Thursday, October 29, 2009
NA VÉSPERA DE ALL HALLOWS
"II
Nada existe duradoiro no mundo,
dizia; e por isto se rege a
nossa vida terrena, a dinastia
e as crenças que julgamos favoráveis
à verdade de sempre.
Porque
cada dia que passa vai trazendo
coisas novas e mostra a minha
necedade no dia passado. E
a maior inquietação transforma-
-se na tranquilidade."
João Miguel Fernandes Jorge, a jornada de cristóvão de távora segunda parte, Lisboa: Editorial Presença, 1988, p. 18.
Tuesday, October 27, 2009
FAZER DA MORTE O EDIFÍCIO
"Que façam só da morte o edifício
onde mergulham as raízes simples
dos prumos, o cristal que se distende
pelo centro das salas que cintilam,
e nesta superfície há-de ficar
o coração inerme, o leve indício
de corredores perdidos, ao colhermos
mais perto das paredes qualquer fruto
cujo sabor continha o que se oculta
em torno do que fora a leve mágoa
de só nele encontrarmos o sentido
de uma memória extrema, onde se apaga
o desígnio que fica ilimitado
nas bruscas praias dessa arquitectura."
Fernando Guimarães, Casa: o seu desenho, Lisboa: IN-CM, 1985, p.12.
Friday, October 23, 2009
BREVIÁRIO DA TRAGÉDIA
"Circunscrevo a mim a tragédia que é minha. Sofro-a, mas sofro-a de cara a cara, sem metafísica nem sociologia. Confesso-me vencido pela vida, porém não me confesso abatido por ela.
Tragédias, muitos as têm - todos, até, se entre elas contarmos as ocasionais. Mas o que a cada qual compete, como homem, não é falar na sua tragédia; e o que a cada qual compete, como artista, é, ou ser homem e calar-se sobre ela, escrevendo ou cantando de outras coisas, ou extrair dela, com firmeza e grandeza, uma lição universal."
Barão de Teive (Fernando Pessoa), A Educação do Estóico, ed. Richard Zenith, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 57.
Tuesday, October 20, 2009
CAIM CAIM, FEZ O CÃO DAS LÁGRIMAS
"No dia seguinte, a mais velha disse à mais nova: «Deitei-me ontem com o meu pai; embriaguemo-lo também esta noite, e vai deitar-te com ele, a fim de mantermos a raça do nosso pai». Também naquela noite deram a beber vinho ao pai, e a mais nova deitou-se com ele, que de nada se apercebeu nem quando se deitou nem quando se levantou. E assim as filhas de Lot conceberam do próprio pai." (Gen 19, 34-35)
"Penetremos na igreja a ver esta farsada.
Uns entram para ver a casa iluminada,
Os dândis é por chique, os velhos por decoro;
Estas é para ouvir umas quadrilhas,
E os outros, que sei eu... para vender as filhas,
Para matar tempo ou arranjar namoro." (Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, Mem Martins: Publ. Europa-América, s.d., p. 85)
"Penetremos na igreja a ver esta farsada.
Uns entram para ver a casa iluminada,
Os dândis é por chique, os velhos por decoro;
Estas é para ouvir umas quadrilhas,
E os outros, que sei eu... para vender as filhas,
Para matar tempo ou arranjar namoro." (Guerra Junqueiro, A Velhice do Padre Eterno, Mem Martins: Publ. Europa-América, s.d., p. 85)
"Os judeus nunca acataram a má nova de que Jesus ben Nazaré, conhecido por nós, Gregos, por Rei ou Cristo, era realmente o messias que eles andavam há uma data de tempo à espera.
«O ponto é», dizia Santo enquanto eu o tratava depois de mais uma sessão com os seus antigos co-religiosos, «que nunca se sabe quando se converte alguém.»
