Sunday, September 20, 2009

OPORTUNIDADE DE RESPOSTA


"E um dia, ao saber Camilo céptico, Camilo com noites de sombrio desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de propósito procurá-lo para lhe pregar Deus?
Era uma dessas tardes trágicas de Seide, de que o grande escritor fala nos Serões. A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta tenta arrancá-lo ao negrume que o envolve: desenrola teorias, explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado e convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras irónicas:
... - Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."


Raul Brandão, Memórias (Tomo I), vol. I. Lisboa: Relógio D'Água, 1998, pp. 60-61.

Tuesday, September 15, 2009

AQUELE QUE FEZ O OUVIDO, NÃO OUVIRÁ?

"Hans Füchs tirou do canto da boca o cachimbo fumegante:
- E o senhor acredita em Deus, Major Taborda?
- Por que não havia de acreditar? Ou o senhor pensa que eu me presumo ser de geração espontânea? Para a compreensão do Universo, estamos limitados por nossos sentidos. Se eu tenho um defeito de visão, vejo duas coisas em vez de uma, ou não vejo nada. Isto não quer dizer que as coisas deixem de existir, ou que existam conforme eu as veja. O próprio cérebro humano, tão bem guardado na caixa craniana, não tem percepção para tudo, por mais genial que seja. Onde está o mundo? Para onde vai o tempo? Se não consigo ter uma noção exacta dessas idéias essenciais, mesmo com as fórmulas matemáticas mais transcendentes, devo baixar a cabeça, com humildade, e admitir que há uma inteligência superior à do homem, que conduz o equilíbrio do Universo e que também me criou, como criou o senhor. Essa inteligência é Deus. Não o Deus que ameaça e castiga implacavelmente, mas o Deus que se comunica com o homem mais rude e primitivo na hora de suas aflições. Um Deus que perdoa os meus erros. Há na Bíblia um versículo que jamais esqueci. É o que nos diz, num dos Salmos: «Aquele que fez ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?» O senhor dirá que são idéias simplistas. São. Mas Deus também é simples. A simplicidade é a grande lei do Universo. Só a achamos complicada quando ela nos escapa, ou por estupidez, ou por ignorância, ou por orgulho besta. Depois de cento e cinqüenta e dois anos neste mundo, é o que tenho de mais importante a lhe dizer. Não é muita coisa, reconheço. Mas não creio que, pelo fato de ser hoje o homem mais velho do mundo, eu tenha também de ser o mais sábio."


Josué Montello, Largo do Desterro, Lisboa: Livros do Brasil, 1993, p. 291
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Sunday, September 13, 2009

A QUESTÃO DA PERDIÇÃO (1)

"J.-C. C. - Descobrimos as primeiras bibliotecas assírias, quando não conhecíamos nada da escrita cuneiforme. Sempre a questão da perdição. O que salvar? O que transmitir e como transmitir? Como ter a certeza de que a linguagem que utilizo hoje será compreendida amanhã e depois de amanhã? Não é possível conceber uma civilização que não se coloque esta questão. O Umberto evoca a situação em que todos os códigos linguísticos terão desaparecido e em que todas as línguas permanecerão mudas e obscuras. Podemos igualmente imaginar o contrário. Se eu desenhar hoje um grafitti sem sentido num muro, amanhã poderá acontecer alguém afirmar tê-lo decifrado. Diverti-me durante um ano a inventar escritas. Estou certo de que outros poderiam amanhã encontrar-lhe um sentido."

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, A Obsessão do Fogo, Lisboa: Difel, 2009, pp.168-169.

Wednesday, September 9, 2009

ESQUECER O SOFRIMENTO


" HÉCUBA

Ó filhos, vossa mãe, abandonada numa cidade deserta, está privada de vós.
Que lamentos! Que lutos!
Lágrimas deslizam sobre lágrimas <........>
no nosso lar. Ao menos quem morreu esqueceu-se do sofrimento.

CORO

Para quem sofreu a desgraça, como são doces as lágrimas,
os lamentos dos trenos e a música que causa tristeza!

ANDRÓMACA

Ó mãe daquele guerreiro que outrora derrubou mais homens
com a sua lança, ó mãe de Heitor, vês esta desgraça?

HÉCUBA

Vejo a acção dos deuses, como eles erguem às alturas o que nada
vale, e destroem o que parece ter grande valor."



Eurípides, As Troianas, trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa: Edições 70, 1996, p. 61.

Monday, September 7, 2009

A ESCADA DO CÉU


"Não me lembro de mortos nos teus interiores.
Os mortos, muitos já, que pesam como pedras vivas
Na bagageira usada do meu pensamento,
Esses mortos não invadem com as nódoas de memória
A tua, tão transportadora, e feita ao mundo
Na desordem fútil do esquecimento vão.

