Sunday, May 31, 2026

TRINDADE

 



"ao atingir o teu espírito
a refractabilidade do Espírito
lerás o livro sem letras
e a tua sede
será
o delíquio de todas as rosas

conhecerás que
a Esfinge da Trindade
se explica
pela refractabilidade da Luz

carne
mente
espírito

filho
pai
paracleto

e a coroa
gotejada a rubro
da cabeça do Pintassilgo

aprenderás que
é isto
que faz o sentido de qualquer livro
translúcido e uno

água que escorre
da única fonte"



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, pp. 139-140.

Saturday, May 30, 2026

DANAÇÃO

 




"Dizem que as mulheres danadas
Em cada noite sem Lua
Procuram a língua fria dos lobisomens
Então velam-nos as fadas
E caem suspiros à rua
Quando o suor vem molhar as palmas das mãos dos homens

Dizem que os beijos dos loucos
Rasgam os nossos vestidos
E então velam-nos no ventre em todos os instantes
São deles os prantos roucos
Que nos mordem os ouvidos
De cada vez que entramos pelo corpo dos amantes

Dizem também que os lagartos
Nos vêem beber o vinho
Com que cada mês pagamos pelos pecados
Dos nossos cabelos fartos
Do nosso prazer daninho
De cravarmos fundo os dentes na pele dos nossos amados"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p. 55.

Friday, May 29, 2026

AMABILIDADE

 



"Não sabemos
o que sustém
a amabilidade do corolário
das pétalas de uma rosa

talvez
os fios finos
da Luz
forças cósmicas
invisíveis
dedos
flamejando a inteireza
do espaço subtil"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 82.

SOBRE TODAS AS LEIS

 



"Nunca tive medo das horas sem alma
Em que se confundem a noite e o dia
E os espíritos piam cânticos ateus
Sempre confiei na luz das manhãs
Quis a companhia muda das geadas
E nunca esperei pelo perdão de Deus

Nunca tive medo das encruzilhadas
Das juras quebradas e das salamandras
Que nascem da chama acesa dos braseiros
Sempre me esqueci de casas e camas
Só quis ter por âncora as minhas canções
E as marés que são sempre mais que os marinheiros

Nunca tive medo dos olhos dourados
dos lobos que a neve lança nos caminhos
Nos natais mais agrestes de chuva e granizo
Só temia o amor que nos rouba a vontade
Quando arrasa as muralhas da nossa razão
E rebenta por dentro do nosso juízo

Mas eu gosto de ti sobre todo o meu medo
Sobre todas as leis que governam os homens
E há centenas de anos que foram lavradas
Contigo eu estou pronta a lutar noutras guerras
A pousar a bagagem na porta de entrada
E sacudir da roupa o pó das estradas"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp. 71-72.

Thursday, May 28, 2026

ANIVERSÁRIO

 




"não te refugies
no morto
que não te deu refúgio em vida

a memória
é a sombra da muralha
esboroada por mil pensamentos
e o véu
entornado sobre ela
apenas se crisalidiza
no anoitecer"




Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 67.

Wednesday, May 27, 2026

PREFERÊNCIA

 


"Talvez acabe por preferir a solidão. A solidão é como uma dádiva, nela se não precisa mais do que finura, um certo engenho para contemplarmos com o nosso universo interior cada pedaço do céu ou cada rosa-dos-ventos. Serenos. Receber-lhe as variações. Do mesmo lugar, e sentido o que somos capazes de poder sentir."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 187. 

Monday, May 25, 2026

NA TERRA PLANTADA

 



"Rosa, na terra plantada,
Entre espinhos e abrolhos,
Volves a nós d'essa morada,
Onde foste arrebatada,
Os teus compassivos olhos!

Vê, Senhora, que eu hei posto
Só em ti minha esp'rança:
Se de mim foge o teu rosto,
Eu não fujo ao meu desgosto,
Que bem rápido me alcança.

Invoquei-te na tristeza
Do meu tão penoso exílio;
Dentro em mim senti acesa
Uma luz, cuja viveza
Era a fé no teu auxílio.

Desde então, mal sinto as dores
De quem fui escravo já...
Busco os dons animadores,
Mando ao céu os meus clamores,
E o céu graças me dá.

Mãe dos órfãos desvalidos
A ti devo quanto alcanço;
Mudos foram meus gemidos...
São meus dias sucedidos
Na doçura do descanso.

Mas se o teu divino amparo
Me abandona um só instante,
É então que em mim reparo,
E as fraquezas só deparo
Do pecado triunfante.

Um momento n'esta vida
Não me deixe o teu amor!
Faz do fraco um homem forte,
E por mim pede na morte
Na presença do Senhor!"



