Saturday, June 20, 2026

VERÃO

 



"O tempo passava
junto à bifurcação
do sentido, ia

ao litoral da palavra
e já na boca
vinha substantivo

um jardim
que a língua dava
de delícias."


José Carlos Soares, Camel Blue, Lisboa: Averno, 2018, p. 140.

Friday, June 19, 2026

NOUTROS GRITOS

 



"Fiquei crucificado noutros gritos
noutras formas de amor mais verdadeiras
Eu sou irmãos o cego autêntico
ébrio demais da luz de outros caminhos
filho secreto de mundos que perdi
irmão de nada - depois de ter morrido
em cada ser humano que trazia
olhos de criança e mãos vermelhas
de sangue."


Alberto de Lacerda, Revista Árvore, volume II - Primeiro Fascículo, ed. facsimilada com introdução e índices de Luís Adriano Carlos, Porto: Campo das Letras, 2003, p. 20.

ERA TÃO SIMPLES TUDO!

 



"E por um verso de oiro eu fui cem vezes morto.
E por amor de ti mil vezes me busquei.
Tinhas as mãos tranquilas como os dias de Inverno.
Humedeci os lábios na tua solidão.

Era tão simples tudo! E ah, quem no soubera,
desprevenida a face, exposta ao vário vento?
Agora sei que ascende ao longe a Primavera
e vou, bebendo o espaço, efémero e sereno.

Ao mar abandonei as infundadas ilhas.
Um rio acrescentei às mal cuidadas searas.
Agora frutifico as minhas mãos em claras
surpresas de granito!"



António Luís Moita, Revista Árvore, 2.º fasc - Inverno de 1951-1952, ed. facsimilada com introdução e índices de Luís Adriano Carlos, Porto: Campo das Letras, 2003, p. 122.

Sunday, June 14, 2026

LINGUAGEM DAS ESTRELAS

 



"A sua voz tornou-se muito baixa e era tão sedutora que provocava vertigens a Margaret, como uma fragância por de mais inebriante.
- Garanto-lhe que nada é impossível a essa arte. Ela comanda os elementos, conhece a linguagem das estrelas e dirige os planetas nas suas órbitas. À sua ordem, a Lua tinge-se de sangue e despenha-se dos céus. Os mortos erguem-se das sepulturas e fazem proferir palavras agoirentas ao vento que atravessa os seus crânios a gemer. Céu e Inferno são os seus domínios, e todas as formas, adoráveis e hediondas, e o amor e o ódio. Com a varinha de Circe, pode transformar homens em animais, e aos animais pode comunicar a sua humanidade monstruosa. A vida e a morte estão na mão direita e na esquerda daquele que lhe conhece os segredos. Ela confere a riqueza pela transmudação dos metais e a humanidade pela sua quinta-essência.
Margaret já não podia ouvi-lo. Uma espécie de letargia apoderava-se dela pouco a pouco sob aquele olhar maléfico e faltavam-lhe até as forças para desejar libertar-se. Parecia estar já unida a ele por cadeias invisíveis."


Somerset Maugham, O Mágico, trad. Leonel Vallandro, Lisboa: Livros do Brasil, s.d., pp. 110-111.

Saturday, June 13, 2026

SANTO POPULAR 1

 


"«A humanidade é pagã. Nunca qualquer religião a penetrou. Nem está na alma do homem vulgar o poder crer na sobrevivência dessa mesma alma. O homem é um animal que desperta, sem que saiba onde nem para quê.
«Quando adora os Deuses, adora-os como feitiços. A sua religião é uma bruxaria. Assim foi, assim é, e assim será. As religiões são somente o que extravasa dos mistérios para a profanidade e dela não é entendido, pois, por natureza, não o pode ser.»"



Fernando Pessoa, A Hora do Diabo, ed. Teresa Rita Lopes, 2ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 50.

Friday, June 12, 2026

IMAGENS

 


"5. Ao Diabo é fácil transformar-se para fazer o mal. E assim, de noite, fizeram tal alarido que todo o lugar parecia mover-se. Parecia que os demónios, como se rompessem as quatro paredes do pequeno espaço, entravam por elas adentro, transfigurados em imagens de animais selvagens e de serpentes. 6. E, naquele momento, o lugar encheu-se de imagens de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, víboras, escorpiões e lobos. Cada um destes animais movia-se conforme a sua própria natureza. 7. O leão rugia, desejando atacar; o touro parecia investir; a serpente rastejava, mas sem chegar a tocar Antão; e o lobo atirava-se; mas detinha-se. Terríveis eram o furor de todas as aparições e os ruídos dos rugidos."


