Thursday, August 20, 2026

OS DESASTRES DA GUERRA

 


"(...)

Na de S. Bento quebraram o Santo, queimaram o púlpito e parte do sobrado e as gavetas dos caixões, demoliram o altar, roubaram hum calis, humas cortinas, hum frontal branco de damasco, branco, duas vestimentas, huma branca de damasco e outra verde. Incendiaram vinte e duas casas e asa que não o foram, ficaram estragadas, queimando-lhe todos os móveis, sobrados, frontaes, forros, et cetera.
Mataram coatro mulheres e três homens.
Roubaram duzentas e setenta e duas ovelhas, cento e trinta e seis cabras, duas mullas, cinco jumentos, trezentos e doze alqueires de pam, mil e trezentos e quinze alqueires de milho grosso, cento e trinta e seis alqueires de feijam, coatro de trigo, dezanove galinhas. Queimaram ou roubaram sete carros e seis trados.
Roubaram quase todas as roupas de lam e linho, innutilizando a outra, ficando a maior parte dos habitantes só com o vestido que traziam, e sem cama pera dormirem. E athé muitos enfermos que jaziam nas duras táboas, sem terem com que se cobrir. E assim, tem morrido muitos, como eu tenho observado.
Hé o que o povo afirma, que por ser verdade, me assigno.

Torroselo, 27 de Setembro de 1811.
O Cura, José Garcia de Abranches"


Sérgio Alves, Cartas dos Grandes e Graves Prejuízos - Relatos da Invasão Francesa nos Concelhos de Seia e Gouveia, ed. do Autor, 2025, p. 116.

CHUREL

 



"Um pesadelo vem muito a propósito. Assim:
- Urr-urr-urr. Ya-la-la-la. Naraim! O churel! O churel...
Churel é o perigosíssimo fantasma de uma mulher que morreu de parto. Assombra as estradas desertas, tem os pés voltados para trás e atormenta os homens."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 144.

Tuesday, August 18, 2026

CEMITERIAL

 



"No regresso (alcaçuzes ou doces de coco de quilómetro a quilómetro), explicava-me as suas ideias acerca da morte.
- É claro que ela não está aqui, Gabriel, mas os mortos não são como nós, viajam muito mais do que nós. E vou dizer-te um segredo (e baixava a voz): todos os cemitérios do mundo estão ligados uns aos outros, não te esqueças nunca disto, todos os cemitérios estão ligados uns aos outros."

Erik Orsenna, A Exposição Colonial, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 34.

Monday, August 17, 2026

AS FACES


 



"Laura corara até aos lóbulos das orelhas.
As faces diziam que lá dentro lavrava lume de amor. Não lavrava nada. O corar é uma cláusula de temperamentos. Tem a mesma origem que a vertoeja, e a herpes e a impingem. O sangue que acereja a epiderme das faces revela, quanto muito, a compleição sanguínea da pessoa."

 
Camilo Castelo Branco, A Mulher Fatal, 10.ª ed., conforme a 2.ª, a última revista pelo autor, Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968, p. 54.

Sunday, August 16, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE 2

 



" - Mas como vai reconhecer o tal rio? - indagou Kim, acocorando à sombra de uma árvore.
- Diante do Rio, uma graça divina iluminar-me-á. Não é este o Rio que procuro, não estou a sentir que não é. Ó regato pequenino, se pudesses dizer-me onde corre o meu Rio!... Mas apesar da tua mudez, bendito sejas, tu que fazes pojar os campos.
- Olhe, olhe! - gritou Kim lançando-se ao velho e puxando-o para trás. - Uma ondulação pardo-amarela mexeu-se entre os caniços e espichou a cabeça para a água, uma enorme cobra de olhos sem pálpebras muito fixos.
- Um pau, um pau, para quebrar-lhe a espinha! - gritava o menino, procurando em redor.
- Para quê? Ela está, como nós, amarrada à Roda que sobe e desce, e muito longe ainda da libertação. Grande pecado deve ter cometido a alma presa a esse invólucro!
- Detesto todas as cobras - confessou Kim, que tinha no sangue branco a correr-lhe nas veias o instintivo horror ocidental pelas serpentes.
- Ela que viva a sua vida - murmurou o lama com placidez, enquanto a cobra sibilava e distendia o capelo. - Possa a tua libertação chegar em breve, irmã. Terás tu por acaso conhecimento do meu Rio?
Kim estava impressionado.
- Nunca vi homem assim - murmurou. - Será que as cobras compreendem as suas palavras?
- Quem sabe lá?"


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 51.

