"A manhã move a pedra sem raiz
O seu repouso de árvore em flor.
Qualquer astro é menos que o repouso
De uma pedra em flor."
Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 23.
"Eustace Robinson, de catorze anos, achava-se de camisa de noite, a saudar, a louvar e a abençoar as grandes forças e manifestações da natureza.Falou primeiro da noite e das estrelas e dos planetas sobre a sua cabeça, das miríades de pirilampos e das grandes rochas cobertas de anémonas e conchas que dormiam no mar invisível. Falou de rios e de quedas-d'água, de cachos de uvas a amadurecerem, do cone fumegante do Vesúvio e das chaminés ocultas que produziam o fumo, da profusão de lagartos que se achavam enroscados nas quentes fissuras da terra, e das bátegas de pétalas de rosas brancas emaranhadas no seu cabelo. E, depois, falou da chuva e do vento que tudo modificam, do ar por meio do qual tudo vive, e dos bosques onde tudo se pode ocultar."E. M. Forster, «A história de um pânico», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, p. 85.
"A voz dele ergueu-se apaixonadamente.- A mãe não é capaz de ver, nenhum de vocês, conferencistas, é capaz de ver que somos nós que estamos a morrer, e que aqui em baixo a única coisa verdadeiramente viva é a Máquina? Nós criámos a Máquina para que cumprisse a nossa vontade, mas agora não conseguimos que tal aconteça. Ela tirou-nos a noção de espaço e o sentido do tacto, obscureceu todas as relações humanas e reduziu o amor a um acto carnal, paralisou os nossos corpos e as nossas vontades, e agora obriga-nos a idolatrá-la. A Máquina desenvolve-se, mas não segundo as nossas orientações. A Máquina avança, mas não rumo aos nossos objectivos. Nós só existimos enquanto glóbulos sanguíneos que percorrem as nossas artérias, e se ela pudesse funcionar sem nós, deixar-nos-ia morrer. Oh, eu não tenho alternativa... à excepção de uma, a de contar repetidamente às pessoas que vi os montes de Wessex como o rei Alfredo os viu ao derrotar os dinamarqueses."E. M. Forster, «A Máquina Pára», in A Máquina Pára e outros contos, tradução de Miguel Martins, Lisboa: Antígona, 2020, pp. 40-41.