Camilo Castelo Branco, Duas Épocas da Vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, pp. 257-258.

Sunday, May 24, 2026

MYSTICA

 



"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.

Saturday, May 23, 2026

RESPLANDECE

 



"resplandece
a árvore do silêncio
de cujo centro
flui
o rendilhado
de luz

dela irradia
a lactescência do universo
a constância do etéreo
a solenidade da calma

o leito que esperas
para o entardecer"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 32.

UM TEMPO AINDA OUTRO

 


"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro" 

 

Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74. 

Friday, May 22, 2026

MISERICÓRDIA

 



"Cada homem se leva, por si ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se da sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia."


Armindo Trevisan, «Sexta Opção» in "9 Poemas", Colóquio-Letras, n.º 2, junho de 1971, p. 68.

Thursday, May 21, 2026

A PORTA

 


"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64. 

ANTIGAMENTE


 


"Antigamente é que era, hem!?, hem?!...
Rei contra rei. Pronto. Sobe em cima do cavalo, pega na espada, defende, luta, dá morte, pronto, cai no chão, assim é que era! Agora estes são o quê?, querem o quê?, sim, o que é que eles querem?... Ver os outros ali adiante, ver além lutar os outros, os outros a lutar! Olhem lá que coragem!"


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 143.

Monday, May 18, 2026

CORAÇÕES CONTENTES

 


"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65. 

Sunday, May 17, 2026

VISÃO

 


"O CEGO - Não vejo, mas ouço! Ouço a âncora arrastar o lodo do fundo, como quando se arranca o anzol do peixe e lhe sai também pelas goelas o coração! - O meu filho, o meu único filho vai partir e cruzar o mar infinito em direcção a terras desconhecidas. Só posso acompanhá-lo em pensamento. - Estou a ouvir a corrente a ranger - e - há qualquer coisa a bater ao vento como roupa a secar na corda... lenços molhados talvez - e ouço soluços e gemidos como seres humanos a chorar... serão as ondas contra o costado do navio ou as raparigas na praia - é que o mar era salgado, e a criança que tinha o pai embarcado respondeu logo: o mar é salgado porque os marinheiros choram muito. - E porque é que os marinheiros choram muito? -  E ela respondeu: porque estão sempre de partida. - E secam sempre os lenços no alto dos mastros! - E eu perguntei, porque é que o ser humano chora quando está triste? - E ela disse: porque os vidros dos olhos têm de se lavar de vez em quando para vermos melhor!-"


August Strindbergh, Um Sonho, trad. Cristina Reis, Luís Miguel Cintra e Melanie Mederlind, Lisboa: ed. Teatro da Cornucópia, 1998, p. 44. 

Saturday, May 16, 2026

PESO ABENÇOADO

 



"Nessa árvore que o fruto mal sustém, 
Avergada ao seu peso abençoado, 
Nessas árvores sorri um ar sagrado, 
Todo perdão e piedoso bem,,,

Ouve-se nela a Natureza... «Vem», 
Fala esta ao faminto, ao desgraçado. - 
«Vem comer o meu fruto! Filho amado, 
«Vem beber o meu leite alvo de Mãe...»

E a árvore, a Natureza, este anseio, 
(Mãe terna dando ao filho o farto seio...)
À fera e ao verme faz igual pregão.

E como o verme a rastejar na lama
Lhe não alcance o seio, estende a rama,
Baixando o fruto, o seio, até ao chão..."



Bernardo de Passos, «Grão de Trigo», in Poesia da Árvore - Antologia Poética, org. Eng. Resina Rodrigues, 1979, p. 51. 

Friday, May 15, 2026

CHAMAR À VIDA II

 


"A vida seria bela, se todos cumpríssemos os nossos deveres para com ela. Se todos soubéssemos viver a vida! Viver, é dar-se à verdade e amar a todos e a tudo. Dar o seu casaco quente à mulher que passa cheia de filhos, de fome e de frio, tendo apenas farrapos para se aquecer.
E os mais miseráveis, ainda as deixam ficar e fogem.
E a vida começa a ser negra e triste como a noite. O que se passa além já não é viver, é andar no mondo aos tropeções. Cai aqui, levanta acolá!"


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 54.

CHAMAR À VIDA

 



"Com capelinhas de pedra tosca, com a arte própria do tempo e da classe, estão as estradas nortenhas guarnecidas de longe, a longe, com as «Alminhas» a chamar à vida, aquelas que estão a arder nas labaredas que lhe cobrem a cara e as mãos.
As pessoas param. Ficam e rezam; e as «Alminhas», de mãos erguidas, esperam impacientemente a hora do resgate e da purificação."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 51.

