Sunday, March 8, 2026

DIA DA MULHER

 


"Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como outro qualquer. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria..."


João de Araújo Correia, "A Árvore de Judas", in Montes Pintados, Imprensa do Douro, 1999, p. 37. 

ESTADO PRIMEIRO

 


"O meu corpo dançava, livre, respirava com os materiais, e observava como cada coisa se liga de volta à sua origem, retomando a si: pneus, luvas, galochas e brinquedos de borracha regressavam à saringueira amazónica, outros liquefaziam-se no petróleo, as roupas desfaziam-se em fios gerando a fibra do linho e a flor do algodão; o café aninhava-se no grão original. Os prédios implodiam lentamente, desfeitos em pó e em terra; não sobrava nada de pé. Na farmácia, os medicamentos voltavam a ser planta e a mercearia cobria-se dos cereais dos quais extraímos o pão e a cerveja. Na rua, diferentes metais fundiam-se no subsolo; e partículas dos mais variados elementos voavam com o vento, de volta ao começo. A cidade assumia o seu estado primeiro, vegetal, simbiótico. O oxigénio revinha às plantas. Os humanos que sobreviviam eram os que aprendiam a fazer parte, a colaborar. Os livros, todos eles, cada um, encaixavam-se de volta na árvore."

Joana Bértholo, Natureza Urbana, Lisboa: Relógio D' Água, 20203, p. 46.

Saturday, March 7, 2026

EXERCÍCIO DE ESTILO

 


"O estilo é a fisionomia da mente. É menos enganadora que a do corpo. Imitar o estilo de outra pessoa é usar uma máscara, e, por muito bela que ela possa ser, a sua falta de vida fá-la em breve parecer insípida e insuportável, de modo que é preferível o mais feio dos rostos. 
A afectação estilística pode ser comparada a fazer caretas."

Arthur Schopenhauer, Aforismos, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1998, pp. 90-91. 

Friday, March 6, 2026

IMPERMANÊNCIA

 


"já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
e deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja"


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 134. 

ANJO MORTUÁRIO (para a memória de António Lobo Antunes)

 


"Um anjo mortuário, de asas tombadas de morcego, esmagava-lhe a barriga, uma paz de sesta sem sono crescia-lhe no corpo. O cigano regressou do mar, a bronquite dos cachorros cantava-me aos ouvidos. Manoel de Sousa de Sepúlveda fechou os olhos enquanto o sol começava, devagar, a colori-lo:
- Vou dormir um bocadinho, pensou ele a esconder os tornozelos na areia. Assim como assim já não tenho nada que me possam roubar."


António Lobo Antunes, As Naus, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988, p. 88. 

Tuesday, March 3, 2026

GINECEU

 


"Tudo na Borralha era misterioso. Uma espécie de maldição. Às vezes penso, sem grande fundamento, reconheço, que tudo o que se passou na Borralha foi uma vingança da madre-terra por lhe terem violado as entranhas. Repare. A gente semeia e colhe. Corta uma flor, uma árvore, nasce outra. Mas o minério não se regenera. Uma vez extraído, a integridade da terra nunca mais se recompõe. O homem devia pensar nisso. Mas o homem só pensa em dinheiro."

Bento da Cruz, A Fárria, Lisboa: Âncora Edições, 2009, p. 52. 

Monday, March 2, 2026

LEVANTAR OS BRAÇOS PARA O ALTO


 

"a poesia é a raposa prateada que atravessa o caminho,
não sabemos o que existe quando se esconde na sombra, 
mas um dia sentimos-lhes a falta, falta-nos a glória
no bolso da camisa, a leveza de um peso
na cabeça, uma fornalha no espírito, 
alguma coisa que nos situe a volúpia e o deleite, 
a transgressão, a aprendizagem, uns versos
que se amontoem na nossa cama, nos nossos
gestos. a poesia é o que nos faz desvendar o dissídio
e levantar os braços para o alto, fechando
os punhos, ou abrindo-os, para que um rasto
de fluorescências se possa ver, alguma luz
parada sobre o rumo dos agouros, ou das pulsões, 
ou das sombras espessas, a poesia é o que convoca, 
o que não cessa, um homem sai de casa e quer bebê-la, 
a mulher sustenta-a com os sonhos que tem, a pensar
no jacarandá que só muito tarde irá florir, 
porque a poesia é o que tarda, o que temos connosco,
o que nos rasga por dentro como um acendimento
e faz com que as dores se exprimam e possam desaparecer."


Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, p. 62. 
 

Sunday, March 1, 2026

CAPAZ DE ENTENDER

 


"não te sentes hoje capaz de entender
o dia de hoje, baby?
espera que ele seja o dia de ontem.

não te sentes capaz de entender
o dia de ontem, baby?
espera que ele seja o dia de amanhã.

não te sentes capaz de entender 
o dia de amanhã, baby?
espera que ele seja o dia de hoje."


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 47. 

Saturday, February 28, 2026

SABEDORIA

 


"O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito bem, ser falar mal e sem falar demasiado."


Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 13. 

LES POLICHINELLES

 


"lado a lado
os dois chefes de estado
posam para o futuro
com um gesto do passado"



Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 30. 

Friday, February 27, 2026

EMOÇÃO

 


"Além disso, o pudor impede-me de falar da minha própria emoção perante a pintura. Não falo dela. A não ser, como o fiz para Skira e em curtos textos dedicados às obras dos meus amigos, colocando a obra, enquanto historiador, no centro de um sistema de correspondências, com o propósito de ajudar, talvez, a melhor penetrar nos seus encantos. Silenciosamente."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

CONTEMPLAR

 



"A obra de arte é feita para ser contemplada no silêncio, não para servir de pretexto a discursos, que, muitas vezes, longe de a esclarecer, a ofuscam. Penso, com Julien Green, que «a beleza escapa sempre às palavras que a querem abarcar»."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

Sunday, February 22, 2026

A VOZ DO CHÃO

 



"Senhor, deito-me na cama
coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.


Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não,
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro dum inimigo...
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo."


Miguel Torga, Diário I, Lisboa: Planeta DeAgostini, 2000, p. 19.

Saturday, February 21, 2026

O PALCO CONSTRUÍDO

 



"Henri Gouhier aproxima o ofício do historiador do do encenador. O palco construído, o cenário montado, o texto redigido, trata-se de apresentar o espectáculo, de fazer passar o texto, dar-lhe vida, e é isto o essencial: convencemo-nos disso quando, depois de ler uma tragédia, a escutamos, a vemos representada. Ao historiador cabe esta mesma função mediadora: comunicar pela escrita a chama, o «calor», reconstituir a «própria vida». Ora, que não haja mal entendidos, esta vida que ele tem por missão insuflar é a sua. Consegue-o tanto mais quanto mais sensível for. Deve controlar as suas paixões, mas sem contudo as abafar, e cumpre tanto melhor o seu papel quanto mais se deixa, aqui e ali, levar um pouco por elas. Longe de o afastarem da verdade, elas têm a possibilidade de o aproximarem ainda mais dela. À história árida, fria, impassível, eu prefiro a história apaixonada. Não estou longe de pensar que ela é mais verdadeira."


Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 55. 

Friday, February 20, 2026

SINAIS

 


"Uma luz, um som, um aroma,
nos circuitos da memória colhe
o devir esquivo.

Sinais que regista
o computador privativo
de recuperar o passado."


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 179. 

Thursday, February 19, 2026

SEMIDEUSES

 




"Os semideuses são boxeurs, ciclistas,
Futebolistas ou chauffeurs; e Deus,
Com semideuses tais, deserta uns céus
Que a ninguém, já, lograva dar nas vistas.

Para salvar o mundo, há um rol de listas
De provérbios arianos ou judeus;
Mas ninguém quer ser salvo! E os vãos troféus
Bolorecem nas mãos propagandistas.

Aristo, demo-cratas e mais cratas
Vão, de atómicas bombas na algibeira,
Contratar paz com artes diplomatas.

O amor dispensa as setas e a seteira.
E em tal progresso, os santos da Reacção
Masturbam-se na imensa solidão..."



José Régio, A Chaga do Lado - Sátiras e Epigramas, 2.ª ed., Lisboa: Portugália Editora, 1956, pp. 55-56.

