Friday, October 2, 2026

ARCANJOS

 



"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.

Wednesday, September 30, 2026

RELAÇÃO

 



"Respondi:
- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.

Tuesday, September 29, 2026

NO TEMPO DE ANGÚSTIA

 



"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»
Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"


José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.

Monday, September 28, 2026

PEDAÇOS DE LUZ

 



"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13. 

Sunday, September 27, 2026

HUMANIDADE

 



"Amei verdadeiramente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
- Então, absolvo-te, disse Pessoa, absolvo-te, julgava que na tua vida só tinhas amado a teoria.
- Não, disse Campos aproximando-se da cama, também amei a vida, e se as minhas odes futuristas e furibundas foram blague, se nas minhas poesias niilistas destruí tudo, até eu mesmo, fica a saber que também eu amei na minha vida, com uma dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve."


António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa - um delírio, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Quetzal Editores, 1995, p. 23.

ETIMOLOGIAS

 




"Depois de um tempo de alqueive
rasguei o fundo obscuro da palavra
para que o semeador de alfabetos
aí fizesse a sua lavra.
É nesta margem que garimpo vozes
soterradas no olvido,
ressuscitar a morte
é devolver à vida
um sentido."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 20.

Friday, September 25, 2026

NOS LONGES

 



"Invoco, nos longes, a minha presença impossível.
Os longes são permanentes.
Lá, onde a beleza reside, deliquescentes
azuis, sois e luares, são permanência intangível.

Lá.
Ser incluso pormenor naquela bruma,
esboçado apenas como um desenho por acabar.
Ser lá, presente como aqui; uma
como nenhuma
distância entre o meu ser aqui e o meu estar lá.

Ir-me além, naquele cerro a ascender-se.
Ver-me daqui a subi-lo.
Perguntar-me «o que é aquilo?»,
imperceptível mexer-se.

Eucaliptos, casas, montes,
águas, pedras, horizontes,
coisas finitas em si.
Outeiros, vales, caminhos,
sebes, rochedos, moinhos...
Tudo no mundo. E eu daqui."



António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 56-57.

Thursday, September 24, 2026

CATÁBASE

 




"Desci como Orfeu ao fundo dos infernos
para a purificação no fogo
e o renascer da ausência
e da dor que me persegue

Quero ser o leito para adormecer
e que Eurídice sobreviva no meu sono
e na imagem que passa no fundo da caverna
Nas trevas acendo a luz e o alimento

de uma esperança cega de nascença
Há sempre um mito
cravado na alma do poeta

mas a mãe grande de toda a utopia
é a reconstrução da migração das aves
a partir do caos."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 14.

Wednesday, September 23, 2026

ANJO

 



"Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em voz de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.
Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 37-38.

Tuesday, September 22, 2026

MOINHO SEM VELAS

 



"Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 18-19.

Sunday, September 20, 2026

O PENSAMENTO

 



"A Mãe Negra mantém-se atrás do pensamento, tal como a Perdida atrás do corpo que surge neste mundo. É assim que cada corpo que aparece no mundo é o seu vestígio. Tal como a fera está atrás da pegada que abandonou sem pensar no solo. A Perdida é a Sereia, onde além disso se misturam antigas escamas, velhas penas, grandes asas abertas para envolver o canto, feminino, soprano, apaziguador, que atrai. Na palavra grega seirén, ser significa ligar. A sereia é o próprio vínculo maternal: o atilho das faixas a jusante do apertado cordão umbilical. A palavra «seira» definia o «laço» nos citas. O pensamento é essa perdida voz singular, que religa entre si os ausentes, os defuntos, as pegadas, os excrementos, os vestígios, as impressões, as recordações, as imagens. A operação de pensar é essa «emoção» que transfere todos os nomes que os mortos carregam e todas as palavras que os mortos pronunciavam nos rostos e nos lábios dos vivos. Tal como a religação supõe a ligação, o pensamento supõe a ligadora, a Sirene, a Grande Mãe da fecundidade, a deusa de todas as mulheres, Hera. E, mais antiga ainda, a que preside aos partos, a mestre de todos os animais, deusa da montanha e da floresta, Ártemis caçadora - no templo da qual Heráclito, o servidor de Hera, recusando a realeza de Éfeso, vem depositar o seu livro antes de fugir para a montanha, veado entre os veados, de ouvidos à escuta entre os que estão de ouvidos à escuta, perseguido pelos cães que ladram e as crianças que o apedrejam."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, pp. 61-62. 