Thursday, May 14, 2026

ESFUMANDO

 


"O tempo estava a mudar; uma neblina fria e triste ia e vinha, como um véu, que vindo das alturas envolve tudo: esfumando os penedos, as árvores, a encosta da serra, escondendo aos nossos olhos, cansados de meditar, naquilo que o mundo murmurava além. Ao longe, as pedras, os penedos e as escadas incertas, mais duvidosas ainda pela luz que ia faltando, no caminho que nos levava a nossa casa. Os cães latiam e era o único ruído que nos dava a certeza da vida, no meio daquele silêncio da morte."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 16.

Wednesday, May 13, 2026

VONTADES


 

"E eu o que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas, Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como é a vontade, É uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada, Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta com Baltasar, para isso viemos aqui, Não posso, jurei que nunca o veria por dentro, Então comigo."


José Saramago, Memorial do Convento, 21.ª ed., Lisboa: Caminho, 1992, p. 124. 

Monday, May 11, 2026

LOQUAZ

 


"Suponho que há escritores loquazes e escritores silenciosos. Falar e escrever são, para mim, exercícios completamente diferentes. Pertenço mais ao género dos parcos que ao dos loquazes, e, cada vez mais, por motivos óbvios. Segui sempre o conselho daquele que antes de falar mordia dez vezes a língua. Se à décima mordidela continuava a pensar a mesma coisa, dizia-a; se hesitava, ficava calado. Passo a duvidar de se vale a pena dizer o que estou a dizer. Tomar a palavra, de certa maneira, é vergonhoso, é como dizer; eu, sim, tenho qualquer coisa para dizer, ouçam-me. Pelo contrário... não estou muito certo de ter alguma coisa interessante para dizer. Na verdade, sinto-me esmagado pelo penso das palavras."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 31. 

Saturday, May 9, 2026

ÁVIDO

 



"Ávido das chamas
cedi à fome e engoli o fogo.

Fui delírio, fui delito.

Eis-me agora:
pequeno incêndio,
um perigo intacto.

O mais brilhante segredo desta esfera."



Ricardo Gil Soeiro, Pirilampos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 59.

Friday, May 8, 2026

MINICÉU

 


"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.

(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)

No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.

Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."


Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62

Thursday, May 7, 2026

A ROSA DO ENCOBERTO

 


"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras: 
«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"

Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29. 

Tuesday, May 5, 2026

AS PALAVRAS

 


"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18. 

Sunday, May 3, 2026

MATERNIDADE

 


"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.
Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:
- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"


Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.

MULHERES

 



"Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos.
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na Cruz.
- Infâncias que foram
De fadas e flores."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. II, Lisboa: INCM, 1994, p. 25.

Saturday, May 2, 2026

O RETRATO

 


"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177. 

Friday, May 1, 2026

ENTRADA

 



"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.
Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.

Thursday, April 30, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Procurava uma palavra que exprimisse a sua maravilhosa surpresa e não a encontrava. A solidão exaltada de que se nutria tanto tempo o seu jovem orgulho, entre esses homens grosseiros que ele temia e desprezava ao mesmo tempo, não se quebraria num dia, mas ele sentia-a prestes a ceder, a abrir-se, como um muro batido pelo mar. Qualquer palavra, aliás, teria parecido vil ao seu coração pleno. Os seus grandes olhos encheram-se de lágrimas."


George Bernanos, Um crime, trad. Ersílio Cardoso, Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 54. 

Sunday, April 26, 2026

FONTE

 




"É Rosa menos Rosa
diz o aguaceiro que refresca alegremente o vinho branco
enquanto não arromba as igrejas num qualquer dia de Páscoa
É Rosa menos Rosa
e quando o touro furioso da grande catarata se acomete
sob as suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas
como está o tempo
Está um tempo Rosa com um verdadeiro sol de Rosa
e vou beber Rosa comendo Rosa
até adormecer num sono de Rosa
vestido de sonhos Rosa
e a madrugada Rosa despertar-me-á como um cogumelo Rosa
no qual se verá a imagem de Rosa nimbada dum halo Rosa"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 137.

Saturday, April 25, 2026

ABRIL

 




"Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.

A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.

O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.

No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar."


António Ramos Rosa, "A Pedra Nua", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 455-456.

Friday, April 24, 2026

TODOS OS DEUSES

 



"Penelopando tramas de espertina
em minha teia de defesas castas
espero adiar em mim noites madrastas
cujo terror pressinto. Em surdina

teço de esperançada e caprina
malícia, entre um tédio de pilastras,
a imensa tessitura de infastas
razões não e razões sim. Na neblina

leve e futurada em que concentro
o intento focadíssimo do olhar,
alevantam-se as rolas do escarmento

de, irra, todos os deuses! Penelopar
adianta? Sei lá bem! Mas experimento
esta expedita forma de adiar."


