Saturday, May 9, 2026

ÁVIDO

 



"Ávido das chamas
cedi à fome e engoli o fogo.

Fui delírio, fui delito.

Eis-me agora:
pequeno incêndio,
um perigo intacto.

O mais brilhante segredo desta esfera."



Ricardo Gil Soeiro, Pirilampos, Lisboa: Assírio & Alvim, 2022, p. 59.

Friday, May 8, 2026

MINICÉU

 


"Entre cacto e gato há um vaso de versos,
no branco das palavras nasce a lua.

(Todos nós, minha amiga, somos irmãos conversos
virados para dentro, para a nossa rua;
só que nuns acontece ter o tejo aberto
um sossego inaudível que nunca será teu.)

No mais, é mais rochedo que deserto,
é mais arqueologia do que minicéu.
Por mim, transformo as letras numa sopa
- de cultura, ora pois, onde me nasço todo
sem rede e sem redil, só olhos e só boca:
nas palavras escavo cavernas segregadas,
concavidades mansas onde há barcos e couves.

Não agrado a ninguém. E tu, se agradas,
é neste meu martelo que não ouves.
No mais, é mais barulho que varejo,
a perna assim, um braço assado, ao fogo.
Porque eu é que te vivo e que te vejo.
Que te crio, que te mato, que te morro."


Pedro Tamen, «Prometeu prometeu», Colóquio-Letras, n.º 3, setembro de 1971, p. 62

Thursday, May 7, 2026

A ROSA DO ENCOBERTO

 


"Houve uma noite em que lamentou ter chegado, na Roma de outros tempos, a matar Pompeu, rival de César, causando também sensação, noutra ocasião, ao entoar, numa língua misteriosa, as seguintes e musicais palavras: 
«Que símbolo fecundo vem da aurora ansiosa? Na cruz morta do mundo a vida que é a rosa. Que símbolo divino, traz o dia já visto? Na cruz, que é o destina, a rosa, que é Cristo. Que símbolo final mostra o sol já desperto? Na cruz morta e fatal a rosa do encoberto.»"

Manuel Jorge Marmelo, Os Fantasmas de Pessoa, Porto: Asa, 2004, p. 29. 

Tuesday, May 5, 2026

AS PALAVRAS

 


"As palavras dos mortos ganham um peso que nunca tem o que dizem os vivos. Em primeiro lugar, já não as julga nem a amizade nem a inveja, o que as afasta dos vícios nefastos e contraditórios da leitura: o doce elogio, o agravo acrimonioso. As palavras dos mortos são o que são, finalmente, e quanto mais passe desde a morte, melhor."


Héctor Abad Faciolince, Os Dias de Davanzati, trad. Margarida Amado Acosta, Lisboa: Quetzal, 2012, pp. 17-18. 

Sunday, May 3, 2026

MATERNIDADE

 


"Para quê falar da fome, da chuva, a traspassar-lhe a pele na faina dos olivais, do quanto lhe doía arrastar o corpo pela ladeira do rio acima, com o carrego da roupa? Sim, para quê falar de tudo isso, se essa carta, afinal, nunca chegaria às mãos da Rosa? E antes queria rebentar já, do que saber o seu sofrimento para aí badalado aos quatro ventos por essas linguareiras de má morte.
Reparando novamente na Lúcia Torres, viu-lhe a postura atenta da cabeça, o franzir maldoso da boca. Grande paspalhão! Um quebranto lhe desse que não tornasse a enxergar a luz do Sol! Súbito, aquela angústia há tanto represa ao peito subiu-lhe à garganta, toldou-lhe os olhos. E então, compreendeu que todo o vigor do seu ódio era alimentado afinal pela enorme saudade da filha ausente. Não logrando conter-se mais, deixou as lágrimas escorrerem-lhe pela cara abaixo. E foi entre soluços que ditou o fecho da carta:
- «Rosa, recomenda-me aos teus patrões... Não te esqueças de mim... e logo que possas vem ver-me... tenho muitas saudades tuas... Abraça-te a tua mãe muito amiga... que te traz sempre na ideia...»"