CELESTIAL

 



"Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O profundo silêncio de deus. O celestial silêncio dos anjos."



Graça Pires, «Antígona passou por aqui», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 217.

Friday, September 18, 2026

O LUGAR

 




"Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O imenso silêncio dentro de mim, na ansiedade das palavras distantes, quando, sem aviso, ele se afunda no meu peito insensatamente, como se fora um vício antigo transfigurando as sílabas. Como se uma inesperada sedução cristalizasse os poemas que escrevo de dentes cerrados, cativando a voz. Como se a linguagem se evadisse na incompletude dos sonhos."


Graça Pires, «Antígona passou por aqui», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 206.

Wednesday, September 16, 2026

ENTRE MURALHAS

 


"Pelo poder estranho dos sons, entre muralhas perpassa a divindade. E nenhum silêncio prenuncia, a Levante, que pressa me detém."


Vergílio Alberto Vieira, "A Adivinhação pela Água", in Este Refúgio Só Terei, Santarém: Rosmaninho Editora, 2026, p. 

Tuesday, September 15, 2026

ÂNSIAS DE MAR

 



"Não sabendo conversar e fugindo aos seus olhares como de grandes pecados, os seus silêncios pareciam distâncias dum tempo tão longo, que eles próprios se admiravam da vida não findar neles. E chegaram a maldizer, muito no seu interior, a sorte que os trouxera para ali, tão cheios de mocidade, apenas para se encontrarem, sozinhos em frente um do outro, batendo continuamente, em doidas ânsias de mar, de encontro ao que não venciam!"


António de Sèves, Leomil, Editora Lusitânia, Lisboa: 1921, p. 184 [ort. atual.]. 

Sunday, September 13, 2026

OMINOSO

 



"Que dia tão estranho.
Nenhum ramo a crescer,
Nenhuma folha, brisa alguma,
nem um rumor vivo na floresta.
Os meus olhos trepam devagar
a árvore onde moravas
E nenhuma pena caída,
Nenhum peso sobre os galhos
Nem rasto de ti.

No lugar do teu canto, um grito de carvão."


Virgínia do Carmo, Um corte leve na polpa dos dedos, Lisboa: Poética, 2026, p. 35.

LOUCURA

 




"A janela está entreaberta
indecisa entre a brisa e o peso
de um rouxinol, mudo de nascença.

A corrente de ar que nasce desconhece
o rigor cartesiano da sua formação
e crê ser melodia o seu rumor,
pauta deslocada da estante que
tombou entretanto, empurrada
pela vibração do canto imaginado.

Este meu devaneio é só para dizer,
na verdade, que sou íntima da loucura."



Virgínia do Carmo, Um corte leve na polpa dos dedos, Lisboa: Poética, 2026, p. 17.

Saturday, September 12, 2026

À ESPERA

 



"À espera
de ser

luz

setembro
cansa

a terra sobre
o corpo"



Vergílio Alberto Vieira, "Os Sinais da Terra", in Este Refúgio Só Terei, Santarém: Rosmaninho Editora, 2026, p. 100.

Friday, September 11, 2026

ANDARILHOS

 



"Decorridos alguns segundos, que pareceram longuíssimos, Pessoa interrogou-nos com a distraída vacuidade de um gesto. Logo porém, e agora de viva voz, continuou o que lhe iria dentro e, evidentemente, sem de mim esperar qualquer espécie de resposta.
- Sabe, inspector? É essa gente turística que vai ao Louvre, onde, como presumo que o senhor não ignora, eu nunca fui. Incapazes de reflectir, esses andarilhos do simplesmente ver para dizerem aos outros que já viram, olham fatalmente a mobilidade oculta da estátua-enigma e limitam-se a lhar. Vêem que ela tem partidos os braços, que é como quem diz, que ela não tem braços. Só que tal rebanho não goza da capacidade para se interrogar, e eu pergunto-me qual na verdade seria, pela orientação dos cotos, o sentido exacto do seu gesto."


Fernando Luso Soares, O Poeta Era um Fingidor, Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 26.