No entanto, quando Santo começou a sua carreira, ele e Tiago concordaram mais ou menos em dividir a missão. Santo ocupar-se-ia da parte dos prepúcios enquanto Tiago, assistido por Pedro, O Calhau, venderia as boas novas sobre o Juízo Final aos judeus." (Gore Vidal, Em Directo do Calvário, trad. José Luís Luna, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994, p. 36)
"Uma noite bem passada, sim senhores, exclamou um deles lambendo os beiços, e outro confirmou, Estas sete valeram por catorze, é certo que uma não era grande coisa, mas no meio daquela confusão quase nem se notava, têm sorte estes gajos, se são bastante homens para elas, Melhor que não sejam, assim elas levarão mais vontade. Do fundo da camarata, a mulher do médico disse, Já não somos sete, Fugiu alguma, perguntou a rir um dos grupo, Não fugiu, morreu, Ó diabo, então vocês terão de trabalhar mais na próxima, Não se perdeu muito, não era grande coisa, disse a mulher do médico. Desconcertados, os mensageiros não atinaram como responder, o que tinham acabado de ouvir parecia-lhes indecente, algum deles terá mesmo chegado a pensar que no fim de contas as mulheres são todas umas cabras, que falta de respeito, falar de uma tipa nestes termos, só porque não tinha as mamas no lugar e era fraca de nádegas." (José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, 10ª ed., Lisboa: Caminho, 2006, p. 183)
"1
O escritor
é às vezes
um estupor
o escrito
é às vezes
mal dito
o prémio
nem sempre
é génio
2
O comunista
já não come
criancinhas
ao pequeno-almoço
lancha
na Versalhes
com velhinhas
o fascista
faz o mesmo
3
Falo do meu medo
do desemprego
de saúde mental
e de Natal
de Rei Mago
e de Saramago
4
Rezo
a oração
que a Maria Aliete Galhoz
me ensinou
olhei para o céu
vi uma cruz
capela de rosas
Menino Jesus
A osga diz cró" (Adília Lopes, "Florbela Espanca Espanca", in Caras Baratas - Antologia, selec. Elfriede Englemayer, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, pp. 206-207)
Sunday, October 18, 2009
O QUE FAZEM RUÍNAS 2
"Porque aqueles que nos dão o fogo celeste,
os deuses, também nos dão a dor sagrada.
Por isso esta fique. Filho da terra,
Pareço eu: feito para amar, para sofrer."
Friedrich Hölderlin, "Odes", in Poemas, selecç. e trad. Paulo Quintela, Lisboa: Relógio D'Água, 1991, p. 177.
Friday, October 16, 2009
UM AMAR ENTRE ZUMBIDOS E BARAFUNDA - PARA MARIA AGUSTINA
"Estrelas de um verde irisado e claro tremem nos altos. O vento treme, tremem as sarças sobre as quais as libélulas morreram ao fim do dia. É amargo partir, é amargo voltar. Nesta treva onde se movem ventos silenciosos, eu conheço a terra mais do que nunca estranha e amada, bloco de esquecida falésia, rasto perdido onde, como dedos de sal, aponta um humanismo esperançado, porém triste. Neste planalto onde vêm morrer as vozes dos lugares, das casas fumacentas, das encruzilhadas em que lentamente passam os gados, surpreende-se de súbito uma espécie de idílio desgraçado com o tempo, o mundo, as próprias estrelas esverdeadas. Um idílio patético e interminável, um amar entre zumbidos e barafunda, um estar sozinho no coração de toda a gente. É assim a vida e a morte. Um regresso de parte nenhuma, um encontro com a contradição. Então saúdo a terra escura, o vento escuro, a solidão e o medo."
Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Lisboa: Guimarães Editores, 2009, p. 335.
Thursday, October 15, 2009
NOS ANÉIS DE SATURNO
"soçobrando corro
ao encontro do horizonte
à luz das palavras
através de anos-sombra
o horizonte recua
perante o mundo
nenhuma queda livre no silêncio
por detrás assomam as palavras
chamam
pelo teu poema aos mortos"
Eva Christina Zeller, Sigo a Água, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Relógio D'Água, 1996, p. 31.
Sunday, October 11, 2009
UND WIEVIEL BIS DER FLUSS GESCHÖPFT
"Para qualquer sítio abandonar o mundo
sem sair de nenhum lugar
o que cresce
o que murmura
o que tudo abala
só água e cada hora
que cai pela noite fora
o que está deitado só
nada já fundo e longe
enquanto as horas deslizam certas
transpondo a margem
para onde o olhar
transpondo as margens onde só
e tanto até o rio ficar esvaziado -
colhido
tudo experimente o homem
para cada viagem"
Eva Christina Zeller, Sigo a Água, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Relógio D'Água, 1996, p. 51.
