Thursday, April 14, 2016

PHYSIS



"Tanto a defesa como a acusação não estabelecem um decreto sobre a morte. Com efeito, a Natureza, no dia em que surgiu, condenou à morte, com um voto claro, todos os mortais."

Górgias, "Defesa de Palamedes", in Testemunhos e Fragmentos, trad. Manuel Barbosa e Inês Ornellas e Castro, Lisboa: Colibri, 1993, p. 50. 

Wednesday, April 13, 2016

PERFURO


"Mais tarde, volveu o olhar para longe dos ciganos e dos guardas, alheio à sua presença; depois aproximou-se do homem de Plevlje e disse quase confidencialmente, numa voz tersa e mansa, como se falasse para um amigo:
- Por amor de Deus, faz com que me perfurem bem o corpo para que não sofra como um cão."


Ivo Andric, A Ponte Sobre o Drina, trad. Fernando Moreira Ferreira e H. Silva Letra, Lisboa: Publicações europa-América, 1962, p. 48. 

Monday, April 11, 2016

RESTER



"M. de O. - On cherche à toucher au mystère, mais nous ne pouvons pas aller au-delá. Vraiment, la réalité meurt et, pour subsister, il faut qu'elle revienne sous la forme d'un mythe. Cela, oui, reste."

Antoine De Baecque, Jacques Parsi, Conversations avec Manoel de Oliveira, Paris: Cahiers du Cinéma, 1996, p. 55. 

Sunday, April 10, 2016

SENTAREI




"Quando me sentarei ao sol
Despido
Líquen vivendo
Da inclinação dos ramos?

Quando crescerei como nuvem
Mão leve sobre a fronte
Da doença?

Quando repousarei
Ausente sem sofrer
Qualquer ausência?"


Daniel Faria, "Explicações das Árvores e de Outros Animais", in Poesia, ed. Vera Vouga, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 111. 

Saturday, April 9, 2016

AUTOUR




"M. de O.  - Il y a des choses que nous écartons: elles nous semblent compliquées et dangereuses. Nous existons avec tout ce que est autour de nous, qui existe autor de nous et que nous ne voyons pas."


Antoine De Baecque, Jacques Parsi, Conversations avec Manoel de Oliveira, Paris: Cahiers du Cinéma, 1996, p. 54. 

Friday, April 8, 2016

AGON



"M. de O. - L'agonie commence au moment où nous naissons. C'est une lutte constante, permanente. Le mot «agonie» nous vient des Grecs. Il s'applique à la lutte et aux athlètes. Dès que nous venons à la vie, la mort nous accompagne tout le temps pour ne pas laisser passer la moindre occasion. Elle est terrible, impitoyable."


Antoine De Baecque, Jacques Parsi, Conversations avec Manoel de Oliveira, Paris: Cahiers du Cinéma, 1996, p. 36. 

Wednesday, April 6, 2016

SENSÍVEL



"Seja onde for, implicam o que a arte teve constantemente por objectivo: a criação de uma realidade sensível que modifica o mundo no sentido de uma resposta ao desejo de prodígio implícito à essência do ser humano."

Georges Bataille, O Nascimento da Arte, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2015, p. 49. 

Tuesday, April 5, 2016

EXUBERÂNCIA


"Se a vida não tivesse levado estes homens a um nível de plena exuberância, de alegria, eles não teriam conseguido representá-la com esta força decisiva. Mas é sobretudo claro aos nossos olhos que ela os agitava humanamente; esta visão da animalidade é humana naquilo que a vida, por ela encarnada, ali se transfigura; é bela, e por esta razão soberana para lá da imaginável miséria."

Georges Bataille, O Nascimento da Arte, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2015, p. 34. 

Monday, April 4, 2016

MEDIR



"O prestígio que se liga, pensemos nós o que pensarmos, à revelação do inesperado. É sobretudo neste sentido que falamos do milagre de Lascaux; porque em Lascaux a humanidade juvenil mediu pela primeira vez a extensão da sua riqueza. Da sua riqueza, isto é, do poder que tinha de chegar ao inesperado, ao maravilhoso."

Georges Bataille, O Nascimento da Arte, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2015, p. 21. 

Sunday, April 3, 2016

FURTIVO



"Entra furtivamente
a luz
surpreende o sonho inda imerso                   
                                  na carne."


Orides Fontela, Trevo (1969-1988), São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 143.

Saturday, April 2, 2016

INFEROS



"Sente-se que aquela região deve ser habitada por espíritos. Pensa-se apenas em coisas leves, onduladas, transparentes: em linhas puras, em sensações simples - e a nós, homens inquietos e nervosos, corroídos pelas aflições da realidade e pelas dores do trabalho, a primeira ideia que nos vem é a de esquecer, ficar ali esperando a vida, como a esperavam as antigas almas dos poemas de Homero nas serenas e nubladas regiões inferiores!"