Mário Braga, «A carta», in Quatro Reis, 2.ª ed., rev. Lisboa: Portugália Editora, 1962, p. 44.

MULHERES

 



"Desciam da cruz
Como aves de negro.
As asas abertas
Batiam soturnas
Na cinza de névoa
Das sombras nocturnas
E ousavam mistérios
De deuses secretos.

Mulheres ou bonecas.
Crianças ou velhas.
No barro das telhas
A chuva caía.
Caíam as folhas
Doiradas e secas.
Mulheres ou bonecas
Desciam da cruz
Na noite vazia.

Repetem-se os gritos
Represos mil anos.
Ecoam suspiros.
Ninguém sabe o rosto
Aos deuses tiranos.
Formigas, bonecas
De vozes tão roucas
Correndo, sofrendo,
Voando, voando.

Baloiçam-se negras
De véus e de Dores.
Nas asas de aviões
Que cortam as cores
Pregadas na Cruz.
- Infâncias que foram
De fadas e flores."


Natércia Freire, Obra Poética, vol. II, Lisboa: INCM, 1994, p. 25.

Saturday, May 2, 2026

O RETRATO

 


"O retrato, a plenitude de um rosto que a iluminação do desenho primeiro e, depois, a intensidade da cor sustentam; nestes rostos, antecedidos por (quase) terríveis flores, pois tão intensa é a sua coloração, há como que uma supressão do tempo. Eles guardam fios do fogo de Cronos que fogem à sua própria voragem. E suspendem, como seres que se libertam de um sacrifício propiciatório, a força que reside na sua identidade."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 177. 

Friday, May 1, 2026

ENTRADA

 



"Uma noite destas sonhei com João Baptista. Vi-o na Alta Idade Média, na figura de S. Remígio, bispo de Reims, baptizando e ungindo Clóvis I. A pia baptismal era uma grande celha de madeira. Aros de ferro circundavam as tábuas. Foi assim, nesse sonho. Queria somente dizer que com o decorrer dos séculos o que perdurará é o sinal da entrada na água.
Mais nada permanecerá. Nenhum traço dos personagens, nenhum carácter. Nem sequer a imagem de um homem novo lendo um livro com algum abandono, no recesso de uma escarpa elevada. Mas não liguem. O destino quase sempre não passa de uma curta história, de uma narração mediante imagens. Refere-se à posição de uma cidade num mapa que nunca ninguém consegue encontrar."


João Miguel Fernandes Jorge, A Flor da Rosa, Lisboa: Relógio D'Água, 2000, p. 33.

Thursday, April 30, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Procurava uma palavra que exprimisse a sua maravilhosa surpresa e não a encontrava. A solidão exaltada de que se nutria tanto tempo o seu jovem orgulho, entre esses homens grosseiros que ele temia e desprezava ao mesmo tempo, não se quebraria num dia, mas ele sentia-a prestes a ceder, a abrir-se, como um muro batido pelo mar. Qualquer palavra, aliás, teria parecido vil ao seu coração pleno. Os seus grandes olhos encheram-se de lágrimas."


George Bernanos, Um crime, trad. Ersílio Cardoso, Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 54. 

Sunday, April 26, 2026

FONTE

 




"É Rosa menos Rosa
diz o aguaceiro que refresca alegremente o vinho branco
enquanto não arromba as igrejas num qualquer dia de Páscoa
É Rosa menos Rosa
e quando o touro furioso da grande catarata se acomete
sob as suas asas de corvos escorraçados de mil torres em ruínas
como está o tempo
Está um tempo Rosa com um verdadeiro sol de Rosa
e vou beber Rosa comendo Rosa
até adormecer num sono de Rosa
vestido de sonhos Rosa
e a madrugada Rosa despertar-me-á como um cogumelo Rosa
no qual se verá a imagem de Rosa nimbada dum halo Rosa"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 137.