Santo Atanásio de Alexandria, Vida de Santo Antão, 9, 5-7, trad. Ricardo Figueiredo, Prior Velho: Edições Paulinas, 2026, p. 59. 

Wednesday, June 10, 2026

EMOÇÕES


 

"Devorava-lhe a vida uma insaciável necessidade de episódios e de emoções. Apreciava a sociedade com as suas leis e as suas limitações porque lhe oferecia alimentos de combate e de resistência, e se tinha horror às perturbações e ao desregramento, era porque lhe proporcionavam prazeres frouxos e fáceis."


George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 99. 

DIA POÉTICO

 



"Que lindo dia
De poesia
Se pôs!
A manhã baça,
O jornal carrancudo,
E, de repente, tudo
Cheio de luz e graça!

E que não há milagres!
Há, mas são destes, que não provam nada...

É uma pena
Que a nossa alma seja tão pequena,
Ou já esteja ocupada."


Miguel Torga, Diário V, Lisboa: Planeta de Agostini, 2003, p. 64.

Tuesday, June 9, 2026

O CALOR FECHADO DAS MÃOS

 


"Ponho-me na toca dos bichos, nos teus olhos fechados
Na transumância dos animais que buscam os pastos mesmo quando morrem

Como qualquer estação que há-de vir
Como astro que repousa de dia para dia semelhante à estéril que amamenta a sua dor

Ponho-me na semente como abelha que procura o pólen
Ponho-me na esfera celeste de uma criança que se senta no chão

Pedra que se abre no calor fechado das mãos"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 301.

Sunday, June 7, 2026

UMA FIGURA

 


"Raymon tinha artes de se mostrar culpado sem se fazer detestar, às vezes esquisito, sem ser chocante, conseguindo até, também, fazer-se lamentar por pessoas que mais tinham a queixar-se dele. Há homens assim viciados por tudo o que deles se aproxima. Uma figura simpática e uma elocução viva, constituem toda a sua sensibilidade. Não pretendemos julgar com tanto rigor o senhor Raymon de Ramière, nem traçar o seu retrato antes de o pôr em acção."


George Sand, Indiana, trad. João Barreira, Lisboa: Edições Excelsior, s.d., p. 37. 

Saturday, June 6, 2026

LENTIDÃO

 


"Uma das vezes em que insistiu com mais veemência em falar com Alfredo da Cunha, o médico perguntou-lhe se ela não receava um «acto violento» por parte do marido. «Não» - respondeu-lhe categoricamente. Medo à morte rápida, «nunca teve». Horrorizava-a, isso sim, a «agonia lenta» em que a vida se pode afundar, arrastando consigo «esperanças e ilusões, indispensáveis à existência de todos, porque sem elas o mundo não seria suportável»."


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 83. 

Friday, June 5, 2026

ARCÁDIA DE ESPECTROS

 


"Inspirado, o escritor recorda os poetas mortos que perpassaram «naquele interior gracioso do século XVIII» desfilando «em êxtase, entre uma nuvem de Amores côr de rosa», e que evocados pela voz angélica e incomparável da leitora, foram «enchendo, povoando, coalhando» o enorme salão, «encostando-se aos bufetes, debruçando-se sobre os livros, vivendo, familiares e graves», como se Alfredo da Cunha, reerguendo na mão a lira de prata dos árcades, os tivesse convocado a todos para «uma Arcádia de espectros»". 


Manuela Gonzaga, Maria Adelaide Coelho da Cunha - Doida Não e Não!, Lisboa: Círculo de Leitores, 2009, p. 30.

Thursday, June 4, 2026

LUA CHEIA

 



"Nossa Senhora faz meia
com linha branca de luz:
O novelo é a Lua Cheia,
As meias são para Jesus."


António Nobre, , Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, p. 83.

CORPO

 



"Sacrifício imolado
pelos deuses amado
pelos anjos visitado
protegido dos espíritos
de o corpo trancado."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 222.

