Tuesday, February 17, 2026

BACO


 

"Disse-lhe que estas palavras se podiam aplicar a mim à letra: de hoje em diante, ele seria a arma escondida, a armadura invisível, o talismã mágico que alentaria na minha carreira.
- Tudo é um combate - acrescentei -, combate entre a luz e as trevas, entre a beleza e a fealdade, entre a inteligência e a estupidez, entre a verdade e a hipocrisia, em suma, entre tudo o que representas e o que representa a maior parte da sociedade."


Roger  Peyrefitte, O Nosso Amor, trad. Manuel Crespo, Lisboa 2: Ulisseia, 1969, p. 52. 

PLAUSÍVEL

 





"ah, a velocidade com que por mim passa o mundo imaginário,
estive sempre em lugares que não existem, a saber
que tudo é plausível à minha volta, palavras que ouvi,
como um castelo de cartas, açoites e arroubos de melancolia,
telhados que ruíram, orações perdidas, ásperas borrascas."



Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, pp. 57-58.

Monday, February 16, 2026

O CAMINHO DE HERACLITO

 




"Agora quando já sabia ser eu deixei de me lembrar do meu nome.
Busquei no fundo de mim mas o fundo de mim não é meu.
As casas do meu corpo trespassaram as recordações que eram minhas
Enquanto eu vou na direcção da casa tormentosa.
Por certo voltei para trás, por certo enganei-me no caminho.
Ouço ao longe o coro dos sem voz.
Eu era o diadema.
Chamas-me e eu vou
Mas tenho de voltar.
Porque tenho de passar por esta prova?"


Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 286.

Sunday, February 15, 2026

NEUROTICISMO

 


"O que se passa com o presente que está sempre ansioso por julgar o passado? Há sempre algum neuroticismo ligado ao presente, que se crê superior ao passado mas não consegue superar a irritante ansiedade de que pode não o ser. E atrás disto vem outra questão: que autoridade temos nós para julgar?Somos o presente, o passado é o passado: habitualmente isto é suficiente para muitos de nós. E quando mais se recua no passado, tanto mais atraente se torna simplificá-lo. Por mais grosseira que a nossa acusação possa ser, o passado nunca responde, permanece em silêncio."


Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, p. 197. 

Saturday, February 14, 2026

A PURA ETERIDADE

 




"acima dos fantasmas
está
a Luz

a pura Eteridade

descalça-se
espojando-se
de gotículas iridientes
aspergindo-as em bruma iridescente

acima dos rostos
está
a invisibilidade
do universo
mistério irresolúvel e opaco
da luminescência
espraiando-se infinitamente
em volatilidade de um Anjo

acima dos passos
está
a transparência
do silêncio do sinal
permanente e constante
filtrando-se pela ondulosidade
perfeita
respiração
em espiral"


Alexandra Soares Rodrigues, (no lugar do título há um vazio), Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2023, pp. 134-135.

SOBERANO DAS COISAS TRANSITÓRIAS



" Em 1893, Montesquiou enviou a Proust uma fotografia sua com a dedicatória: «Sou o soberano das coisas transitórias.» Proust já lhe tinha dado a alcunha de «Professor da Beleza». Era também conhecido como «Comandante dos Odores Delicados», enquanto Yturri era o «Chanceler das Flores». Nos anos finais de vida, de decadência, o Conde costumava consolar-se repetindo «Sou bom, tenho uma alma bonita», como se lhe coubesse decidir sobre qualquer uma dessas questões. Gostava de citar um dístico de um colega poeta alemão (e igualmente conde), Platen: «Aquele que olha a Beleza de frente / Já está dedicado à morte.» Para Montesquiou, a Beleza - quer fosse a beleza interior da própria alma, quer fosse o conceito e expressão de beleza do mundo exterior - é um espaço no qual a pessoa se recolhe, uma maneira de viver que diferencia, que a mantém afastada do mundo. É uma coisa privada, partilhada com iniciados. Muitos dos quais reconhecem quem é o iniciado principal."

Julian Barnes, O Homem do Casaco Vermelho, tradução de Salvato Teles de Menezes, Lisboa: Quetzal, 2021, pp. 80-81. 

Friday, February 13, 2026

PAUSA FRIA




"antes das letras caminha
o fatídico
conhecimento das construções

antes da luz já com melancolia
os olhos
se fartam do sonho


antes doutro desbravamento se eleva
a ansiosa 
moral por outra flor adocicada

antes da morte entrecruzam-se
os anos
atarefados à procura doutras receitas."



Mário T Cabral, É Preciso Que Te Lembres Dos Passeios Com o Teu Cão, Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2022, p. 142. 
 

Wednesday, February 11, 2026

PRECE


 "Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil,
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda.
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —,
Com que a chama do esforço se remoça,
E outra vez conquistemos a Distância —
Do mar ou outra, mas que seja nossa!"