Saturday, April 25, 2026

ABRIL

 




"Porque és sem tensão o resultado,
o chegado. A praia e o centro do olhar
no extremo e simples.

A água toda externa, água solar,
por toda a parte visível nua em ti.
Vejo-te desejado pupila toda mar
à varanda de ti próprio.
À varanda do mar.

O desejado desejo
nudez de consciência
livre ao ar de tudo
em palavras nuas de água
eu o recebo, teu princípio e fim.

No espaço interno mar
onde chegaste
o desejo coincide eterno em si
no mar."


António Ramos Rosa, "A Pedra Nua", in Obra Poética I, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, pp. 455-456.

Friday, April 24, 2026

TODOS OS DEUSES

 



"Penelopando tramas de espertina
em minha teia de defesas castas
espero adiar em mim noites madrastas
cujo terror pressinto. Em surdina

teço de esperançada e caprina
malícia, entre um tédio de pilastras,
a imensa tessitura de infastas
razões não e razões sim. Na neblina

leve e futurada em que concentro
o intento focadíssimo do olhar,
alevantam-se as rolas do escarmento

de, irra, todos os deuses! Penelopar
adianta? Sei lá bem! Mas experimento
esta expedita forma de adiar."


João Pedro Grabato Dias, in Colóquio Letras, n.º 4, dezembro de 1971, p. 71.

Thursday, April 23, 2026

OUTREM

 


"PHILIPPE NEMO - Outrem é rosto; mas outrem, igualmente, fala-me, e eu falo-lhe. Será que o discurso humano não é também uma maneira de romper com o que chama «totalidade»?

EMMANUEL LEVINAS - Certamente. Rosto e discurso estão ligados. O rosto fala. Fala, porque é ele que torna possível e começa todo o discurso. Recusei, agora mesmo, a noção de visão para descrever a relação autêntica com outrem: o discurso, e mais exactamente, a resposta ou a responsabilidade, é que é esta relação autêntica."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 79. 

Wednesday, April 22, 2026

 


"PHILIPPE NEMO - Um silêncio sussurrante?

EMMANUEL LEVINAS - Algo que se parece com aquilo que se ouve ao aproximarmos do ouvido uma concha vazia, como se o vazio estivesse cheio, como se o silêncio fosse um barulho. Algo que se pode experimentar também quando se pensa que, ainda se nada existisse, o facto de que «há» não se poderia negar. Não que haja isto ou aquilo; mas a própria cena  do ser estava aberta: há. No vazio absoluto, que se pode imaginar, antes da criação - há."


Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, trad. João Gama, Lisboa: Edições 70, 1988, p. 40. 

Sunday, April 19, 2026

ANJO

 




"... Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.
Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetaculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh'alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos."


Carolina Maria de Jesus, Quarto de Despejo - Diário de uma Favelada, 8.ª ed., São Paulo: Editora Ática, 2005, p. 107.

PRAÇA-FORTE


 

"Foi-me tão longa e funda a solidão
que vi a dor mudar em pensamento;
neutralizado assim o sofrimento, 
julguei ter o governo da emoção.
E dela livre, p'la imaginação, 
até onde podia ir o meu alento, 
arroguei-me do' humano sentimento
enquanto ia vazando o coração.
Mas sem que o perigo apercebesse, 
em máscaras de mim me extraviei
negando em cada uma outra verdade.
E reaver-me agora me parece -
na ausência viva que enganar não sei - 
a última ironia da saudade..."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 72. 

Saturday, April 18, 2026

DAMA NA TORRE

 



"A dama na torre está
a torre ébria como um boi
um boi sangrento
que come bolotas
ao levantar-se
e cospe sangue
ao deitar-se

A dama na torre está
A torre era tão alta
a dama era tão pequena
que uma pessoa se enganava
era essa a paga
No salgueiral
todos os nabos
se mimavam

A dama era tão pequena
a torre tão grande era
que as amêndoas
e as amantes
se amavam nos desvãos"



Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 91.