Mortos subtis, de repente nus, ou então cobertos
Duma terra adversa ao teu rodar atento
Surgem como sombras de amor e logo se dispersam
Sem que as palavras sirvam de refrão à existência
Muda ou gravada na alma um instante passageiro,
Urgentes ou cativos da minha vida móvel.

Mortos que nadam nesse lago do nada e acendem
Na bagagem o fogo que consome
As imagens de outrora e nunca saberão
Como pronunciar vivos a palavra mortos
Agora que contigo vou e não sei enfrentar
O reflectir do tempo no espelho vão da hora."


Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 51.

Sunday, September 6, 2009

EXERCÍCIO DE MAIÊUTICA

"- Corrupção, decomposição - repetia Hans Castorp -, mas isso é um processo de combustão, se não estou em erro, combinação com o oxigénio.
- Absolutamente correcto. Oxidação.
- E a vida?
- Também. Também essa, meu caro. A vida é, na sua essência, uma mera combustão das proteínas celulares, combustão essa que produz o calor animal que tanto nos agrada, do qual alguns de nós sofrem em demasia. Pois é, viver é morrer, não há como embelezar essa evidência - une destruction organique, como certo francês uma vez o formulou na sua leviandade inata. E é o cheiro que ela tem, a vida. Se não temos essa impressão, é porque o nosso juízo se corrompeu.
- E se nos interessarmos pela vida - ensaiou Hans Castorp - interessamo-nos também pela morte, não é verdade?
- Bom, em todo o caso, subsiste sempre uma certa diferença entre elas. Há vida quando a forma se conserva no devir da matéria.
- Mas para que queremos conservar a forma?
- Para quê? Bem, olhe que não há humanismo nenhum no que acaba de dizer.
- A forma é afectação.
- Não há dúvida de que o senhor hoje está muito resoluto. Verdadeiramente desenfreado. Mas basta por hoje - disse o conselheiro. - Estou a ficar melancólico (...)"


Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009: p. 302.

Wednesday, September 2, 2009

PELA PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA



"O sol é a tua ausência que se abrasa.
A lua é a tua ausência enfraquecida.
A tua ausência é toda a minha vida
E os meus versos também e a minha casa."


Teixeira de Pascoaes, "Elegias", in Para a Luz, Vida Etérea, Elegias, O Doido e a Morte, Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 238.

Tuesday, September 1, 2009

O DEUS CERCADO



"Um homem que morre é o menos manipulado dos homens. A sua solidão é irreversível e impede-o de confundir a opção com a experiência. Os moribundos todos se parecem nessa infinita certeza duma situação feita já não de palavras mas de zumbidos e o gotejar de pingos de vento, no ouvido; um vento em que se enrola o profundo uso da vida; a crueldade faz-se um vão desperdício, o gesto humano, que foi carícia ou ameaça, solta-se como disperso duma grande máquina e deserta do seu sentido inicial. A viagem do moribundo é mais longa que a existência mais duradoura; em poucos minutos ele percorre espaços imensos, e tem encontro com formas que reconhece sem nunca lhe ser permitido imaginá-las. Todo o homem que morre é um deus cercado de poderes que teve e não gozou, porque temeu a sua divindade."


Agustina Bessa-Luís, O Mosteiro, 5ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 175.

Monday, August 31, 2009

PEDRAS NA ILUSÃO DA INCONSCIÊNCIA


"Entre mim e as coisas mediavam ínfimos e fraternos sentimentos, que eram elas continuando-se no meu ser; ou ele a prolongar-se em árvores, montes e penedos e, no distanciamento infinito, em lágrimas e lágrimas acesas.
Eu não tinha ainda essa existência individual, definida ou isolada num pequeno espaço material. A existência, como todos os calhaus, é um produto da razão, que nasce, por sua vez, da acção da realidade sobre nós, porque o homem é o único animal impressionável à acção da realidade, o único animal racional. Os outros animais não sofrem desilusões, os contactos brutos e dolorosos que nos dão a consciência do mundo exterior.
A infância é uma nuvem, como a velhice é uma pedra: nuvem que abrange tudo, pedra que tudo restringe à sua forma dura e recortada."


Teixeira de Pascoaes, Livro de Memórias, Lisboa: Assírio & Alvim, 2001, p. 65.

Wednesday, August 26, 2009

FOR TO EXIST ON THE EARTH IS BEYOND ANY POWER TO NAME


"So that they last, and confirm our hymnic song against death.

And our tender thought about all who lived, strived, and never succeeded in naming.