Fernando Pessoa, "Prece", Mensagem, 19.ª ed., Lisboa: Ática, 1997, p. 75.

Sunday, February 8, 2026

HOMEM NOVO, HOMEM VELHO

 




"H.N. - Uma última pergunta. Se pode ser o dono de si mesmo?

H.V. - Os Deuses, apesar de Deuses, sempre obedeceram ao destino.

H.N. - E a Liberdade?

H.V. - Isso já é outro assunto. Por ela envelheci. Dá cá a tua mão. Viva a Liberdade! Viva a Liberdade humana!"


António Botto, Caderno Proibido, ed. Victor Correia, Lisboa: Guerra & Paz, 2026, p. 149.

AÍ DO ALTO

 



"aí do alto do corpo que conheça,
a noite revê-se enxuta
expondo a cidade: a secura
das esfinges gravadas

mais pela água.
daí donde invadem as atmosferas
e se partem os corpos em poalhas,
só limpa é a altura na dispersão."


Óscar Possacos, curva, Vila Nova de Famalicão: Húmus, 2024, p. 60.

Saturday, February 7, 2026

O DIA DEU EM CHUVOSO

 


" O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, estava bastante azul
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros — isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efectivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afectos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.
Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso."


Álvaro de Campos, «Trapo», in Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, pp. 431-432.

Friday, February 6, 2026

O TEMPO

 




"E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.

Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província."



Álvaro de Campos, Poesia, ed. Teresa Rita Lopes, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 475. 

Thursday, February 5, 2026

LAGO



" - De qualquer modo - disse ele calmamente -, não percebo o que se pode fazer com os peixes pequenos senão comê-los. De resto, para que servem?
- No meu país -, disse, sentindo um conflito subtil dentro de mim ao dizer isto -, os peixes pequenos arranjaram forma de se unirem e atiraram-se a mordiscar o corpo da baleia.
- Isso não dará deles baleias - disse Giovanni. - A única coisa que resultará disso é que até no fundo do mar deixará de haver grandiosidade.
- "É isso que tem contra nós? Não sermos grandiosos?"


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 47.

Monday, February 2, 2026

CANDEIAS

 




"Vi-me no assombro da aparição, ao alto, de Maria
Purgada de unção, pasma lívida,
E, por descuido, aspergindo-a no colo.
Vi-me no assombro, erecto, deleitoso.
Quando de pálpebras fechadas eu me aproximava
Em haustos e a prendia nos dentes e, nesse esgar,
Lhe pesava os cabelos, abaixou-se confusa,
A praguejar, aonde permaneceu muda.
(Os brancos olhos mordiam a boca que secava.)
Ó amada ofegante, repousada,
Acima do manto que manchava,
<Ali se vê etérea, de delicado áureo.>"


José Emílio-Nelson, Bacchanalia, s.l.: Edições Sem Nome, 2014, p. 56.

Sunday, February 1, 2026

ACREDITAR

 



" - O que é que o faz pensar que não acreditamos? E você, acredita no quê?
- Eu não acredito nessa tolice do tempo. O tempo é uma coisa óbvia, é como a água para um peixe. Toda a gente está dentro de água, ninguém sai de lá, ou se sai acontece ao mesmo que o peixe: morre. E sabe o que acontece nesta água, no tempo? Os peixes grandes comem os peixes pequenos. É só isso. Os peixes grandes comem os peixes pequenos e o oceano está-se nas tintas."



James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 46.

Saturday, January 31, 2026

JARDIM (para a memória de Catherine O'Hara)

 


"Talvez toda a gente tenha um jardim do Éden, não sei; mas dificilmente o terão visto antes de verem a espada flamejante. Ou talvez a vida ofereça apenas a escolha entre lembrar-se do jardim ou esquecê-lo. De todo o modo, recordar exige outra, e é preciso ser um herói para se ser capaz de ambas. As pessoas que se lembram cortejam a loucura através da dor, a dor da morte da inocência repetindo-se para sempre; as pessoas que se esquecem cortejam outro tipo de loucura, a loucura da negação da dor e do ódio à inocência. E o mundo divide-se fundamentalmente entre loucos que esquecem e loucos que se lembram. Os heróis são raros."


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 36. 

FORÇA DE VONTADE

 


"Porque eu sou - ou era - uma daquelas pessoas que se orgulham da sua força de vontade, da sua capacidade de tomar uma decisão e de a levar avante. Esta virtude, como a maior parte das virtudes, é a própria ambiguidade. As pessoas que acreditam na sua força de vontade e em serem donos dos seus próprios destinos só conseguem manter essa crença tornando-se especialistas em se enganarem a si próprios As suas decisões não são de todo decisões - uma decisão de verdade torna-os humildes, pois sabemos que esta está à mercê de mais coisas do que as que podem ser enumeradas -, mas sistemas elaborados de evasão e de ilusão, concebidos para fazerem o mundo e eles próprios parecem aquilo que o mundo e eles próprios não são."


