Friday, October 23, 2026

NUM FABULÁRIO AINDA POR ENCONTRAR

 



"A uma bordadora de um paiz longinquo foi encommendado pela sua rainha que bordasse, sobre sêda ou setim, entre folhas uma rosa branca. A bordadora, como era muito jovem, foi procurar por toda a parte aquella rosa branca perfeitissima, em cuja semelhança bordasse a sua. Succedeu que umas rosas eram menos bellas do que lhe serviria, e que outras não eram do branco que ella buscava. Gastou dias sobre dias, chorosas horas, buscando a rosa que imitasse com sêda, e, como nos paizes longínquos nunca deixa de haver pena de morte, ella sabia bem que, pelas leis dos contos como este, não podiam deixar de a matar se ella não bordasse a rosa branca.
Porfim, não tendo outro remedio, bordou de memoria de não sabia que rosa, a rosa branca que lhe haviam encommendado. Depois de a bordar foi comparal-a com as rosas brancas que existem realmente nas roseiras. Succedeu que todas as rosas brancas se pareciam exactamente com a rosa que ella bordara, que cada uma d«ellas era exactamente aquella.
Ella levou o trabalho ao palacio e deve ter casado com o Principe."


Fernando Pessoa: O Guardador de Papéis, org. Jerónimo Pizarro, Lisboa: Texto Editores, 2009, pp. 368-369.

Wednesday, October 21, 2026

A MIM CRIANÇA ASSUSTADA

 




"Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com as mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem.
Esconjuro os sustos."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 202.

Tuesday, October 20, 2026

EXPEDIENTE

 



"Nessa altura, o hábil negociante recorreu a um expediente desesperado para não perder a posição que ocupava no seio da comunidade. Tendo até ali permanecido solteiro, resolveu então contrair casamento e escolheu para noiva uma jovem senhora cuja posição social tornasse impossível o ostracismo a que estava condenado. É mesmo possível que ele tivesse razões profundas para querer casar; razões de tal modo exteriores à nossa esfera cósmica que só pelos documentos encontrados século e meio depois da sua morte se veio a suspeitar, embora continue a ignorar-se quais terão sido."

 

H. P. Lovecraft, O Caso de Charles Dexter Ward, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987, pp. 25-26. 

Monday, October 19, 2026

A LEVANTE DO DESTINO




"Há falsos profetas a levante do destino.
É preciso fechar por dentro
as águas-furtadas da sorte.
Emparedar os passos.
Não vá haver, por aí, interditos anjos
a violentar-nos o andar.
Apenas o silêncio é comum às mãos
que acolhem todas as tempestades,
sem desviar os olhos da quietude de um abraço:
labirinto onde aceitamos ser felizes
sem qualquer condição.
Terra natal de todos os desejos.
Sudário das nossas solidões."



Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 76.

Sunday, October 18, 2026

A PASSAGEM DO TEMPO

 




"Dantes a passagem do tempo deixava-se adivinhar
nos contornos imperfeitos das pedras que pisamos.
Os antigos conheciam os segredos dos caminhos
e dos muros e contavam velhas estórias
de sustos e de choro.
Agora, como marionetas cujo fio mágico
irrompe, giratório, à boca da cena,
assim a dança dos dias no calendário.
Com sinais de urgência.
Com movimentos apressados onde o caos se instala.
Com vozes que são água tão funda sob o peito
que perturbam o imenso silêncio das estrelas."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 169. 

Saturday, October 17, 2026

IMAGENS IRMÃS

 



"O olhar sucumbe ante as imagens.
Fulgor de desordem, dança, ecos,
acorde e graça, silenciosa
tempestade. A vibração

contínua do espaço,
uma imensa praia vertical
azul.
Entrechoques, densidade, alegria,
imagens irmãs atravessadas
atravessando, sufocadas, sufocantes,
é preciso detê-las numa curva de frase,
numa equivalência que será o seu reverso."


António Ramos Rosa, "Mediadoras", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 998-999.

