Saturday, November 16, 2013

PASSA



"De tudo o que é novo nasce um novo prazer, 
mas eu sei que não é boa a jovem morte.

Ela fere pelas costas, e não é doce como o açúcar, 
nem é como o vinho, nem é como o sumo das uvas."


Al-Houtay'a, in Herberto Hélder, O Bebedor Nocturno, Lisboa: Assírio & Alvim, 2010, p. 104. 

Friday, November 15, 2013

TREPAR



"Desejar e gozar levam-nos à dor. É desagradável o rigor da mulher amada, mas a contínua amabilidade e doçura ainda o são, para dizer a verdade, em maior grau, pois o descontentamento e a cólera nascem da estima em que temos a coisa desejada, aguçam o amor e vivificam-no. A saciedade engendra o fastio, que é uma paixão embotada, entorpecida, cansada e adormecida."


Michel de Montaigne, Ensaios (seleção), trad. R. Correia, Lisboa: Amigos do Livro, s.d., p. 288. 

Thursday, November 14, 2013

MORTAIS



"JULIAN - Look at this black water. Do you think if I vanished from the earth without trace, and my body was never found, and no one knew what had happened to me - do you think the legend would grow that Hermes had descended and carried me away, and that I had been taken up into the company of the gods?

MAXIMUS - The time is at hand when mortals will not need to die to live as gods upon the earth."



Ibsen, Emperor and Galilean, trad. Michael Meyer, London: Methuen, 1986, parte 2, at. III, p. 285.

Wednesday, November 13, 2013

CAMINHO



"Dentro do medo e das suspeitas, 
com a mente agitada e os olhos aterrados,
fundimos e planeamos o que fazer
para evitar o perigo
certo que desta forma horrenda nos ameaça. 
No entanto equivocamo-nos, não está esse no caminho;
falsas eram as mensagens 
(ou não as ouvimos, ou não as sentimos bem). 
Outra catástrofe, que não imaginávamos, 
brusca, torrencial cai sobre nós, 
e desprevenidos - como teríamos tempo - arrebata-nos."


Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis, Lisboa: Relógio D' Água, 1994, p. 27. 

Tuesday, November 12, 2013

TUFOS DE ERVA



"São tufos de erva. Poderia ter escolhido outro motivo. Mas o que me apetece pintar eram tufos de erva. O que é que um tufo de erva tem de relevante? Talvez nada. Ou talvez tudo. 

Poderia passar a eternidade a pintar tufos de erva. Sem que o motivo se esgotasse. Ou até que eu me transformasse num tufo de erva."


Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu [poesia reunida], Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 301. 

Monday, November 11, 2013

MAIS DOCE QUE A UVA MADURA



"Ó Galateia, mais alva que a pétala do níveo ligustro, 
mais florida do que prados, mais esbelta que o alto amieiro, 
mais brilhante que vidro, mais brincalhona que o cordeirinho, 
mais macia que conchas polidas constantemente pelas ondas, 
mais agradável que no Inverno o sol, que a sombra no Verão, 
mais majestosa que a palmeira, mais vistosa que alto plátano,
mais reluzente que o gelo, mais doce que a uva madura, 
mais suave que as penas do cisne, e também que o requeijão, 
e, se não fugires, mais formosa que um jardim bem regado.
E também, Galateia, mais casmurra que bezerro não domado, 
mais dura que um carvalho velho, mais falsa do que as ondas, 
mais inconstante que ramos de salgueiro e vinha de uva branca, 
mais inamovível que os rochedos, mais impetuosa que um rio, 
mais soberba que o aplaudido pavão, mais violenta que o fogo, 
mais espinhosa que silva, mais brutal que ursa que deu à luz,
mais surda que o mar, mais desapiedada que serpente pisada, 
e, coisa acima de tudo o resto que eu gostaria de te poder tirar, 
mais veloz quando foges, não tanto como o cervo acossado
pelo sonoro ladrar, mas antes do que os ventos e a veloz brisa."


Ovídio, Metamorfoses, trad. Paulo Farmhouse Alberto, 2ª ed., Lisboa: Cotovia,2010 llivro XIII, vv.789-807, pp. 332-333. 

Sunday, November 10, 2013

VIDA



"A única saída possível é uma saída para a Vida, para a Alegria, o Dom, a liberdade da inventividade, o fluxo, o acontecimento, a vontade de poder criar (e continuar, e continuar)."


Carlos Couto Sequeira Costa, Vedutismo, Coimbra : Pé de Página Editora, 2005, p. 64. 

