Tuesday, March 31, 2026

JOUFFLUS

 


"Descobrir uma invectiva contra Cupido. Em ligação com as invectivas do alegorista contra a mitologia, que tão bem correspondem às dos clérigos dos começos da Idade Média. Na passagem em questão, Cupido pode ter recebido o epíteto de joufflu (bochechudo). A aversão de Baudelaire contra ele tem as mesmas raízes que o seu ódio a Béranger."



Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 176. 

SOUVENIR

 



"O souvenir é o complemento da «vivência». Nele reflecte-se a crescente auto-alienação do indivíduo que faz o inventário do seu passado como haveres mortos. No século XIX a alegoria abandonou o mundo exterior para se instalar no mundo interior. A relíquia vem do cadáver, o souvenir vem da experiência morta que, eufemisticamente, se designa de vivência."


Walter Benjamin, "Charles Baudelaire", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2017, p. 177. 

Monday, March 30, 2026

SINÓPTICO

 



"É sabido que o Jesus sinóptico nunca infringiu a lei de outrora - com a única excepção, de facto, relativamente ao colher das espigas ao sábado. A mais elucidativa da velha narrativa é a de Lucas (6, 1-5): «Aconteceu, então, num sábado, que Ele passava pelas searas e os Seus discípulos arrancavam e comiam espigas, esfregando-as nas mãos. Vendo isto, alguns fariseus disseram: "Por que fazeis o que não é lícito no sábado?"» A interpretação geral era a de que, ao sábado, apenas se podiam esfregar espigas caídas, com os dedos, mas, segundo a opinião do Rabi Judas, que também era um galileu como Jesus, também se podia fazê-lo «com a mão». O tradutor grego da narrativa original não estava então familiarizado com os hábitos do povo e, a fim de ilustrar a cena, acrescentou o arrancar das espigas sem suspeitar de que, mediante a única infracção à lei, se inseria na tradição sinóptica."


David Flusser, Jesus Cristo, trad. Maria Emília Ferros Moura, Lisboa: Círculo de Leitores, 1968, p. 36. 

Sunday, March 29, 2026

BEATA PERDIÇÃO

 



"Vi-Lhe o Rosto por detrás de véus frondosos
E não quis sossegar nas criaturas.
Desejei a morte e ainda roubo letras ao trabalho dos meus dias.
Volto os olhos para o mar saudoso.
O mundo, porém, persistiu em chamar por mim
E parecia-me a Sua voz que ordenava:
«Volta para tua casa!»
Voltei e estou a agir como deve ser.
Ninguém desconfia do meu gozo em negar-me quando me afirmo.
Eis-me naufragado na beata perdição."


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 294.

RAMOS

 



"Deus está entre as portas
Nas encruzilhadas
Onde um dá lugar ao outro
Elo em tudo o que acontece
Ponto por ponto.
Por isso é que o tempo não é inimigo de Deus
Sendo de bom senso homologar
Que tudo é um só Nome: Transcendente.
Portanto, a conclusão é simples:
Não podes parar ou deixar de dar as mãos."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 244.

Friday, March 27, 2026

FORÇOSO

 




"Forçoso é que a solidão transcenda
que a alma envenenando tem cativa
da teia do silêncio, e com nativa
voz novamente à humanidade ascenda.
E pura seja a força que me atenda,
mais forte do que a dúvida furtiva,
para encontrar de novo, rediviva,
a confiança que esta angústia fenda.
Pois se no mundo é difícil ser
maior que a dor, do tempo consciente,
inútil é da sorte algo esperar.
Que tudo o que é possível de querer
só cada um de si a si consente
na eterna maravilha de se achar."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 70.

AUSÊNCIA EM VIDA ADIVINHADA

 




"Passando, faz-se nada a nossa vida,
do tempo presa, da incerta sorte,
e gela-me sabê-lo enquanto a morte
em cada instante sinto que se olvida.
Como fizera ainda da esvaída
confiança que se finge praça-forte
se só angústia, sem história ou norte,
o meu silêncio guarda, desmedida?
Conheço a solidão sem movimento,
onde se torna sonho quanto vivo;
e da aguda consciência cativo -
que da razão já sinto descolada -
a uma ausência em vida adivinhada
vejo vazar o próprio pensamento."


