alcandorada
em ossos
com tuas casas
moles
- mãe de sapos?

Quem passa
nestas ruas
ao luar
remoto mar
de lua
sobre os membros
melhor que o sonho
sonha sonegar.

Quem passa aqui
tem os membros de pedra
sabe de cor
a colecção dos sinos
sabe passar
sem pressa
e sem pensar
acode-lhe sorrir
ao cão do dia
saborear a fruta
e mastigar
dormir dormir
amamentar
sem pranto
um filho que paria.

E quando
os bois começam
no seu choro
babando as ruas
dobando o fio dos chifres
numa impossível teia
quem passa
nesta aldeia
ceia com vagares
e não sabe se sonha
cisma
ou devaneia."


Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 65-67.

Thursday, July 9, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA

 



"Ainda teimaste
em som
sarcofagado
afago
solidon

aldeia circunstrita
a um saloon

funiculada imagem
suicida

pedrinha pobre
em seu castelo
bacoco

abriste
as pregas
às aves más
do tempo

tens sol
acumulado
nas narinas
e doem-te
os dentes
que afinal são d'oiro

velha porcelana
alambicada
onde o sangue
crisalidou
em chá

o mar
esse cansou-se
de apalpar teus
seios
de matrona exausta."



Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 63-64.

Wednesday, July 8, 2026

PROFANO

 


"Ele apercebeu-se da resistência por mim ainda antes de eu lhe responder o que quer que fosse, como, aliás, sucedia sempre.
- Já sei - exclamou resignado: - é a velha história. Não leves a coisa demasiado a sério! Mas sempre quero dizer-te o seguinte: estamos perante um dos pontos fracos bem evidentes nesta nova religião. Refiro-me ao aspecto de este Deus da Antiga e da Nova Aliança ser uma figura soberba, mas não representar aquilo que, efectivamente, seria necessário. Ele é o bem, o louvável, o amoroso, o belo e também o nobre e o sentimental... muito bem! Porém, o mundo é igualmente constituído pelo resto e tudo isto é muito simplesmente imputado ao Demónio; toda esta parcela do mundo, metade do universo, é soterrada e sepucralmente silenciada. Precisamente do mesmo modo que chamam a Deus «o pai de todos os seres vivos», mas se escusam a tudo quanto diga respeito à sexualidade, da qual toda a vida depende e, se bem calhar, consideram-na coisa do demónio e pecaminosa! Não tenho nada contra o facto de se adorar este Deus Jeová, absolutamente nada; mas acho que deveríamos adorar tudo, considerar tudo sagrado, todo o universo e não somente esta metade isolada e sancionada. Neste caso, teríamos de, a par do ofício divino, celebrar igualmente um ofício satânico. Isso já estaria correcto. Ou, então, deveríamos conceber um Deus que abarcasse também o demónio no seu seio, diante do qual não fosse necessário esconder-se quando sucedem as coisas mais naturais deste mundo."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 59. 

Tuesday, July 7, 2026

INDIVÍDUO

 


"A vida do indivíduo é uma caminhada em direcção a si mesmo, a procura de um rumo e o esboçar de um trilho. Jamais alguém, em momento algum, conseguiu tornar-se coerente com o seu interior; contudo, todos aspiram a alcançar essa harmonia. Quer a procurem com menor habilidade, quer persigam esse ideal com perspicácia, cada qual realiza-o conforme pode, mas todas as pessoas arrastam consigo e até ao fim restos do seu nascimento, mucos e membranas de um mundo primevo. Há quem nunca chegue a tornar-se num ser humano e permaneça rã ou lagarto ou então formiga. Há quem seja pessoa por cima e peixe por baixo. No entanto, cada indivíduo é uma criação da natureza em ordem ao homem. Procedemos de uma só origem - a mãe - e provimos da mesma embocadura; mas, seja qual for a pessoa, ela procurará elevar-se do abismo, em direcção ao seu destino. Sabemos entender-nos mutuamente, mas somente cada qual tem a capacidade para interpretar a sua própria vida."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 8. 

Monday, July 6, 2026

ÓRBITA DE VERÃO


 


"Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante."



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, p. 17.