Saturday, October 10, 2009
PEQUENOS DELITOS
"i.x. Poucos dias depois da sua chegada a Capreias, estando só, acercou-se dele, de repente, um pescador que lhe ofereceu um grande ruivo; Tibério mandou que lhe esfregassem a cara com o peixe, tão assustado ficou com o facto de aquele pescador ter conseguido chegar até junto dele, pelas traseiras da ilha, escalando as rochas escarpadas. Como o pescador, no meio do suplício que lhe era inflingido, se regozijasse de não lhe ter oferecido também a corpulenta lagosta que apanhara, Tibério ordenou que lhe rasgassem igualmente a cara com ela. Castigou com a morte um soldado pretoriano que roubara um pavão num vergel. Durante uma viagem que fez, como a liteira em que seguia se enleasse numa moita, prostrou no solo o oficial encarregado de abrir caminho, um centurião das primeiras coortes, e por pouco o não matou à chicotada."
Suetónio, Os Doze Césares, trad. João Gaspar Simões, Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2007, p. 197.
Thursday, October 8, 2009
O QUE FAZEM RUÍNAS 1
"- Acho que se afligem por serem medíocres e não gostarem de nada que fazem. Pelo menos, de não gostarem com entusiasmo, à maneira do tango. Mas a coisa melhor do mundo é ser-se medíocre e ter aos pés, não um homem, mas um saco de água quente.
- Isso explica porque há livros tão maus com imenso sucesso. As pessoas estão a ficar desavergonhadas e a cultura é uma treta que elas denunciam finalmente - disse Raul. - No século quinze - disse ele - no século quinze tinham-se criados para fazer versos e outros para fazer camas. Agora caiu-se nisto, não há bicho-careta que não se diga letrado e que escreva um livro com trezentas páginas. Faz parte do currículo. Nunca se lembrou de escrever, Camila?
- Nunca me lembrei matar de tédio as pessoas. Prefiro as armas de fogo.
- Honestamente, eu também."
Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - Os Espaços em Branco, 2ª edição, Lisboa: Guimarães Editores, 2003, p. 54.
Tuesday, October 6, 2009
A RAZÃO EM TEORIA
"Eu penetro, retomo, inspecciono, penduro, arranco o selo, a minha vida morta não guarda nada, e ainda por cima o nada nunca fez mal a ninguém, o que me força a voltar ao interior é esta ausência desoladora que passa e por instantes me submerge, mas nela vejo claro, muito claro, mesmo o nada sei o que é e posso dizer o que tem dentro.
Tinha razão, Van Gogh, podemos viver para o infinito, satisfazer-nos apenas com o infinito, na terra e nas esferas há infinito bastante para saciar mil grandes génios, e se Van Gogh não pôde satisfazer o seu desejo, que era irradiá-lo durante toda a vida, foi porque a sociedade lho proibiu.
Redonda e conscientemente proibiu."
Antonin Artaud, Van Gogh, o suicidado da sociedade, trad. Aníbal Fernandes. Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 51.
Wednesday, September 30, 2009
JANELAS VELHAS
" Prometeu
Não penseis que me calo de orgulho ou de arrogância. Mas um cuidado me devora o coração, ao ver-me assim insultado. E, no entanto, quem, senão eu, deu a estes deuses novos, sem reservas, privilégios honoríficos? Mas sobre isso eu me calo, pois vos diria o que já sabeis. Ouvi, porém, as desgraças dos mortais e como eles são pueris antes de eu os tornar inteligentes e senhores da razão. Quero falar, mas não para censurar os homens, antes para expor em pormenor a benevolência do que lhes dei. A princípio, quando viam, viam falsidades; quando ouviam, não entendiam; e, como as formas dos sonhos, misturavam tudo ao acaso, durante a longa existência; e não sabiam construir casas soalheiras de tijolo, nem sabiam trabalhar a madeira; viviam em antros subterrâneos, como formigas ligeiras, nas profundidades sem sol das cavernas. E não tinham indício seguro do Inverno, nem da florida Primavera, nem do fecundo Verão; mas faziam tudo sem discernimento, até eu lhes ensinar o enigmático nascer e o ocaso dos astros. Também descobri para eles os números, a principal das invenções engenhosas, e a combinação das letras, memória de tudo quanto existe, obreira mãe das musas. E fui o primeiro a pôr sob jugo os animais, submetendo-os ao cabresto ou aos corpos dos homens, para que sucedessem aos mortais nos trabalhos mais pesados, e atrelei aos carros cavalos dóceis, ornamento do luxo excessivo. E nenhum outro senão eu inventou para os marinheiros os navios de asas de linho, que vogam sobre o mar. E eu, que descobri tudo isto para os mortais - infeliz - não tenho maneira de me libertar do sofrimento presente."
Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, trad. Ana Paula Quintela Sottomayor, Lisboa: Edições 70, 2008, p. 54.
Não penseis que me calo de orgulho ou de arrogância. Mas um cuidado me devora o coração, ao ver-me assim insultado. E, no entanto, quem, senão eu, deu a estes deuses novos, sem reservas, privilégios honoríficos? Mas sobre isso eu me calo, pois vos diria o que já sabeis. Ouvi, porém, as desgraças dos mortais e como eles são pueris antes de eu os tornar inteligentes e senhores da razão. Quero falar, mas não para censurar os homens, antes para expor em pormenor a benevolência do que lhes dei. A princípio, quando viam, viam falsidades; quando ouviam, não entendiam; e, como as formas dos sonhos, misturavam tudo ao acaso, durante a longa existência; e não sabiam construir casas soalheiras de tijolo, nem sabiam trabalhar a madeira; viviam em antros subterrâneos, como formigas ligeiras, nas profundidades sem sol das cavernas. E não tinham indício seguro do Inverno, nem da florida Primavera, nem do fecundo Verão; mas faziam tudo sem discernimento, até eu lhes ensinar o enigmático nascer e o ocaso dos astros. Também descobri para eles os números, a principal das invenções engenhosas, e a combinação das letras, memória de tudo quanto existe, obreira mãe das musas. E fui o primeiro a pôr sob jugo os animais, submetendo-os ao cabresto ou aos corpos dos homens, para que sucedessem aos mortais nos trabalhos mais pesados, e atrelei aos carros cavalos dóceis, ornamento do luxo excessivo. E nenhum outro senão eu inventou para os marinheiros os navios de asas de linho, que vogam sobre o mar. E eu, que descobri tudo isto para os mortais - infeliz - não tenho maneira de me libertar do sofrimento presente."
Ésquilo, Prometeu Agrilhoado, trad. Ana Paula Quintela Sottomayor, Lisboa: Edições 70, 2008, p. 54.
Sunday, September 27, 2009
COMO UM VASO DE PRATA ENTRE O SOL E A SOMBRA
"- Isso é o que pensa. Mas não falemos disso. Já não quer encontrar-se com Nossa Senhora?
- Quero, mas ela virá quando quiser. Não vou maçá-la. Senão S. José ainda me bate com a vara de arquitecto. Bate-me na cabeça com ela.
Era uma mulher linda, madura como um fruto vermelho e prateado. Não se dizia isso do rabi Yo'Hanan, que redigiu o Talmud de Jerusalém e era rico, o que o impedia de estudar o livro santo? Ele era tão belo, um dos mais belos homens do mundo, e o Talmud diz assim: «Pegai num vaso de prata completamente novo e enchei-o de grãos de romã vermelha e colocai-o entre a sombra e o sol. Tal era assim a beleza de Rabi Yo Hanan». Como um vaso de prata entre o sol e a sombra, uma imagem deliciosa para falar da pura beleza humana que o Espírito amou."
Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos, 6ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 209.
Wednesday, September 23, 2009
TEMPO E LOUCURA
"Será possível narrar o tempo, o tempo em si e por si, o tempo como tal? Claro que não, isso seria uma perfeita loucura! Uma história em que se lesse «o tempo passava, decorria, fluía», e assim sucessivamente, não poderia ser designada narrativa por ninguém em seu perfeito juízo. Era como se um louco mantivesse uma única nota musical, ou um só acorde, ao longo de uma hora, e quisesse convencer-nos de que se tratava de música."
Thomas Mann, A Montanha Mágica, trad. Gilda Lopes Encarnação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009: p. 611.
Monday, September 21, 2009
CONVITE À TRANSCENDÊNCIA
"- Nunca estive no mais perfeito juízo - disse Alfreda, como se não falasse com ele. - Não sei porque isso não há-de acontecer. Se Nossa Senhora foi rica e bem educada, é natural que atenda o meu pedido. É um convite que lhe faço e ofereço-lhe toda a comodidade. Em vez de me aparecer em cima duma árvore, abro-lhe as portas da minha casa onde podemos conversar à vontade. Acha que isto é maluqueira?