James Baldwin, O Quarto de Giovanni, trad. Valério Romão, 2.ª ed., Lisboa: Alfaguara, 2023, p. 31. 

Friday, January 30, 2026

A RONDA

 




"Dois soldados
passam
de mãos dadas

como amantes

Não tardará
a ronda
a procurá-los

como cães

Soldados
de mãos dadas
têm nome


Não chegarão a ver as montras
e o rio
os dois soldados

e a sentar-se
num banco
de jardim

A ronda
não tardará
a alcançá-los"


António Reis, Poemas Quotidianos, Lisboa: Tinta da China, 2017, p. 78.

EXPRESSÃO (para a memória de João Canijo)

 


"Clitemnestra - Criatura sem vergonha! Eu, as minhas palavras e os meus actos obrigam-me a dirigir-te insultos!

Electra - Não sou eu, és tu quem os profere, porque praticas as obras e as obras buscam a sua expressão nas palavras."


Sófocles, Electra, trad. Pe. E. Dias Palmeira, Lisboa: Sá da Costa, 1973, pp. 85-86. 

Thursday, January 29, 2026

PEQUENAS POÇAS DE ÁGUA


 

"O poeta recorre à sucessão das imagens, o pintor à sua simultaneidade. Por exemplo: olho para os pássaros, que se banham numa pequena poça de água que se costuma formar, nos dias de chuva, no chumbo que recobre a saliência lisa de um telhado; reparo portanto, ao mesmo tempo, numa imensidade de coisas que o poeta não pode sequer mencionar, já não digo descrever, sob pena de se tornar cansativo e de acumular volumes sobre volumes dando apenas dessas coisas uma noção imperfeita. E note-se que citei somente um instantâneo. Agora um pássaro mergulha na água; vejo a sua cor, a parte inferior de prata, das suas pequenas asas, da sua cor, a forme ligeira, as gotas de água que ele solta sob o intenso sol... Este pequeno pássaro é a prova manifesta, da impotência da arte do poeta. De todas estas impressões ele tem de escolher a de maior impacto, de forma a que eu consiga imaginar as outras."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 184. 

ENCANTO

 


"A arte é tão morosa que é preciso a vida inteira para chegar a sistematizar alguns princípios que, no fundo, regem cada uma das suas partes. Os talentos natos descobrem instintivamente a maneira de conseguir exprimir as suas ideias; neles existe um amálgama de impulsos espontâneos e de aproximações, através dos quais a ideia acaba por transparecer com um encanto talvez mais agradável do que o que resultaria do trabalho de um mestre consumado."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 165. 

Sunday, January 25, 2026

VIAGEM

 




"Embarquei certo dia
Na esfera transparente
De um misterioso engenho.

Só eu e o desespero
Sulcávamos o espaço
Naquela estranha nave.

Nada, nem as estrelas,
Conseguia alcançar-nos
Na aventura sem par.

Vencêramos o tempo.
O futuro já era
O presente e o passado.

Cingidos num abraço,
Nenhum de nós podia
Desfazer esse abraço.

Assim, unidos sempre,
Demos a volta aos mundos
Num fantástico vôo.

E em toda a parte vi
Seguirem abraçados
O homem e o desespero."


Américo Durão, Sinal, Lisboa: Sociedade de Expansão Cultural, 1963, pp. 85-86.

Saturday, January 24, 2026

A CHUVA

 



"Fustigada pela chuva, a madeira
envelhece.
Vai precisar de vários dias ao sol
para recobrar a textura original. 
Depois, a plaina encarregar-se-á
de alisar as rugosidades e
as fissuras de outros amores.

Uma nova pintura acontece:
a primeira demão é pura carícia, 
a segunda camada desconhece
qualquer cicatriz, o vento que
vai e vem sobre a portada.

Tal uma cobra muda de pele
a madeira rejuvenesce.
E a chuva?"


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta da China, 2021, p. 208.

Thursday, January 22, 2026

OBJECTOS

 



" - Tenho de tudo - disse ele num murmúrio jubiloso -, excepto uma pintura de um túmulo egípcio.
Era verdade. O que possuía abrangia tudo o que dizia respeito ao tema. E, para mim, o mais notável era o facto de todos esses objectos terem um ar de dispendiosa autenticidade. Acreditei no cavalo persa; estive quase capaz de acreditar no punhal. Mostrou-me a galeria principal, ainda de uma elegância mais acentuada e mais calma."



Mary McCarthy, A Gente Com Quem Ela Anda, trad. Carmen Gonzalez, Lisboa: Editora Estúdios Cor, 1967, p. 73. 