Sunday, July 5, 2026

ASSISTÊNCIA

 


"Tal como nos outros países da Europa, também em Portugal a lepra se desenvolveu mais intensamente depois dos maiores contactos com o Oriente, através das Cruzadas. E também, como por toda a parte, aqui se disseminou uma rede de leprosarias, onde os gafos se isolavam, fugiam à execração pública e diminuíam o perigo de contágio.
Eram sobretudo numerosas no Norte do País, mas também bastante espalhadas pela parte central e pela beira-mar. Nunca, porém, atingiram as elevadas cifras que outras áreas da Europa registaram, porque o nosso país foi um dos menos atingidos pela doença."


Iria Gonçalves, Imagens do Mundo Medieval, Lisboa: Livros Horizonte, 1988, p. 61.

DESORDEM

 



"Na verdade, absolutizar uma única dimensão do ser humano é sempre errado. Com efeito, não é apenas a escassez que gera a desordem. Também aquilo que cresce sem medida pode tornar-se uma forma de pobreza. Num ecossistema, a harmonia rompe-se quando uma única espécie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano, quando uma faculdade pretende tornar-se a medida de tudo. Assim, a inteligência, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimensões essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedicação e a relação. O poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e de exclusão. Não se trata, evidentemente, de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 114.

Friday, July 3, 2026

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

 


"Hoje, entre os bens que se destinam universalmente a todos, devemos contar ainda as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados. Num contexto em que a riqueza das nações depende cada vez mais de conhecimentos e tecnologias, quando estes bens permanecem concentrados nas mãos de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos, entre quem pode participar na revolução digital e quem fica à margem. Além disso, o cuidado da Casa comum e a responsabilidade para com os pobres e as gerações futuras exigem que a utilização dos bens da criação e das novas possibilidades oferecidas pela técnica seja regulada de modo a respeitar o ambiente, evitando desperdícios e novas formas de pilhagem."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 82. 

Thursday, July 2, 2026

DAS ESFERAS INDIZÍVEIS

 



" - São mesmo fofas, não são? - emocionava-se a Joana, cheia de instintos maternais.
Cereja entrava primeiro e sorria, Branca de Neve maliciosa com uma voz de cristal. Levantava um bocadinho as sobrancelhas, mordiscava um bocadinho os lábios, descia as pestanas por um segundo e começava a cantar, grácil, virginal, Madame Butterfly das esferas indizíveis, pelas campinas gentis voam lindas borboletas. Com suas asas subtis verdes vermelhas ou pretas. Encarnación aproximava-se por trás e com as mãos nos bolsos, postava-se muito direita ao lado dela e irrompia no coro com um baixo rouco e possante, ai quem me dera voar, como tão lindos bichinhos. Só para as rosas beijar sem me picar nos espinhos."


Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, pp. 82-83.

Wednesday, July 1, 2026

INSTRUMENTALIZÁVEL

 


"Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável. O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, pp. 70-71. 

BESTA

 



"A Celeste acenou com a cabeça, pensativa:
- Pois é - comentou - A Catarina tem mesmo a cara ideal para usar cabelo curto. Eu, por exemplo, fico horrível. Pareço um abutre. Não, uma abutreza. É assim que se diz? Quer dizer, como é que se chama a mulher do abutre?
- Os abutres não têm mulher, sua burra - grunhi eu.
- Por isso é que são necrófagos - disse logo ela.
- Porque são uma ave de inteligência superior, dos poucos animais, para além do homem, que utilizam objectos na obtenção de alimento - rematei eu, que em momentos de rara felicidade consigo ser uma verdadeira enciclopédia de referências inúteis."



Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, p. 48.

Monday, June 29, 2026

SANTO POPULAR

 



"Estás a dormir, homem de Deus
E eu estou sentado à cabeceira
Não sabes quem eu sou mas não faz mal
Venho falar-te do outro lado das coisas.

Escuta: enquanto dormes desenfreada a lua corre
Para fora do céu e o céu estrelado afasta-se
Da tua janela, que assim mesmo não existe
Assim também teu quarto e cama e também tu.

Não acordes suado a pensar ter visto a morte
Pois o que vês é a vida de sossego que dá para dormir
E acordar sem mudança aparente em toda a casa.

Dizem que nasceste e por ti tens espelhos
Onde te vês envelhecer; parece que vais morrer
Não fiques muito triste mais vale de mim esquecer."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 462.