Eça de Queiroz, O Egipto - Notas de Viagem, Lisboa: Livros do Brasil, 2000, p. 26. 

RESPLENDOR



"O mar, o céu, os montes, a luz, penetram-nos, vivem em nós, embalam-se e resplandecem na nossa alma."

Eça de Queiroz, O Egipto - Notas de Viagem, Lisboa: Livros do Brasil, 2000, p. 26. 

Thursday, March 31, 2016

ALTURAS




"E a evasão ao quotidiano, que parece ser uma necessidade visceral no homem com a sua carga de deveres e obrigações, a cada passo atira-o para a serra."

Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, ed. facsimilada, Lisboa: A Bela e o Monstro Edições, 2014, p. 328.

COROA



"«Pois quê, mais nada?», murmurou. «A vida inteira não foi senão isto? Uma chuva fina, três amigos, um roseiral... Que o Diabo me leve se nada mais restar nas minhas recordações! E eu que julgava ter devorado o mundo!»"

Nikos Kazantzaki, Cristo Recrucificado, trad. M. Manuel B. Fonseca, Lisboa: Editora Ulisseia, 1973, p. 126. 

Wednesday, March 30, 2016

JÁ-FOI



"O que nos une é não nos entendermos
tu aí eu aqui - nossa via é diferente:
O teu já-foi o meu ainda-há-de-ser
são dois buracos negros no presente
que é nosso como o sonho antes do dia
quando sabemos já que estamos a sonhar
e que connosco brinca um pouco ao vento
até aqui e ali cada um se encontrar."


Ulla Hahn, A Sede Entre os Limites, trad. João Barrento, Lisboa: Relógio d'Água, 1992, p. 47. 

Tuesday, March 29, 2016

RADIAL



"Falta-me o tacto para poder tratar mais finamente por tu o universo. Falta-me, talvez, um verso - o verso com que fizesse pousar uma prosa definitiva. A renda ou a textura de tudo. E mesmo, de quando em quando, escrever sobre o nada."

João Habitualmente, Os Animais Antigos, Vila do Conde: objecto cardíaco, 2006, p. 40. 

Saturday, March 26, 2016

PEDRAS



"Há pedras habitadas. Pássaros que não migram
só para não sofrerem a partida

Esperam um ano a fio pelo regresso dos companheiros"


João Habitualmente, Os Animais Antigos, Vila do Conde: objecto cardíaco, 2006,  p. 11. 

GRAÇA



"«Que milagre é este mundo!», dizia Manólios, falando a si mesmo enquanto escalava a encosta. «Se abro os olhos vejo as montanhas, as nuvens e a chuva que cai; se vejo Deus, que criou as montanhas, as nuvens e a chuva; em todos os lados, na luz como nas trevas, a graça de Deus está connosco!»"

Nikos Kazantzaki, Cristo Recrucificado, trad. M. Manuel B. Fonseca, Lisboa: Editora Ulisseia, 1973, p. 264. 

Thursday, March 24, 2016

QUINTA


"De pé, Michelis sentia a vida em seu redor, inexoravelmente, sempre recomeçada. A roda das estações avançava; neste momento eram as vindimas; depois seria a vez das azeitonas, depois o nascimento de Cristo... E depois as amendoeiras floresciam, os trigais cresciam de novo, o tempo das ceifas voltaria... Michelis estava como que preso a uma roda; subia e descia, agora com o sol, logo sob a chuva. O dia e a noite estavam amarrados à mesma roda; subiam e desciam também ao mesmo tempo que ele. E Cristo, o recém-nascido, crescia, tornava-se um homem, ia valentemente semear a palavra de Deus, era crucificado, ressuscitava, tornava a descer do Céu, e no ano seguinte era recrucificado..."

Nikos Kazantzaki, Cristo Recrucificado, trad. M. Manuel B. Fonseca, Lisboa: Editora Ulisseia, 1973, p.  273. 

Wednesday, March 23, 2016

REGOZIJO



"Quando Manólios retomou o caminho da montanha as sombras caíam. No céu tinham-se amontoado nuvens; soprava um vento morno do leste; algumas gotas de chuva caíram sobre a face de Manólios e sobre a terra escaldante. A sua carne regozijou-se; ela tinha sede também, como a planície e a montanha; estava unificada com a terra e as pedras."

Nikos Kazantzaki, Cristo Recrucificado, trad. M. Manuel B. Fonseca, Lisboa: Editora Ulisseia, 1973, p. 264.