Wednesday, February 18, 2026

CINZAS

 



"La calavera, el corazón secreto,
Los caminos de sangre que no veo,
Los túneles del sueño, ese Proteo,
Las vísceras, la nuca, el esqueleto.
Soy esas cosas. Increíblemente
Soy también la memoria de una espada
Y la de un solitario poniente
Que se dispersa en oro, en sombra, en nada.
Soy el que ve las proas desde el puerto;
Soy los contados libros, los contados
Grabados por el tiempo fatigados;
Soy el que envidia a los que ya se han muerto.
Más raro es ser el hombre que entrelaza
palabras en un cuarto de una casa."


Jorge Luis Borges, Obra Poética 1923/1977, 3.ª ed., Madrid: Alianza Editorial, 1983, p. 421. 

Tuesday, February 17, 2026

BACO


 

"Disse-lhe que estas palavras se podiam aplicar a mim à letra: de hoje em diante, ele seria a arma escondida, a armadura invisível, o talismã mágico que alentaria na minha carreira.
- Tudo é um combate - acrescentei -, combate entre a luz e as trevas, entre a beleza e a fealdade, entre a inteligência e a estupidez, entre a verdade e a hipocrisia, em suma, entre tudo o que representas e o que representa a maior parte da sociedade."


Roger  Peyrefitte, O Nosso Amor, trad. Manuel Crespo, Lisboa 2: Ulisseia, 1969, p. 52. 

PLAUSÍVEL

 





"ah, a velocidade com que por mim passa o mundo imaginário,
estive sempre em lugares que não existem, a saber
que tudo é plausível à minha volta, palavras que ouvi,
como um castelo de cartas, açoites e arroubos de melancolia,
telhados que ruíram, orações perdidas, ásperas borrascas."



Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, pp. 57-58.

Monday, February 16, 2026

O CAMINHO DE HERACLITO

 




"Agora quando já sabia ser eu deixei de me lembrar do meu nome.
Busquei no fundo de mim mas o fundo de mim não é meu.
As casas do meu corpo trespassaram as recordações que eram minhas
Enquanto eu vou na direcção da casa tormentosa.
Por certo voltei para trás, por certo enganei-me no caminho.
Ouço ao longe o coro dos sem voz.
Eu era o diadema.
Chamas-me e eu vou
Mas tenho de voltar.
Porque tenho de passar por esta prova?"


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 286.

Sunday, February 15, 2026

NEUROTICISMO

 


"O que se passa com o presente que está sempre ansioso por julgar o passado? Há sempre algum neuroticismo ligado ao presente, que se crê superior ao passado mas não consegue superar a irritante ansiedade de que pode não o ser. E atrás disto vem outra questão: que autoridade temos nós para julgar?Somos o presente, o passado é o passado: habitualmente isto é suficiente para muitos de nós. E quando mais se recua no passado, tanto mais atraente se torna simplificá-lo. Por mais grosseira que a nossa acusação possa ser, o passado nunca responde, permanece em silêncio."


Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, p. 197. 

Saturday, February 14, 2026

A PURA ETERIDADE

 




"acima dos fantasmas
está
a Luz

a pura Eteridade

descalça-se
espojando-se
de gotículas iridientes
aspergindo-as em bruma iridescente

acima dos rostos
está
a invisibilidade
do universo
mistério irresolúvel e opaco
da luminescência
espraiando-se infinitamente
em volatilidade de um Anjo

acima dos passos
está
a transparência
do silêncio do sinal
permanente e constante
filtrando-se pela ondulosidade
perfeita
respiração
em espiral"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 134-135.

SOBERANO DAS COISAS TRANSITÓRIAS



" Em 1893, Montesquiou enviou a Proust uma fotografia sua com a dedicatória: «Sou o soberano das coisas transitórias.» Proust já lhe tinha dado a alcunha de «Professor da Beleza». Era também conhecido como «Comandante dos Odores Delicados», enquanto Yturri era o «Chanceler das Flores». Nos anos finais de vida, de decadência, o Conde costumava consolar-se repetindo «Sou bom, tenho uma alma bonita», como se lhe coubesse decidir sobre qualquer uma dessas questões. Gostava de citar um dístico de um colega poeta alemão (e igualmente conde), Platen: «Aquele que olha a Beleza de frente / Já está dedicado à morte.» Para Montesquiou, a Beleza - quer fosse a beleza interior da própria alma, quer fosse o conceito e expressão de beleza do mundo exterior - é um espaço no qual a pessoa se recolhe, uma maneira de viver que diferencia, que a mantém afastada do mundo. É uma coisa privada, partilhada com iniciados. Muitos dos quais reconhecem quem é o iniciado principal."

Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, pp. 80-81. 

Friday, February 13, 2026

PAUSA FRIA




"antes das letras caminha
o fatídico
conhecimento das construções

antes da luz já com melancolia
os olhos
se fartam do sonho


antes doutro desbravamento se eleva
a ansiosa 
moral por outra flor adocicada

antes da morte entrecruzam-se
os anos
atarefados à procura doutras receitas."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 142. 
 

Wednesday, February 11, 2026

PRECE


 "Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"


Fernando Pessoa, "Prece", Mensagem, 19.ª ed., Lisboa: Ática, 1997, p. 75.

Sunday, February 8, 2026

HOMEM NOVO, HOMEM VELHO

 




"H.N. - Uma última pergunta. Se pode ser o dono de si mesmo?

H.V. - Os Deuses, apesar de Deuses, sempre obedeceram ao destino.

H.N. - E a Liberdade?

H.V. - Isso já é outro assunto. Por ela envelheci. Dá cá a tua mão. Viva a Liberdade! Viva a Liberdade humana!"


António Botto, Caderno Proibido, ed. Victor Correia, Lisboa: Guerra & Paz, 2026, p. 149.

AÍ DO ALTO

 



"aí do alto do corpo que conheça,
a noite revê-se enxuta
expondo a cidade: a secura
das esfinges gravadas

mais pela água.
daí donde invadem as atmosferas
e se partem os corpos em poalhas,
só limpa é a altura na dispersão."


Óscar Possacos, curva, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 60.

Saturday, February 7, 2026

O DIA DEU EM CHUVOSO

 


" O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso."


Álvaro de Campos, «Trapo», in Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 431-432.

Friday, February 6, 2026

O TEMPO

 




"E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.

Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província."



Álvaro de Campos, Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 475. 

Thursday, February 5, 2026

LAGO



" - De qualquer modo - disse ele calmamente -, não percebo o que se pode fazer com os peixes pequenos senão comê-los. De resto, para que servem?
- No meu país -, disse, sentindo um conflito subtil dentro de mim ao dizer isto -, os peixes pequenos arranjaram forma de se unirem e atiraram-se a mordiscar o corpo da baleia.
- Isso não dará deles baleias - disse Giovanni. - A única coisa que resultará disso é que até no fundo do mar deixará de haver grandiosidade.
- "É isso que tem contra nós? Não sermos grandiosos?"


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 47.

Monday, February 2, 2026

CANDEIAS

 




"Vi-me no assombro da aparição, ao alto, de Maria
Purgada de unção, pasma lívida,
E, por descuido, aspergindo-a no colo.
Vi-me no assombro, erecto, deleitoso.
Quando de pálpebras fechadas eu me aproximava
Em haustos e a prendia nos dentes e, nesse esgar,
Lhe pesava os cabelos, abaixou-se confusa,
A praguejar, aonde permaneceu muda.
(Os brancos olhos mordiam a boca que secava.)
Ó amada ofegante, repousada,
Acima do manto que manchava,
<Ali se vê etérea, de delicado áureo.>"


José Emílio-Nelson, Bacchanalia, s.l.: Edições Sem Nome, 2014, p. 56.

Sunday, February 1, 2026

ACREDITAR

 



" - O que é que o faz pensar que não acreditamos? E você, acredita no quê?
- Eu não acredito nessa tolice do tempo. O tempo é uma coisa óbvia, é como a água para um peixe. Toda a gente está dentro de água, ninguém sai de lá, ou se sai acontece ao mesmo que o peixe: morre. E sabe o que acontece nesta água, no tempo? Os peixes grandes comem os peixes pequenos. É só isso. Os peixes grandes comem os peixes pequenos e o oceano está-se nas tintas."