Wednesday, June 3, 2026

REGRESSO À MEMÓRIA

 



"regresso à memória
deus de um baralho.
um gigante de músculo breve,
sins líquidos, aqui de barcos
em praia seca.
sim, mentira
ar amigo, onde o vento te leva?
(nos leva).

agora estamos com pressa:
um só momento na maré,
e só um frémito frágil,
nada de mais com joelho,
pão amigo
e deus de um baralho.
primeiros de tu:
depois mais
intervalos de corpo
nos partem em manhãs
como azulejo mais antigo."


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 68.

Tuesday, June 2, 2026

PLANAR / FLANAR

 



"calam as paredes, os nomes nos estuques
ávidos de água, os peixes
encontram as raízes
dos peixes a planar
outros
lumes na terra germinam e no mar"


Óscar Possacos, tábua, Ribeirão: Edições Húmus, 2026, p. 41.

Sunday, May 31, 2026

TRINDADE

 



"ao atingir o teu espírito
a refractabilidade do Espírito
lerás o livro sem letras
e a tua sede
será
o delíquio de todas as rosas

conhecerás que
a Esfinge da Trindade
se explica
pela refractabilidade da Luz

carne
mente
espírito

filho
pai
paracleto

e a coroa
gotejada a rubro
da cabeça do Pintassilgo

aprenderás que
é isto
que faz o sentido de qualquer livro
translúcido e uno

água que escorre
da única fonte"



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, pp. 139-140.

Saturday, May 30, 2026

DANAÇÃO

 




"Dizem que as mulheres danadas
Em cada noite sem Lua
Procuram a língua fria dos lobisomens
Então velam-nos as fadas
E caem suspiros à rua
Quando o suor vem molhar as palmas das mãos dos homens

Dizem que os beijos dos loucos
Rasgam os nossos vestidos
E então velam-nos no ventre em todos os instantes
São deles os prantos roucos
Que nos mordem os ouvidos
De cada vez que entramos pelo corpo dos amantes

Dizem também que os lagartos
Nos vêem beber o vinho
Com que cada mês pagamos pelos pecados
Dos nossos cabelos fartos
Do nosso prazer daninho
De cravarmos fundo os dentes na pele dos nossos amados"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, p. 55.

Friday, May 29, 2026

AMABILIDADE

 



"Não sabemos
o que sustém
a amabilidade do corolário
das pétalas de uma rosa

talvez
os fios finos
da Luz
forças cósmicas
invisíveis
dedos
flamejando a inteireza
do espaço subtil"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 82.

SOBRE TODAS AS LEIS

 



"Nunca tive medo das horas sem alma
Em que se confundem a noite e o dia
E os espíritos piam cânticos ateus
Sempre confiei na luz das manhãs
Quis a companhia muda das geadas
E nunca esperei pelo perdão de Deus

Nunca tive medo das encruzilhadas
Das juras quebradas e das salamandras
Que nascem da chama acesa dos braseiros
Sempre me esqueci de casas e camas
Só quis ter por âncora as minhas canções
E as marés que são sempre mais que os marinheiros

Nunca tive medo dos olhos dourados
dos lobos que a neve lança nos caminhos
Nos natais mais agrestes de chuva e granizo
Só temia o amor que nos rouba a vontade
Quando arrasa as muralhas da nossa razão
E rebenta por dentro do nosso juízo

Mas eu gosto de ti sobre todo o meu medo
Sobre todas as leis que governam os homens
E há centenas de anos que foram lavradas
Contigo eu estou pronta a lutar noutras guerras
A pousar a bagagem na porta de entrada
E sacudir da roupa o pó das estradas"


Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp. 71-72.

Thursday, May 28, 2026

ANIVERSÁRIO

 




"não te refugies
no morto
que não te deu refúgio em vida

a memória
é a sombra da muralha
esboroada por mil pensamentos
e o véu
entornado sobre ela
apenas se crisalidiza
no anoitecer"




Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 67.

Wednesday, May 27, 2026

PREFERÊNCIA

 


"Talvez acabe por preferir a solidão. A solidão é como uma dádiva, nela se não precisa mais do que finura, um certo engenho para contemplarmos com o nosso universo interior cada pedaço do céu ou cada rosa-dos-ventos. Serenos. Receber-lhe as variações. Do mesmo lugar, e sentido o que somos capazes de poder sentir."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 187. 

Monday, May 25, 2026

NA TERRA PLANTADA

 



"Rosa, na terra plantada,
Entre espinhos e abrolhos,
Volves a nós d'essa morada,
Onde foste arrebatada,
Os teus compassivos olhos!

