"Du Roy olhava para ela com interesse e perguntava a si próprio que desgosto, que dor, que desespero, podiam torturar aquele coração. Rebentava de miséria - isso era visível - e tinha talvez um marido que a moía com pancada ou um filho doente. Murmurou: «Pobres criaturas. Há tantas que sofrem assim!» Apoderou-se dele uma cólera contra a natureza implacável. Reflectiu depois que aqueles pobres diabos, pelo menos, acreditavam haver quem se interessava por eles lá em cima e que a sua identidade se encontrava inscrita nos registos do céu com as colunas do «Dever» e do «Haver»: «Lá em cima? Onde?»"
Guy de Maupassant, Bel-Ami, trad. Jaime Brasil, Lisboa: RBA Editores, 1995, p. 200.
"Jorge ria ao pensar naquele encontro. Dizia para si: «As igrejas servem-lhe para tudo. Consolam-na de ter casado com um judeu, dão-lhe uma atitude de protesto no mundo político, um ar de pessoa distinta na sociedade e um abrigo para os seus encontros galantes. O que é o hábito de se utilizarem da religião como duma coisa que serve para tudo! Se está bom tempo, é uma bengala; se faz calor, é um guarda-sol; se chove, é um guarda-chuva, e se a pessoa não sai, deixa-o à porta, no bengaleiro. Há centenas delas assim que se importam tanto do bom Deus como da primeira camisa que vestiram, mas não querem ouvir dizer mal dele, embora o tomem em certas ocasiões como alcoviteiro. Se lhes propuserem ir a uma hospedaria, consideram isso uma infâmia, mas parece-lhes muito simples ter encontros amorosos aos pés dos altares.»"
Guy de Maupassant, Bel-Ami, trad. Jaime Brasil, Lisboa: RBA Editores, 1995, p. 199.
"Um coiso que grita devora glorioso e natural."
emma santos, O Teatro, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981, p. 15.
"«A mim, ao Fogo, à Vida, ao Turbilhão!
Só morre quem tem medo à própria Vida;
Nunca o que expira a arder de exaltação
E esperança desmedida.»"
Jaime Cortesão, Poesias-I, Lisboa: Portugália Editora, 1967, p. 80.
"As coisas cá fora asfixiam-me a voz e destroem a linguagem. Constroem no lugar das cidades as suas casas de pessoas importantes, as casas sem portas e sem janelas."
emma santos, O Teatro, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981, p. 40.
"Os prédios das pessoas crescidas amolecem, desfazem-se, esboroam-se. A água sobe, cai dos telhados. Os polígonos tornam-se pólipo, poliedro, polyestereno e outras palavras deles que eu não sou capaz de pronunciar. De vez em quando incendeiam-se. É bonito. Aliviam-se, acalmam, respiram. Ficam aliviados. Eu abafo, sufoco. Asfixia."
emma santos, O Teatro, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981, p. 22.
"As palavras estão velhas, ridículas. Mercadoria estragada, restos que por esquecimento se não limparam. Repugnante. As palavras ficam no exterior da cidade, nas zonas de entulho. Às palavras, lançam-se-lhes pedras, aos loucos, escarra-se-lhes em cima. As palavras loucas seguem o seu caminho, sozinhas, sem amor. Arrastam-se moribundas, vão para o hospital e pedem que as capem."
emma santos, O Teatro, trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Assírio & Alvim, 1981, p. 41.
"A seguir à sopa, serviram uma truta cor-de-rosa como a pele de uma rapariga, e os convivas começaram a conversar."
Guy de Maupassant, Bel-Ami, trad. Jaime Brasil, Lisboa: RBA Editores, 1995, p. 67.
"Todo aquele que não participa na Cidade é, na realidade, como um estrangeiro que acaba de chegar a esse meio. Se nalguns lugares se esconde esta distinção, fechando os olhos acerca dos domiciliados que usurpam a qualidade de cidadão, é para iludir e adormecer a sua malvadez."
Aristóteles, Tratado da Política, L.I, trad. M. de Campos, Mem Martins: Publicações Europa-América, 2000, p. 37.
"Após dez minutos de reflexão, decidiu deixar para o dia seguinte a página do começo do artigo e fazer, de imediato, uma descrição de Argel. Traçou no papel: «Argel é uma cidade muito branca...», sem conseguir dizer outra coisa. Revia, na memória, a cidade clara a descer, como uma cascata, de casas atarracadas, desde o alto da colina até ao mar; mas não encontrava uma palavra para exprimir o que tinha visto, o que sentira. Depois dum grande esforço, acrescentou: «É habitada em parte por árabes...» Atirou com a pena para cima da mesa e levantou-se."
Guy de Maupassant, Bel-Ami, trad. Jaime Brasil, Lisboa: RBA Editores, 1995, p. 35.