Wednesday, September 9, 2026

COLECÇÃO

 



"Coleccionava pormenores singulares
da linguagem: a presença do sujeito,
a exuberância do verbo,
a descrição da paisagem
Perdia-se em figuras de estilo
quando entrava no interior de cada livro,
recolhendo os lugares desabitados
nas palavras ambíguas, indecisas,
quase misteriosas.
Analisava as modulações de cada sílaba,
reescrevendo-a sobre a pele.
De tanto procurar, colou-se-lhe ao corpo
o equívoco de uma sombra impessoal
que não reconhecia como sua."


Graça Pires, «A solidão é como o vento», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 135.

Tuesday, September 8, 2026

O HOMEM ROMÂNTICO - NATUREZA

 


"O homem romântico sabe que morre, com uma exasperante consciência da morte. Ele sabe que existe apenas para e por uma breve duração. [Como uma linha que tanto é nova, como velha, tal qual o indivíduo que se renova na morte e envelhece por meio de infindos nascimentos.] O mundo existiu antes dele e existirá depois dele, sem a sua presença. Esta certeza ultrapassa as possibilidades do pensamento."


João Miguel Fernandes Jorge, «A Hora da mais Curta Sombra», in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 107.  

Sunday, September 6, 2026

AS DE MAIOR ENGANO

 


"O meu amigo, que não via há muito, regressou à sua cidade, à sua aldeia, à sua casa, ao seu sepulcro de pedra.
O melhor é esquecermo-nos das coisas visíveis e não deixarmos fugir as de maior engano, vindas de nenhum tempo."


João Miguel Fernandes Jorge, «Por entre os caminhos do bosque", in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 72.

Saturday, September 5, 2026

MEMÓRIA DO MAR

 




"Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda.
Amarrando os barcos."


Graça Pires, «Uma claridade que cega», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 90.

Friday, September 4, 2026

DO TEMPO

 



"Do tempo
Relógio solar
Filtro de areia e marca de água
Combinação de terra argila e pedras
E a mão primeira onde nasceu o sangue
Talhando ancestral a imagem de deus"


José Pedro F. Leite, Outros Litorais, ed. autor, 2009, p. 84.

Thursday, September 3, 2026

OFERENDAS

 


"Outras pessoas tinham estado ali antes dele - de resto, sentia uma curiosa sensação de companheirismo. Pequenas oferendas votivas ao Poder supremo achavam-se fixadas à casca - minúsculos braços, pernas e olhos de lata, grotescas maquetas de cérebros ou de corações -, símbolos de alguma recuperação de força, sabedoria ou amor. Não havia ali nada que se assemelhasse à solidão da natureza, dado que até as mágoas e as alegrias da humanidade tinham passado para o seio da árvore. Ele abriu os braços, apoiou-se na madeira macia e carbonizada e, depois, lentamente, inclinou-se para trás, até o corpo estar encostado atrás de si. De olhos fechados, teve a estranha sensação de alguém que se move e, ainda assim, se acha tranquilo - a sensação de um nadador que, depois de se debater muito tempo contra mares agrestes, descobre que, afinal de contas, a corrente arrastá-lo-á para o seu destino."

 

E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 97. 

Wednesday, September 2, 2026

DÉCIMO OITAVO ANO




"A manhã move a pedra sem raiz
O seu repouso de árvore em flor.
Qualquer astro é menos que o repouso
De uma pedra em flor."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 23. 

GRANDES MANIFESTAÇÕES

 



"Eustace Robinson, de catorze anos, achava-se de camisa de noite, a saudar, a louvar e a abençoar as grandes forças e manifestações da natureza.
Falou primeiro da noite e das estrelas e dos planetas sobre a sua cabeça, das miríades de pirilampos e das grandes rochas cobertas de anémonas e conchas que dormiam no mar invisível. Falou de rios e de quedas-d'água, de cachos de uvas a amadurecerem, do cone fumegante do Vesúvio e das chaminés ocultas que produziam o fumo, da profusão de lagartos que se achavam enroscados nas quentes fissuras da terra, e das bátegas de pétalas de rosas brancas emaranhadas no seu cabelo. E, depois, falou da chuva e do vento que tudo modificam, do ar por meio do qual tudo vive, e dos bosques onde tudo se pode ocultar."


E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 85.

Tuesday, September 1, 2026

EX MACHINA

 


"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.
- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."


E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41. 