FORTIFICADA

 



"O Rei Gilgamés enuncia em Uruque: Ou uma cidade ou a selva.
O Rei de Uruque ama a cidade fortificada cujas leis decide, cuja imagem denteada coloca sobre os cabelos, cujas mulheres domina pelo direito que decreta sobre elas, gosta de caçar fora dos muros os animais ferozes do mundo selvagem. Porém, de repente, um dia, algo acontece; apaixona-se pela fera ao apaixonar-se por Enquidu; ama aquele que morre; continua a amar aquele que está morto. Decide dirigir-se à morada dos mortos para tentar reencontrar o seu companheiro. É o primeiro romance escrito neste mundo, no final do quarto milénio antes de Cristo."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 146.

Friday, October 16, 2026

INTRANSPONÍVEL

 


"Tal como o abismo celeste entre os imortais e aqueles que morrem é intransponível, o abismo individual (entre si mesmo e a sua fonte) é intransponível."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, p. 110. 

Thursday, October 15, 2026

O CULTO DOS LUGARES

 



"Abençoado por rituais que decifram
tudo o que está para além de tudo
ele reconhecia os lugares sagrados.

Na demanda de árvores prenhes de luz
escutava a voz úbere da terra
e o cântico subterrâneo das fontes.

Sobre a humidade da folhagem
vêm agora aves solares
em silenciado voo purificar-lhe os passos
com rasgos de confidência
para que sempre lhe pertença
a simbologia e o culto dos lugares."


Graça Pires, «O improviso de viver», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 250.

Tuesday, October 13, 2026

VOAR NOUTROS CÉUS

 


"347

A Arte é uma coisa (um objecto) que sorri ou sofre (um sentimento) e que, desde o seu ninho, pode voar noutros céus e, nunca se sabe como, transformá-los. Cada um dos seus instantes saberá, ou não, como."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, pp. 80-81. 

Monday, October 12, 2026

DA MISÉRIA HUMANA

 


"294

O homem que sou, e o mundo em que vivo, sempre em estado de desgraça, essa trágica fonte de poesia. O poeta, em estado de graça? A musa bebe na miséria humana, na ironia terrível da natureza."


 Casimiro de Brito, Fragmentos de Babel seguido de Arte Poética, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007, p. 69. 

Sunday, October 11, 2026

OLHAR ABSTRACTO

 



"Se me debruçar sobre o olhar abstracto, desvinculado mentalmente de todos os órgãos, e considerar como esse olhar abstracto, no seu ser contraído, de acordo com o qual os que vêem vêem mediante o próprio olhar, está contraído relativamente ao tempo, às zonas do mundo, aos objectos singulares, etc., e a tais condições e que esse olhar abstracto é de modo semelhante abstraído e desvinculado dessas condiçõesm compreendendo então que não pertence à essência do olhar olhar mais para um do que para outro objecto, embora constate que o olhar, no seu ser contraído, não pode, enquanto olha para uma coisa, olhar para outra ou absolutamente para todas as coisas. Deus, porém, na medida em que é o olhar verdadeiro, não contraído, não é inferior àquilo que o intelecto pode conceber sobre o olhar abstracto, mas improporcionalmente mais perfeito. Por isso, o que do olhar do ícone aparece pode aproximar-se menos da sumidade da excelência do olhar absoluto do que o conceito. Assim, não se deve duvidar de que aquilo que aparece naquela imagem se encontra de um modo excelente no olhar absoluto."


Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad. João Maria André, Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, pp. 138-139. 

Friday, October 9, 2026

NOBEL




"Queres ver como as coisas corriam do ponto de vista do marido -
vamos até lá atrás,
ali a esposa
agarrando os cotovelos com as mãos e de frente para o marido.
Lágrimas não diz ele, lágrimas outra vez não. Mas ainda assim elas caem.
Ela observa-o.
Desculpa diz ele. Acreditas em mim.
Observa.
Nunca te quis magoar.
Observa.
Isto é banal. Parece Backett. Diz alguma coisa!
Creio

que chegou o teu táxi disse ela.
Ele olhou para a rua lá em baixo. Ela tinha razão. Aferroou-o.
o pathos da aguda audição dela.
Ali estava ela, uma pessoa de traços particulares,
um certo coração, a vida dentro dela a pulsar em frente.
Ele faz sinal ao taxista, cinco minutos.
Agora as lágrimas dela pararam.
Que fará ela depois de eu ir? pergunta-se ele. A noite dela. Cortou-se-lhe a respiração.