For to exist on the earth is beyond any power to name,

Fraternally, we help each other, forgetting our grievances,
translating each other into other tongues, members, indeed, of a wandering crew.

How then could I not be grateful, if early I was called and the
incomprehensible contradiction has not disminished my wonder?

At every sunrise I renounce the doubts of night and greet the new day of a most precious delusion."



Czeslaw Miloz, Facing the River, trad. do autor e de Robert Hass. New Jersey: The Ecco Press, 1995, pp. 14-15.

Friday, August 21, 2009

A SUBTRACÇÃO DO FUTURO


"O futuro é esta subtracção? pergunta Margarida, nem adrianos nem antinoos, sequer um amo-te absoluto para o baptismo de uma cidade, nem um império, nem os bárbaros na fronteira, nem os tempos de dizer que se deve entrar na morte com os olhos abertos, nem guerras para declarar, nem o ódio que se vota aos poderosos, hoje, os anjos seculares retraíram as asas e escolheram um lugar severo para talvez definitivamente adormecerem"


Rui Nunes, "Quem da Pátria sai a si mesmo escapa?", Lisboa: Relógio D'Água, 1983, p. 70.

Thursday, August 20, 2009

O HOMEM FELIZ



"Não, o homem feliz não é o que tem camisa, como o da história que Padre Barnabé nos contava, no seminário. O homem feliz é o que não tem passado. O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças."


Rachel de Queiroz, Memorial de Maria Moura, Lisboa: Edição «Livros do Brasil», 1994, p. 188.

Tuesday, August 18, 2009

PARAÍSO IRRECUPERADO



"- Esperava esse acolhimento - respondeu o demónio. - Todos os homens odeiam os infelizes; como sou detestado! Eu, mais miserável que qualquer ser humano! E no entanto, tu, o meu criador, detestas e repeles com desprezo a tua criatura, a quem estás ligado por cadeias que só podem ser quebradas com a morte de um de nós. Queres então matar-me! Como ousas jogar assim com a vida? Cumpre o teu dever para comigo que eu cumprirei o meu para contigo para o resto da humanidade. Se estás disposto a aceder às minhas condições, deixar-vos-ei em paz; mas se recusares, hei-de saciar-me no sangue dos amigos que te restam!
- Monstro horrendo! Demónio que és! As torturas do inferno são vingança muito doce para os crimes que cometeste! Censuras-me o ter-te criado; vem cá, então, para que possa extinguir a centelha de vida que tão imprudentemente te conferi!
O meu furor não tinha limites. Saltei sobre ele, impulsionado por todos os sentimentos que podem armar um homem para que mate outro.
Repeliu-me sem esforço e disse:
- Acalma-te!... Escuta, antes de dares livre curso ao teu ódio! Não terei já sofrido bastante para que tu procures ainda aumentar a minha infelicidade? A minha vida, a minha triste vida, é-me ainda querida e defendê-la-ei. Não te esqueças que me fizeste mais forte que tu. Mas não quero lutar contigo. Sou criação tua e serei doce e obediente para com o meu amo e senhor, se quiseres desempenhar o papel que a ti cabe. Oh! Frankenstein, se és justo para com os outros não me esmagues a mim, credor da tua justiça, da tua demência e do teu afecto. Eu deveria ser o teu Adão; mas afinal sou o anjo caído que baniste do paraíso. Por todo o lado vejo uma felicidade de que estou irremediavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; o desgosto transformou-me num demónio! Faz-me feliz e tornar-me-ei virtuoso..."


Mary Shelley, Frankenstein, trad. Mário Martins de Carvalho, 2ª edição. Lisboa: Editorial Estampa, 1972, pp. 80-81.

Thursday, August 13, 2009

AND YOU TWIST THE DARKNESS IN YOUR FINGERS

"E tu revolves o escuro nos teus dedos, tu
Que és ligeiramente mais velho...
Quem és tu, no fim de contas?
E é cor de areia,
O escuro, à medida que se coa pela tua mão
Pois que sentido faz qualquer coisa,
A hora e a areia? Esse barco
Remando para a margem? Serei eu maravilha,
Estrategicamente, sob a luz
Do longo sepulcro que escondeu a morte e me escondeu a mim?"


John Ashbery, Auto-Retrato Num Espelho Convexo e outros poemas, trad. António M. Feijó. Lisboa: Relógio D'Água, 1995, p. 25.

QUEM ANDOU PELA TERRA EM MÍSERO ABANDONO

"Eu não vos tenho medo, ó pallidas creanças,
Que verteis sobre mim lagrimas compungidas
E negras maldições, agudas como lanças,
Chorae, desenrolae as vossas longas tranças,
Levantae para o céu as mãos arrependidas,
Que eu não vos tenho medo, ó brancas Margaridas,
O' sombras immortaes das pallidas creanças.