João Pedro Grabato Dias, in Colóquio Letras, n.º 4, dezembro de 1971, p. 71.

Thursday, April 23, 2026

OUTREM

 


"PHILIPPE NEMO - Outrem é rosto; mas outrem, igualmente, fala-me, e eu falo-lhe. Será que o discurso humano não é também uma maneira de romper com o que chama «totalidade»?

EMMANUEL LEVINAS - Certamente. Rosto e discurso estão ligados. O rosto fala. Fala, porque é ele que torna possível e começa todo o discurso. Recusei, agora mesmo, a noção de visão para descrever a relação autêntica com outrem: o discurso, e mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que é esta relação autêntica."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 79. 

Wednesday, April 22, 2026

 


"PHILIPPE NEMO - Um silêncio sussurrante?

EMMANUEL LEVINAS - Algo que se parece com aquilo que se ouve ao aproximarmos do ouvido uma concha vazia, como se o vazio estivesse cheio, como se o silêncio fosse um barulho. Algo que se pode experimentar também quando se pensa que, ainda se nada existisse, o facto de que «há» não se poderia negar. Não que haja isto ou aquilo; mas a própria cena  do ser estava aberta: há. No vazio absoluto, que se pode imaginar, antes da criação - há."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 40. 

Sunday, April 19, 2026

ANJO

 




"... Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos."


Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, 8.ª ed., São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 107.

PRAÇA-FORTE


 

"Foi-me tão longa e funda a solidão
que vi a dor mudar em pensamento;
neutralizado assim o sofrimento, 
julguei ter o governo da emoção.
E dela livre, p'la imaginação, 
até onde podia ir o meu alento, 
arroguei-me do' humano sentimento
enquanto ia vazando o coração.
Mas sem que o perigo apercebesse, 
em máscaras de mim me extraviei
negando em cada uma outra verdade.
E reaver-me agora me parece -
na ausência viva que enganar não sei - 
a última ironia da saudade..."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 72. 

Saturday, April 18, 2026

DAMA NA TORRE

 



"A dama na torre está
a torre ébria como um boi
um boi sangrento
que come bolotas
ao levantar-se
e cospe sangue
ao deitar-se

A dama na torre está
A torre era tão alta
a dama era tão pequena
que uma pessoa se enganava
era essa a paga
No salgueiral
todos os nabos
se mimavam

A dama era tão pequena
a torre tão grande era
que as amêndoas
e as amantes
se amavam nos desvãos"



Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 91.

Friday, April 17, 2026

UM PÁSSARO

 



"Pode demorar mil anos
Ou o tempo de um rio
O beijo que pouso no teu ombro
Um pássaro
Um poema nascente do fogo
Lado direito do teu corpo
E na noite
Átrio de silêncio
Para dizer amor
Há uma corda de palavras estancadas
Quase sussurros

E a eternidade resume-se
À certeza morna dos teus dedos
Escorrendo através dos meus lábios"


José Pedro Leite, Respiração Vertical, ed. autor, 2011, p. 56.

Tuesday, April 14, 2026

MÃOS

 



"O homem descobre a poesia circular
Apercebe-se de que ela rola e baloiça
como as vagas da botânica
e prepara periodicamente o fluxo e o refluxo

Ó santos porque não sois cingidos de seios sãos
O vosso selo seria uma mão feita de polegares
agitada por tremor alcoólico
Ó santos que tendes vós na mão
Será uma mão mais pequena
que envolve uma outra mão mais pequena
e por aí fora até à extinção das mãos

A poeira agita-se na sua solidão
Quer que o silêncio que a envolve
se povoe de fantasmas alados
com vozes de tronco podre
de mulheres leves como a dama branca

de velhotes que descem da montanha
a braços com as neves eternas
das grandes montanhas moles
onde giram rodopiam e mergulham
as sapatilhas de dança"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 52.

Sunday, April 12, 2026

MONTANHAS

 


"As montanhas saíram do fundo do mar, a terra nasceu do seio das ondas, embora sempre rodeada pelo vasto oceano. É imóvel porque o universo se afasta dela em todos os sentidos com igual força: caiu tanto de toda a parte que já não pode cair de nenhuma; é o centro e, ao mesmo tempo, o lugar mais baixo de todo o universo."


Marcus Manilius, Os Astrológicos ou a Ciência Sagrada dos Céus, I, trad. Inês Guerreiro, Lisboa: Arcádia, s.d., p.16.