Saturday, August 15, 2026

SANTO DE VERDADE

 




"Vieram a saber que já tinha sido mestre na leitura das mãos e dos horoscópios, e pediram-lhe que expusesse os seus métodos, cada qual dando aos planetas nomes que o lama não podia entender. As crianças da casa vinham-lhe mexer nas contas do rosário; e o velho esqueceu a regra que lhe mandava não pôr olhos em mulheres, ao narrar os incidentes da sua peregrinação, as grandes neves encontradas, as avalanchas nas montanhas, os desfiladeiros bloqueados, os remotos países de safira e turquesa por onde passa a estrada maravilhosa que vai ter à Grande China.
- Que pensa deste homem? - perguntou o lavrador ao sacerdote.
- Que é um santo, um santo de verdade. Os seus deuses não são os nossos, mas ele firma os pés no Caminho. E os seus horoscópios parecem cheios de base."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 45-46.

Friday, August 14, 2026

DOS LUGARES DOS IBEROS

 




"Verânio, que dos meus trezentos mil
amigos és o primeiro, será que
regressaste a casa, aos teus Penates,
aos teus adorados irmãos e irmãs e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei, agora são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares dos Iberos, dos seus feitos, das suas gentes,
como é teu hábito, e pendurado ao teu pescoço
a boca adorada e os olhos te beijarei.
Oh, de todos os homens felizes do mundo,
algum mais alegre e feliz do que eu será?"


Catulo, Os Poemas, 9, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 42.

Wednesday, August 12, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE

 



"antes do véu da noite
já os medronheiros
anoitecem o jardim

rendilhados estáticos
amparam ainda a luz
enlanguescida do céu
em devaneios góticos

a luz
desprende-se
sobre as copas-escudos
assim
na atmosfera
se acolhesse o dia
e
no jardim
se resguardasse toda a negridão
da noite
a quietude
estende-se
pelos ramos
e desce à vegetação
do solo

rosas
desfolham-se
pelo céu

serenidade
                            silêncio
                                        antar mouna"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 107-108.

O ECLIPSE

 



"Aquele que discerniu todas as luminárias do grande mundo,
               que das estrelas conheceu a ascensão e também o declínio
como o brilho flamejante do Sol impetuoso e obscurecido,
              como astros se retiram em certas épocas"


Catulo, Os Poemas, 66, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 147.

IDENTIDADE

 


(Lourdes Castro)


"E tu, e nós quem somos? Figuras que emergem ou se desvanecem, palpites, rabiscos indecifrados. Palavra, sussurro, alusão, passo no silêncio."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 65. 

Tuesday, August 11, 2026

CLARA


"Um dia veio ter com ela uma irmã cheia de santo fervor e rogou-lhe que lhe emprestasse o cilício de crinas de cavalo. Foi-lhe deferido o pedido, e sentiu grande consolação espiritual, mas, logo que experimentou usá-lo, os nós feriram-na de tal modo que julgou morrer de dor. Imediatamente, o tirou e restituiu à santa abadessa. Então esta, sorrindo, disse-lhe que na qualidade de mãe tinha de se mortificar mais, não só por si mas por todas as almas que lhe estavam confiadas."


Joaquim Capela, o.f.m., Santa Clara de Assis, Braga: Edição das «Missões Franciscanas», 1949, p. 95.

 

Monday, August 10, 2026

COISAS REAIS

 


"«Uuuhhh...» guinchou prostrado no chão  «uuhh... uhm... um... umm... umm... um...» e nestes sons profundos e moles desejava perder-se, derreter a cabeça, o peito. Sentiu como sempre que chegava a um limite, a um limiar extremo. Em que lhe era dado ainda o parar, voltar atrás, manter vivo na noite o lume, na tempestade. E agarrou-se a palavras, aos nomes de coisas reais, visíveis, concretas. Pronunciou em voz alta: «Terra. Pedra. Desvario. Casa. Forno. Pão. Oliveira. Alfarrobeira. Sumagre. Cabra. Sal. Burro. Forte. Templo. Cisterna. Muralha. Piteira. Pinheiro. Palmeira. Castelo. Céu. Corvo. Pega. Pomba. Tentilhão. Nuvem. Sol. Arco-Íris...» pronunciou como se quisesse redenominar, recrear o mundo. Recomeçar a partir do momento em que nada havia acontecido, nada se perdera ainda, e as coisas se desenrolavam serenas, sereno o tempo."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 40.

 

Sunday, August 9, 2026

QUALIDADES

 


"«Que género de pessoa é ela, então?», pergunta-lhe.
O irmão pensa, antes de responder. «Não é ninguém que já tenhas conhecido. Não lhe importa o que as pessoas pensem dela. Limita-se a seguir o seu próprio caminho.» Inclina-se para a frente, apoia os cotovelos nos joelhos, e reduz a voz a um murmúrio. «É capaz de olhar para uma pessoa e ver-lhe a própria alma. Não há nela uma gota de severidade. Aceita uma pessoa por aquilo que ela é, não por aquilo que não é ou que deveria ser.» Olha para a irmã. «São qualidades raras, não são?»"
 

Maggie O'Farrel, Hamnet, trad. Margarida Periquito, Lisboa: Relógio D'Água, 2021, p. 73. 