Monday, August 31, 2026

MURO IMPENETRÁVEL

 




" - Aquelas montanhas à nossa direita... deixe-me mostrar-lhas. - E afastou uma persiana de metal. Viu-se a cordilheira principal dos Himalaias. - Outrora chamavam o Tecto do Mundo àquelas montanhas.
- Que nome tão tolo!
- É preciso ter em mente que, antes do alvor da civilização, elas pareciam ser um muro impenetrável que tocava nas estrelas. Supunha-se que só os deuses poderiam viver acima dos seus cumes. Como nós progredimos, graças à Máquina!
- Como nós progredimos, graças à Máquina! - concordou Vashti.
- Como nós progredimos, graças à Máquina! - repetiu o passageiro que deixara cair o Livro na noite anterior e que se encontrava no corredor."


E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 30.

Sunday, August 30, 2026

O SONHO

 



"O sonho, para a alma, é tal qual
O que ao sangue é este ar que se respira;
E já que existe a febre, natural
É o triste desvairar de quem delira.

Dirão que o Sonho não é afinal
A mentira de Deus? Isso que tira?
Pois da verdade altíssima, o sinal
Mais claro não será a vã mentira?

Não dá sinais do mar a névoa, ao vê-la?
E o fumo, não será sinal de chama?
E a sombra não será sinal da estrela?

E da piedosa morte apetecida
Não é um roxo sinal, que se não ama,
Este sinal tristíssimo da vida?"



António Corrêa de Oliveira, «Raiz», in Antologia I - Líricas, Porto: Livraria Tavares Martins, 1959, p. 27.

AO MUNDO SUJEITO

 






"O tempo, afirmam, tudo encinza e apaga;
E não! só ele é o fumo que se esfuma,
Mais não valendo, não, que vaga espuma
Da eternidade, em vaga sobre vaga.

Mas, homem sou: e tenho visto a chaga
Curar por si, sem ligadura alguma.
(Dos pinheirais ao vento, na caruma
Tombam chamas do lar, de baga a baga.)

Talvez em mude: ao mundo ando sujeito;
Porém, de mim, não tiro a dor ao peito,
Como ao peito não tiro o coração.

E, se a alegria me dissesse: - «Amigo:
Desejas esquecer-te? Anda comigo...»
Eu, simplesmente, respondera: -«Não!»"




António Corrêa de Oliveira, «Saudade Nossa», in Antologia I - Líricas, Porto: Livraria Tavares Martins, 1959, p. 283.

Thursday, August 27, 2026

OPINIÕES

 



"Mrs. Allerton colocou as lunetas e estudou-o com agradável interesse.
- Ai sim? E porquê?- inquiriu Poirot.
- Veja as Pirâmides. Grandes blocos de alvenaria inútil, construídos para satisfazer o egoísmo de um rei despótico e soberbo. Pense nas multidões cobertas de suor que mourejaram a construí-las e morreram durante a construção. Fico doente só de pensar no sofrimento e na tortura que elas representam.
Mrs. Allerton disse jovialmente: - O senhor preferia não ter Pirâmides nem Parténon, nem túmulos ou templos maravilhosos... apenas a satisfação de saber que as pessoas comeram três refeições por dia e morreram durante o sono.
O jovem transferiu para ela a sua expressão carrancuda.
- Sou de opinião que os seres humanos são mais importantes do que as pedras.
- Mas não resistem tanto - observou Hercule Poirot.
-Preferia ver um trabalhador bem alimentado a qualquer pretensa obra de arte. O que importa é o futuro... e não o passado."


Agatha Christie, Morte no Nilo, trad. Isabel Alves, Porto: Asa Editores, 2005, pp. 78-79.

Wednesday, August 26, 2026

GRADAÇÕES DA LUZ

 



"Quando o dia oferece à paisagem
todas as gradações da luz,
a escrita não se fatiga das palavras.
O poeta é então um artífice discreto
pressentindo no olhar, sem explicações,
o manejo das mãos enfeitiçadas
pelo gesto acabado, a marginar um sonho."


Graça Pires, «Uma claridade que cega», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 91.

Tuesday, August 25, 2026

UNIVERSO

 


"O universo era um lugar sagrado que os homens de outrora encheram da loucura dos deuses. Agora, o sentido da palavra terá surgido do nada, ignorando os limites do infinito. Sabemos que a explosão cósmica nos trouxe cada estrela, cada ponto de luz, cada lugar da escuridão que nos inquieta. O movimento dos astros, acreditam alguns, determina o destino, destino esse que escolhemos dia a dia até à morte."