James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 46.

Saturday, January 31, 2026

JARDIM (para a memória de Catherine O'Hara)

 


"Talvez toda a gente tenha um jardim do Éden, não sei; mas dificilmente o terão visto antes de verem a espada flamejante. Ou talvez a vida ofereça apenas a escolha entre lembrar-se do jardim ou esquecê-lo. De todo o modo, recordar exige outra, e é preciso ser um herói para se ser capaz de ambas. As pessoas que se lembram cortejam a loucura através da dor, a dor da morte da inocência repetindo-se para sempre; as pessoas que se esquecem cortejam outro tipo de loucura, a loucura da negação da dor e do ódio à inocência. E o mundo divide-se fundamentalmente entre loucos que esquecem e loucos que se lembram. Os heróis são raros."


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 36. 

FORÇA DE VONTADE

 


"Porque eu sou - ou era - uma daquelas pessoas que se orgulham da sua força de vontade, da sua capacidade de tomar uma decisão e de a levar avante. Esta virtude, como a maior parte das virtudes, é a própria ambiguidade. As pessoas que acreditam na sua força de vontade e em serem donos dos seus próprios destinos só conseguem manter essa crença tornando-se especialistas em se enganarem a si próprios As suas decisões não são de todo decisões - uma decisão de verdade torna-os humildes, pois sabemos que esta está à mercê de mais coisas do que as que podem ser enumeradas -, mas sistemas elaborados de evasão e de ilusão, concebidos para fazerem o mundo e eles próprios parecem aquilo que o mundo e eles próprios não são."


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 31. 

Friday, January 30, 2026

A RONDA

 




"Dois soldados
passam
de mãos dadas

como amantes

Não tardará
a ronda
a procurá-los

como cães

Soldados
de mãos dadas
têm nome


Não chegarão a ver as montras
e o rio
os dois soldados

e a sentar-se
num banco
de jardim

A ronda
não tardará
a alcançá-los"


António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 78.

EXPRESSÃO (para a memória de João Canijo)

 


"Clitemnestra - Criatura sem vergonha! Eu, as minhas palavras e os meus actos obrigam-me a dirigir-te insultos!

Electra - Não sou eu, és tu quem os profere, porque praticas as obras e as obras buscam a sua expressão nas palavras."


Sófocles, Electra, trad. Pe. E. Dias Palmeira, Lisboa: Sá da Costa, 1973, pp. 85-86. 

Thursday, January 29, 2026

PEQUENAS POÇAS DE ÁGUA


 

"O poeta recorre à sucessão das imagens, o pintor à sua simultaneidade. Por exemplo: olho para os pássaros, que se banham numa pequena poça de água que se costuma formar, nos dias de chuva, no chumbo que recobre a saliência lisa de um telhado; reparo portanto, ao mesmo tempo, numa imensidade de coisas que o poeta não pode sequer mencionar, já não digo descrever, sob pena de se tornar cansativo e de acumular volumes sobre volumes dando apenas dessas coisas uma noção imperfeita. E note-se que citei somente um instantâneo. Agora um pássaro mergulha na água; vejo a sua cor, a parte inferior de prata, das suas pequenas asas, da sua cor, a forme ligeira, as gotas de água que ele solta sob o intenso sol... Este pequeno pássaro é a prova manifesta, da impotência da arte do poeta. De todas estas impressões ele tem de escolher a de maior impacto, de forma a que eu consiga imaginar as outras."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 184. 

ENCANTO

 


"A arte é tão morosa que é preciso a vida inteira para chegar a sistematizar alguns princípios que, no fundo, regem cada uma das suas partes. Os talentos natos descobrem instintivamente a maneira de conseguir exprimir as suas ideias; neles existe um amálgama de impulsos espontâneos e de aproximações, através dos quais a ideia acaba por transparecer com um encanto talvez mais agradável do que o que resultaria do trabalho de um mestre consumado."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 165. 

Sunday, January 25, 2026

VIAGEM

 




"Embarquei certo dia
Na esfera transparente
De um misterioso engenho.

Só eu e o desespero
Sulcávamos o espaço
Naquela estranha nave.