Sunday, June 28, 2026

CONTACTO

 


"E o padre Bernard, que passou os seus últimos anos numa capela abandonada na Grécia, venerado e acarinhado como o louco da aldeia, fazendo sermões às pessoas e às aves marinhas, escreveu numa carta que para encontrar o real bastava olhar para as pedras, o pão que os camponeses lhe traziam, uma nascente, a água, as ondas, a linha do horizonte. Tudo é sagrado. E quando a perceção é pura o mundo material e o mundo espiritual vibram como um só. O contacto, de que falava Plotino. Não se trata de ver porque quando vemos ainda estamos separados. Conhecimento puro, como o dos anjos. A linguagem dos anjos, a linguagem dos pássaros; a que diz a realidade do mundo."


Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 147. 

PARTES

 


"Conheces Deus, parte dele, um dia vou conhecê-lo todo. Não, isto seria demasiado para alguém conhecer, ficarias cega. Aprende a conhecer rochas, árvores, flores, estrelas, sol, são parte de Deus. Aprende a conhecer o mar... Eram frases soltas de um filme, uma menina de dezasseis anos com um vestido amarelo, um pistoleiro que fazia versos em troca de um copo de whisky, um ramo de primaveras; e ela dizia baixinho, para si mesma, quando ele chegava a casa com um ramo de flores do campo, uma rosa, uma pedra que encontrava no parque. Estou apaixonada, como se fosse o princípio de qualquer coisa. E pratiquei a morte todos os dias da minha vida... E todas as vidas ficam inacabadas."


Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 113. 

Friday, June 26, 2026

ESTADO DE CONSCIÊNCIA

 



"Nós vivemos fechados no nosso mundo, e um dia descobrimos que existe mais alguém, é isso apaixonar-se, tomar consciência da realidade de alguém além de nós. Sair da caverna e descobrir o mundo. E de novo a ideia do santo, o santo esquece-se de si mesmo e vê aquilo que existe, e identifica-se com aquilo que existe. Não se trata de fazer milagres, ou caminhar sobre as águas, ou trazer os mortos de regresso à vida, isso são apenas sinais, é um estado de consciência..."


Ana Teresa Pereira, Se nos encontrarmos de novo, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 61-62. 

Wednesday, June 24, 2026

OS NOMES NOS ESTUQUES

 



"as casas vazias estão sempre a anoitecer.
calam as paredes, os nomes nos estuques,
mesmo nos tugúrios emudecem as paredes.

cheio o ar traz as vozes dos instantes das viagens,
presenças distantes do peso, encantos da leveza,
deambulam as cabeças movimentos circulares.

nos pés do chão ressoam causas, destroços do ar
deslumbram, gemem e empurram para cima as tábuas,
contra as portas do mesmo fundo das vozes.

as casas vazias são assomos de assombração,
mas não chove nas faces dos espelhos, ainda terra,
partidos, hidra, linhas sem direcções, sem sentidos vão.

nas ruas das casas vazias, as luzes acendem só nos olhos
e chove, profano profundo, a água arma as gotas,
ainda não em arco com flechas sins contra o passado."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 80.

24 DE JUNHO

 



"Dilatados por gigantescas visões,
claros pela labareda do decurso
dos tribunais que nunca lhe deram aniquilações -
estão os olhos, contemplando de todo o curso,
sob sobrancelhas cerradas. E no seu interior, de novo,
se erguem palavras para o povo,

que não são suas (estas que pouco seriam
e com que cuidado se dissipariam)
mas outras, duras: pedaços de ferro, pedras do chão,
que ele tem de derreter como um vulcão,

para as lançar no explodir
da sua boca, que amaldiçoa e torna a amaldiçoar;
tal como a sua teste, como a testa canina a ir
procura transportar e exibir

aquilo que o senhor da sua testa tira:
Este, Este que todos achariam,
se seguissem as grandes mãos diriam
vendo que a Ele se dirigiam: causámos sua ira."



Rainer Maria Rilke, Novos Poemas, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2023, p. 147.

Tuesday, June 23, 2026

HALLUCINADO

 



"Cancei-me de tentar o teu segredo;
No teu olhar sem côr, - frio escalpello, -
O meu olhar quebrei, a debatel-o,
Como a onda na crista d'um rochedo.