Saturday, August 8, 2026

CANES DEI

 




"Meu santo reino espiritual, que eu vejo,
Como através da morte, quando a luz
De profunda emoção aquece e doira
Meu corpo - árvore verde e negra cruz...
Vejo-te, num delírio, como as árvores
Avistam, dentro de alma, os passarinhos...
E assim os olhos gélidos dos mármores
Têm a visão confusa das florestas...
E como a terra vê, quando beijada
Pela graça da névoa que se eleva,
O grão que sobe em baste para o sol
E desce em raiz faminta para a treva..."


Teixeira de Pascoaes, "As Sombras" in Obras, Lisboa: Círculo de Leitores, 1973, p. 129.

Thursday, August 6, 2026

COMO SE ELE PUDESSE SER

 


"Ela passou por ele sem o ver, o que lhe permitiu afinal de contas fixar bem o seu rosto, antes de voltar a sair, sob os olhares espantados dos funcionários par quem a sua atitude tinha um ar de perseguição, como se ele pudesse ser um fauno, embora o bigode lhe desse um ar equívoco ao rosto, com algo de sensual, que no entanto a austeridade com se vestia atenuava bastante."


Nuno Júdice, A mulher escarlate, col. Brevísssima, 28, Porto: Livraria Civilização Editora, 1997, p. 13. 

Wednesday, August 5, 2026

NOTÁVEL

 


" - Eu amo-te, Monty - disse Kiki. - Há mal nisso?
- Se alguma coisa está mal, sou eu - disse Monty, ajustando o cinto. - Muita gente chamaria a isto um crime. Se tiver consequências infelizes para ti, será uma prova a favor de quem pensa que sim. É algo que tens de ser tu a cuidar por mim. Tudo isto aconteceu em parte por eu confiar em ti para esse efeito.
- Não compreendo e, no entanto, compreendo - disse Kiki.
- Mas é-me impossível não te amar para sempre e isto também pesa.
- Uma rapariga da tua idade não sabe o que é para sempre.
- No entanto, eu acho que sei - afirmou Kiki. - Sei o que é. Sou uma rapariga notável."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 361.

Tuesday, August 4, 2026

UM BELO ROSTO

 


"Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio. Enquanto que o carácter deixa no rosto as marcas de palavras não ditas, de intenções não realizadas, enquanto que a face do animal parece sempre estar a ponto de proferir palavras, a beleza humana abre o rosto ao silêncio. Mas o silêncio - aquele que advém daqui - não é uma simples suspensão do discurso, mas silêncio da própria palavra, a palavra a tornar-se visível: a ideia da linguagem. Assim, o silêncio do rosto é a verdadeira morada do homem."


Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, trad. João Barrento, Lisboa: Edições Cotovia, 1999, p. 112. 

Monday, August 3, 2026

LUZ FULGURANTE

 


"O amor erótico, intenso e recíproco, o amor que envolve com a carne o mais refinado ser sexual do espírito, que revela e talvez mesmo crie ex nihilo o espírito como sexo, é um amor relativamente raro neste mundo incómodo. O amor apresenta-se como um valor tão estonteantemente elevado que falar em «desfrutá-lo» parece um sacrilégio. É algo a ser vivido de joelhos. E, sempre que existe, apenas terá de derramar uma luz fulgurante de justificação sobre a sua própria cena, uma luz que pode deixar o resto do mundo na obscuridade."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 293. 

Sunday, August 2, 2026

HOSTIARIUS

 


"Em primeiro lugar, é ordenado hostiário: são-lhe entregues as chaves da igreja, que ele fechava com piedoso cuidado, pois anteriormente, segundo dizem, estava patente, por negligência, a animais imundos, ou seja, cabras e porcos. Do mesmo modo, às horas convenientes a abria, expulsava, com zelo cristão, excomungados e infiéis, e guardava religiosamente tudo o que estava dentro e fora."


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, p. 8. 

RECOLAM MEMORIAM ILLIUS LITTERIS

 


"É por isso que quantas vezes me esforço por começar a falar, outras tantas se me enchem os olhos de lágrimas, se me embarga a voz e os soluços me interceptam as palavras ao escrever. Que hei-de eu fazer? Hei-de acrescentar mais lágrimas? Mas a Sagrada Escritura o proíbe. Por isso não chorarei a sua morte, porque creio que ressuscita com Cristo. Sei de certeza que ele está com Cristo. Portanto, hei-de alegrar-me e regozijar-me, porque foi arrebatado, para que o mal não alterasse o seu espírito, porque a sua alma agradara a Deus? Mas não posso suportar a saudade da sua ausência, e a sua afeição por tão grande homem dilacera o meu espírito. Não posso dissimular a dor que sofro. Contudo, não é a situação dele que eu lamento, mas a minha, porque quanto mais feliz ele é, tanto mais eu sinto a dor, por me faltar tão grande bem." 