Nada, nem as estrelas,
Conseguia alcançar-nos
Na aventura sem par.

Vencêramos o tempo.
O futuro já era
O presente e o passado.

Cingidos num abraço,
Nenhum de nós podia
Desfazer esse abraço.

Assim, unidos sempre,
Demos a volta aos mundos
Num fantástico vôo.

E em toda a parte vi
Seguirem abraçados
O homem e o desespero."


Américo Durão, Sinal, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1963, pp. 85-86.

Saturday, January 24, 2026

A CHUVA

 



"Fustigada pela chuva, a madeira
envelhece.
Vai precisar de vários dias ao sol
para recobrar a textura original. 
Depois, a plaina encarregar-se-á
de alisar as rugosidades e
as fissuras de outros amores.

Uma nova pintura acontece:
a primeira demão é pura carícia, 
a segunda camada desconhece
qualquer cicatriz, o vento que
vai e vem sobre a portada.

Tal uma cobra muda de pele
a madeira rejuvenesce.
E a chuva?"


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta da China, 2021, p. 208.

Thursday, January 22, 2026

OBJECTOS

 



" - Tenho de tudo - disse ele num murmúrio jubiloso -, excepto uma pintura de um túmulo egípcio.
Era verdade. O que possuía abrangia tudo o que dizia respeito ao tema. E, para mim, o mais notável era o facto de todos esses objectos terem um ar de dispendiosa autenticidade. Acreditei no cavalo persa; estive quase capaz de acreditar no punhal. Mostrou-me a galeria principal, ainda de uma elegância mais acentuada e mais calma."



Mary McCarthy, A Gente Com Quem Ela Anda, trad. Carmen Gonzalez, Lisboa: Editora Estúdios Cor, 1967, p. 73. 

Wednesday, January 21, 2026

DELÍCIA

 


"Que delícia é ir
dos pensamentos puros a um filme pornográfico
e rir
        do santo que voa e da carne que sua.

Que delícia é estar contigo, poesia
da luz
         na perna de uma mulher cansada."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 145. 

Tuesday, January 20, 2026

O DEVOTO

 


"Neste profundo depósito 
de catedral, hieráticos
como um triste esquadrão de obreiros de gesso
os santos aguardam um restaurador. 
Entre um altar e outro
se foram deteriorando, atacados pelas moscas, 
as traças e os abusos
da fé. 
Aqui já nenhum é São Francisco, São Valentim, São Judas, 
qualquer um é um qualquer, vultos
humanos, desfigurados e sem nome, à espera
do velho restaurador
                              que morreu há algum tempo. 
Estes anónimos
que foram rezados, celebrados, contemplados
com infinita devoção
são agora os meus santos. Sou aqui o único fiel e o prelado. 
Diante deles me ajoelho
e rezo com mais solidariedade do que fé."


José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 101. 

Monday, January 19, 2026

DO ÍNFIMO


 
"Sentia-me dessas plantinhas que crescem nas muralhas, 
só porque um dia uma semente caiu num dedal de terra.

Assim fiquei agarrado ao ínfimo, 
como se o ínfimo fosse uma mãe
e como se uma mãe fosse tudo."


André Tecedeiro, A Axila de Egon Schiele, Porto: Porto Editora, 2020, p. 159. 

Sunday, January 18, 2026

ESCADARIA


 

"A escadaria vai do pátio à açoteia e no terceiro patamar
o sol brilha, 
o solzito dos condenados brilha sempre
                                                      e devidamente.

O terceiro patamar é uma estância
onde o corpo é leve e branco como um comprimido
               e o pensamento intenso. E tudo é morno
menos os próprios ossos. 
                                         Por isso
haja Inverno em todo o hemisfério, mas haja sempre o
               milagre do sol na escadaria.

As almitas ali sentadas descansavam como à beira de um 
              abismo
e por vezes olhavam-nos como se fôssemos o abismo.
A minha casa é jovem para ter um frondoso e primaveril
             limoeiro.
Do limoeiro vem agora o haiku do poeta Moritake:

                            Cai uma pétala da flor
                            e de novo sobre ao ramo
                           Ah, é uma borboleta.