Segredo d'essa alma, e meu degredo
E minha obcessão! Para bebel-o,
Fui teu labio oscular, n'um pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.

E o meu ósculo ardente, hallucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
D'esse entreaberto labio gelado...

D'esse labio de mármore, discreto,
Severo como um tumulo fechado,
Sereno como um pelago quieto."


Camilo Pessanha, Clepsydra, ed. Paulo Franchetti, Lisboa: Relógio D'Água, 1995, p. 85.

Sunday, June 21, 2026

AO SILÊNCIO DE UMAS BEM VISTAS PAREDES

 



"Paredes: vós guardais os resplandores
Daquele próprio Sol, que eu n'alma guardo.
Pois que guardais de mim, se eu neles ardo?
Não guardais, acendeis mais meus ardores.

Crecem presos os raios vingadores
Certo efeito de todo o incêndio tardo.
Que indústria contra o Céu achou resguardo,
Que os estragos, depois, não fez maior?

De pedras, como vós, e mais estreitas,
os muros eram, donde a sorte dura
roubou, para vos dar, minha alegria.

Ora acabai de crer que estais sujeitas
a perderdes, como eu, vossa ventura,
que eu também, quando a tive, nunca a cria."


D. Francisco Manuel de Melo, As Segundas Três Musas, 2ª. ed., selec. António Correia de A. E Oliveira, Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1966, p. 105.

FELICIDADE

 


" - Meu amigo, disse-lhe eu depois de um grande silêncio, se as acusações do mundo pudessem chegar até vós, a vossa felicidade clamaria bem alto.
- Sois moço, respondeu ele, para vós, consciência ingénua e pura não maculada pelo mundo, a nossa felicidade é sinal da nossa virtude, para o mundo é o factor do nosso crime. Ide, a solidão é boa, e os homens não valem uma saudade."


George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 338.

Saturday, June 20, 2026

VERÃO

 



"O tempo passava
junto à bifurcação
do sentido, ia

ao litoral da palavra
e já na boca
vinha substantivo

um jardim
que a língua dava
de delícias."


José Carlos Soares, Camel Blue, Lisboa: Averno, 2018, p. 140.

Friday, June 19, 2026

NOUTROS GRITOS

 



"Fiquei crucificado noutros gritos
noutras formas de amor mais verdadeiras
Eu sou irmãos o cego autêntico
ébrio demais da luz de outros caminhos
filho secreto de mundos que perdi
irmão de nada - depois de ter morrido
em cada ser humano que trazia
olhos de criança e mãos vermelhas
de sangue."


Alberto de Lacerda, Revista Árvore, volume II - Primeiro Fascículo, ed. facsimilada com introdução e índices de Luís Adriano Carlos, Porto: Campo das Letras, 2003, p. 20.

ERA TÃO SIMPLES TUDO!

 



"E por um verso de oiro eu fui cem vezes morto.
E por amor de ti mil vezes me busquei.
Tinhas as mãos tranquilas como os dias de Inverno.
Humedeci os lábios na tua solidão.

Era tão simples tudo! E ah, quem no soubera,
desprevenida a face, exposta ao vário vento?
Agora sei que ascende ao longe a Primavera
e vou, bebendo o espaço, efémero e sereno.

Ao mar abandonei as infundadas ilhas.
Um rio acrescentei às mal cuidadas searas.
Agora frutifico as minhas mãos em claras
surpresas de granito!"



António Luís Moita, Revista Árvore, 2.º fasc - Inverno de 1951-1952, ed. facsimilada com introdução e índices de Luís Adriano Carlos, Porto: Campo das Letras, 2003, p. 122.