A sua estranha noite.
Bom disse ele.
Sabes começou ela.
O quê.
Se pudesse matar-te depois teria de inventar outro exactamente igual a ti.
Porquê.
Para lhe contar isto.
A perfeição repousou sobre eles por um momento como a calma na superfície de um lago.

A dor repousou.
A beleza não repousa.
O marido tocou a têmpora da mulher
e voltou-se
e correu
escada
abaixo."


Anne Carson, A beleza do marido, 2.ª ed., trad. Tatiana Faia, Lisboa: não (edições), 2020, pp. 67-68.

Tuesday, October 6, 2026

NOVO

 



"Por definição, o novo é a parte das coisas que desaparecerá. O perigo do novo é o de o deixar de ser automaticamente, e deixa-o com um simples prejuízo. Como acontece com a juventude e a vida. Criar qualquer oposição a tal prejuízo equivale a actuar e a construir contra o novo.
Assim, busca o novo como um artista é tratar de desaparecer ou procurar sob o nome do novo, algo completamente distinto e expor-se a um equívoco."


Paul Valéry, Apontamentos. Arte, Literatura, Política & Outros, trad. Luís Fernando Quaresma, Lisboa: Editora Pergaminho, 1994, p. 22.

Monday, October 5, 2026

O ESPANTO

 


"O Deus a que me liguei é mais um estado de enamoramento do que um nome próprio. É o espanto, o respeito e mesmo o amor pela realidade do mistério que nos envolve. São isso os seres humanos: nada de mais grandioso e misterioso, rodeados de promessas que ainda não fomos capazes de cumprir. Eu sei que os acontecimentos que sucedem na terra podem ser horríveis, mas a fé é uma aposta que nos ajuda a compreendê-los e a saber que tudo assim acontece porque fomos feitos com liberdade."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 145. 

PÁTRIA

 




"Ciganus

Não lhe serve de nada;
É a bandeira do castelo. Uma rajada
Sem dúvida, Senhor, quebrou o mastro e leva
Num frangalho o pendão errante pela treva.


Opiparus

Óptimo! de manhã flutuará no baluarte
Pendão novo. Tem cinco quinas o estandarte;
Uma quina de mais; suprime-se, é evidente:
Nos baralhos, Senhor, há quatro unicamente."



Guerra Junqueiro, "Pátria", in Obras (Poesia), 2.ª ed., Porto: Lello & Irmão - Editores, 1974, p. 573.

Sunday, October 4, 2026

RELAÇÃO COM DEUS

 



"A vida de S. Francisco de Assis, por exemplo, só é compreensível noutro contexto social e noutra mentalidade: S. Francisco, e todos os seus irmãos, seriam hoje uns maluquinhos, masoquistas com uma relação com Deus, com o mundo e com os homens que não sei se deverá ser seguida nos nossos dias, mas ficou aquele grande exemplo do amor, do despojamento e da paz.
Acho que nós temos tido mais moral do que religião. Não é da essência de uma religião impor modelos de comportamento e não é necessária uma religião para se ter um comportamento digno. É isso que me faz sentir que a relação com Deus está muito para além daquilo que temos que dar aos outros na área dos comportamentos."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 102.

SAIR DA TERRA

 




"A Bárbara interrompeu:
- Eu acho que estou nesse estado. É quando estamos sem Deus que temos uma indefinível necessidade dele. Eu sinto esse vazio, essa imensa falta na minha inteligibilidade, como se o mundo pudesse passar sem Deus mas as pessoas não.
- No fundo, eu continuava com uma concepção teória de Deus mas tu fizeste-me vir à terra e começo a pressentir a necessidade de viver tudo isto com intensidade. Eu estava preguiçoso em relação a Deus. como tu dizes, eu andava para aqui a empatar."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 65.