Jorge Vilhena Mesquita, O Sentimento da Ausência, Águas Santas: Edições Sempre-em-Pé, 2005, p. 64.

Monday, March 23, 2026

VEM VINDO

 



"Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume, 
o seu lume breve. 
Palavras que muito amei, 
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua."


Eugénio de Andrade, 5 poemas, Porto: Campo das Letras/Fundação Eugénio de Andrade, 1997, p. 17. 

Sunday, March 22, 2026

LAZARE, VENI FORAS

 


"20. A morte é vencida, o homem é restabelecido, as cadeias dos infernos são quebradas. E depois de quatro dias a língua de Lázaro volta a mexer-se, as mãos aprestam-se para o trabalho, os olhos giram nas suas órbitas, os seus passos voltam a deixar pegadas, a audição retorna aos ouvidos e o olhar volta-se para os seus parentes. A vista revitalizada reconhece os familiares e a voz da sua família penetra nos seus ouvidos. Os pés do Salvador, por onde quer que se movam, encontram beijos por toda a parte. Pede-se água fresca, não se recusa o pão, toma-se o caminho de casa, relatam-se os milagres de Cristo."


Potâmio de Lisboa, «Acerca de Lázaro», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 122. 

FORÇA ASCENCIONAL

 


"O sofrimento humano, a totalidade do sofrimento difundido, a cada instante, pela terra inteira, que imenso oceano! Mas de que é formada essa massa? De escuridão, de lacunas, de perdas?... Não, mas, devemos repeti-lo sempre, de energia possível. No sofrimento esconde-se, com uma intensidade extrema, a força ascensional do Mundo. Toda a questão está em libertá-la, dando-lhe a consciência de que ela significaria e daquilo de que ela é capaz. Ah, que salto não daria o Mundo em direcção a Deus se todos os doentes ao mesmo tempo transformassem as suas dores num desejo comum de que o Reino de Deus amadureça rapidamente através da conquista e organização da Terra!"


Pierre Teilhard de Chardin, Hino do Universo, trad. Miguel Serras Pereira, Lisboa: Editorial Notícias, 1995, p. 90. 

Saturday, March 21, 2026

DIA DA ÁRVORE


 "E assim o demónio, que tinha vencido na árvore da ciência do bem e do mal, onde Adão e Eva pecaram, foi vencido na árvore da vida, que é a árvore da vera Cruz: onde o Senhor acabou seus trabalhos, para começarem nossos descansos."

 
Frei Heitor Pinto, Imagem da Vida Cristã, vol. II, cap. XXVI, Lisboa: Sá da Costa, 1940, pp. 313-314. 

DIA DA POESIA

 



"Vejo com os olhos de Deus,
adormeço com ele sobre as paisagens,
dispus cuidadosamente o sangue nas areias,
ao dobrar o cabo dos anos, calei-me.

O tempo vai esmorecendo nas pobres vozes,
é uma terra parada a que nos deixa a descobrir
e Deus cala-se a meu lado, adormecido
como o melro docemente tranquilo."


Rui Cóias, Europa, Lisboa: Tinta-da-China, 2015, p. 30.

Friday, March 20, 2026

IGUALDADE

 


"Deus nunca se manifesta. Assistiu Ele o seu filho no Jardim das Oliveiras? Não o abandonou Ele na sua angústia suprema? Oh que loucura pueril é invocar o seu socorro! Todo o mal e todas as provações, residem apenas em nós. Ele tem perfeita confiança na obra amassada pelas suas mãos. E tu traíste a sua confiança. Mar divino, não te espantes com a minha linguagem. Todas as coisas são iguais perante o Senhor. A soberba razão dos homens não vale mais, na balança do infinito, que o pequeno olho raiado de um dos teus animais. Deus dá tanto valor ao grão de areia como ao imperador."

 

Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 64. 