Friday, April 17, 2026

UM PÁSSARO

 



"Pode demorar mil anos
Ou o tempo de um rio
O beijo que pouso no teu ombro
Um pássaro
Um poema nascente do fogo
Lado direito do teu corpo
E na noite
Átrio de silêncio
Para dizer amor
Há uma corda de palavras estancadas
Quase sussurros

E a eternidade resume-se
À certeza morna dos teus dedos
Escorrendo através dos meus lábios"


José Pedro Leite, Respiração Vertical, ed. autor, 2011, p. 56.

Tuesday, April 14, 2026

MÃOS

 



"O homem descobre a poesia circular
Apercebe-se de que ela rola e baloiça
como as vagas da botânica
e prepara periodicamente o fluxo e o refluxo

Ó santos porque não sois cingidos de seios sãos
O vosso selo seria uma mão feita de polegares
agitada por tremor alcoólico
Ó santos que tendes vós na mão
Será uma mão mais pequena
que envolve uma outra mão mais pequena
e por aí fora até à extinção das mãos

A poeira agita-se na sua solidão
Quer que o silêncio que a envolve
se povoe de fantasmas alados
com vozes de tronco podre
de mulheres leves como a dama branca

de velhotes que descem da montanha
a braços com as neves eternas
das grandes montanhas moles
onde giram rodopiam e mergulham
as sapatilhas de dança"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 52.

Sunday, April 12, 2026

MONTANHAS

 


"As montanhas saíram do fundo do mar, a terra nasceu do seio das ondas, embora sempre rodeada pelo vasto oceano. É imóvel porque o universo se afasta dela em todos os sentidos com igual força: caiu tanto de toda a parte que já não pode cair de nenhuma; é o centro e, ao mesmo tempo, o lugar mais baixo de todo o universo."


Marcus Manilius, Os Astrológicos ou a Ciência Sagrada dos Céus, I, trad. Inês Guerreiro, Lisboa: Arcádia, s.d., p.16.

Saturday, April 11, 2026

LANGUIDEZ

 


"E depois começaram a abafar na avenida. Nunca ela tivera tão ardentes frémitos; nunca o chão, esse campo em que dormiam as últimas ossadas do antigo cemitério, tinha deixado escapar mais inebriantes exalações. Ainda eles tinham em si bastante infância para saborear o voluptuoso encanto desse buraco solitário, febril de primavera. As ervas subiam-lhe até aos joelhos; caminhavam a custo; e, quando esmagavam os rebentos, certas plantas deitavam cheiros acres que os embriagavam. Então, tomados de estranhas fadigas, perturbados e vacilantes, com os pés como que ligados pelas ervas, encostavam-se contra a parede, de olhos semi-cerrados, sem poder avançar. Parecia que toda a languidez do céu neles se instilava."


Émile Zola, A Fortuna dos Rougons, trad. Barros Lobo, Lisboa: Guimarães Editores, s.d., p. 233-234. 

Friday, April 10, 2026

ANIVERSÁRIO

 


"Eles abrem a palavra
A pequena giesta — essa luz

Abrem uma pinha na infância

Quando despertam
Quando abrem as mãos à pulsação
Dos livros, eles abrem
No favo o sinal

A pequena nascente no mel"


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 203. 

Thursday, April 9, 2026

COMUNICAR


 

"Se alguma vez Victor sentiu-se no coração de sua religião, foi neste momento e esta mesma religião, ele talvez nunca a sentira no fundo do seu coração. A solidão desta pequena igreja no campo, a singularidade da relíquia que ela guardava, o desencadeamento da natureza uniam-se para dar-lhe a impressão de uma divindade que sabe comunicar-se por todos os meios: os mais terríveis, os mais comoventes, os mais absurdos. Um dia divertira-se ao saber que havia uma oração contra os terremotos, mas hoje compreendia que havia gente para recitar esta oração quando a terra se punha a tremer. «Nós só temos na noite uma pequena luz para nos conduzir, disse um filósofo, e a religião a apaga»: a religião é também esta pequena luz na noite."