Vida de São Teotónio, trad. e notas de Maria Helena da Rocha Pereira, Coimbra: Edição da Igreja de Santa Cruz, 1987, pp. 5-6.

Friday, July 31, 2026

VIDA ONÍRICA PROFUNDA

 



" - Os sonhos são algo maravilhoso, não são? - dizia David. - Conseguem ser belos de uma forma especial, ímpar. Nos sonhos, até mesmo as coisas horríveis têm classe, ao contrário das coisas reais, que nos repugnam, como ver os cães a comer.
- Há uma inocência refrescante e pura em certas imagens dos sonhos - disse Monty -, mas não devemos interrogar-nos demasiado acerca delas.
- Quer dizes, como o meu pai?
- Deixa-as apenas surgir, visitar-te, como se fossem pássaros.
- Não acreditas «na vida onírica profunda da qual toda a vida emerge», como refere o meu pai no seu último artigo?
- Não - disse Monty. - Um sonho é uma história que se tem vontade de contar ao pequeno-almoço."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 128.

Thursday, July 30, 2026

NO SILÊNCIO DESTA ÁLEA




"Abrindo a álea
vertical sobre o vértice do instante
sem frenesim mas denso de
todo o sangue que me enche no silêncio desta álea
caminho para ti
lenta lentamente a densa bola sobre o jacto de água dança
e eu sou o jorro de água eu sou a bola em equilíbrio
a permanente coroa branca efervescente branca
na tranquila anónima macia dourada suburbana álea
a seda deste instante não se rasga
é um grande bloco intacto que se desloca
para a minha eternidade
a iminência de ti é a boca já feliz a árvore
                [que estala em cada poro a seiva
a parede de água que contenho a porta doce e clandestina
a porta que desliza
e é então que
no espaço da vertigem
em ti me uno à sede e das raízes subo
e pelas raízes sou"



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, pp. 56-57.

Wednesday, July 29, 2026

SAGRADO

 




" - O inconsciente é tão grosseiro. Ele ainda anda de joelhos pelo quarto a tocar nas coisas?
- Está rodeado dos deuses que tem de aplacar. Tudo é sagrado. Noutra era tê-lo-iam venerado como um santo.
- Pobre criatura doida.
- O homem primitivo vivia num mundo de divindades menores e assustadoras. Os católicos romanos ainda vivem.
- Eu sei que para ti todas as religiões não passam de uma obsessão!
- Querida, eu não penso nada tão disparatado. A religião é muito importante. Simplesmente, não é o que parece. Das coisas muito importantes, poucas o são."



Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, pp. 30-31.

Tuesday, July 28, 2026

SORRISO ARCAICO

 


"Tornara-se intocável e Harriet, com o seu hábito antigo de tocar, encontrava-se de súbito num dilema, numa angústia. Assaltavam-na anseios fantasmagóricos de uma precisão alarmante. Sentimentos muito idênticos ao suplício de um amor não correspondido faziam-na corar e tremer. Com efeito, assemelhava-se de forma terrível a um estado de paixão. Queria abraçá-lo de novo, cobri-lo de beijos, desenlear com dedos acariciadores aquele cabelo loiro e sujo e agora de um comprimento absurdo. Mas nada era mais impossível. No último ano, como se fosse para a confundir mais, adquirira uma beleza espantosa. Aquilo a que Blaise chamava o «sorriso arcaico» de David obcecava-a como um enigma erótico."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 20. 

Monday, July 27, 2026

PENSAMENTO/PASSAMENTO

 


"Recordava com carinho estas visitas intensas e, no entanto, vagas e quase destituídas de sentido. Era tão importante ter pensamentos tranquilos e afectuosos acerca das pessoas nas alturas de ócio, em especial, talvez, em relação aos mortos que, sendo imateriais, precisam desesperadamente que pensemos neles."


Iris Murdoch, A Máquina do Amor Sagrado e Profano, trad. Fernanda O' Brien, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 18. 

Sunday, July 26, 2026

MÃES

 


"Filhos. Trememos que sejam atropelados na rua, espreitamos ansiados a sua respiração ofegante em suas noites febris e nas crianças um qualquer nada faz subir o termómetro e o pavor na alma dos pais, descobrimos com riso o alvorejar do primeiro dente, as graças dos primeiros sorrisos que já nos entendem conhecem, os bracitos estendidos para nós, os gargarejos que são as suas primeiras falas monólogos incoerentes e logo mais depois o soletrar aldrabado das primeiras palavras, as mais importantes para nós e eles: ma-mã, pa-pá, papa papinha, , teté..., as gracinhas amorosamente pacientemente ensinadas por avós tias amas criadas: como vai a tua vidinha? e o puto com a mãozita abanica para dizer assim-assim... Filhos: lemos com assustado alvoroço notícias terríveis macabras nos jornais de crianças raptadas violadas assassinadas e pomos num calafrio o caso em nós neles; olhamos para longe para os anos futuros já rapazes e ficamos dementes de os adivinhar vê-los fardados, mortos ou então heróis assassinados, ou estropiados ou bêbedos ou doidos de crueldades que nem relatam e praticaram, a que assistiram, ou cornudos, que é o costume nas guerras."