JOSÉ

 


"Os solitários e os doentes vêm para nos ver, e as velhas acendem luzes para nós nas cabanas. Tocam para nós os sinos das igrejas. Os camponeses levantam-se dos regos para nos espreitar. Até os animais ficam a olhar para nós e nunca fogem. E desde que caminhamos o sol foi ficando mais quente e já não colhemos as mesmas flores. Mas todas as hastes se podem entrançar nas mesmas formas, e as nossas cruzes estão sempre frescas. Por isso temos muita esperança, e brevemente veremos o mar azul. E no fim do mar azul está Jerusalém. E o Senhor deixará vir ao seu túmulo todas as criancinhas. E as vozes brancas alegrar-se-ão na noite."


Marchel Schwob, A Cruzada das Crianças, trad. Luís Ruivo Domingos, Lisboa: Teorema, 1991, p. 38. 

Sunday, March 15, 2026

O TRABALHO HUMANO

 



"O trabalho humano! explosão que ilumina de quando em quando o meu abismo!
«Nada é vaidade; pela ciência, marchar», grita o Eclesiastes moderno, isto é, Toda a Gente, E no entanto os cadáveres dos maus e dos vadios caem em cima do coração dos outros... Ah! depressa, depressa, depressa um pouco; lá longe, além da noite, as recompensas futuras... eternas... fugir-nos-ão?
- Que lhe hei-de fazer? Conheço o trabalho, e a ciência é por demais vagarosa. Que a oração galopa e a luz atroa... vejo eu bem. É demasiado simples e faz muito calor; haverão de dispensar-me. Tenho o meu dever e, como tantos outros, sentir-me-ei orgulhoso de lhe passar ao lado."


Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações. Uma Cerveja no Inferno, trad. Mário Cesariny, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 169.

Saturday, March 14, 2026

NADA ESTÁ PERDIDO

 




"se na raiz das palavras vigiadas
ressoa o velho rio
se para cá os erros de ontem
mora a verdade anterior
se na cruz das grades se engavinha
a hera renovada
que havia à nossa porta
então amiga nada está perdido
pois tudo recomeça"


José Magro, Torre Cinzenta, Lisboa: Edições «Avante!», 1980, p. 35.

Thursday, March 12, 2026

CALAR

 


"O silêncio é necessário em muitas ocasiões, mas há que ser sempre sincero; podemos reter alguns pensamentos, mas não devemos disfarçar nenhum. Há maneiras de nos calarmos sem fecharmos o coração; de sermos discretos sem sermos obscuros e taciturnos; de esconder algumas verdades sem as cobrir de mentiras."


Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 18. 

O NOSSO TEMPO (para a memória de Mário Zambujal)

 


"Agora as pessoas
não sabem morrer
estar doentes
ter prazer
tocar-se
dantes também não
(ó mais nu
e branco dos homens)"


Adília Lopes, "O Peixe na Água", in Caras Baratas - Antologia, selec. Elfriede Englemayer, Lisboa: Relógio D'Água, 2004, p. 112.

Tuesday, March 10, 2026

ANIVERSÁRIO

 



"Este arbusto e a seu lado esta jovem mulher
Esta luz em redor desta jovem mulher
Esta penumbra a voz desta jovem mulher
Este livro escutando esta jovem mulher
Esta música aos pés desta jovem mulher

Esta vida nas mãos desta jovem mulher."



David Mourão-Ferreira, Poesia (1948-1988), 3.ª ed., Lisboa: Editorial Presença, 1997, p. 316.

Sunday, March 8, 2026

DIA DA MULHER

 


"Oh! Não se ria do meu amor à terra. É amor como outro qualquer. A terra é feminina. Confundi-a com minha mãe, seria capaz de a confundir com mulher por quem me apaixonasse. Portanto, doutor, não se ria..."


João de Araújo Correia, "A Árvore de Judas", in Montes Pintados, Imprensa do Douro, 1999, p. 37. 

ESTADO PRIMEIRO

 


"O meu corpo dançava, livre, respirava com os materiais, e observava como cada coisa se liga de volta à sua origem, retomando a si: pneus, luvas, galochas e brinquedos de borracha regressavam à saringueira amazónica, outros liquefaziam-se no petróleo, as roupas desfaziam-se em fios gerando a fibra do linho e a flor do algodão; o café aninhava-se no grão original. Os prédios implodiam lentamente, desfeitos em pó e em terra; não sobrava nada de pé. Na farmácia, os medicamentos voltavam a ser planta e a mercearia cobria-se dos cereais dos quais extraímos o pão e a cerveja. Na rua, diferentes metais fundiam-se no subsolo; e partículas dos mais variados elementos voavam com o vento, de volta ao começo. A cidade assumia o seu estado primeiro, vegetal, simbiótico. O oxigénio revinha às plantas. Os humanos que sobreviviam eram os que aprendiam a fazer parte, a colaborar. Os livros, todos eles, cada um, encaixavam-se de volta na árvore."