Saturday, November 9, 2013

PESSANHIANA


"Eu voltei aos meus passeios nocturnos à beira do rio. A corrente tinha trazido para a margem uma série de conchas, corais, espinhas e escamas de peixe. Surpreendeu-me encontrar tantos despojos pertencentes à fauna marítima. A margem estava constelada de signos místicos. Eu estava convencido de que os homens de olhos azuis teriam podido entender esta linguagem simbólica. Havia ali segredos, sem dúvida: as asas de insectos, por vezes tão belas, dos morcegos e das baratas apresentavam manchas que podiam constituir um alfabeto perdido. Mas faltava-me a chave."


Alfred Kubin, O Império do Sonho, trad. Manuela Torres, Lisboa: Vega, 1986, p. 207. 

Thursday, November 7, 2013

NOCTÂMBULO



"Um dia via o mundo como um magnífico tapete de cores, reduzindo-se os contrastes mais surpreendentes a uma harmonia total; outras vezes percorria com o olhar uma vasta filigrana de formas. Na escuridão, soava à minha volta uma sinfonia de órgão, composta de sons nos quais os ruídos patéticos e suaves da natureza formavam acordes distintos. Sim, como um sonâmbulo, eu conseguia ter sensações inteiramente novas."


Alfred Kubin, O Império do Sonho, trad. Manuela Torres, Lisboa; Vega, 1986, p. 154. 

Wednesday, November 6, 2013

SOBRENATURAL


"- O que quer então você que sejam esses intrusos? - exclamou o juiz Koltz. 
- Seres sobrenaturais - respondeu  o magister Hermod com uma voz que se impunha. - Por que não haviam de ser espíritos, espectros, fantasmas, talvez mesmo algumas dessas perigosas lamies que se apresentam sob a forma de lindas mulheres? 
Durante esta enumeração, todos os olhares se haviam dirigido para a porta, para as janelas, para a chaminé da grande sala do Rei Matias. E, na verdade, cada qual perguntava a si próprio se não ia aparecer um ou outro desses fantasmas sucessivamente evocados pelo mestre-escola.
- Contudo, meus bons amigos - arriscou-se Jonas a dizer -, se esses seres são génios, não compreendo por que razão teriam acendido lume, visto que não têm nada para cozinhar."


Júlio Verne, O Castelo dos Cárpatos, trad. Emílio Campos Lima, Mem Martins: Publicações Europa-América, s.d., p. 40. 

Tuesday, November 5, 2013

PORTA


"Não esqueçamos que nunca olhamos os olhos apenas por serem olhos; cada um de nós ignora qual a cor da íris de quase todos os seus amigos. Os olhos são o olhar: são os olhos para o oculista e para o pintor. Nada existe de menos desinteressado que a nossa visão."


André Malraux, As Vozes do Silêncio, trad. José Júlio Andrade dos Santos, 2º vol., Lisboa: Livros do Brasil, s.d., p. 16. 

Monday, November 4, 2013

ARCANO



"Pois está escrito no arcano dos sonhos que as existências se incorporam e se renovam, modificam-se e continuam contudo imutáveis, como a alma de um músico numa fuga. E, assim, a memória é desvanecida, rapidamente, no sono. 
Parece que o repouso perfeito nunca irá existir. Mesmo no paraíso, a serpente levanta a cabeça entre os ramos oprimidos da Árvore do Conhecimento. O silêncio da noite sem sonhos é quebrado pelo bramido da avalanche, pelo silvo dos súbitos dilúvios; o tinido do sino da locomotiva marca o seu movimento majestoso através de uma cidade americana adormecida; o fragor de remos distantes no mar... Seja o que for, está a destruir o encanto do paraíso. A cobertura verdejante que nos envolvia, estrelada por diamantes de luz, parecia tremeluzir no incessante movimento dos remos, e o som do sino descontente aparentava não mais ter fim..."


Bram Stoker, A Joia das Sete Estrelas, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1997, pp. 9-10. 

Friday, November 1, 2013

O QUE SE FOI SE FOI



"O que se foi se foi
Se algo ainda perdura
é só a amarga marca
na paisagem escura. 

Se o que se foi regressa, 
traz um erro fatal: 
falta-lhe simplesmente
ser real. 

Portanto, o que se foi, 
se volta, é feito morte. 

Então por que me faz 
o coração bater tão forte?"


Ferreira Gullar, Em Alguma Parte Alguma, Lisboa: Ulisseia/ Babel, 2010, p. 43. 