Luiz Pacheco, «O caso das criancinhas desaparecidas», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 116. 

Saturday, July 25, 2026

CHAMADO ZEBEDEU

 



"Até ela aquele foi levado, glorioso, eleito
para a recompensa, tendo-a obtido pelo martírio
de Cristo; Tiago, chamado Zebedeu, 
cumprindo devidamente o seu estatuto apostólico, 
arrebata, vencedor, os estigmas da paixão. 

Pois, esmagando, sem dúvida com o auxílio divino, 
as cóleras criminosas dos magos, reprime e castiga
a maldade dos demónios, cheios de inveja.
Por fim, ao insensato é dada uma palavra vivificante
e insigne, e um coração que, arrependido, passa a crer."



«Hino para o Dia de São Tiago» (séc. VIII), vv. 31-40., in Paulo Farmhouse Alberto, Santos e Milagres na Idade Média em Portugal, vol. 12, Lisboa: FLUL, 2016, p. 48. 

Friday, July 24, 2026

SE JÁ REGRESSEI DAS PALAVRAS NOCTURNAS

 



"onde me queres,
se já regressei das palavras nocturnas?
onde queres que o rosto efémero e frágil caia?

hoje estremeço em museu, fogueira com luto
tristeza com lenço, cotovelo, sangue escuro.
fui certeza em terra, fui inútil,
caçador, sacrifício e peditório:
medronho, maçãs, flores e juncos.

talvez espalme as mãos na terra,
as costas, o umbigo e os pés também.
talvez duas faces escuras,
pintem a casa de verde
com a cor do rosto que se esconde."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 64.

Thursday, July 23, 2026

A ZONA CINZENTA

 


"- Meu caro senhor, ao que parece, és ateu, mas defendes a zona cinzenta onde moram os demónios - repreendeu-o Lukas.
- Procuro lugar para eles, para que tu, meu senhos, possas enxotá-los e exorcizá-los. Eu falo como se tudo isto existisse, como se existisse... A existência de demónios não é tangível. Os demónios são o exército de Proteu, transformam-se sempre e regressam com novos corpos, com novos cenários.
- Eu diria que é antes um nada que tem o poder de assumir diversas formas mais ou menos agoirentas - retorquiu Longin Lukas. - O nada que seduz e enfeitiça, suborna, actua sempre desta maneira estranha, como se estivesse e não estivesse presente num dado momento. É construído a partir das nossas projecções, medos, e alimenta-se de bom grado do nosso pavor."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 275.

Wednesday, July 22, 2026

MADALENA

 




"Estas três mulheres são verdadeiramente três? Ou não fazem senão uma? Para os Gregos, que honram a Madalena desde o século VI, trata-se de três pessoas distintas. Nunca eles imaginaram que Maria Madalena tivesse sido pecadora."


José Leite, S. J., Santos de Cada Dia, vol. II, 3.ª edição corrigida e aumentada, Braga: Editorial A.O., 1994, p. 453. 

Tuesday, July 21, 2026

GASTAR TEMPO

 


"depois que os anos vieram e todas as coisas com eles vieram (e só talvez isso: anos e anos que vieram sem nós darmos por tanto tempo gasto a gastar tempo horas mornas paz podre escorrendo para trás e sempre as mesmas e sempre o mesmo, a mesma merda, e esta, sabeis? somos nós parados presos num tempo (paz podre) que não era o nosso ou o que nós queríamos que fosse o nosso mas foi o que nos deram (achámos) e ali aqui ficámos por não ter outro por não poder não saber conquistarmos outro."


Luiz Pacheco, «Os Namorados», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 37. 

Monday, July 20, 2026

PUREZA ANTIGA

 


"Onde estarão agora os que foram meninos comigo, meus companheiros de bibe-e-calção? gostava de ir lá vê-los à nossa infância, de irmos todos, reconhecermos todos como nossa ainda a pureza antiga, os projectos que enterrámos, as ilusões, os actos falhados. E, com efeito, o mundo dos adultos está cada vez mais triste, mais crápula, mais ratazana. É uma bicharada que vai a correr pró buraco do coval, comprometida e lassa, sem alegria, sem carácter, sem sentimentos, sem dignidade nenhuma. Não são gente: são baratas medrosas, assustadas sempre, que andam de luto por eles-mesmos e se escondem quando pressentem uma luz, a ousadia dum gesto, a virtude duma palavra. Adultos, cadáveres de jovens. Metem dó, metem nojo, tão velhinhos e tão resignados. Cagarolas. Gostaria de os tornar a ver como eram, na infância."