Joana Bértholo, Natureza Urbana, Lisboa: Relógio D' Água, 20203, p. 46.

Saturday, March 7, 2026

EXERCÍCIO DE ESTILO

 


"O estilo é a fisionomia da mente. É menos enganadora que a do corpo. Imitar o estilo de outra pessoa é usar uma máscara, e, por muito bela que ela possa ser, a sua falta de vida fá-la em breve parecer insípida e insuportável, de modo que é preferível o mais feio dos rostos. 
A afectação estilística pode ser comparada a fazer caretas."

Arthur Schopenhauer, Aforismos, trad. Alexandra Tavares, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1998, pp. 90-91. 

Friday, March 6, 2026

IMPERMANÊNCIA

 


"já nada é o que era
e provavelmente nunca mais o será
e mesmo que o fosse
algo me diz que já não seria o que era
porque o que era
era o que era por ser o que era
do que eu me lembro muito bem
embora eu então não fosse o que agora sou
mas o que agora sou
ou estou a ser
e deixar de ser o que sou
porque eu sou deixando de ser
deixar de ser é a minha maneira de ser
sou a cada instante
o que já não sou
e o mesmo se deve passar com tudo o que é
motivo por que não admira que assim seja
quer dizer
que nada seja o que era
e se assim é
ou já não é
seja ou não seja"


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 134. 

ANJO MORTUÁRIO (para a memória de António Lobo Antunes)

 


"Um anjo mortuário, de asas tombadas de morcego, esmagava-lhe a barriga, uma paz de sesta sem sono crescia-lhe no corpo. O cigano regressou do mar, a bronquite dos cachorros cantava-me aos ouvidos. Manoel de Sousa de Sepúlveda fechou os olhos enquanto o sol começava, devagar, a colori-lo:
- Vou dormir um bocadinho, pensou ele a esconder os tornozelos na areia. Assim como assim já não tenho nada que me possam roubar."


António Lobo Antunes, As Naus, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1988, p. 88. 

Tuesday, March 3, 2026

GINECEU

 


"Tudo na Borralha era misterioso. Uma espécie de maldição. Às vezes penso, sem grande fundamento, reconheço, que tudo o que se passou na Borralha foi uma vingança da madre-terra por lhe terem violado as entranhas. Repare. A gente semeia e colhe. Corta uma flor, uma árvore, nasce outra. Mas o minério não se regenera. Uma vez extraído, a integridade da terra nunca mais se recompõe. O homem devia pensar nisso. Mas o homem só pensa em dinheiro."

Bento da Cruz, A Fárria, Lisboa: Âncora Edições, 2009, p. 52. 

Monday, March 2, 2026

LEVANTAR OS BRAÇOS PARA O ALTO


 

"a poesia é a raposa prateada que atravessa o caminho,
não sabemos o que existe quando se esconde na sombra, 
mas um dia sentimos-lhes a falta, falta-nos a glória
no bolso da camisa, a leveza de um peso
na cabeça, uma fornalha no espírito, 
alguma coisa que nos situe a volúpia e o deleite, 
a transgressão, a aprendizagem, uns versos
que se amontoem na nossa cama, nos nossos
gestos. a poesia é o que nos faz desvendar o dissídio
e levantar os braços para o alto, fechando
os punhos, ou abrindo-os, para que um rasto
de fluorescências se possa ver, alguma luz
parada sobre o rumo dos agouros, ou das pulsões, 
ou das sombras espessas, a poesia é o que convoca, 
o que não cessa, um homem sai de casa e quer bebê-la, 
a mulher sustenta-a com os sonhos que tem, a pensar
no jacarandá que só muito tarde irá florir, 
porque a poesia é o que tarda, o que temos connosco,
o que nos rasga por dentro como um acendimento
e faz com que as dores se exprimam e possam desaparecer."


Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, p. 62. 
 

Sunday, March 1, 2026

CAPAZ DE ENTENDER

 


"não te sentes hoje capaz de entender
o dia de hoje, baby?
espera que ele seja o dia de ontem.

não te sentes capaz de entender
o dia de ontem, baby?
espera que ele seja o dia de amanhã.

não te sentes capaz de entender 
o dia de amanhã, baby?
espera que ele seja o dia de hoje."


Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 47. 

Saturday, February 28, 2026

SABEDORIA

 


"O primeiro grau da sabedoria é saber calar; o segundo, saber falar pouco e moderar-se no discurso; o terceiro é saber falar muito bem, ser falar mal e sem falar demasiado."


Abade Dinouart, A Arte de Calar, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2000, p. 13. 

LES POLICHINELLES

 


"lado a lado
os dois chefes de estado
posam para o futuro
com um gesto do passado"



Alberto Pimenta, Ascensão de dez gostos à boca, Porto:7 Nós (1.ª ed.), 2025, p. 30. 

Friday, February 27, 2026

EMOÇÃO

 


"Além disso, o pudor impede-me de falar da minha própria emoção perante a pintura. Não falo dela. A não ser, como o fiz para Skira e em curtos textos dedicados às obras dos meus amigos, colocando a obra, enquanto historiador, no centro de um sistema de correspondências, com o propósito de ajudar, talvez, a melhor penetrar nos seus encantos. Silenciosamente."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

CONTEMPLAR

 



"A obra de arte é feita para ser contemplada no silêncio, não para servir de pretexto a discursos, que, muitas vezes, longe de a esclarecer, a ofuscam. Penso, com Julien Green, que «a beleza escapa sempre às palavras que a querem abarcar»."



Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 89. 

Sunday, February 22, 2026

A VOZ DO CHÃO

 



"Senhor, deito-me na cama
coberto de sofrimento;
E a todo o comprimento
Sou sete palmos de lama:
Sete palmos de excremento
Da terra-mãe que me chama.


Senhor, ergo-me do fim
Desta minha condição:
Onde era sim, digo não,
Onde era não, digo sim;
Mas não calo a voz do chão
Que grita dentro de mim.

Senhor, acaba comigo
Antes do dia marcado;
Um golpe bem acertado,
O tiro dum inimigo...
Qualquer pretexto tirado
Dos sarcasmos que te digo."


Miguel Torga, Diário I, Lisboa: Planeta DeAgostini, 2000, p. 19.

Saturday, February 21, 2026

O PALCO CONSTRUÍDO

 



"Henri Gouhier aproxima o ofício do historiador do do encenador. O palco construído, o cenário montado, o texto redigido, trata-se de apresentar o espectáculo, de fazer passar o texto, dar-lhe vida, e é isto o essencial: convencemo-nos disso quando, depois de ler uma tragédia, a escutamos, a vemos representada. Ao historiador cabe esta mesma função mediadora: comunicar pela escrita a chama, o «calor», reconstituir a «própria vida». Ora, que não haja mal entendidos, esta vida que ele tem por missão insuflar é a sua. Consegue-o tanto mais quanto mais sensível for. Deve controlar as suas paixões, mas sem contudo as abafar, e cumpre tanto melhor o seu papel quanto mais se deixa, aqui e ali, levar um pouco por elas. Longe de o afastarem da verdade, elas têm a possibilidade de o aproximarem ainda mais dela. À história árida, fria, impassível, eu prefiro a história apaixonada. Não estou longe de pensar que ela é mais verdadeira."


Georges Duby, A História Continua, trad. Ana Cristina Leonardo, Porto: Asa, 1992, p. 55. 

Friday, February 20, 2026

SINAIS

 


"Uma luz, um som, um aroma,
nos circuitos da memória colhe
o devir esquivo.

Sinais que regista
o computador privativo
de recuperar o passado."


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 179. 

Thursday, February 19, 2026

SEMIDEUSES

 




"Os semideuses são boxeurs, ciclistas,
Futebolistas ou chauffeurs; e Deus,
Com semideuses tais, deserta uns céus
Que a ninguém, já, lograva dar nas vistas.