Roger Peyrefitte, As Chaves de São Pedro, trad. Heitor Martins, Rio de Janeiro: Editora Júpiter, 1961, p. 269. 

Wednesday, April 8, 2026

APRENDIZAGEM

 


"Entretanto, que aprendera até então com tamanha fadiga? Nada de positivo entre os antigos, nada de belo entre os modernos. O passado e o presente são duas estátuas incompletas. Uma saiu toda mutilada dos escombros do tempo. A outra não recebeu nada ainda do acabamento do futuro."


François René de Chateaubriand, René, trad. Vergílio Godinho, Lisboa: Editorial Verbo, 1972, p. 99. 

Tuesday, April 7, 2026

ÁGUA QUE NÃO SE BEBE

 




"Estamos longe ou então
Há água que não se bebe
é água potável
Há pessoas que não se vêem
são os mortos
e também não as ouvimos
Porque é que afirma o contrário
Porque é que gritou tão alto
Bem vê que vamos morrer
E eu não faço questão"


Benjamin Péret, Sol no Bolso, trad. Regina Guimarães, Contracapa: 2025, p. 15.

Monday, April 6, 2026

DELIMITADOS SOMOS PELOS DEUSES

 


"Delimitados somos pelos deuses

Antes que se evapore de repente
Escrever o problema com mestria
Eterna fixação que o canto inscreve

Meu coração partiu-se em quatro partes
Não posso a minha dama desfrutar
Chegado ao termo de lavor tão duro

Tudo perdemos sempre que chegamos
Delimitados somos pelos deuses

Dos deuses é o silêncio periférico
o nível e o espaço, o firmamento."


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 306. 

A RAIZ DA TERRA

 



"Pode um homem correr mundo
nos quatro ventos plantar
o rosto, a alma e o fundo
de tudo quanto é seu
que nenhum vento pode arrancar
a raiz da terra onde nasceu"


Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 286.

Sunday, April 5, 2026

QUEM ESCOLHE O CAMINHO DAS PEDRAS

 



"Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil

Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue

Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser

Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume

Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte"



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 179.

NO INTERIOR DA TERRA


 

"Vimos a pedra vazia no interior da terra
A manhã. Nós não tocámos a luz
Inesperada. Pensámos
Que já o sono sendo eterno te afastara
E que farol que foste
Agora onda após onda, brasa extinta, naufragava

Nunca mais, pensámos, dormirias na proa
E quase desaprendêramos a guiar o barco
Em nossas viagens não amainaria mais, pensámos, e chegar a casa
Seria ver multiplicar-se
A nossa fome como o peixe e como o pão

Chegámos a terra porém e esperavas-nos
Os pés furados como conchas sobre a areia
E sentámo-nos em redor para comer"



Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 264. 

Saturday, April 4, 2026

O SILÊNCIO

 



"É mais de terra feito
que doutra matéria e matizes:
Pesa na fronte e no peito
sobre o tumulto das raízes...

E as raízes deitam fora
dedos, mãos, braços, 
de plantas plantadas na hora
dos passos longos, dos longos passos...

E das plantas 
há tantas
que mal ou bem
ficam no gesto de quem plantou, 
à espera do sol que não vem
ou tardiamente chegou."



Luís Veiga Leitão, Poesia Completa, org. Luís Adriano Carlos e Paula Monteiro, Porto: Edições Asa, 2005, p. 37. 

Friday, April 3, 2026

SOFREDOR

 


"Assim, não sabemos precisamente quem foi responsável pela prisão, julgamento e execução de Jesus; nem sabemos o que tinha em mente quando se dirigiu para a morte. Aqueles que mantêm que se identificava com o Servo Sofredor acreditam que se considerava o seu sofrimento como expiação pelos pecados dos homens; os que não mantêm, não têm essa pretensão a respeito dele."


Humphrey Carpenter, Jesus, trad. Maria Manuela Pecegueiro, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1982, p. 165. 