- Não acho nada - disse o Touro Azul. - Tem uma certa lógica, mas nada me garante que os milagres tenham alguma lógica."
Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza - A Alma dos Ricos, 6ª edição. Lisboa: Guimarães Editores, 2005, p. 123.
Sunday, September 20, 2009
OPORTUNIDADE DE RESPOSTA
"E um dia, ao saber Camilo céptico, Camilo com noites de sombrio desespero, palpando a coronha do revólver, não foi de propósito procurá-lo para lhe pregar Deus?
Era uma dessas tardes trágicas de Seide, de que o grande escritor fala nos Serões. A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta tenta arrancá-lo ao negrume que o envolve: desenrola teorias, explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado e convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras irónicas:
... - Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."
Raul Brandão, Memórias (Tomo I), vol. I. Lisboa: Relógio D'Água, 1998, pp. 60-61.
Era uma dessas tardes trágicas de Seide, de que o grande escritor fala nos Serões. A natureza chorava revolvida: a acácia de Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas, e sai do horror com blasfémias e sarcasmos. Junqueiro encontra-o mergulhado na dolorosa tinta do crepúsculo, com a pala que escrevia sobre os olhos, absorto, calado, desesperado, o rosto marcado de dedadas, «esboçado numa argila cor de mel», segundo o retrato de Ricardo Jorge. Eu tinha-lhe medo... O poeta tenta arrancá-lo ao negrume que o envolve: desenrola teorias, explicações, argumentos; ataca-o a fundo, persuade-o talvez... Já o julga abalado e convertido, quando dessa figura, só osso e dor, saem enfim estas palavras irónicas:
... - Sim, sim, Junqueiro, você convencia-me se eu não tivesse ainda no estômago, desde o almoço, três bolinhos de bacalhau, que me estão aqui como três Voltaires."
Raul Brandão, Memórias (Tomo I), vol. I. Lisboa: Relógio D'Água, 1998, pp. 60-61.
Tuesday, September 15, 2009
AQUELE QUE FEZ O OUVIDO, NÃO OUVIRÁ?
"Hans Füchs tirou do canto da boca o cachimbo fumegante:
- E o senhor acredita em Deus, Major Taborda?
- Por que não havia de acreditar? Ou o senhor pensa que eu me presumo ser de geração espontânea? Para a compreensão do Universo, estamos limitados por nossos sentidos. Se eu tenho um defeito de visão, vejo duas coisas em vez de uma, ou não vejo nada. Isto não quer dizer que as coisas deixem de existir, ou que existam conforme eu as veja. O próprio cérebro humano, tão bem guardado na caixa craniana, não tem percepção para tudo, por mais genial que seja. Onde está o mundo? Para onde vai o tempo? Se não consigo ter uma noção exacta dessas idéias essenciais, mesmo com as fórmulas matemáticas mais transcendentes, devo baixar a cabeça, com humildade, e admitir que há uma inteligência superior à do homem, que conduz o equilíbrio do Universo e que também me criou, como criou o senhor. Essa inteligência é Deus. Não o Deus que ameaça e castiga implacavelmente, mas o Deus que se comunica com o homem mais rude e primitivo na hora de suas aflições. Um Deus que perdoa os meus erros. Há na Bíblia um versículo que jamais esqueci. É o que nos diz, num dos Salmos: «Aquele que fez ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?» O senhor dirá que são idéias simplistas. São. Mas Deus também é simples. A simplicidade é a grande lei do Universo. Só a achamos complicada quando ela nos escapa, ou por estupidez, ou por ignorância, ou por orgulho besta. Depois de cento e cinqüenta e dois anos neste mundo, é o que tenho de mais importante a lhe dizer. Não é muita coisa, reconheço. Mas não creio que, pelo fato de ser hoje o homem mais velho do mundo, eu tenha também de ser o mais sábio."
Josué Montello, Largo do Desterro, Lisboa: Livros do Brasil, 1993, p. 291.
- E o senhor acredita em Deus, Major Taborda?