Luiz Pacheco, «O Teodolito», in Ser Livre em Português - Antologia, ed. Rui Sousa e Sofia A. Carvalho, Lisboa: Tinta-da-China, 2026, p. 28. 

Sunday, July 19, 2026

EPICUREU

 




" - Irei morrer? - perguntava à vela.
Não respondia logo. A sua chama tremeluzia como que perturbada com a pergunta.
- Imortais são somente as coisas muito pequenas ou muito grandes - respondeu com cautela. - Os átomos são imortais e as galáxias são imortais. Eis o mistério. O alcance da morte é muito específico, é como uma onda de rádio."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 227.

OLHOS ENFRESTADOS

 



"Travessos olhos, que na travessia
Deixais os olhos todos derrubados,
Contra quem só três dedos cavalgados
São na manhã remédio a todo o dia:

Dos milagres, que fez Santa Luzia,
Nenhum sabemos de olhos enfrestados
E mais de olhos que são tão namorados,
Que olham um para o outro à mor porfia:

Ciosos olhos, pois essas meninas
Escondeis no mais alto das capelas,
Não consistais haver delas suspeita:

Torcei-lhe a condição de pequeninas,
Porque nunca se possa dizer delas
Quem torto nasce, tarde se endireita."



«Fénix - I, pág. 161», in Segismundo Spina e Maria Aparecida Santilli, Apresentação da Poesia Barrôca Portuguêsa, Assis: 1967, p. 119.

Friday, July 17, 2026

SISTEMA NERVOSO

 


"Eu tenho cá um sistema nervoso! E para que é que a gente quer o sistema nervoso? Para defendermos as nossas acções, para nos defendermos do que nos ameaça, e olhe que há quem o aproveite para defender as suas acções e até as dos outros, há até quem vá parar à cadeia para defender os interesses que não são os seus. O que é o sistema nervoso? É a nossa maneira de ser."

 

Olga Gonçalves, A Floresta em Bremerhaven, 2.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1980, p. 24. 

Thursday, July 16, 2026

SOL MADURO

 



"Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que só muito a custo
num corpo alagado de sol maduro, um corpo de laranjeira atulhada
de frutos,
resiste sem mácula ao desfazer repentino do verão
(esse baldio agachado de pressentimentos).
E um corpo neste estado, vulnerável,
a tresandar a raves,
põe-se a contar pelos dedos os brincos desirmanados,
os sapatos cambados, as portas sem batente,
a observar filamentos de lâmpadas incapazes
de entrar em falência.
Deixem-se de conversas:
para mim são favas contadas.
Hei-de ser capaz de vos explicar que no desfazer repentino
do verão
(esse espartilho quase vitoriano),
um corpo alagado de sol maduro, domador de labirintos
está ali sentado como quem não quer na esplanada do café,
bate fortemente com os punhos no horizonte
que não é nem deixa de ser assim tão longe,
e a única coisa que sente é que continua espantosamente
vivo. Pleno de eternidade."


Josefa de Maltezinho, Fracturas Expostas, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2022, p. 100.

Tuesday, July 14, 2026

ESPANTO II

 




"Deram meia-volta e passaram de novo por Frau Weber e Frau Brecht.
- Veja as coisas sob este prisma - acrescentou a meia-voz, quase a sussurrar. - A possibilidade de existir em triplicado espanta-me. Trata-se certamente de um atavismo insondável."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 70.

Monday, July 13, 2026

ESPANTO

 


"Em Görbersdorf não havia cemitério, disso Wojnicz tomou conhecimento para seu grande espanto. Morava ali tanta gente! E morria ali tanta gente! A sua morte, porém, passava algo despercebida, ajustando-se higiénica e diplomaticamente ao ritmo de vida do sanatório como uma dona de casa bem governada que consegue sempre graciosamente desfazer-se de todo o lixo e desperdício."


Olga Tokarczuk, Empúsio, trad. Teresa Fernandes Swiatkiewicz, Lisboa: Cavalo de Ferro, 2023, p. 66. 

Sunday, July 12, 2026

INEXPLICÁVEL

 


"As palavras de Anapaola, a propósito, creio que estavam mais revestidas de rancor, de ressentimento, que de verdadeiro carinho por Davanzati. Somos muito dados a melindres, nós, os seres humanos (sobretudo muito dados a melindrar-nos com as pessoas de quem gostámos), e atrás de uma frase aparentemente bondosa, há mais dardos e alfinetes que num insulto. Também ela, por muitos pormenores que soubesse da vida dele, não conseguira fazê-lo compreender cabalmente. E, no entanto, seremos nós capazes de compreender alguém completamente, se até connosco próprios nos enredamos? A ciência é capaz de desentranhar quase todos os mistérios que há numa gota de sangue, até a mais remota e curiosa palpitação das mitocôndrias, mas compreende muito pouco o que pensa ou sente um ser humano no fundo do seu coração, onde outrora se supunha estarem alojados os sentimentos mais profundos. Face à emoção que desperta em nós um rosto, uma melodia, uma sequência de palavras, todas as explicações cessam, porque o que se sente é, é assim e é inexplicável."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 205. 