GÓLGOTA


 "O corteja saíra da cidade para chegarem ao lugar da Caveira, no Gólgota. Judeus caritativos tentaram dar-Lhe vinho misturado com mirra, para que não sentisse tanto a morte, mas Jesus recusou. Depois crucificaram três: os dois «bandidos», um à sua direita e outro à sua esquerda e Jesus no meio, pois era executado com o «rei dos Judeus». Mas Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem!» Os soldados distribuíram entre si as roupas d'Ele e uma multidão curiosa observava a crucifixão."



David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 110. 

Thursday, April 2, 2026

JARDIM


 

"Depois da ceia e quando já haviam entoado os cânticos de louvor, Jesus saiu da cidade acompanhado pelos discípulos até ao vizinho Monte das Oliveiras e, chegando a um lugar de nome Getsémani, disse-lhes que ficassem ali e rezassem. E Ele afastou-se um pouco, ajoelhou-se e começou a orar: «Pai, se tu quiseres afasta de mim este cálice! No entanto, que seja feita a Tua vontade e não a minha.» E foi ter com os discípulos, encontrou-os a dormir e disse-lhes: «Porque estais a dormir? Levantai-vos e rezai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito é forte, mas a carne é fraca.» (Cf. Lc 22, 39-46). Quase atraiçoara a voz que lhe anunciara a sua escolha e qualidade de Filho de Deus, mas cedera à tentação de aproveitar o escuro da noite para fugir de Getsémani para prolongar a vida sob um nome falso. Sujeitou-se à vontade de Seu Pai que estava no Céu, bebendo o cálice que já anteriormente suspeitara ser-Lhe destinado."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, pp. 99-100. 

CEIA


"Segundo os três primeiros Evangelhos que aqui estamos a seguir, a última refeição foi uma ceia pascal; Jesus sacrificou antes, por conseguinte, o cordeiro pascal. Na medida em que estava prescrito que o cordeiro assado fosse comido na própria cidade, Jesus não foi passar a última noite a Betânia, mas pernoitou em Jerusalém. O nome da hospedaria não passou à tradição, dado os peregrinos serem na altura recebidos gratuitamente e com agrado em toda a parte. E quando anoiteceu, sentou-se à mesa com os doze discípulos e disse-lhes: «Desejei muito comer esta Páscoa convosco, antes de morrer. Pois eu vos digo: Não a comerei de novo, até que se cumpra no Reino de Deus.» E aceitou um cálice com vinho, deu graças e disse: «Tomai isto e passai-o de um para outro entre vós; pois eu vos digo: doravante, não beberei mais do produto da videira até que chegue o Reino de Deus.» Pegou num pão, deu graças e disse: «Isto é o meu corpo!»"


 David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 99.

Wednesday, April 1, 2026

PRÁTICA DE AMOR



"Quem outrora escutava a prática de amor pronunciada por Jesus podia deixar-se envolver na mesma. Muitos assim o pensaram noutros tempos. Na pureza das frases sentia-se forçosamente, na verdade, algo de estranho. Jesus não recolheu tudo o que outrora se pensava e ensinava no judaísmo. Embora não fosse realmente um fariseu intrínseco, foi o fariseu do amor da escola de Hillel que, no entanto, levou a sua doutrina mais longe até ao amor incondicional, tanto para com os inimigos como para os pecadores. Ainda veremos que não se tratou de uma doutrina sentimentalista."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 63. 

Tuesday, March 31, 2026

JOUFFLUS

 


"Descobrir uma invectiva contra Cupido. Em ligação com as invectivas do alegorista contra a mitologia, que tão bem correspondem às dos clérigos dos começos da Idade Média. Na passagem em questão, Cupido pode ter recebido o epíteto de joufflu (bochechudo). A aversão de Baudelaire contra ele tem as mesmas raízes que o seu ódio a Béranger."



Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 176. 