SERAPHICUS

 





"Seráfico Francisco, assinalado
Naquelas cinco partes, onde estava
Amor, quando por si te trasladava
Para mostrar em ti o seu traslado:

Assi como na Cruz fora pregado,
Assi consigo mesmo te pregava:
Das chagas de que nela se chagava,
Dessas mesmas te deixa a ti chagado.

Que seguro te deu da glória sua,
Selado com seu selo impresso, escrito
Vivendo na vencida carne tua!

Vencida é tão conforme a teu espírito,
Que nem se apartou dela em terra nua,
Qual o Senhor da Cruz em ti bendito!"



Frei Agostinho da Cruz, Sonetos e Elegias, ed. António Gil Rafael, Lisboa: Hiena Editora, 1994, p. 67.

Friday, October 2, 2026

ARCANJOS

 



"A Bárbara dizia que isso não chegava para a levar a Deus. Eu não podia deixar de estar de acordo e pensei então que a minha relação com Deus era assim uma espécie de herança genética, uma espécie de cor da pele. Disse-lhe:
- Acho que sim. No fundo, não sei como é que Deus se revela àqueles que nasceram fora da religião. Eu, se não tivesse nascido na Igreja, não sei como entraria nela...
- Pois é - disse a Bárbara - tu não sabes o que é esta espécie de fome de Deus..."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 33.

Wednesday, September 30, 2026

RELAÇÃO

 



"Respondi:
- Julgo que isso é verdade. Não sei se sabe que o problema da salvação e da condenação é relativamente recente na história e há culturas em que ele nem se põe. Talvez tenhamos que criar com Deus uma relação que tenha muito mais que ver com o amor do que com o temor. Mas quem nasce numa religião tem que aguentar com o peso dos costumes com que ela se afirmou na história e isso, para mim, é uma dificuldade."



António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 29.

Tuesday, September 29, 2026

NO TEMPO DE ANGÚSTIA

 



"A Escritura apresenta-no-lo como o Príncipe das milícias celestes, o defensor da glória de Deus. Lemos no Apocalipse: «Houve uma batalha no céu: Miguel e os seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com os seus Anjos, mas foi derrotado e não se encontrou mais um lugar para eles nos céus.»
Miguel é o Anjo do Povo de Deus, o seu Defensor no tempo de angústia (Dan 10, 12-21). «Naquele tempo surgirá Miguel, o grande príncipe, constituído defensor dos filhos do teu povo, e será tempo de angústia qual jamais houve.»"


José Leite, S.J. (org.), Santos de Cada Dia, vol. III, Braga: Editorial A. O. , p. 97.

Monday, September 28, 2026

PEDAÇOS DE LUZ

 



"É no Outono que a gente é capaz de reparar que a vida não é banal não obstante o nosso quotidiano ter sido de uma banalidade atroz. Acredito que é possível descobrir pedaços de luz no meio de tudo isso. São coisas destas que me levam à convicção de que a vida para que fomos feitos não é, de modo nenhum, aquela que andámos a viver. Em rigor, o nosso destino poderia parecer trágico: por um lado, caminhamos inexoravelmente para a solidão, por outro, temos como futuro o esquecimento."


António Alçada Baptista, O Tecido do Outono, 5.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 2000, p. 13. 

Sunday, September 27, 2026

HUMANIDADE

 



"Amei verdadeiramente alguém, respondeu Campos em voz baixa.
- Então, absolvo-te, disse Pessoa, absolvo-te, julgava que na tua vida só tinhas amado a teoria.
- Não, disse Campos aproximando-se da cama, também amei a vida, e se as minhas odes futuristas e furibundas foram blague, se nas minhas poesias niilistas destruí tudo, até eu mesmo, fica a saber que também eu amei na minha vida, com uma dor consciente.
Pessoa levantou a mão e fez um gesto esotérico. Disse: absolvo-te, Álvaro, vai com os deuses eternos, se tiveste amores, se tiveste um só amor, estás absolvido, porque és uma pessoa humana, é a tua humanidade que te absolve."


António Tabucchi, Os Últimos Três Dias de Fernando Pessoa - um delírio, trad. Maria da Piedade Ferreira, Lisboa: Quetzal Editores, 1995, p. 23.