"Único será, então, o princípio motor: o objecto que é desejado. Com efeito, se dois princípios, o intelecto e o desejo, estivessem eles próprios na origem do movimento, só poderiam ambos ser motores em virtude de um carácter comum. Mas, na verdade, verifica-se que o intelecto não se pode mover sem o apetite (já que a volição consiste numa forma de apetite e quando se move segundo o raciocínio, também se move por volição)."
Aristóteles, Da Alma, 433a20, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa: Edições 70, p. 119.
"Um facto, porém, podemos estabelecer: nascem os desejos do combate travado entre uns e outros, tal acontecendo quando a razão e os apetites atuam em sentido contrário; sendo tal facto próprio dos seres que possuem a percepção do tempo: move-nos, por conseguinte, o intelecto no sentido de podermos resistir ao futuro; o apetite, pelo contrário, move-nos unicamente na mira do imediato, parecendo o prazer do momento ser-nos agradável e bom absolutamente, de tal modo que não é possível vislumbrar aquilo que realmente acontece."
Aristóteles, Da Alma, 433b5-433b10, trad. Carlos Humberto Gomes, Lisboa: Edições 70, p. 120.
"Manobramos, esquivamo-nos à dificuldade, contornamos o obstáculo e batemos os outros por meio de um dicionário. Todos os homens são estúpidos como galinhas e ignorantes como carpas."
Guy de Maupassant, Bel-Ami, trad. Jaime Brasil, Lisboa: RBA Editores, 1995, p. 14.
"Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa"
Adília Lopes, Florbela Espanca Espanca, in Caras Baratas - antologia, Lisboa: Relógio d'Água, 2004, p. 188.
"A mesa, todos
interligados
pela realidade do alimento
pelo universo único
do ser
a mesa, todos
coexistem no júbilo
comungando a oferta pura das coisas."
Orides Fontela, Trevo (1969-1988), São Paulo: Duas Cidades, 1988, p. 242.
"Sossegamos, no entanto, porque existem teses sólidas sobre a propagação de raios x, y ou z na exosfera terrestre que impedem, de certa forma, uma travessia tranquila do espaço terrestre. Afinal, o cosmos partilha a personalidade azeda do mar: quando menos se espera, um vagalhão destroça embarcações pesadas e modernas, enquanto um veleiro de 1930 cruza o Atlântico numa destreza de ginasta. Não há que reclamar, porque os caprichos da natureza alastram-se a tudo quanto pode ser explorado."
Valério Romão, Facas, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2013, p. 36.
"A vida passa por mim como um turbilhão de facas e lasca-me a memória e a felicidade, arranca fatias de bom humor e não se vai embora por muito que eu lhe grite vai-te embora, ela não vai, é vida-sombra que queremos deixar à noite, onde não há luz, para podermos vesti-la de manhã e ver se mudou de cor, se está mais justa, se lhe talharam bolsos, se já assenta melhor no corpo, mas a vida é persistente mesmo às escuras, é uma sombra encalhada no meio de todas as outras e acordamos de manhã e está igual, está rota, deslavada, vida fato-macaco de pobre, vida-embarcadiço a olhar mar fora à procura de uma mudança no horizonte, à espera de poder gritar terra!, terra à vista! mas nunca aparece terra, somente uma faixa longa de oceano onde todas as esperanças do mundo dormem e se afogam."
Valério Romão, Facas, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2013, pp. 12-13.
"Os Fados, porém, foram implacáveis; e ela mais não pôde fazer que atirar por cima do ombro um beijo antes que Orlando partisse."
Virginia Woolf, Orlando, trad. Ana Luísa Faria, Lisboa: Relógio D'Água, 1994, p. 89.
"Havia momentos em que a sua interlocutora lhe parecia uma delicada criatura de asilo - uma surpreendente surda-muda ou uma destas cegas com capacidade para trabalhar. A nobre cabeça pagã conferia-lhe privilégios que ela desaproveitava, e quando alguém lhe admirava o rosto ficava a pensar se o não fariam por haver um bem ateado incêndio no seu quarto. Era simples, amável e bondosa; inexpressiva, mas não insensível nem estúpida."
Henry James, O Mentiroso, trad. Aníbal Fernandes, Lisboa: Sistema Solar, 2012, p. 37.
"A realidade é um calhamaço insuportável?
Tragam-me então resumos.
A vida que se leva é um filme inassistível?
Vejamos só os anúncios.
São os limites do corpo intrusões malignas
de um demiurgo escroto?
O corpo não é preciso, e o espírito é impreciso:
eu não é um nem outro.
Anda inconveniente a tal da poesia,
a significar?
Nada como um bom significante vazio
para abolir o azar."
Paulo Henriques Britto, Formas do Nada, São Paulo: Editora Schwarcz, 2012, p. 18.