SOUVENIR

 



"O souvenir é o complemento da «vivência». Nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos. No século XIX a alegoria abandonou o mundo exterior para se instalar no mundo interior. A relíquia vem do cadáver, o souvenir vem da experiência morta que, eufemisticamente, se designa de vivência."


Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 177. 

Monday, March 30, 2026

SINÓPTICO

 



"É sabido que o Jesus sinóptico nunca infringiu a lei de outrora - com a única excepção, de facto, relativamente ao colher das espigas ao sábado. A mais elucidativa da velha narrativa é a de Lucas (6, 1-5): «Aconteceu, então, num sábado, que Ele passava pelas searas e os Seus discípulos arrancavam e comiam espigas, esfregando-as nas mãos. Vendo isto, alguns fariseus disseram: "Por que fazeis o que não é lícito no sábado?"» A interpretação geral era a de que, ao sábado, apenas se podiam esfregar espigas caídas, com os dedos, mas, segundo a opinião do Rabi Judas, que também era um galileu como Jesus, também se podia fazê-lo «com a mão». O tradutor grego da narrativa original não estava então familiarizado com os hábitos do povo e, a fim de ilustrar a cena, acrescentou o arrancar das espigas sem suspeitar de que, mediante a única infracção à lei, se inseria na tradição sinóptica."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 36. 

Sunday, March 29, 2026

BEATA PERDIÇÃO

 



"Vi-Lhe o Rosto por detrás de véus frondosos
E não quis sossegar nas criaturas.
Desejei a morte e ainda roubo letras ao trabalho dos meus dias.
Volto os olhos para o mar saudoso.
O mundo, porém, persistiu em chamar por mim
E parecia-me a Sua voz que ordenava:
«Volta para tua casa!»
Voltei e estou a agir como deve ser.
Ninguém desconfia do meu gozo em negar-me quando me afirmo.
Eis-me naufragado na beata perdição."


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 294.

RAMOS

 



"Deus está entre as portas
Nas encruzilhadas
Onde um dá lugar ao outro
Elo em tudo o que acontece
Ponto por ponto.
Por isso é que o tempo não é inimigo de Deus
Sendo de bom senso homologar
Que tudo é um só Nome: Transcendente.
Portanto, a conclusão é simples:
Não podes parar ou deixar de dar as mãos."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 244.

Friday, March 27, 2026

FORÇOSO

 




"Forçoso é que a solidão transcenda
que a alma envenenando tem cativa
da teia do silêncio, e com nativa
voz novamente à humanidade ascenda.
E pura seja a força que me atenda,
mais forte do que a dúvida furtiva,
para encontrar de novo, rediviva,
a confiança que esta angústia fenda.
Pois se no mundo é difícil ser
maior que a dor, do tempo consciente,
inútil é da sorte algo esperar.
Que tudo o que é possível de querer
só cada um de si a si consente
na eterna maravilha de se achar."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 70.

AUSÊNCIA EM VIDA ADIVINHADA

 




"Passando, faz-se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela-me sabê-lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça-forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo -
que da razão já sinto descolada -
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 64.

Monday, March 23, 2026

VEM VINDO

 



"Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume, 
o seu lume breve. 
Palavras que muito amei, 
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua."


Eugénio de Andrade, 5 poemas, Porto: Campo das Letras/Fundação Eugénio de Andrade, 1997, p. 17. 

Sunday, March 22, 2026

LAZARE, VENI FORAS

 


"20. A morte é vencida, o homem é restabelecido, as cadeias dos infernos são quebradas. E depois de quatro dias a língua de Lázaro volta a mexer-se, as mãos aprestam-se para o trabalho, os olhos giram nas suas órbitas, os seus passos voltam a deixar pegadas, a audição retorna aos ouvidos e o olhar volta-se para os seus parentes. A vista revitalizada reconhece os familiares e a voz da sua família penetra nos seus ouvidos. Os pés do Salvador, por onde quer que se movam, encontram beijos por toda a parte. Pede-se água fresca, não se recusa o pão, toma-se o caminho de casa, relatam-se os milagres de Cristo."