- Por que não havia de acreditar? Ou o senhor pensa que eu me presumo ser de geração espontânea? Para a compreensão do Universo, estamos limitados por nossos sentidos. Se eu tenho um defeito de visão, vejo duas coisas em vez de uma, ou não vejo nada. Isto não quer dizer que as coisas deixem de existir, ou que existam conforme eu as veja. O próprio cérebro humano, tão bem guardado na caixa craniana, não tem percepção para tudo, por mais genial que seja. Onde está o mundo? Para onde vai o tempo? Se não consigo ter uma noção exacta dessas idéias essenciais, mesmo com as fórmulas matemáticas mais transcendentes, devo baixar a cabeça, com humildade, e admitir que há uma inteligência superior à do homem, que conduz o equilíbrio do Universo e que também me criou, como criou o senhor. Essa inteligência é Deus. Não o Deus que ameaça e castiga implacavelmente, mas o Deus que se comunica com o homem mais rude e primitivo na hora de suas aflições. Um Deus que perdoa os meus erros. Há na Bíblia um versículo que jamais esqueci. É o que nos diz, num dos Salmos: «Aquele que fez ouvido, não ouvirá? Aquele que formou o olho, não verá?» O senhor dirá que são idéias simplistas. São. Mas Deus também é simples. A simplicidade é a grande lei do Universo. Só a achamos complicada quando ela nos escapa, ou por estupidez, ou por ignorância, ou por orgulho besta. Depois de cento e cinqüenta e dois anos neste mundo, é o que tenho de mais importante a lhe dizer. Não é muita coisa, reconheço. Mas não creio que, pelo fato de ser hoje o homem mais velho do mundo, eu tenha também de ser o mais sábio."
Josué Montello, Largo do Desterro, Lisboa: Livros do Brasil, 1993, p. 291.
Sunday, September 13, 2009
A QUESTÃO DA PERDIÇÃO (1)
"J.-C. C. - Descobrimos as primeiras bibliotecas assírias, quando não conhecíamos nada da escrita cuneiforme. Sempre a questão da perdição. O que salvar? O que transmitir e como transmitir? Como ter a certeza de que a linguagem que utilizo hoje será compreendida amanhã e depois de amanhã? Não é possível conceber uma civilização que não se coloque esta questão. O Umberto evoca a situação em que todos os códigos linguísticos terão desaparecido e em que todas as línguas permanecerão mudas e obscuras. Podemos igualmente imaginar o contrário. Se eu desenhar hoje um grafitti sem sentido num muro, amanhã poderá acontecer alguém afirmar tê-lo decifrado. Diverti-me durante um ano a inventar escritas. Estou certo de que outros poderiam amanhã encontrar-lhe um sentido."
Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, A Obsessão do Fogo, Lisboa: Difel, 2009, pp.168-169.
Wednesday, September 9, 2009
ESQUECER O SOFRIMENTO
" HÉCUBA
Ó filhos, vossa mãe, abandonada numa cidade deserta, está privada de vós.
Que lamentos! Que lutos!
Lágrimas deslizam sobre lágrimas <........>
no nosso lar. Ao menos quem morreu esqueceu-se do sofrimento.
CORO
Para quem sofreu a desgraça, como são doces as lágrimas,
os lamentos dos trenos e a música que causa tristeza!
ANDRÓMACA
Ó mãe daquele guerreiro que outrora derrubou mais homens
com a sua lança, ó mãe de Heitor, vês esta desgraça?
HÉCUBA
Vejo a acção dos deuses, como eles erguem às alturas o que nada
vale, e destroem o que parece ter grande valor."
Eurípides, As Troianas, trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa: Edições 70, 1996, p. 61.
Monday, September 7, 2009
A ESCADA DO CÉU
"Não me lembro de mortos nos teus interiores.
Os mortos, muitos já, que pesam como pedras vivas
Na bagageira usada do meu pensamento,
Esses mortos não invadem com as nódoas de memória
A tua, tão transportadora, e feita ao mundo
Na desordem fútil do esquecimento vão.
Mortos subtis, de repente nus, ou então cobertos
Duma terra adversa ao teu rodar atento
Surgem como sombras de amor e logo se dispersam
Sem que as palavras sirvam de refrão à existência
Muda ou gravada na alma um instante passageiro,
Urgentes ou cativos da minha vida móvel.
Mortos que nadam nesse lago do nada e acendem
Na bagagem o fogo que consome
As imagens de outrora e nunca saberão
Como pronunciar vivos a palavra mortos
Agora que contigo vou e não sei enfrentar
O reflectir do tempo no espelho vão da hora."
Armando Silva Carvalho, O Amante Japonês, Lisboa: Assírio & Alvim, 2008, p. 51.
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