Friday, December 6, 2013
PRECE
"Deixai o dia morrer e vir a noite...
Deixai vir as sombras,
Deixai vir as trevas...
Eu quero fugir à dor e à angústia
que vejo em tudo
que o sol ilumina...
Deixai vir a noite e o silêncio...
Deixai vir o manto
que tudo oculta...
Eu quero fugir às pragas e ao pranto
que enchem o dia
e o sol não esconde...
Deixai, deixai vir a noite para sempre!...
Eu quero fugir a esta vida
onde só reina a morte!"
Tomaz Kim, Obra Poética, Lisboa: IN-CM, 2001, p. 54.
DESAPEGO - CELEBRANDO A VIDA DE NELSON MANDELA
"é difícil sinuoso o trilho da biografia
em um tempo tão quotidiano
só quando piso a esteira do desapego
se faz tranquila a duração"
Miguel-Manso, Santo Subito, Lisboa: os carimbos de Gent, 2010, p. 54.
Thursday, December 5, 2013
TRISTITIA
"Minh'alma é triste como a rola aflita
Que o bosque acorda desde o alvor da aurora
E em doce arrulo que o soluço imita
O morto esposo gemedora chora.
E, como a rola que perdeu o esposo,
Minh'alma chora as ilusões perdidas.
E no seu livro de fanado gozo
Relê as folhas que já foram lidas.
E como notas de chorosa endecha
Seu pobre canto com a dor desmaia,
E seus gemidos são iguais à queixa
Que a vaga solta quando beija a praia.
Como a criança que banhada em prantos
Procura o brinco que levou-lhe o rio,
Minh'alma quer ressuscitar os cantos
Um só dos lírios que murchou o estio.
Dizem que há gozos nas mundanas galas,
Mas eu não sei em que o prazer consiste.
- Ou só no campo, ou no rumor das salas,
Não sei porquê - mas a minh'alma é triste!"
Casimiro de Abreu, As Primaveras, Porto: Lello & Irmão, 1945, pp. 121-122 [ort. at.].
DAR
"Os deuses dão a quem soffre
Só mais dor.
Guardam a espr'ança num cofre,
Dão ao cofre valor.
E depois levam-o p'ra fóra
Da vista e da mão,
P'ra que chore a alma, que chora,
Chorar sempre em vão."
Fernando Pessoa, Poemas (1915-1920), ed. João Dionísio, Lisboa: IN-CM, 2005, p. 262.
Tuesday, December 3, 2013
VENTO
"Rumor de vento
E nuvens
dia de glória
desfolhado
coisa a coisa
nos teus olhos
sombra impelida
por que mãos?
na cúpula do mundo
misterioso adeus
que alguém murmura
sem nunca
ter chegado."
Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 176.
Monday, December 2, 2013
FERIDA
"E havia dignidade neste homem ferido de morte, uma dignidade feita de tensão sobre-humana, diante de toda a gente que o cercava, que se agrupava curiosamente à sua volta para o contemplar e que, logo, se afastava confusamente, como que receosa."
Stephan Zweig, Vinte e Quatro Horas na Vida de Uma Mulher, trad. Alice Ogando, 3ª ed., Porto: Livraria Civilização, 1940, p. 16.
Sunday, December 1, 2013
PIRA
"Estes aceitaram e foram-lhes devolvidos, de acordo com as regras, os ossos dos seus mortos. Entretanto tinham sido queimados numa pira comum uma vez que não podiam esperar pela assinatura do acordo de paz. A pira era ampla; um grupo de soldados alimentava-a com madeira, outro com cadáveres; arderam do nascer ao pôr-do-sol. Havia mais de mil homens para queimar. As cinzas e os ossos calcinados foram guardados em baús de carvalho, à espera de um cortejo fúnebre."
Mary Renault, Fogo do Céu, trad. Tomás Vaz da Silva, Lisboa: Assírio & Alvim, 1994, p. 340.
Saturday, November 30, 2013
ANOITECER
"No dia seguinte esperava-os uma longa viagem. A lua incidia directamente nos olhos fechados de Heféstion. Suavemente, Alexandre puxou a cortina até meio, com medo que os poderes da noite lhe fizessem mal."
Mary Renault, Fogo do Céu, trad. Tomás Vaz da Silva, Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, p. 310.
Friday, November 29, 2013
LAGO
"Junto às águas claras do lago Lychnidis, com o lodo do combate já assente, enguias e solhas limpavam os cadáveres que flutuavam à deriva. Os lírios esmagados adormeceram para voltar a florescer no ano seguinte; as acácias brancas caíram como neve com as primeiras brisas e esconderam o sangue. As viúvas choravam os seus mortos, os aleijados retomavam as suas antigas actividades, os órfãos a quem nunca nada faltara conheceram a fome. O povo inclinava-se perante o destino, como perante uma enfermidade do gado ou um granizo fora do tempo sacudindo as oliveiras. Todos, incluindo viúvas e órfãos, foram levar as suas oferendas de agradecimento aos santuários; os ilírios, famosos piratas e mercadores de escravos, podiam ter ganho. Os deuses, compadecidos com as suas ofertas, não lhes revelaram o conhecimento de que apenas haviam sido um meio e não um fim. Na dor, mais que na alegria, o homem aspira a saber que o universo gira em torno de si."