Graça Pires, «Caderno de Significados», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 47. 

Monday, August 24, 2026

CORAÇÃO


 

"Poirot agarrou-lhe no braço.
- Esteja calada. Calada, ouviu?
Jacqueline olhou para ele.
- Então? - perguntou. O seu sorriso era absolutamente provocante.
- Mademoiselle, peço-lhe, desista do que está a fazer.
- Deixar a querida Linnet em paz? É o que está a dizer?
- É mais profundo do que isso. Não abra o coração ao Mal.
Ela abriu os lábios; uma expressão de perplexidade assomou-lhe aos olhos."


Agatha Christie, Morte no Nilo, trad. Isabel Alves, Porto: Asa Editores, 2005, p. 62.

Sunday, August 23, 2026

MUNDO DENTRO DO MUNDO

 



"Penetraram por fim num mundo dentro do mundo - num vale enorme, cujas pequenas elevações como que eram formadas pelos destroços das alturas. Um dia de caminho naquele ponto parecia não levá-los mais adiante que passos dados em pesadelos. Penosamente costearam durante horas uma «montanha» e por fim viram que não passava de um morrozinho que ao longe era nada diante do maciço principal. Um pasto que visto de longe parecia coisa de presépio, ao ser alcançado tornava-se num enorme planalto. Três dias depois, novamente visto de longe, voltava a ser a mesma coisinha de presépio.
- Aqui é que devem viver os deuses - murmurou Kim impressionado pelo silêncio e pelo pavoroso dispersar das nuvens depois das cargas de água. - Isto não é lugar de gente."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 240-241.

Saturday, August 22, 2026

PONTO FUNDAMENTAL

 


"O ponto fundamental do conto é a experiência mística que os três cavaleiros buscam, algumas vezes acompanhados por Artur, através da visão do Santo Graal. A religiosidade do escritor é, entretanto, rude e bárbara. A nova lei, o cristianismo, teve de ser imposta na ponta da espada. Percival, depois de uma grande matança de infiéis que estavam infiltrados em meio aos habitantes do castelo, diz: «Eles, que não querem acreditar em Deus, devem morrer como loucos e os demônios». Ele «imediatamente matou todos os outros, pois não estavam dispostos a acreditar. No castelo, então, não havia mais nenhuma pessoa descrente». As forças que lutavam nas Cruzadas tinham o mesmo sentimento. Ricardo assassinou cruelmente centenas de prisioneiros, e Saladino declarou que, enquanto um só pagão permanecesse vivo, somente a morte o faria baixar a espada."


Elizabeth Jenkins, Os Mistérios do Rei Artur, trad. Luiz Carlos Rodrigues de Lima, São Paulo: Companhia dos Melhoramentos, 1994, p. 100. 

DITOS

 


" - Eram bonitas, não eram? Prometo-te que há-de haver outras...
O sedutor e seu filho tomaram conjuntamente a decisão dilacerante de não as levarem. Gabriel chegara a propor dar-lhes hospitalidade na sua mala pessoal. Mas não, elas não teriam aguentado o caos da viagem.
- Bem vês, Gabriel, as mulheres são ao mesmo tempo muito frágeis e muito pesadas."



Erik Orsenna, A Exposição Colonial, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 68.

Thursday, August 20, 2026

OS DESASTRES DA GUERRA

 


"(...)

Na de S. Bento quebraram o Santo, queimaram o púlpito e parte do sobrado e as gavetas dos caixões, demoliram o altar, roubaram hum calis, humas cortinas, hum frontal branco de damasco, branco, duas vestimentas, huma branca de damasco e outra verde. Incendiaram vinte e duas casas e asa que não o foram, ficaram estragadas, queimando-lhe todos os móveis, sobrados, frontaes, forros, et cetera.
Mataram coatro mulheres e três homens.
Roubaram duzentas e setenta e duas ovelhas, cento e trinta e seis cabras, duas mullas, cinco jumentos, trezentos e doze alqueires de pam, mil e trezentos e quinze alqueires de milho grosso, cento e trinta e seis alqueires de feijam, coatro de trigo, dezanove galinhas. Queimaram ou roubaram sete carros e seis trados.
Roubaram quase todas as roupas de lam e linho, innutilizando a outra, ficando a maior parte dos habitantes só com o vestido que traziam, e sem cama pera dormirem. E athé muitos enfermos que jaziam nas duras táboas, sem terem com que se cobrir. E assim, tem morrido muitos, como eu tenho observado.
Hé o que o povo afirma, que por ser verdade, me assigno.