Eu hei de ir para o céu por mal dos meus peccados:
O céu é hoje em dia um velho pardieiro,
Um grande casarão, sem vidros, sem telhados,
Aonde vão dormir os corpos arruinados
Que já não têm saúde, e já não têm dinheiro.

Quem andou pela terra em misero abandono,
Aos encontrões da sorte, ao vento, á chuva, aos frios,
A velha meretriz, os magros cães sem dono,
Os rotos histriões, os santos e os vadios,
Todos lá vão dormir o derradeiro somno."



Guerra Junqueiro, A Morte de D. João, 10ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1921, p. 269.

Wednesday, July 29, 2009

PRINCÍPIOS DE INCERTEZA 8


"Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo.
O poema não pode ter mais do que uma casa, paredes
caiadas de branco, os azulejos a rebaterem o sol contra
a sombra, dizendo-lhe o seu lugar. O poema é o meu pai

em sofrimento na cama do hospital, as mãos inúteis que
lhe afagam a dor, estas mãos tão inúteis percorrendo os
versos ao som das palavras. O poema é circunstância de lugar

em imagens atiradas ao chão, reduz à sombra o sol. A casa
essencial, a do poema, memória e salvação de um homem.
O mundo é útil de poesia. Todos os versos são possíveis."



Jorge Reis-Sá, Biologia do Homem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 13.

Thursday, July 23, 2009

PRINCÍPIOS DE INCERTEZA 7



"Leonor:
Nunca lamentes, Princesa, esse dia!
Distinguir o que é nobre é um privilégio
Que nunca ninguém nos irá roubar!


Princesa:
Mas há o perigo do que é belo e perfeito!
Como uma chama, tão útil quando arde
Na tua lareira, te ilumina o caminho
No archote que empunhas. Que beleza!
Assim, quem quer, quem pode recusá-la?
Mas se, não vigiada, ela devora
O que a rodeia, que mal pode causar!
Deixa-me agora. Falo de mais, devia
Esconder também de ti minha fraqueza!



Johann Wolfgang Goethe, Torquato Tasso, trad. João Barrento. Lisboa: Relógio D'Água, 1999, 1837-1848, p. 99.

Tuesday, July 21, 2009

PRINCÍPIOS DE INCERTEZA 6



"Sim, bem sei que o tablado em que figuro
Longe está bem de mim léguas e léguas.
Minhas pupilas viam longe... e eu cego-as;
Mas sei que finjo achar o que procuro.

Sei que o meu sonho é imenso e anseia ar puro,
Mas, no meu gabinete, o meço a réguas.
Sei que devo aguardar, velar sem tréguas,
Mas busco o sono e embrulho-me no escuro.

Sei que este meu aspecto dúbio, fez-mo
A vida em que o meu Ser supremo e belo
E os meus gestos indómitos não cabem.

Sei que sou a paródia de mim mesmo.
Sei tudo... E para quê?, porquê sabê-lo?
Viver é entrar no rol dos que o não sabem!"


José Régio, de "Biografia", in Não Vou Por Aí! - Antologia Poética, selec. e org. de Isabel Cadete Novais, 3ª edição. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2001, p. 37.

Saturday, July 18, 2009

A ESPERANÇA SORRI AO ESFORÇO CORAJOSO



"Ali estava eu, num terraço, apoiado a uma balaustrada; a meus pés, um abismo que não podia sondar, mas donde subia um rumor incessante de vagas; o oceano estendia até ao horizonte as suas ondas verdes que passavam a azul-escuro; tudo se adoçava ao longe e se velava de transparentes vapores. Uma faísca de oiro brilhou na linha que separava a água do céu: cresceu, pouco a pouco, aproximando-se; quando chegou abaixo do arco-íris, a estrela transformou-se, dir-se-ia que pairava no espaço, e que um aéreo tecido coberto de pérolas boiava à sua volta. Coloriu-se de rosa o que me pareceu um rosto; a faísca de oiro brilhou intensamente sobre a fronte de um anjo; um braço luminoso como um raio apontou o arco-íris, e ouvi uma voz murmurar ao meu coração:
«A esperança sorri ao esforço corajoso.»"


Charlotte Brontë, O Professor, tradução de Adolfo Casais Monteiro, 3ª edição. Lisboa: Inquérito, s.d., p. 234.

Wednesday, July 15, 2009

MAIOR QUE A VIDA



"Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição

Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura

Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto

Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição"


Sophia de Mello Breyner Andresen, Dual, Lisboa: Editorial Caminho, 2004, p. 75.