ETIMOLOGIAS

 




"Depois de um tempo de alqueive
rasguei o fundo obscuro da palavra
para que o semeador de alfabetos
aí fizesse a sua lavra.
É nesta margem que garimpo vozes
soterradas no olvido,
ressuscitar a morte
é devolver à vida
um sentido."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 20.

Friday, September 25, 2026

NOS LONGES

 



"Invoco, nos longes, a minha presença impossível.
Os longes são permanentes.
Lá, onde a beleza reside, deliquescentes
azuis, sois e luares, são permanência intangível.

Lá.
Ser incluso pormenor naquela bruma,
esboçado apenas como um desenho por acabar.
Ser lá, presente como aqui; uma
como nenhuma
distância entre o meu ser aqui e o meu estar lá.

Ir-me além, naquele cerro a ascender-se.
Ver-me daqui a subi-lo.
Perguntar-me «o que é aquilo?»,
imperceptível mexer-se.

Eucaliptos, casas, montes,
águas, pedras, horizontes,
coisas finitas em si.
Outeiros, vales, caminhos,
sebes, rochedos, moinhos...
Tudo no mundo. E eu daqui."



António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 56-57.

Thursday, September 24, 2026

CATÁBASE

 




"Desci como Orfeu ao fundo dos infernos
para a purificação no fogo
e o renascer da ausência
e da dor que me persegue

Quero ser o leito para adormecer
e que Eurídice sobreviva no meu sono
e na imagem que passa no fundo da caverna
Nas trevas acendo a luz e o alimento

de uma esperança cega de nascença
Há sempre um mito
cravado na alma do poeta

mas a mãe grande de toda a utopia
é a reconstrução da migração das aves
a partir do caos."


Carlos Seixo, O Canto do Noitibó, editora Reticências, 2026, p. 14.

Wednesday, September 23, 2026

ANJO

 



"Abri o livro na altura
em que o Anjo me sorria
e em voz de mel prometia
amor, descanso e ternura.

Falava como que a sós.
E as palavras flutuavam.
Eram pombas que poisavam
no fio da sua voz.

Escutei-o de olhos no chão
como se fosse o culpado,
como se o mundo enredado
estivesse na minha mão.

Abri o peito e mostrei-lhe
a areia, a pedra britada,
os planos da grande estrada
onde o Anjo se ajoelhe.
Ele fitou-me, de frente,
de olhos frios como brasas.
E abrindo e fechando as asas
rasgou o céu, lentamente.

Sobre a folha imaculada
por longo tempo nevou.
Sentei-me à beira da estrada
mas o Anjo não voltou."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 37-38.

Tuesday, September 22, 2026

MOINHO SEM VELAS

 



"Meu moinho abandonado,
meu refúgio de inocente,
meu suspiro impertinente,
meu social transtornado.

Meu sussurro de oceano,
meu ressoar de caverna,
minha frígida cisterna,
minha floresta de engano.

Minha toca de selvagem,
meu antro de vagabundo,
minha torre sobre o mundo,
minha ponte de passagem.

Meu atributo coitado,
meu tanger de hora serena,
rolo de pedra morena,
silêncio petrificado."


António Gedeão, Movimento Perpétuo, A Bela e o Monstro/ Público, 2023, pp. 18-19.

Sunday, September 20, 2026

O PENSAMENTO

 