Saturday, July 11, 2026

BENEDICTUS

 



"Está com Deus. A margem
de estar ali o completa.
Uma enseada de felicidade
descobre o nome próximo da festa
que é estarmos vendo como Deus o sabe
por dentro da substância a ele aberta.
Está com Deus. Um regozijo de aves
respira o mundo em expansão. Quem pensa?"



Fernando Echevarría, «Introdução à Filosofia», in Obra Inacabada, Porto: Edições Afrontamento, 2006, p. 213.

Friday, July 10, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA 2

 


"Mas quem decide
assim
do teu destino
aldeia
alcandorada
em ossos
com tuas casas
moles
- mãe de sapos?

Quem passa
nestas ruas
ao luar
remoto mar
de lua
sobre os membros
melhor que o sonho
sonha sonegar.

Quem passa aqui
tem os membros de pedra
sabe de cor
a colecção dos sinos
sabe passar
sem pressa
e sem pensar
acode-lhe sorrir
ao cão do dia
saborear a fruta
e mastigar
dormir dormir
amamentar
sem pranto
um filho que paria.

E quando
os bois começam
no seu choro
babando as ruas
dobando o fio dos chifres
numa impossível teia
quem passa
nesta aldeia
ceia com vagares
e não sabe se sonha
cisma
ou devaneia."


Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 65-67.

Thursday, July 9, 2026

ALDEIA CIRCUNSCRITA

 



"Ainda teimaste
em som
sarcofagado
afago
solidon

aldeia circunstrita
a um saloon

funiculada imagem
suicida

pedrinha pobre
em seu castelo
bacoco

abriste
as pregas
às aves más
do tempo

tens sol
acumulado
nas narinas
e doem-te
os dentes
que afinal são d'oiro

velha porcelana
alambicada
onde o sangue
crisalidou
em chá

o mar
esse cansou-se
de apalpar teus
seios
de matrona exausta."



Armando da Silva Carvalho, Os Ovos D' Oiro, cadernos de poesia, n.º 7, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, pp. 63-64.

Wednesday, July 8, 2026

PROFANO

 


"Ele apercebeu-se da resistência por mim ainda antes de eu lhe responder o que quer que fosse, como, aliás, sucedia sempre.
- Já sei - exclamou resignado: - é a velha história. Não leves a coisa demasiado a sério! Mas sempre quero dizer-te o seguinte: estamos perante um dos pontos fracos bem evidentes nesta nova religião. Refiro-me ao aspecto de este Deus da Antiga e da Nova Aliança ser uma figura soberba, mas não representar aquilo que, efectivamente, seria necessário. Ele é o bem, o louvável, o amoroso, o belo e também o nobre e o sentimental... muito bem! Porém, o mundo é igualmente constituído pelo resto e tudo isto é muito simplesmente imputado ao Demónio; toda esta parcela do mundo, metade do universo, é soterrada e sepucralmente silenciada. Precisamente do mesmo modo que chamam a Deus «o pai de todos os seres vivos», mas se escusam a tudo quanto diga respeito à sexualidade, da qual toda a vida depende e, se bem calhar, consideram-na coisa do demónio e pecaminosa! Não tenho nada contra o facto de se adorar este Deus Jeová, absolutamente nada; mas acho que deveríamos adorar tudo, considerar tudo sagrado, todo o universo e não somente esta metade isolada e sancionada. Neste caso, teríamos de, a par do ofício divino, celebrar igualmente um ofício satânico. Isso já estaria correcto. Ou, então, deveríamos conceber um Deus que abarcasse também o demónio no seu seio, diante do qual não fosse necessário esconder-se quando sucedem as coisas mais naturais deste mundo."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 59. 

Tuesday, July 7, 2026

INDIVÍDUO

 


"A vida do indivíduo é uma caminhada em direcção a si mesmo, a procura de um rumo e o esboçar de um trilho. Jamais alguém, em momento algum, conseguiu tornar-se coerente com o seu interior; contudo, todos aspiram a alcançar essa harmonia. Quer a procurem com menor habilidade, quer persigam esse ideal com perspicácia, cada qual realiza-o conforme pode, mas todas as pessoas arrastam consigo e até ao fim restos do seu nascimento, mucos e membranas de um mundo primevo. Há quem nunca chegue a tornar-se num ser humano e permaneça rã ou lagarto ou então formiga. Há quem seja pessoa por cima e peixe por baixo. No entanto, cada indivíduo é uma criação da natureza em ordem ao homem. Procedemos de uma só origem - a mãe - e provimos da mesma embocadura; mas, seja qual for a pessoa, ela procurará elevar-se do abismo, em direcção ao seu destino. Sabemos entender-nos mutuamente, mas somente cada qual tem a capacidade para interpretar a sua própria vida."