Vê, Senhora, que eu hei posto
Só em ti minha esp'rança:
Se de mim foge o teu rosto,
Eu não fujo ao meu desgosto,
Que bem rápido me alcança.

Invoquei-te na tristeza
Do meu tão penoso exílio;
Dentro em mim senti acesa
Uma luz, cuja viveza
Era a fé no teu auxílio.

Desde então, mal sinto as dores
De quem fui escravo já...
Busco os dons animadores,
Mando ao céu os meus clamores,
E o céu graças me dá.

Mãe dos órfãos desvalidos
A ti devo quanto alcanço;
Mudos foram meus gemidos...
São meus dias sucedidos
Na doçura do descanso.

Mas se o teu divino amparo
Me abandona um só instante,
É então que em mim reparo,
E as fraquezas só deparo
Do pecado triunfante.

Um momento n'esta vida
Não me deixe o teu amor!
Faz do fraco um homem forte,
E por mim pede na morte
Na presença do Senhor!"



Camilo Castelo Branco, Duas Épocas da Vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, pp. 257-258.

Sunday, May 24, 2026

MYSTICA

 



"o amor aprende-se pela seiva
e por isso as árvores selenificam a chuva."



Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 42.

Saturday, May 23, 2026

RESPLANDECE

 



"resplandece
a árvore do silêncio
de cujo centro
flui
o rendilhado
de luz

dela irradia
a lactescência do universo
a constância do etéreo
a solenidade da calma

o leito que esperas
para o entardecer"


Alexandra Soares Rodrigues, Pairi Daeza, Ribeirão: Húmus Editora, 2026, p. 32.

UM TEMPO AINDA OUTRO

 


"As estátuas reflectem vozes de muito longe, pés mansos, pontas de bocas, oráculos em sua inteligível comunicação, sopro de poeira inerente ao sub-reptício vaivém de vultos embrulhados em seu domínio, vultos assinalando um mundo consertado, um tempo talvez ainda outro" 

 

Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 74. 

Friday, May 22, 2026

MISERICÓRDIA

 



"Cada homem se leva, por si ou por outrem,
ao território insensato no qual a morte admite
despir-se da sua indumentária da tábua e do cravo.
Ali é que ela exibe seu sexo ao homem
e o obriga a adorar a Deus na graça do vácuo,
onde o próprio Não sabe a misericórdia."


Armindo Trevisan, «Sexta Opção» in "9 Poemas", Colóquio-Letras, n.º 2, junho de 1971, p. 68.

Thursday, May 21, 2026

A PORTA

 


"Irá ele retorquir, alguma coisa importante, ou não, estende o braço, toca no croché abandonado sobre a mesa. Talvez o afago, o tomar consciência de um sabor, da largueza do risco na entrega de si mesmo, na aceitação. Por entre a porta estreita vem o escuro. O escuro é humano quando vem, é humano para os que não prescindem da esperança."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 64. 

ANTIGAMENTE


 


"Antigamente é que era, hem!?, hem?!...
Rei contra rei. Pronto. Sobe em cima do cavalo, pega na espada, defende, luta, dá morte, pronto, cai no chão, assim é que era! Agora estes são o quê?, querem o quê?, sim, o que é que eles querem?... Ver os outros ali adiante, ver além lutar os outros, os outros a lutar! Olhem lá que coragem!"


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 143.

Monday, May 18, 2026

CORAÇÕES CONTENTES

 


"Não sabemos quantos corações estão contentes, há vinte milénios a noite era já subtil, melancólico o presente, movia-se com o mesmo arrepio e a mesma exultação necessária para receber os sinais do futuro, este ainda não coisa organizada, talvez povoando-se já de oferendas, liquefazendo sombras também preparadas para a sua posse. Anteriormente, quando nós não estávamos, quando as flores que brotavam eram para outras mãos, outro delicado prazer, outro conhecimento, havia já o silêncio e a região do fogo."


Olga Gonçalves, Ora Esguardae, 3.ª edição, Lisboa: Caminho, 1989, p. 65. 