"A Mãe Negra mantém-se atrás do pensamento, tal como a Perdida atrás do corpo que surge neste mundo. É assim que cada corpo que aparece no mundo é o seu vestígio. Tal como a fera está atrás da pegada que abandonou sem pensar no solo. A Perdida é a Sereia, onde além disso se misturam antigas escamas, velhas penas, grandes asas abertas para envolver o canto, feminino, soprano, apaziguador, que atrai. Na palavra grega seirén, ser significa ligar. A sereia é o próprio vínculo maternal: o atilho das faixas a jusante do apertado cordão umbilical. A palavra «seira» definia o «laço» nos citas. O pensamento é essa perdida voz singular, que religa entre si os ausentes, os defuntos, as pegadas, os excrementos, os vestígios, as impressões, as recordações, as imagens. A operação de pensar é essa «emoção» que transfere todos os nomes que os mortos carregam e todas as palavras que os mortos pronunciavam nos rostos e nos lábios dos vivos. Tal como a religação supõe a ligação, o pensamento supõe a ligadora, a Sirene, a Grande Mãe da fecundidade, a deusa de todas as mulheres, Hera. E, mais antiga ainda, a que preside aos partos, a mestre de todos os animais, deusa da montanha e da floresta, Ártemis caçadora - no templo da qual Heráclito, o servidor de Hera, recusando a realeza de Éfeso, vem depositar o seu livro antes de fugir para a montanha, veado entre os veados, de ouvidos à escuta entre os que estão de ouvidos à escuta, perseguido pelos cães que ladram e as crianças que o apedrejam."


Pascal Quignard, Morrer de Pensar, trad. Diogo Paiva, Cutelo Edições, 2026, pp. 61-62. 

CELESTIAL

 



"Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O profundo silêncio de deus. O celestial silêncio dos anjos."



Graça Pires, «Antígona passou por aqui», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 217.

Friday, September 18, 2026

O LUGAR

 




"Procuro o lugar onde começa o silêncio.
O imenso silêncio dentro de mim, na ansiedade das palavras distantes, quando, sem aviso, ele se afunda no meu peito insensatamente, como se fora um vício antigo transfigurando as sílabas. Como se uma inesperada sedução cristalizasse os poemas que escrevo de dentes cerrados, cativando a voz. Como se a linguagem se evadisse na incompletude dos sonhos."


Graça Pires, «Antígona passou por aqui», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 206.

Wednesday, September 16, 2026

ENTRE MURALHAS

 


"Pelo poder estranho dos sons, entre muralhas perpassa a divindade. E nenhum silêncio prenuncia, a Levante, que pressa me detém."


Vergílio Alberto Vieira, "A Adivinhação pela Água", in Este Refúgio Só Terei, Santarém: Rosmaninho Editora, 2026, p. 

Tuesday, September 15, 2026

ÂNSIAS DE MAR

 



"Não sabendo conversar e fugindo aos seus olhares como de grandes pecados, os seus silêncios pareciam distâncias dum tempo tão longo, que eles próprios se admiravam da vida não findar neles. E chegaram a maldizer, muito no seu interior, a sorte que os trouxera para ali, tão cheios de mocidade, apenas para se encontrarem, sozinhos em frente um do outro, batendo continuamente, em doidas ânsias de mar, de encontro ao que não venciam!"


António de Sèves, Leomil, Editora Lusitânia, Lisboa: 1921, p. 184 [ort. atual.]. 

Sunday, September 13, 2026

OMINOSO

 



"Que dia tão estranho.
Nenhum ramo a crescer,
Nenhuma folha, brisa alguma,
nem um rumor vivo na floresta.
Os meus olhos trepam devagar
a árvore onde moravas
E nenhuma pena caída,
Nenhum peso sobre os galhos
Nem rasto de ti.

No lugar do teu canto, um grito de carvão."


Virgínia do Carmo, Um corte leve na polpa dos dedos, Lisboa: Poética, 2026, p. 35.

LOUCURA

 




"A janela está entreaberta
indecisa entre a brisa e o peso
de um rouxinol, mudo de nascença.

A corrente de ar que nasce desconhece
o rigor cartesiano da sua formação
e crê ser melodia o seu rumor,
pauta deslocada da estante que
tombou entretanto, empurrada
pela vibração do canto imaginado.

Este meu devaneio é só para dizer,
na verdade, que sou íntima da loucura."



Virgínia do Carmo, Um corte leve na polpa dos dedos, Lisboa: Poética, 2026, p. 17.

Saturday, September 12, 2026

À ESPERA

 



"À espera
de ser

luz

setembro
cansa

a terra sobre
o corpo"



Vergílio Alberto Vieira, "Os Sinais da Terra", in Este Refúgio Só Terei, Santarém: Rosmaninho Editora, 2026, p. 100.