Hermann Hesse, Demian, trad. Isabel de Almeida e Sousa, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 8. 

Monday, July 6, 2026

ÓRBITA DE VERÃO


 


"Oiço a pedra vasta
do calor.
Aceso, à sombra,
ao tronco
igualo
o silêncio do meu peito.
Insectos surdos
do olhar
fortificam
o instante."



António Ramos Rosa, Nos Seus Olhos de Silêncio, cadernos de poesia, n.º 14, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1970, p. 17.

Sunday, July 5, 2026

ASSISTÊNCIA

 


"Tal como nos outros países da Europa, também em Portugal a lepra se desenvolveu mais intensamente depois dos maiores contactos com o Oriente, através das Cruzadas. E também, como por toda a parte, aqui se disseminou uma rede de leprosarias, onde os gafos se isolavam, fugiam à execração pública e diminuíam o perigo de contágio.
Eram sobretudo numerosas no Norte do País, mas também bastante espalhadas pela parte central e pela beira-mar. Nunca, porém, atingiram as elevadas cifras que outras áreas da Europa registaram, porque o nosso país foi um dos menos atingidos pela doença."


Iria Gonçalves, Imagens do Mundo Medieval, Lisboa: Livros Horizonte, 1988, p. 61.

DESORDEM

 



"Na verdade, absolutizar uma única dimensão do ser humano é sempre errado. Com efeito, não é apenas a escassez que gera a desordem. Também aquilo que cresce sem medida pode tornar-se uma forma de pobreza. Num ecossistema, a harmonia rompe-se quando uma única espécie prolifera em detrimento das outras; o mesmo acontece no ser humano, quando uma faculdade pretende tornar-se a medida de tudo. Assim, a inteligência, se absolutizada, acaba por obscurecer outras dimensões essenciais da vida: o afeto, a vontade, a dedicação e a relação. O poder técnico, se não for equilibrado, não nos torna mais capazes: torna-nos mais sós e mais expostos a lógicas de domínio e de exclusão. Não se trata, evidentemente, de se opor à inteligência, mas de recordar que esta, quando se fecha em si mesma, esquece ter sido feita para servir a vida e a pessoa humana."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 114.

Friday, July 3, 2026

A RIQUEZA DAS NAÇÕES

 


"Hoje, entre os bens que se destinam universalmente a todos, devemos contar ainda as novas formas de propriedade: patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas tecnológicas e dados. Num contexto em que a riqueza das nações depende cada vez mais de conhecimentos e tecnologias, quando estes bens permanecem concentrados nas mãos de poucos, sem formas adequadas de partilha e acesso, cria-se um novo desequilíbrio que contradiz a destinação universal dos bens e alimenta o fosso entre incluídos e excluídos, entre quem pode participar na revolução digital e quem fica à margem. Além disso, o cuidado da Casa comum e a responsabilidade para com os pobres e as gerações futuras exigem que a utilização dos bens da criação e das novas possibilidades oferecidas pela técnica seja regulada de modo a respeitar o ambiente, evitando desperdícios e novas formas de pilhagem."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, p. 82. 

Thursday, July 2, 2026

DAS ESFERAS INDIZÍVEIS

 



" - São mesmo fofas, não são? - emocionava-se a Joana, cheia de instintos maternais.
Cereja entrava primeiro e sorria, Branca de Neve maliciosa com uma voz de cristal. Levantava um bocadinho as sobrancelhas, mordiscava um bocadinho os lábios, descia as pestanas por um segundo e começava a cantar, grácil, virginal, Madame Butterfly das esferas indizíveis, pelas campinas gentis voam lindas borboletas. Com suas asas subtis verdes vermelhas ou pretas. Encarnación aproximava-se por trás e com as mãos nos bolsos, postava-se muito direita ao lado dela e irrompia no coro com um baixo rouco e possante, ai quem me dera voar, como tão lindos bichinhos. Só para as rosas beijar sem me picar nos espinhos."


Clara Pinto Correia, Ponto Pé de Flor, Lisboa: Círculo de Leitores, 1991, pp. 82-83.

Wednesday, July 1, 2026

INSTRUMENTALIZÁVEL

 


"Entre estas ideologias, considero particularmente perigosa a que sugere o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor, a ponto de atribuir maior mérito àqueles que são mais eficientes e conseguem melhor desempenho. Nesta perspetiva, a pessoa acaba por ser reduzida a um meio para atingir resultados, um recurso a utilizar e explorar, deixando de ser reconhecida em si mesma como um fim, jamais instrumentalizável. O valor da pessoa, no entanto, não depende do que ela realiza ou produz, pois existem direitos que pertencem a todos, simplesmente por serem pessoas. Nenhum poder humano tem legitimidade para, arbitrariamente, os negar ou limitar."


Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas - carta encíclica, apresentação de Antonio Spadaro, Prior Velho: Paulinas Editora, 2026, pp. 70-71.