Sunday, May 17, 2026

VISÃO

 


"O CEGO - Não vejo, mas ouço! Ouço a âncora arrastar o lodo do fundo, como quando se arranca o anzol do peixe e lhe sai também pelas goelas o coração! - O meu filho, o meu único filho vai partir e cruzar o mar infinito em direcção a terras desconhecidas. Só posso acompanhá-lo em pensamento. - Estou a ouvir a corrente a ranger - e - há qualquer coisa a bater ao vento como roupa a secar na corda... lenços molhados talvez - e ouço soluços e gemidos como seres humanos a chorar... serão as ondas contra o costado do navio ou as raparigas na praia - é que o mar era salgado, e a criança que tinha o pai embarcado respondeu logo: o mar é salgado porque os marinheiros choram muito. - E porque é que os marinheiros choram muito? -  E ela respondeu: porque estão sempre de partida. - E secam sempre os lenços no alto dos mastros! - E eu perguntei, porque é que o ser humano chora quando está triste? - E ela disse: porque os vidros dos olhos têm de se lavar de vez em quando para vermos melhor!-"


August Strindbergh, Um Sonho, trad. Cristina Reis, Luís Miguel Cintra e Melanie Mederlind, Lisboa: ed. Teatro da Cornucópia, 1998, p. 44. 

Saturday, May 16, 2026

PESO ABENÇOADO

 



"Nessa árvore que o fruto mal sustém, 
Avergada ao seu peso abençoado, 
Nessas árvores sorri um ar sagrado, 
Todo perdão e piedoso bem,,,

Ouve-se nela a Natureza... «Vem», 
Fala esta ao faminto, ao desgraçado. - 
«Vem comer o meu fruto! Filho amado, 
«Vem beber o meu leite alvo de Mãe...»

E a árvore, a Natureza, este anseio, 
(Mãe terna dando ao filho o farto seio...)
À fera e ao verme faz igual pregão.

E como o verme a rastejar na lama
Lhe não alcance o seio, estende a rama,
Baixando o fruto, o seio, até ao chão..."



Bernardo de Passos, «Grão de Trigo», in Poesia da Árvore - Antologia Poética, org. Eng. Resina Rodrigues, 1979, p. 51. 

Friday, May 15, 2026

CHAMAR À VIDA II

 


"A vida seria bela, se todos cumpríssemos os nossos deveres para com ela. Se todos soubéssemos viver a vida! Viver, é dar-se à verdade e amar a todos e a tudo. Dar o seu casaco quente à mulher que passa cheia de filhos, de fome e de frio, tendo apenas farrapos para se aquecer.
E os mais miseráveis, ainda as deixam ficar e fogem.
E a vida começa a ser negra e triste como a noite. O que se passa além já não é viver, é andar no mondo aos tropeções. Cai aqui, levanta acolá!"


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 54.

CHAMAR À VIDA

 



"Com capelinhas de pedra tosca, com a arte própria do tempo e da classe, estão as estradas nortenhas guarnecidas de longe, a longe, com as «Alminhas» a chamar à vida, aquelas que estão a arder nas labaredas que lhe cobrem a cara e as mãos.
As pessoas param. Ficam e rezam; e as «Alminhas», de mãos erguidas, esperam impacientemente a hora do resgate e da purificação."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 51.

Thursday, May 14, 2026

ESFUMANDO

 


"O tempo estava a mudar; uma neblina fria e triste ia e vinha, como um véu, que vindo das alturas envolve tudo: esfumando os penedos, as árvores, a encosta da serra, escondendo aos nossos olhos, cansados de meditar, naquilo que o mundo murmurava além. Ao longe, as pedras, os penedos e as escadas incertas, mais duvidosas ainda pela luz que ia faltando, no caminho que nos levava a nossa casa. Os cães latiam e era o único ruído que nos dava a certeza da vida, no meio daquele silêncio da morte."


Maria da Glória Teixeira de Vasconcellos, Último Livro, Braga, 1976, p. 16.

Wednesday, May 13, 2026

VONTADES


 

"E eu o que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas, Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como é a vontade, É uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada, Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta com Baltasar, para isso viemos aqui, Não posso, jurei que nunca o veria por dentro, Então comigo."


José Saramago, Memorial do Convento, 21.ª ed., Lisboa: Caminho, 1992, p. 124. 