Friday, September 11, 2026

ANDARILHOS

 



"Decorridos alguns segundos, que pareceram longuíssimos, Pessoa interrogou-nos com a distraída vacuidade de um gesto. Logo porém, e agora de viva voz, continuou o que lhe iria dentro e, evidentemente, sem de mim esperar qualquer espécie de resposta.
- Sabe, inspector? É essa gente turística que vai ao Louvre, onde, como presumo que o senhor não ignora, eu nunca fui. Incapazes de reflectir, esses andarilhos do simplesmente ver para dizerem aos outros que já viram, olham fatalmente a mobilidade oculta da estátua-enigma e limitam-se a lhar. Vêem que ela tem partidos os braços, que é como quem diz, que ela não tem braços. Só que tal rebanho não goza da capacidade para se interrogar, e eu pergunto-me qual na verdade seria, pela orientação dos cotos, o sentido exacto do seu gesto."


Fernando Luso Soares, O Poeta Era um Fingidor, Lisboa: Edições Cosmos, 1999, p. 26.

Wednesday, September 9, 2026

COLECÇÃO

 



"Coleccionava pormenores singulares
da linguagem: a presença do sujeito,
a exuberância do verbo,
a descrição da paisagem
Perdia-se em figuras de estilo
quando entrava no interior de cada livro,
recolhendo os lugares desabitados
nas palavras ambíguas, indecisas,
quase misteriosas.
Analisava as modulações de cada sílaba,
reescrevendo-a sobre a pele.
De tanto procurar, colou-se-lhe ao corpo
o equívoco de uma sombra impessoal
que não reconhecia como sua."


Graça Pires, «A solidão é como o vento», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 135.

Tuesday, September 8, 2026

O HOMEM ROMÂNTICO - NATUREZA

 


"O homem romântico sabe que morre, com uma exasperante consciência da morte. Ele sabe que existe apenas para e por uma breve duração. [Como uma linha que tanto é nova, como velha, tal qual o indivíduo que se renova na morte e envelhece por meio de infindos nascimentos.] O mundo existiu antes dele e existirá depois dele, sem a sua presença. Esta certeza ultrapassa as possibilidades do pensamento."


João Miguel Fernandes Jorge, «A Hora da mais Curta Sombra», in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 107.  

Sunday, September 6, 2026

AS DE MAIOR ENGANO

 


"O meu amigo, que não via há muito, regressou à sua cidade, à sua aldeia, à sua casa, ao seu sepulcro de pedra.
O melhor é esquecermo-nos das coisas visíveis e não deixarmos fugir as de maior engano, vindas de nenhum tempo."


João Miguel Fernandes Jorge, «Por entre os caminhos do bosque", in Estelas, Ed. Bestiário, 2021, p. 72.

Saturday, September 5, 2026

MEMÓRIA DO MAR

 




"Volto à memória do mar,
ao fundo salgado do abismo,
ao sepulcro das cinzas,
ao meu chão de múltiplas névoas.
Muito longe serei ilha, ou rochedo,
ou pérola na fenda da concha.
Uma litania, um cântico,
um grito ao vento serei ainda.
Amarrando os barcos."


Graça Pires, «Uma claridade que cega», in Poemas Escolhidos [2012-2025], Lisboa: Poética Edições, 2026, p. 90.

Friday, September 4, 2026

DO TEMPO

 



"Do tempo
Relógio solar
Filtro de areia e marca de água
Combinação de terra argila e pedras
E a mão primeira onde nasceu o sangue
Talhando ancestral a imagem de deus"


José Pedro F. Leite, Outros Litorais, ed. autor, 2009, p. 84.

Thursday, September 3, 2026

OFERENDAS

 


"Outras pessoas tinham estado ali antes dele - de resto, sentia uma curiosa sensação de companheirismo. Pequenas oferendas votivas ao Poder supremo achavam-se fixadas à casca - minúsculos braços, pernas e olhos de lata, grotescas maquetas de cérebros ou de corações -, símbolos de alguma recuperação de força, sabedoria ou amor. Não havia ali nada que se assemelhasse à solidão da natureza, dado que até as mágoas e as alegrias da humanidade tinham passado para o seio da árvore. Ele abriu os braços, apoiou-se na madeira macia e carbonizada e, depois, lentamente, inclinou-se para trás, até o corpo estar encostado atrás de si. De olhos fechados, teve a estranha sensação de alguém que se move e, ainda assim, se acha tranquilo - a sensação de um nadador que, depois de se debater muito tempo contra mares agrestes, descobre que, afinal de contas, a corrente arrastá-lo-á para o seu destino."