Sunday, June 14, 2026

LINGUAGEM DAS ESTRELAS

 



"A sua voz tornou-se muito baixa e era tão sedutora que provocava vertigens a Margaret, como uma fragância por de mais inebriante.
- Garanto-lhe que nada é impossível a essa arte. Ela comanda os elementos, conhece a linguagem das estrelas e dirige os planetas nas suas órbitas. À sua ordem, a Lua tinge-se de sangue e despenha-se dos céus. Os mortos erguem-se das sepulturas e fazem proferir palavras agoirentas ao vento que atravessa os seus crânios a gemer. Céu e Inferno são os seus domínios, e todas as formas, adoráveis e hediondas, e o amor e o ódio. Com a varinha de Circe, pode transformar homens em animais, e aos animais pode comunicar a sua humanidade monstruosa. A vida e a morte estão na mão direita e na esquerda daquele que lhe conhece os segredos. Ela confere a riqueza pela transmudação dos metais e a humanidade pela sua quinta-essência.
Margaret já não podia ouvi-lo. Uma espécie de letargia apoderava-se dela pouco a pouco sob aquele olhar maléfico e faltavam-lhe até as forças para desejar libertar-se. Parecia estar já unida a ele por cadeias invisíveis."


Somerset Maugham, O Mágico, trad. Leonel Vallandro, Lisboa: Livros do Brasil, s.d., pp. 110-111.

Saturday, June 13, 2026

SANTO POPULAR 1

 


"«A humanidade é pagã. Nunca qualquer religião a penetrou. Nem está na alma do homem vulgar o poder crer na sobrevivência dessa mesma alma. O homem é um animal que desperta, sem que saiba onde nem para quê.
«Quando adora os Deuses, adora-os como feitiços. A sua religião é uma bruxaria. Assim foi, assim é, e assim será. As religiões são somente o que extravasa dos mistérios para a profanidade e dela não é entendido, pois, por natureza, não o pode ser.»"



Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, ed. Teresa Rita Lopes, 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 50.

Friday, June 12, 2026

IMAGENS

 


"5. Ao Diabo é fácil transformar-se para fazer o mal. E assim, de noite, fizeram tal alarido que todo o lugar parecia mover-se. Parecia que os demónios, como se rompessem as quatro paredes do pequeno espaço, entravam por elas adentro, transfigurados em imagens de animais selvagens e de serpentes. 6. E, naquele momento, o lugar encheu-se de imagens de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos. Cada um destes animais movia-se conforme a sua própria natureza. 7. O leão rugia, desejando atacar; o touro parecia investir; a serpente rastejava, mas sem chegar a tocar Antão; e o lobo atirava-se; mas detinha-se. Terríveis eram o furor de todas as aparições e os ruídos dos rugidos."


Santo Atanásio de Alexandria, Vida de Santo Antão, 9, 5-7, trad. Ricardo Figueiredo, Prior Velho: Edições Paulinas, 2026, p. 59. 

Wednesday, June 10, 2026

EMOÇÕES


 

"Devorava-lhe a vida uma insaciável necessidade de episódios e de emoções. Apreciava a sociedade com as suas leis e as suas limitações porque lhe oferecia alimentos de combate e de resistência, e se tinha horror às perturbações e ao desregramento, era porque lhe proporcionavam prazeres frouxos e fáceis."


George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 99. 

DIA POÉTICO

 



"Que lindo dia
De poesia
Se pôs!
A manhã baça,
O jornal carrancudo,
E, de repente, tudo
Cheio de luz e graça!

E que não há milagres!
Há, mas são destes, que não provam nada...

É uma pena
Que a nossa alma seja tão pequena,
Ou já esteja ocupada."


Miguel Torga, Diário V, Lisboa: Planeta de Agostini, 2003, p. 64.

Tuesday, June 9, 2026

O CALOR FECHADO DAS MÃOS

 


"Ponho-me na toca dos bichos, nos teus olhos fechados
Na transumância dos animais que buscam os pastos mesmo quando morrem

Como qualquer estação que há-de vir
Como astro que repousa de dia para dia semelhante à estéril que amamenta a sua dor

Ponho-me na semente como abelha que procura o pólen
Ponho-me na esfera celeste de uma criança que se senta no chão

Pedra que se abre no calor fechado das mãos"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 301.

Sunday, June 7, 2026

UMA FIGURA

 


"Raymon tinha artes de se mostrar culpado sem se fazer detestar, às vezes esquisito, sem ser chocante, conseguindo até, também, fazer-se lamentar por pessoas que mais tinham a queixar-se dele. Há homens assim viciados por tudo o que deles se aproxima. Uma figura simpática e uma elocução viva, constituem toda a sua sensibilidade. Não pretendemos julgar com tanto rigor o senhor Raymon de Ramière, nem traçar o seu retrato antes de o pôr em acção."