Potâmio de Lisboa, «Acerca de Lázaro», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 122. 

FORÇA ASCENCIONAL

 


"O sofrimento humano, a totalidade do sofrimento difundido, a cada instante, pela terra inteira, que imenso oceano! Mas de que é formada essa massa? De escuridão, de lacunas, de perdas?... Não, mas, devemos repeti-lo sempre, de energia possível. No sofrimento esconde-se, com uma intensidade extrema, a força ascensional do Mundo. Toda a questão está em libertá-la, dando-lhe a consciência de que ela significaria e daquilo de que ela é capaz. Ah, que salto não daria o Mundo em direcção a Deus se todos os doentes ao mesmo tempo transformassem as suas dores num desejo comum de que o Reino de Deus amadureça rapidamente através da conquista e organização da Terra!"


Pierre Teilhard de Chardin, Hino do Universo, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Editorial Notícias, 1995, p. 90. 

Saturday, March 21, 2026

DIA DA ÁRVORE


 "E assim o demónio, que tinha vencido na árvore da ciência do bem e do mal, onde Adão e Eva pecaram, foi vencido na árvore da vida, que é a árvore da vera Cruz: onde o Senhor acabou seus trabalhos, para começarem nossos descansos."

 
Frei Heitor Pinto, Imagem da Vida Cristã, vol. II, cap. XXVI, Lisboa: Sá da Costa, 1940, pp. 313-314. 

DIA DA POESIA

 



"Vejo com os olhos de Deus,
adormeço com ele sobre as paisagens,
dispus cuidadosamente o sangue nas areias,
ao dobrar o cabo dos anos, calei-me.

O tempo vai esmorecendo nas pobres vozes,
é uma terra parada a que nos deixa a descobrir
e Deus cala-se a meu lado, adormecido
como o melro docemente tranquilo."


Rui Cóias, Europa, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 30.

Friday, March 20, 2026

IGUALDADE

 


"Deus nunca se manifesta. Assistiu Ele o seu filho no Jardim das Oliveiras? Não o abandonou Ele na sua angústia suprema? Oh que loucura pueril é invocar o seu socorro! Todo o mal e todas as provações, residem apenas em nós. Ele tem perfeita confiança na obra amassada pelas suas mãos. E tu traíste a sua confiança. Mar divino, não te espantes com a minha linguagem. Todas as coisas são iguais perante o Senhor. A soberba razão dos homens não vale mais, na balança do infinito, que o pequeno olho raiado de um dos teus animais. Deus dá tanto valor ao grão de areia como ao imperador."

 

Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 64. 

JOSÉ

 


"Os solitários e os doentes vêm para nos ver, e as velhas acendem luzes para nós nas cabanas. Tocam para nós os sinos das igrejas. Os camponeses levantam-se dos regos para nos espreitar. Até os animais ficam a olhar para nós e nunca fogem. E desde que caminhamos o sol foi ficando mais quente e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes se podem entrançar nas mesmas formas, e as nossas cruzes estão sempre frescas. Por isso temos muita esperança, e brevemente veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir ao seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas alegrar-se-ão na noite."


Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 38. 

Sunday, March 15, 2026

O TRABALHO HUMANO

 



"O trabalho humano! explosão que ilumina de quando em quando o meu abismo!
«Nada é vaidade; pela ciência, marchar», grita o Eclesiastes moderno, isto é, Toda a Gente, E no entanto os cadáveres dos maus e dos vadios caem em cima do coração dos outros... Ah! depressa, depressa, depressa um pouco; lá longe, além da noite, as recompensas futuras... eternas... fugir-nos-ão?
- Que lhe hei-de fazer? Conheço o trabalho, e a ciência é por demais vagarosa. Que a oração galopa e a luz atroa... vejo eu bem. É demasiado simples e faz muito calor; haverão de dispensar-me. Tenho o meu dever e, como tantos outros, sentir-me-ei orgulhoso de lhe passar ao lado."


Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 169.