Um equívoco belo e aterrador
             quando sobrevoam o pátio duas pálidas borboletas."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 78. 

Saturday, January 17, 2026

CLIMA



"De nós já teve o mundo a sua conta;
Ganhar, gastar - não tarda estamos gastos:
Perdemos da Natura os dotes castos;
Custou-nos a inocência esta afronta!
O mar que o belo ventre à lua aponta;
Os ventos que uivam rentes e de rastos
Colhidos são quais flores em mansos pastos;
Por tudo isto andamos nós à tonta;
Não se nos dá! Meu Deus! Fosse eu pagão
E em credo gasto houvesse eu mamado;
Assim eu visse aqui no grato chão
Alguma esperança, que ando desolado;
Proteu dos mares surgindo, ou Tritão
Soprando o velho corno ataviado."


William Wordsworth, Poemas Escolhidos, seleção e tradução de Daniel Jonas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 223. 

Tuesday, January 13, 2026

SANTOS

 


"E. como se tivesse descoberto a forma de melhor sintetizar o seu pensamento, Don Mateo acrescentou de seguida, falando em voz lenta e pausada:
- Há duas espécies de mulheres que se devem evitar a todo o custo: primeiro, aquelas que não nos amam, depois, aquelas que nos amam. Entre estes dois pólos, existem milhares de mulheres absolutamente encantadoras, só que não as sabemos apreciar." 
 
Pierre Louÿs, A Mulher e o Fantoche, trad. Emanuel Godinho Lourenço, Lisboa: Círculo de Leitores, 1986, p. 32. 

Sunday, January 11, 2026

VIAJAR DESTA ARTE


 

"Semelhante maneira de viajar engendra em nós o inefável prazer de, em silêncio, sentirmos a Beleza; de, em silêncio, pensarmos na Beleza. São horas fecundas de estesia crítica.
A Beleza, vista da Soledade, desdobra-nos em admiração e gratidão; - e já nós amamos com aquele amor generoso que tudo engrandece e enobrece. 
Viajar desta arte é como que fazer um absorvente «Retiro» Espiritual, embora na viagem não meditemos no Bem, mas gozemos o Belo. As lições são de Estética e não de Ética. No entanto, vezes há que, aglutinando um e outro ensino, estes caminhos, à primeira vista paralelos, se tornam convergentes e levam ao mesmo fim."
 
Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 4-5. 

Saturday, January 10, 2026

UM HOMEM CELESTE

 


"Esteve por aqui alguns anos com extremo rigor de Vida, e com grandíssima fama de santidade. Acorriam povos numerosos dos arredores para visitar aquele pobre tugúrio um homem celeste: se a piedade de devotos os partilhava com alguma esmola distribuía-a a necessitados, não deixando para si se não a fadiga, e a dificuldade. E precisamente de justo andar de virtute, in virtutem, e voar como Águias sem nunca se cansar, até que cheguem à suprema região do Céu para contemplar eternamente aquele Sol, que não cega, mas ilumina, e iluminando felicidade o olho interior da alma."


Frei Manuel Pereira, Breve Tratado da Vida e Milagres de S. Gonçalo de Amarante, trad. Frei José Augusto Marques, OFM Conv,  Amarante: CEA, 2023, pp. 35-36. 

Friday, January 9, 2026

CONSCIENCIOSO

 


"É no isolamento consciencioso que se exercem os belos sentidos internos. À paisagem exterior antepõe-se a paisagem interior. A visão meditada trespassa aparências, perfura aspectos, penetra no carácter, colhe a essência. Já ela se impregna dos conceitos da luz que mostra o fundo das coisas, e dos da emoção que revela a graça lírica da existência. À flor da alma acodem todas as simpatias nobres que vivem nas criptas dela. Soltam-se, como revoadas de pombas, as afinidades do nosso sentimento, que voam para outras afinidades que da Natureza as chamam. Dialoga o espírito do homem com o espírito dos seres. Anda o olhar pelos Horizontes e o pensamento pelas Alturas. Respira-se Poesia e Crença. O Sonho sobe; o Sonho expande-se; o Sonho congratula-se com o Infinito em que se absorve."

Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 2-3.