Para salvar o mundo, há um rol de listas
De provérbios arianos ou judeus;
Mas ninguém quer ser salvo! E os vãos troféus
Bolorecem nas mãos propagandistas.

Aristo, demo-cratas e mais cratas
Vão, de atómicas bombas na algibeira,
Contratar paz com artes diplomatas.

O amor dispensa as setas e a seteira.
E em tal progresso, os santos da Reacção
Masturbam-se na imensa solidão..."



José Régio, A Chaga do Lado - Sátiras e Epigramas, 2.ª ed., Lisboa: Portugália Editora, 1956, pp. 55-56.

Wednesday, February 18, 2026

CINZAS

 



"La calavera, el corazón secreto,
Los caminos de sangre que no veo,
Los túneles del sueño, ese Proteo,
Las vísceras, la nuca, el esqueleto.
Soy esas cosas. Increíblemente
Soy también la memoria de una espada
Y la de un solitario poniente
Que se dispersa en oro, en sombra, en nada.
Soy el que ve las proas desde el puerto;
Soy los contados libros, los contados
Grabados por el tiempo fatigados;
Soy el que envidia a los que ya se han muerto.
Más raro es ser el hombre que entrelaza
palabras en un cuarto de una casa."


Jorge Luis Borges, Obra Poética 1923/1977, 3.ª ed., Madrid: Alianza Editorial, 1983, p. 421. 

Tuesday, February 17, 2026

BACO


 

"Disse-lhe que estas palavras se podiam aplicar a mim à letra: de hoje em diante, ele seria a arma escondida, a armadura invisível, o talismã mágico que alentaria na minha carreira.
- Tudo é um combate - acrescentei -, combate entre a luz e as trevas, entre a beleza e a fealdade, entre a inteligência e a estupidez, entre a verdade e a hipocrisia, em suma, entre tudo o que representas e o que representa a maior parte da sociedade."


Roger  Peyrefitte, O Nosso Amor, trad. Manuel Crespo, Lisboa 2: Ulisseia, 1969, p. 52. 

PLAUSÍVEL

 





"ah, a velocidade com que por mim passa o mundo imaginário,
estive sempre em lugares que não existem, a saber
que tudo é plausível à minha volta, palavras que ouvi,
como um castelo de cartas, açoites e arroubos de melancolia,
telhados que ruíram, orações perdidas, ásperas borrascas."



Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, pp. 57-58.

Monday, February 16, 2026

O CAMINHO DE HERACLITO

 




"Agora quando já sabia ser eu deixei de me lembrar do meu nome.
Busquei no fundo de mim mas o fundo de mim não é meu.
As casas do meu corpo trespassaram as recordações que eram minhas
Enquanto eu vou na direcção da casa tormentosa.
Por certo voltei para trás, por certo enganei-me no caminho.
Ouço ao longe o coro dos sem voz.
Eu era o diadema.
Chamas-me e eu vou
Mas tenho de voltar.
Porque tenho de passar por esta prova?"


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 286.

Sunday, February 15, 2026

NEUROTICISMO

 


"O que se passa com o presente que está sempre ansioso por julgar o passado? Há sempre algum neuroticismo ligado ao presente, que se crê superior ao passado mas não consegue superar a irritante ansiedade de que pode não o ser. E atrás disto vem outra questão: que autoridade temos nós para julgar?Somos o presente, o passado é o passado: habitualmente isto é suficiente para muitos de nós. E quando mais se recua no passado, tanto mais atraente se torna simplificá-lo. Por mais grosseira que a nossa acusação possa ser, o passado nunca responde, permanece em silêncio."


Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, p. 197. 

Saturday, February 14, 2026

A PURA ETERIDADE

 




"acima dos fantasmas
está
a Luz

a pura Eteridade

descalça-se
espojando-se
de gotículas iridientes
aspergindo-as em bruma iridescente

acima dos rostos
está
a invisibilidade
do universo
mistério irresolúvel e opaco
da luminescência
espraiando-se infinitamente
em volatilidade de um Anjo

acima dos passos
está
a transparência
do silêncio do sinal
permanente e constante
filtrando-se pela ondulosidade
perfeita
respiração
em espiral"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 134-135.