Thursday, October 31, 2013

REVENANT



"Parece que o repouso perfeito nunca irá existir. Mesmo no paraíso, a serpente levanta a cabeça entre os ramos oprimidos da Árvore do Conhecimento. O silêncio da noite sem sonhos é quebrado pelo bramido da avalanche, pelo silvo dos súbitos dilúvios; o tinido do sino da locomotiva marca o seu movimento majestoso através de uma cidade americana adormecida; o fragor de remos distantes no mar... Seja como for, está a destruir o encanto do paraíso. A cobertura verdejante que nos envolvia, estrelada por diamantes de luz, parecia tremeluzir no incessante movimento dos remos, e o som do sino descontente aparentava não mais ter fim..."

Bram Stoker, A Jóia das Sete Estrelas, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1997, p. 10. 

Wednesday, October 30, 2013

VIVOS



"Estou rodeado de mortes
Defuntos caminham comigo na saída do cinema.
São muitos, 
                  sinto a presença ativa das magnólias 
queimando em seu próprio aroma.

Os mortos acomodam-se a meu lado
como numa fotografia. 
Ajeitam o paletó, a gola da blusa
e parecem alegres. 

São gente amiga
com saudade de mim
(suponho)
e que voltam de momentos imensamente vividos. 
Tentam falar e falta-lhes a voz, 
tentam abraçar-me
e os braços se diluem no abraço. 
Fitam-me nos olhos cheios de afeto. 

Ah quanto tempo perdemos, 
quanta desnecessária discórdia, 
penso pensar. 

É isto que me parecem dizer seus esplendentes rostos
neste entardecer de janeiro."


Ferreira Gullar, Em Alguma Parte Alguma, Lisboa: Ulisseia/Babel, 2010, p. 52. 

Tuesday, October 29, 2013

OLÍMPIA



" - Separação, separação, - gritou ele feroz e desesperadamente, beijando a mão de Olímpia, inclinando-se para a sua boca, tocando os lábios gelados com os seus ardentes! - Assim, tal como quando ele tocou a fria mão de Olímpia, se sentira possuído pelo horror interior, a lenda da noiva morta veio-lhe repentinamente à cabeça, mas Olímpia tinha-o puxado fortemente contra si, e aquele beijo parecia que os lábios a tinham animado para a vida. - O professor Spalanzani caminhava calmamente pelo salão vazio, os seus passos pareciam ocos e a sua figura, abraçada pelas sombras projectadas pelas luzes, oferecia uma visão fantasmagórica. - Amas-me - Amas-me, Olímpia? Somente essa palavra! - Amas-me? - Murmurava Nathanael, mas Olímpia suspirava, levantando-se: - Ah - Ah! Sim, tu minha bela estrela da manhã, referia Nathanael, surgiste e irás alumiar, irás explicar sempre o meu estado interior! - Ai, ai! replicava Olímpia continuamente."


E.T.A. Hoffmann, Contos Nocturnos; Contos Fantásticos, trad. Linguagest, Barcelona: Mediasat Group, 2004, pp. 30-31. 

Sunday, October 27, 2013

MEMÓRIA



"sofri a memória como um amigo pretérito. Hoje, ela abandonou-me. Deve ser isto o futuro. Interrogação ausente."

Rui Nunes, Os deuses da Antevéspera, 2ª ed., Lisboa: Vega, 1990, p. 61. 

Saturday, October 26, 2013

BENDITO SEJA O FRUTO



"A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós, 
por isso tenho de baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto. 

A poesia é, na verdade, uma 
fala ao revés da fala, 
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala. 
Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma."


Ferreira Gullar, Em Alguma Parte Alguma, Lisboa: Ulisseia/Babel, 2010, p. 45. 

Thursday, October 24, 2013

CAMINHO DAS ESTRELAS



"No termo destas evoluções, o homem deixou de existir enquanto indivíduo; aliás, ele já nem faz falta. É este o caminho que conduz às estrelas."

Alfred Kubin, O Império do Sonho, trad. Manuela Torres, Lisboa: Vega, 1986, p. 156. 

Wednesday, October 23, 2013

UNHEIMLICHE



"Dá-se a sensação do sinistro quando qualquer coisa de sentido e pressentido, temido e secretamente desejado pelo sujeito, se faz, de forma súbita, realidade"


Eugenio Trías, O Belo e o Sinistro, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Fim de Século, 2005, p. 46.