Mary Renault, Fogo do Céu, trad. Tomás Vaz da Silva, Lisboa: Assírio & Alvim, 1993, pp. 301-302.
Thursday, November 28, 2013
TEMPO SEM DEUSES
"Poesia de inverno: poesia do tempo sem deuses
Escolha
Cuidadosa entre restos
Poesia das palavras envergonhadas
Poesia dos problemas de consciência das palavras
Poesia das palavras arrependidas
Quem ousaria dizer:
Seda nácar rosa
Árvore abstracta e desfolhada
No inverno da nossa descrença."
Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Lisboa: Caminho, 2004, p. 85.
Wednesday, November 27, 2013
ALITERATTO
"Assim o Minotauro longo tempo latente
De repente salta sobre a nossa vida
Com veemência vital de monstro insaciado"
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas, Lisboa: Caminho, 2004, p. 51.
Tuesday, November 26, 2013
PERDER
"Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote
Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra
Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar"
Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Lisboa: Caminho, 2004, p. 19.
SIGNOS
"Meu signo é o da morte porém trago
Uma balança interior uma aliança
Da solidão com as coisas exteriores"
Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia, Lisboa: Caminho, 2004, p. 40.
Sunday, November 24, 2013
ASSIM AS MEMÓRIAS
"Habitamos um corpo em perigo.
Com um pouco de sorte
estas folhas fatigadas pela chuva irão permanecer
(dezembro vai começar
os trabalhos do inverno e
o sol menos quente: assim
as memórias.)
Deixemos em paz os jardins a mão no bolso esquerdo
não tarda a esquecer.
Dormir é deixar a saliva viajar pelos teus livros
naturalmente
saberei julgar à maneira de um canteiro
negligente
trabalhando sobre a pedra.
Que procuras? (a missa acabou
dezembro vai começar e
o sol menos quente.
Podemos partir para a guerra?) podemos partir?"
João Miguel Fernandes Jorge, "Vinte e Nove Poemas", in Obra Poética, vol. 3, 2ª ed., Lisboa: Presença, 1988, p. 58.
Saturday, November 23, 2013
BOMBARDA
"A civilização nasceu, como um sino, no interior do invólucro de matéria mais grosseira, mais vulgar: falsidade, prepotência, expansão ilimitada de todos os eus individuais, de todos os povos, foram esse invólucro. É tempo, agora, de o retirar? O metal fundido está solidificado, as tendências boas, proveitosas, os hábitos da alma nobre tornaram-se tão seguros e gerais que já não seja preciso mais apoio na metafísica e nos erros das religiões, nem rudezas e violências como o mais poderoso aglutinante entre homem e homem, povo e povo? Para responder a esta pergunta, já nenhum aceno de um deus nos pode ser útil: aí, é a nossa própria inteligência que tem de decidir."
Friedrich Nietzsche, Humano, Demasiado Humano, trad. Paulo Osório de Castro, Lisboa: Relógio D'Água Editores, 1997, fr. 245, pp. 225- 226.
Friday, November 22, 2013
EXISTIR
"Só desejo o comêço do amor
em que o tempo não existe.
O tempo fica do lado de fora.
O comêço do amor, por dentro, permanece eterno,
tal como o último momento antes da morte."
António Barahona, Raspar o Fundo da Gaveta e Enfunar uma Gávea, Lisboa: Averno, 2011, p. 183.
Thursday, November 21, 2013
EXALTANTE
"O fatum é um pensamento exaltante, para quem compreende que faz parte dele."
Friedrich Nietzsche, A Vontade de Poder, vol. I, trad. Isabel Henninger Ferreira, Porto: Rés Editora, 2004, p. 148.
Wednesday, November 20, 2013
PRIMORDIAL
"Os portugueses descobriram o mundo moderno. As outras nações moldaram-no. Tiveram a virtude primordial de serem secundárias.
Quando um admirador de Marconi fala de ondas hertzianas, parece falar de algo criado por Marconi, ignorando que existe um homem chamado Hertz. É isto a civilização."
Fernando Pessoa, Heróstrato e a Busca da Imortalidade, ed. Richard Zenith, trad. Manuela Rocha, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p. 121.
Monday, November 18, 2013
O REGRESSO
"Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.
Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficam portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca."
Manuel António Pina, Todas as Palavras - poesia reunida, 3ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2013, p. 351.
Sunday, November 17, 2013
TEMER
"O animal teme a morte porque vive,
O homem também, e porque a desconhece.
Só a mim me é dado com horror
Temê-la por lhe conhecer a inteira
Extensão e mistério, por medir
O infinito seu de escuridão."
Fernando Pessoa, Fausto Tragédia Subjectiva, ed. Teresa Sobral Cunha, Lisboa: Editorial Presença, 1988, p. 168.
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