Saturday, April 11, 2026

LANGUIDEZ

 


"E depois começaram a abafar na avenida. Nunca ela tivera tão ardentes frémitos; nunca o chão, esse campo em que dormiam as últimas ossadas do antigo cemitério, tinha deixado escapar mais inebriantes exalações. Ainda eles tinham em si bastante infância para saborear o voluptuoso encanto desse buraco solitário, febril de primavera. As ervas subiam-lhe até aos joelhos; caminhavam a custo; e, quando esmagavam os rebentos, certas plantas deitavam cheiros acres que os embriagavam. Então, tomados de estranhas fadigas, perturbados e vacilantes, com os pés como que ligados pelas ervas, encostavam-se contra a parede, de olhos semi-cerrados, sem poder avançar. Parecia que toda a languidez do céu neles se instilava."


Émile Zola, A Fortuna dos Rougons, trad. Barros Lobo, Lisboa: Guimarães Editores, s.d., p. 233-234. 

Friday, April 10, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Eles abrem a palavra
A pequena giesta — essa luz

Abrem uma pinha na infância

Quando despertam
Quando abrem as mãos à pulsação
Dos livros, eles abrem
No favo o sinal

A pequena nascente no mel"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 203. 

Thursday, April 9, 2026

COMUNICAR


 

"Se alguma vez Victor sentiu-se no coração de sua religião, foi neste momento e esta mesma religião, ele talvez nunca a sentira no fundo do seu coração. A solidão desta pequena igreja no campo, a singularidade da relíquia que ela guardava, o desencadeamento da natureza uniam-se para dar-lhe a impressão de uma divindade que sabe comunicar-se por todos os meios: os mais terríveis, os mais comoventes, os mais absurdos. Um dia divertira-se ao saber que havia uma oração contra os terremotos, mas hoje compreendia que havia gente para recitar esta oração quando a terra se punha a tremer. «Nós só temos na noite uma pequena luz para nos conduzir, disse um filósofo, e a religião a apaga»: a religião é também esta pequena luz na noite."

Roger Peyrefitte, As Chaves de São Pedro, trad. Heitor Martins, Rio de Janeiro: Editora Júpiter, 1961, p. 269. 

Wednesday, April 8, 2026

APRENDIZAGEM

 


"Entretanto, que aprendera até então com tamanha fadiga? Nada de positivo entre os antigos, nada de belo entre os modernos. O passado e o presente são duas estátuas incompletas. Uma saiu toda mutilada dos escombros do tempo. A outra não recebeu nada ainda do acabamento do futuro."


François René de Chateaubriand, René, trad. Vergílio Godinho, Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 99. 

Tuesday, April 7, 2026

ÁGUA QUE NÃO SE BEBE

 




"Estamos longe ou então
Há água que não se bebe
é água potável
Há pessoas que não se vêem
são os mortos
e também não as ouvimos
Porque é que afirma o contrário
Porque é que gritou tão alto
Bem vê que vamos morrer
E eu não faço questão"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 15.

Monday, April 6, 2026

DELIMITADOS SOMOS PELOS DEUSES

 


"Delimitados somos pelos deuses

Antes que se evapore de repente
Escrever o problema com mestria
Eterna fixação que o canto inscreve

Meu coração partiu-se em quatro partes
Não posso a minha dama desfrutar
Chegado ao termo de lavor tão duro

Tudo perdemos sempre que chegamos
Delimitados somos pelos deuses

Dos deuses é o silêncio periférico
o nível e o espaço, o firmamento."


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 306. 

A RAIZ DA TERRA

 



"Pode um homem correr mundo
nos quatro ventos plantar
o rosto, a alma e o fundo
de tudo quanto é seu
que nenhum vento pode arrancar
a raiz da terra onde nasceu"


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 286.

Sunday, April 5, 2026

QUEM ESCOLHE O CAMINHO DAS PEDRAS

 



"Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte"



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 179.

NO INTERIOR DA TERRA


 

"Vimos a pedra vazia no interior da terra
A manhã. Nós não tocámos a luz
Inesperada. Pensámos
Que já o sono sendo eterno te afastara
E que farol que foste
Agora onda após onda, brasa extinta, naufragava

Nunca mais, pensámos, dormirias na proa
E quase desaprendêramos a guiar o barco
Em nossas viagens não amainaria mais, pensámos, e chegar a casa
Seria ver multiplicar-se
A nossa fome como o peixe e como o pão

Chegámos a terra porém e esperavas-nos
Os pés furados como conchas sobre a areia
E sentámo-nos em redor para comer"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 264.