Torroselo, 27 de Setembro de 1811.
O Cura, José Garcia de Abranches"


Sérgio Alves, Cartas dos Grandes e Graves Prejuízos - Relatos da Invasão Francesa nos Concelhos de Seia e Gouveia, ed. do Autor, 2025, p. 116.

CHUREL

 



"Um pesadelo vem muito a propósito. Assim:
- Urr-urr-urr. Ya-la-la-la. Naraim! O churel! O churel...
Churel é o perigosíssimo fantasma de uma mulher que morreu de parto. Assombra as estradas desertas, tem os pés voltados para trás e atormenta os homens."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 144.

Tuesday, August 18, 2026

CEMITERIAL

 



"No regresso (alcaçuzes ou doces de coco de quilómetro a quilómetro), explicava-me as suas ideias acerca da morte.
- É claro que ela não está aqui, Gabriel, mas os mortos não são como nós, viajam muito mais do que nós. E vou dizer-te um segredo (e baixava a voz): todos os cemitérios do mundo estão ligados uns aos outros, não te esqueças nunca disto, todos os cemitérios estão ligados uns aos outros."

Erik Orsenna, A Exposição Colonial, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1989, p. 34.

Monday, August 17, 2026

AS FACES


 



"Laura corara até aos lóbulos das orelhas.
As faces diziam que lá dentro lavrava lume de amor. Não lavrava nada. O corar é uma cláusula de temperamentos. Tem a mesma origem que a vertoeja, e a herpes e a impingem. O sangue que acereja a epiderme das faces revela, quanto muito, a compleição sanguínea da pessoa."

 
Camilo Castelo Branco, A Mulher Fatal, 10.ª ed., conforme a 2.ª, a última revista pelo autor, Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1968, p. 54.

Sunday, August 16, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE 2

 



" - Mas como vai reconhecer o tal rio? - indagou Kim, acocorando à sombra de uma árvore.
- Diante do Rio, uma graça divina iluminar-me-á. Não é este o Rio que procuro, não estou a sentir que não é. Ó regato pequenino, se pudesses dizer-me onde corre o meu Rio!... Mas apesar da tua mudez, bendito sejas, tu que fazes pojar os campos.
- Olhe, olhe! - gritou Kim lançando-se ao velho e puxando-o para trás. - Uma ondulação pardo-amarela mexeu-se entre os caniços e espichou a cabeça para a água, uma enorme cobra de olhos sem pálpebras muito fixos.
- Um pau, um pau, para quebrar-lhe a espinha! - gritava o menino, procurando em redor.
- Para quê? Ela está, como nós, amarrada à Roda que sobe e desce, e muito longe ainda da libertação. Grande pecado deve ter cometido a alma presa a esse invólucro!
- Detesto todas as cobras - confessou Kim, que tinha no sangue branco a correr-lhe nas veias o instintivo horror ocidental pelas serpentes.
- Ela que viva a sua vida - murmurou o lama com placidez, enquanto a cobra sibilava e distendia o capelo. - Possa a tua libertação chegar em breve, irmã. Terás tu por acaso conhecimento do meu Rio?
Kim estava impressionado.
- Nunca vi homem assim - murmurou. - Será que as cobras compreendem as suas palavras?
- Quem sabe lá?"


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, p. 51.

Saturday, August 15, 2026

SANTO DE VERDADE

 




"Vieram a saber que já tinha sido mestre na leitura das mãos e dos horoscópios, e pediram-lhe que expusesse os seus métodos, cada qual dando aos planetas nomes que o lama não podia entender. As crianças da casa vinham-lhe mexer nas contas do rosário; e o velho esqueceu a regra que lhe mandava não pôr olhos em mulheres, ao narrar os incidentes da sua peregrinação, as grandes neves encontradas, as avalanchas nas montanhas, os desfiladeiros bloqueados, os remotos países de safira e turquesa por onde passa a estrada maravilhosa que vai ter à Grande China.
- Que pensa deste homem? - perguntou o lavrador ao sacerdote.
- Que é um santo, um santo de verdade. Os seus deuses não são os nossos, mas ele firma os pés no Caminho. E os seus horoscópios parecem cheios de base."