Monday, May 11, 2026

LOQUAZ

 


"Suponho que há escritores loquazes e escritores silenciosos. Falar e escrever são, para mim, exercícios completamente diferentes. Pertenço mais ao género dos parcos que ao dos loquazes, e, cada vez mais, por motivos óbvios. Segui sempre o conselho daquele que antes de falar mordia dez vezes a língua. Se à décima mordidela continuava a pensar a mesma coisa, dizia-a; se hesitava, ficava calado. Passo a duvidar de se vale a pena dizer o que estou a dizer. Tomar a palavra, de certa maneira, é vergonhoso, é como dizer; eu, sim, tenho qualquer coisa para dizer, ouçam-me. Pelo contrário... não estou muito certo de ter alguma coisa interessante para dizer. Na verdade, sinto-me esmagado pelo penso das palavras."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, p. 31. 

Saturday, May 9, 2026

ÁVIDO

 



"Ávido das chamas
cedi à fome e engoli o fogo.

Fui delírio, fui delito.

Eis-me agora:
pequeno incêndio,
um perigo intacto.

O mais brilhante segredo desta esfera."



Ricardo Gil Soeiro, Pirilampos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 59.

Friday, May 8, 2026

MINICÉU

 


"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.

(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)

No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.

Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."


Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62

Thursday, May 7, 2026

A ROSA DO ENCOBERTO

 


"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras: 
«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"

Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29. 

Tuesday, May 5, 2026

AS PALAVRAS

 


"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18. 

Sunday, May 3, 2026

MATERNIDADE

 


"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.
Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:
- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"


Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.

MULHERES

 



"Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos.
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na Cruz.
- Infâncias que foram
De fadas e flores."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. II, Lisboa: INCM, 1994, p. 25.

Saturday, May 2, 2026

O RETRATO

 


"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177. 

Friday, May 1, 2026

ENTRADA

 



"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.
Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.

Thursday, April 30, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Procurava uma palavra que exprimisse a sua maravilhosa surpresa e não a encontrava. A solidão exaltada de que se nutria tanto tempo o seu jovem orgulho, entre esses homens grosseiros que ele temia e desprezava ao mesmo tempo, não se quebraria num dia, mas ele sentia-a prestes a ceder, a abrir-se, como um muro batido pelo mar. Qualquer palavra, aliás, teria parecido vil ao seu coração pleno. Os seus grandes olhos encheram-se de lágrimas."


George Bernanos, Um crime, trad. Ersílio Cardoso, Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 54. 

Sunday, April 26, 2026

FONTE

 




"É Rosa menos Rosa
diz o aguaceiro que refresca alegremente o vinho branco
enquanto não arromba as igrejas num qualquer dia de Páscoa
É Rosa menos Rosa
e quando o touro furioso da grande catarata se acomete
sob as suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas
como está o tempo
Está um tempo Rosa com um verdadeiro sol de Rosa
e vou beber Rosa comendo Rosa
até adormecer num sono de Rosa
vestido de sonhos Rosa
e a madrugada Rosa despertar-me-á como um cogumelo Rosa
no qual se verá a imagem de Rosa nimbada dum halo Rosa"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 137.

Saturday, April 25, 2026

ABRIL

 




"Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.

A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.

O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.

No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar."


António Ramos Rosa, "A Pedra Nua", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 455-456.

Friday, April 24, 2026

TODOS OS DEUSES

 



"Penelopando tramas de espertina
em minha teia de defesas castas
espero adiar em mim noites madrastas
cujo terror pressinto. Em surdina

teço de esperançada e caprina
malícia, entre um tédio de pilastras,
a imensa tessitura de infastas
razões não e razões sim. Na neblina

leve e futurada em que concentro
o intento focadíssimo do olhar,
alevantam-se as rolas do escarmento

de, irra, todos os deuses! Penelopar
adianta? Sei lá bem! Mas experimento
esta expedita forma de adiar."


João Pedro Grabato Dias, in Colóquio Letras, n.º 4, dezembro de 1971, p. 71.

Thursday, April 23, 2026

OUTREM

 


"PHILIPPE NEMO - Outrem é rosto; mas outrem, igualmente, fala-me, e eu falo-lhe. Será que o discurso humano não é também uma maneira de romper com o que chama «totalidade»?

EMMANUEL LEVINAS - Certamente. Rosto e discurso estão ligados. O rosto fala. Fala, porque é ele que torna possível e começa todo o discurso. Recusei, agora mesmo, a noção de visão para descrever a relação autêntica com outrem: o discurso, e mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que é esta relação autêntica."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 79.