George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 37. 

Saturday, June 6, 2026

LENTIDÃO

 


"Uma das vezes em que insistiu com mais veemência em falar com Alfredo da Cunha, o médico perguntou-lhe se ela não receava um «acto violento» por parte do marido. «Não» - respondeu-lhe categoricamente. Medo à morte rápida, «nunca teve». Horrorizava-a, isso sim, a «agonia lenta» em que a vida se pode afundar, arrastando consigo «esperanças e ilusões, indispensáveis à existência de todos, porque sem elas o mundo não seria suportável»."


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 83. 

Friday, June 5, 2026

ARCÁDIA DE ESPECTROS

 


"Inspirado, o escritor recorda os poetas mortos que perpassaram «naquele interior gracioso do século XVIII» desfilando «em êxtase, entre uma nuvem de Amores côr de rosa», e que evocados pela voz angélica e incomparável da leitora, foram «enchendo, povoando, coalhando» o enorme salão, «encostando-se aos bufetes, debruçando-se sobre os livros, vivendo, familiares e graves», como se Alfredo da Cunha, reerguendo na mão a lira de prata dos árcades, os tivesse convocado a todos para «uma Arcádia de espectros»". 


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 30.

Thursday, June 4, 2026

LUA CHEIA

 



"Nossa Senhora faz meia
com linha branca de luz:
O novelo é a Lua Cheia,
As meias são para Jesus."


António Nobre, , Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p. 83.

CORPO

 



"Sacrifício imolado
pelos deuses amado
pelos anjos visitado
protegido dos espíritos
de o corpo trancado."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 222.

Wednesday, June 3, 2026

REGRESSO À MEMÓRIA

 



"regresso à memória
deus de um baralho.
um gigante de músculo breve,
sins líquidos, aqui de barcos
em praia seca.
sim, mentira
ar amigo, onde o vento te leva?
(nos leva).

agora estamos com pressa:
um só momento na maré,
e só um frémito frágil,
nada de mais com joelho,
pão amigo
e deus de um baralho.
primeiros de tu:
depois mais
intervalos de corpo
nos partem em manhãs
como azulejo mais antigo."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 68.

Tuesday, June 2, 2026

PLANAR / FLANAR

 



"calam as paredes, os nomes nos estuques
ávidos de água, os peixes
encontram as raízes
dos peixes a planar
outros
lumes na terra germinam e no mar"


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 41.

Sunday, May 31, 2026

TRINDADE

 



"ao atingir o teu espírito
a refractabilidade do Espírito
lerás o livro sem letras
e a tua sede
será
o delíquio de todas as rosas

conhecerás que
a Esfinge da Trindade
se explica
pela refractabilidade da Luz

carne
mente
espírito

filho
pai
paracleto

e a coroa
gotejada a rubro
da cabeça do Pintassilgo

aprenderás que
é isto
que faz o sentido de qualquer livro
translúcido e uno

água que escorre
da única fonte"



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, pp. 139-140.

Saturday, May 30, 2026

DANAÇÃO

 




"Dizem que as mulheres danadas
Em cada noite sem Lua
Procuram a língua fria dos lobisomens
Então velam-nos as fadas
E caem suspiros à rua
Quando o suor vem molhar as palmas das mãos dos homens

Dizem que os beijos dos loucos
Rasgam os nossos vestidos
E então velam-nos no ventre em todos os instantes
São deles os prantos roucos
Que nos mordem os ouvidos
De cada vez que entramos pelo corpo dos amantes

Dizem também que os lagartos
Nos vêem beber o vinho
Com que cada mês pagamos pelos pecados
Dos nossos cabelos fartos
Do nosso prazer daninho
De cravarmos fundo os dentes na pele dos nossos amados"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p. 55.

Friday, May 29, 2026

AMABILIDADE

 



"Não sabemos
o que sustém
a amabilidade do corolário
das pétalas de uma rosa

talvez
os fios finos
da Luz
forças cósmicas
invisíveis
dedos
flamejando a inteireza
do espaço subtil"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 82.