Rudyard Kipling, Kim, trad. Monteiro Lobato revista por João Filipe Ferreira, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 45-46.

Friday, August 14, 2026

DOS LUGARES DOS IBEROS

 




"Verânio, que dos meus trezentos mil
amigos és o primeiro, será que
regressaste a casa, aos teus Penates,
aos teus adorados irmãos e irmãs e à tua velha mãe?
Regressaste! Ó felizes novas!
Visitar-te-ei, agora são e salvo, e ouvir-te-ei falar
dos lugares dos Iberos, dos seus feitos, das suas gentes,
como é teu hábito, e pendurado ao teu pescoço
a boca adorada e os olhos te beijarei.
Oh, de todos os homens felizes do mundo,
algum mais alegre e feliz do que eu será?"


Catulo, Os Poemas, 9, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 42.

Wednesday, August 12, 2026

NO PALÁCIO DE XERAZADE

 



"antes do véu da noite
já os medronheiros
anoitecem o jardim

rendilhados estáticos
amparam ainda a luz
enlanguescida do céu
em devaneios góticos

a luz
desprende-se
sobre as copas-escudos
assim
na atmosfera
se acolhesse o dia
e
no jardim
se resguardasse toda a negridão
da noite
a quietude
estende-se
pelos ramos
e desce à vegetação
do solo

rosas
desfolham-se
pelo céu

serenidade
                            silêncio
                                        antar mouna"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 107-108.

O ECLIPSE

 



"Aquele que discerniu todas as luminárias do grande mundo,
               que das estrelas conheceu a ascensão e também o declínio
como o brilho flamejante do Sol impetuoso e obscurecido,
              como astros se retiram em certas épocas"


Catulo, Os Poemas, 66, trad. André Simões e José Pedro Moreira, Lisboa: Edições 70, 2026, p. 147.

IDENTIDADE

 


(Lourdes Castro)


"E tu, e nós quem somos? Figuras que emergem ou se desvanecem, palpites, rabiscos indecifrados. Palavra, sussurro, alusão, passo no silêncio."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 65. 

Tuesday, August 11, 2026

CLARA


"Um dia veio ter com ela uma irmã cheia de santo fervor e rogou-lhe que lhe emprestasse o cilício de crinas de cavalo. Foi-lhe deferido o pedido, e sentiu grande consolação espiritual, mas, logo que experimentou usá-lo, os nós feriram-na de tal modo que julgou morrer de dor. Imediatamente, o tirou e restituiu à santa abadessa. Então esta, sorrindo, disse-lhe que na qualidade de mãe tinha de se mortificar mais, não só por si mas por todas as almas que lhe estavam confiadas."


Joaquim Capela, o.f.m., Santa Clara de Assis, Braga: Edição das «Missões Franciscanas», 1949, p. 95.

 

Monday, August 10, 2026

COISAS REAIS

 


"«Uuuhhh...» guinchou prostrado no chão  «uuhh... uhm... um... umm... umm... um...» e nestes sons profundos e moles desejava perder-se, derreter a cabeça, o peito. Sentiu como sempre que chegava a um limite, a um limiar extremo. Em que lhe era dado ainda o parar, voltar atrás, manter vivo na noite o lume, na tempestade. E agarrou-se a palavras, aos nomes de coisas reais, visíveis, concretas. Pronunciou em voz alta: «Terra. Pedra. Desvario. Casa. Forno. Pão. Oliveira. Alfarrobeira. Sumagre. Cabra. Sal. Burro. Forte. Templo. Cisterna. Muralha. Piteira. Pinheiro. Palmeira. Castelo. Céu. Corvo. Pega. Pomba. Tentilhão. Nuvem. Sol. Arco-Íris...» pronunciou como se quisesse redenominar, recrear o mundo. Recomeçar a partir do momento em que nada havia acontecido, nada se perdera ainda, e as coisas se desenrolavam serenas, sereno o tempo."


Vincenzo Consolo, De Noite, Casa por Casa, trad. José Colaço Barreiros, Lisboa: Teorema, 1996, p. 40.