SOBERANO DAS COISAS TRANSITÓRIAS



" Em 1893, Montesquiou enviou a Proust uma fotografia sua com a dedicatória: «Sou o soberano das coisas transitórias.» Proust já lhe tinha dado a alcunha de «Professor da Beleza». Era também conhecido como «Comandante dos Odores Delicados», enquanto Yturri era o «Chanceler das Flores». Nos anos finais de vida, de decadência, o Conde costumava consolar-se repetindo «Sou bom, tenho uma alma bonita», como se lhe coubesse decidir sobre qualquer uma dessas questões. Gostava de citar um dístico de um colega poeta alemão (e igualmente conde), Platen: «Aquele que olha a Beleza de frente / Já está dedicado à morte.» Para Montesquiou, a Beleza - quer fosse a beleza interior da própria alma, quer fosse o conceito e expressão de beleza do mundo exterior - é um espaço no qual a pessoa se recolhe, uma maneira de viver que diferencia, que a mantém afastada do mundo. É uma coisa privada, partilhada com iniciados. Muitos dos quais reconhecem quem é o iniciado principal."

Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, pp. 80-81. 

Friday, February 13, 2026

PAUSA FRIA




"antes das letras caminha
o fatídico
conhecimento das construções

antes da luz já com melancolia
os olhos
se fartam do sonho


antes doutro desbravamento se eleva
a ansiosa 
moral por outra flor adocicada

antes da morte entrecruzam-se
os anos
atarefados à procura doutras receitas."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 142. 
 

Wednesday, February 11, 2026

PRECE


 "Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"


Fernando Pessoa, "Prece", Mensagem, 19.ª ed., Lisboa: Ática, 1997, p. 75.

Sunday, February 8, 2026

HOMEM NOVO, HOMEM VELHO

 




"H.N. - Uma última pergunta. Se pode ser o dono de si mesmo?

H.V. - Os Deuses, apesar de Deuses, sempre obedeceram ao destino.

H.N. - E a Liberdade?

H.V. - Isso já é outro assunto. Por ela envelheci. Dá cá a tua mão. Viva a Liberdade! Viva a Liberdade humana!"


António Botto, Caderno Proibido, ed. Victor Correia, Lisboa: Guerra & Paz, 2026, p. 149.

AÍ DO ALTO

 



"aí do alto do corpo que conheça,
a noite revê-se enxuta
expondo a cidade: a secura
das esfinges gravadas

mais pela água.
daí donde invadem as atmosferas
e se partem os corpos em poalhas,
só limpa é a altura na dispersão."


Óscar Possacos, curva, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 60.

Saturday, February 7, 2026

O DIA DEU EM CHUVOSO

 


" O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso."


Álvaro de Campos, «Trapo», in Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 431-432.

Friday, February 6, 2026

O TEMPO

 




"E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.

Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província."



Álvaro de Campos, Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 475. 

Thursday, February 5, 2026

LAGO



" - De qualquer modo - disse ele calmamente -, não percebo o que se pode fazer com os peixes pequenos senão comê-los. De resto, para que servem?
- No meu país -, disse, sentindo um conflito subtil dentro de mim ao dizer isto -, os peixes pequenos arranjaram forma de se unirem e atiraram-se a mordiscar o corpo da baleia.
- Isso não dará deles baleias - disse Giovanni. - A única coisa que resultará disso é que até no fundo do mar deixará de haver grandiosidade.
- "É isso que tem contra nós? Não sermos grandiosos?"


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 47.

Monday, February 2, 2026

CANDEIAS

 




"Vi-me no assombro da aparição, ao alto, de Maria
Purgada de unção, pasma lívida,
E, por descuido, aspergindo-a no colo.
Vi-me no assombro, erecto, deleitoso.
Quando de pálpebras fechadas eu me aproximava
Em haustos e a prendia nos dentes e, nesse esgar,
Lhe pesava os cabelos, abaixou-se confusa,
A praguejar, aonde permaneceu muda.
(Os brancos olhos mordiam a boca que secava.)
Ó amada ofegante, repousada,
Acima do manto que manchava,
<Ali se vê etérea, de delicado áureo.>"


José Emílio-Nelson, Bacchanalia, s.l.: Edições Sem Nome, 2014, p. 56.