SOBRE TODAS AS LEIS

 



"Nunca tive medo das horas sem alma
Em que se confundem a noite e o dia
E os espíritos piam cânticos ateus
Sempre confiei na luz das manhãs
Quis a companhia muda das geadas
E nunca esperei pelo perdão de Deus

Nunca tive medo das encruzilhadas
Das juras quebradas e das salamandras
Que nascem da chama acesa dos braseiros
Sempre me esqueci de casas e camas
Só quis ter por âncora as minhas canções
E as marés que são sempre mais que os marinheiros

Nunca tive medo dos olhos dourados
dos lobos que a neve lança nos caminhos
Nos natais mais agrestes de chuva e granizo
Só temia o amor que nos rouba a vontade
Quando arrasa as muralhas da nossa razão
E rebenta por dentro do nosso juízo

Mas eu gosto de ti sobre todo o meu medo
Sobre todas as leis que governam os homens
E há centenas de anos que foram lavradas
Contigo eu estou pronta a lutar noutras guerras
A pousar a bagagem na porta de entrada
E sacudir da roupa o pó das estradas"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp. 71-72.

Thursday, May 28, 2026

ANIVERSÁRIO

 




"não te refugies
no morto
que não te deu refúgio em vida

a memória
é a sombra da muralha
esboroada por mil pensamentos
e o véu
entornado sobre ela
apenas se crisalidiza
no anoitecer"




Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 67.

Wednesday, May 27, 2026

PREFERÊNCIA

 


"Talvez acabe por preferir a solidão. A solidão é como uma dádiva, nela se não precisa mais do que finura, um certo engenho para contemplarmos com o nosso universo interior cada pedaço do céu ou cada rosa-dos-ventos. Serenos. Receber-lhe as variações. Do mesmo lugar, e sentido o que somos capazes de poder sentir."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 187. 

Monday, May 25, 2026

NA TERRA PLANTADA

 



"Rosa, na terra plantada,
Entre espinhos e abrolhos,
Volves a nós d'essa morada,
Onde foste arrebatada,
Os teus compassivos olhos!

Vê, Senhora, que eu hei posto
Só em ti minha esp'rança:
Se de mim foge o teu rosto,
Eu não fujo ao meu desgosto,
Que bem rápido me alcança.

Invoquei-te na tristeza
Do meu tão penoso exílio;
Dentro em mim senti acesa
Uma luz, cuja viveza
Era a fé no teu auxílio.

Desde então, mal sinto as dores
De quem fui escravo já...
Busco os dons animadores,
Mando ao céu os meus clamores,
E o céu graças me dá.

Mãe dos órfãos desvalidos
A ti devo quanto alcanço;
Mudos foram meus gemidos...
São meus dias sucedidos
Na doçura do descanso.

Mas se o teu divino amparo
Me abandona um só instante,
É então que em mim reparo,
E as fraquezas só deparo
Do pecado triunfante.

Um momento n'esta vida
Não me deixe o teu amor!
Faz do fraco um homem forte,
E por mim pede na morte
Na presença do Senhor!"



Camilo Castelo Branco, Duas Épocas da Vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, pp. 257-258.

Sunday, May 24, 2026

MYSTICA

 



"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.

Saturday, May 23, 2026

RESPLANDECE

 



"resplandece
a árvore do silêncio
de cujo centro
flui
o rendilhado
de luz

dela irradia
a lactescência do universo
a constância do etéreo
a solenidade da calma

o leito que esperas
para o entardecer"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 32.

UM TEMPO AINDA OUTRO

 


"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro" 

 

Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74. 

Friday, May 22, 2026

MISERICÓRDIA

 



"Cada homem se leva, por si ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se da sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia."


Armindo Trevisan, «Sexta Opção» in "9 Poemas", Colóquio-Letras, n.º 2, junho de 1971, p. 68.

Thursday, May 21, 2026

A PORTA

 


"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64. 

ANTIGAMENTE


 


"Antigamente é que era, hem!?, hem?!...
Rei contra rei. Pronto. Sobe em cima do cavalo, pega na espada, defende, luta, dá morte, pronto, cai no chão, assim é que era! Agora estes são o quê?, querem o quê?, sim, o que é que eles querem?... Ver os outros ali adiante, ver além lutar os outros, os outros a lutar! Olhem lá que coragem!"


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 143.