 

E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 97. 

Wednesday, September 2, 2026

DÉCIMO OITAVO ANO




"A manhã move a pedra sem raiz
O seu repouso de árvore em flor.
Qualquer astro é menos que o repouso
De uma pedra em flor."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 23. 

GRANDES MANIFESTAÇÕES

 



"Eustace Robinson, de catorze anos, achava-se de camisa de noite, a saudar, a louvar e a abençoar as grandes forças e manifestações da natureza.
Falou primeiro da noite e das estrelas e dos planetas sobre a sua cabeça, das miríades de pirilampos e das grandes rochas cobertas de anémonas e conchas que dormiam no mar invisível. Falou de rios e de quedas-d'água, de cachos de uvas a amadurecerem, do cone fumegante do Vesúvio e das chaminés ocultas que produziam o fumo, da profusão de lagartos que se achavam enroscados nas quentes fissuras da terra, e das bátegas de pétalas de rosas brancas emaranhadas no seu cabelo. E, depois, falou da chuva e do vento que tudo modificam, do ar por meio do qual tudo vive, e dos bosques onde tudo se pode ocultar."


E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 85.

Tuesday, September 1, 2026

EX MACHINA

 


"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.
- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."


E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41. 

Monday, August 31, 2026

MURO IMPENETRÁVEL

 




" - Aquelas montanhas à nossa direita... deixe-me mostrar-lhas. - E afastou uma persiana de metal. Viu-se a cordilheira principal dos Himalaias. - Outrora chamavam o Tecto do Mundo àquelas montanhas.
- Que nome tão tolo!
- É preciso ter em mente que, antes do alvor da civilização, elas pareciam ser um muro impenetrável que tocava nas estrelas. Supunha-se que só os deuses poderiam viver acima dos seus cumes. Como nós progredimos, graças à Máquina!
- Como nós progredimos, graças à Máquina! - concordou Vashti.
- Como nós progredimos, graças à Máquina! - repetiu o passageiro que deixara cair o Livro na noite anterior e que se encontrava no corredor."


E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 30.

Sunday, August 30, 2026

O SONHO

 



"O sonho, para a alma, é tal qual
O que ao sangue é este ar que se respira;
E já que existe a febre, natural
É o triste desvairar de quem delira.

Dirão que o Sonho não é afinal
A mentira de Deus? Isso que tira?
Pois da verdade altíssima, o sinal
Mais claro não será a vã mentira?

Não dá sinais do mar a névoa, ao vê-la?
E o fumo, não será sinal de chama?
E a sombra não será sinal da estrela?

E da piedosa morte apetecida
Não é um roxo sinal, que se não ama,
Este sinal tristíssimo da vida?"



António Corrêa de Oliveira, «Raiz», in Antologia I - Líricas, Porto: Livraria Tavares Martins, 1959, p. 27.

AO MUNDO SUJEITO

 






"O tempo, afirmam, tudo encinza e apaga;
E não! só ele é o fumo que se esfuma,
Mais não valendo, não, que vaga espuma
Da eternidade, em vaga sobre vaga.

Mas, homem sou: e tenho visto a chaga
Curar por si, sem ligadura alguma.
(Dos pinheirais ao vento, na caruma
Tombam chamas do lar, de baga a baga.)

Talvez em mude: ao mundo ando sujeito;
Porém, de mim, não tiro a dor ao peito,
Como ao peito não tiro o coração.

E, se a alegria me dissesse: - «Amigo:
Desejas esquecer-te? Anda comigo...»
Eu, simplesmente, respondera: -«Não!»"




António Corrêa de Oliveira, «Saudade Nossa», in Antologia I - Líricas, Porto: Livraria Tavares Martins, 1959, p. 283.