Wednesday, January 21, 2026

DELÍCIA

 


"Que delícia é ir
dos pensamentos puros a um filme pornográfico
e rir
        do santo que voa e da carne que sua.

Que delícia é estar contigo, poesia
da luz
         na perna de uma mulher cansada."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 145. 

Tuesday, January 20, 2026

O DEVOTO

 


"Neste profundo depósito 
de catedral, hieráticos
como um triste esquadrão de obreiros de gesso
os santos aguardam um restaurador. 
Entre um altar e outro
se foram deteriorando, atacados pelas moscas, 
as traças e os abusos
da fé. 
Aqui já nenhum é São Francisco, São Valentim, São Judas, 
qualquer um é um qualquer, vultos
humanos, desfigurados e sem nome, à espera
do velho restaurador
                              que morreu há algum tempo. 
Estes anónimos
que foram rezados, celebrados, contemplados
com infinita devoção
são agora os meus santos. Sou aqui o único fiel e o prelado. 
Diante deles me ajoelho
e rezo com mais solidariedade do que fé."


José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 101. 

Monday, January 19, 2026

DO ÍNFIMO


 
"Sentia-me dessas plantinhas que crescem nas muralhas, 
só porque um dia uma semente caiu num dedal de terra.

Assim fiquei agarrado ao ínfimo, 
como se o ínfimo fosse uma mãe
e como se uma mãe fosse tudo."


André Tecedeiro, A Axila de Egon Schiele, Porto: Porto Editora, 2020, p. 159. 

Sunday, January 18, 2026

ESCADARIA


 

"A escadaria vai do pátio à açoteia e no terceiro patamar
o sol brilha, 
o solzito dos condenados brilha sempre
                                                      e devidamente.

O terceiro patamar é uma estância
onde o corpo é leve e branco como um comprimido
               e o pensamento intenso. E tudo é morno
menos os próprios ossos. 
                                         Por isso
haja Inverno em todo o hemisfério, mas haja sempre o
               milagre do sol na escadaria.

As almitas ali sentadas descansavam como à beira de um 
              abismo
e por vezes olhavam-nos como se fôssemos o abismo.
A minha casa é jovem para ter um frondoso e primaveril
             limoeiro.
Do limoeiro vem agora o haiku do poeta Moritake:

                            Cai uma pétala da flor
                            e de novo sobre ao ramo
                           Ah, é uma borboleta.

Um equívoco belo e aterrador
             quando sobrevoam o pátio duas pálidas borboletas."



José Watanabe, Espantar a morte com ritos caseiros - antologia, selec. e trad. Luís Pedroso, Cutelo: 2025, p. 78. 

Saturday, January 17, 2026

CLIMA



"De nós já teve o mundo a sua conta;
Ganhar, gastar - não tarda estamos gastos:
Perdemos da Natura os dotes castos;
Custou-nos a inocência esta afronta!
O mar que o belo ventre à lua aponta;
Os ventos que uivam rentes e de rastos
Colhidos são quais flores em mansos pastos;
Por tudo isto andamos nós à tonta;
Não se nos dá! Meu Deus! Fosse eu pagão
E em credo gasto houvesse eu mamado;
Assim eu visse aqui no grato chão
Alguma esperança, que ando desolado;
Proteu dos mares surgindo, ou Tritão
Soprando o velho corno ataviado."


William Wordsworth, Poemas Escolhidos, seleção e tradução de Daniel Jonas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018, p. 223. 

Tuesday, January 13, 2026

SANTOS

 


"E. como se tivesse descoberto a forma de melhor sintetizar o seu pensamento, Don Mateo acrescentou de seguida, falando em voz lenta e pausada:
- Há duas espécies de mulheres que se devem evitar a todo o custo: primeiro, aquelas que não nos amam, depois, aquelas que nos amam. Entre estes dois pólos, existem milhares de mulheres absolutamente encantadoras, só que não as sabemos apreciar." 
 
Pierre Louÿs, A Mulher e o Fantoche, trad. Emanuel Godinho Lourenço, Lisboa: Círculo de Leitores, 1986, p. 32. 

Sunday, January 11, 2026

VIAJAR DESTA ARTE


 

"Semelhante maneira de viajar engendra em nós o inefável prazer de, em silêncio, sentirmos a Beleza; de, em silêncio, pensarmos na Beleza. São horas fecundas de estesia crítica.
A Beleza, vista da Soledade, desdobra-nos em admiração e gratidão; - e já nós amamos com aquele amor generoso que tudo engrandece e enobrece. 
Viajar desta arte é como que fazer um absorvente «Retiro» Espiritual, embora na viagem não meditemos no Bem, mas gozemos o Belo. As lições são de Estética e não de Ética. No entanto, vezes há que, aglutinando um e outro ensino, estes caminhos, à primeira vista paralelos, se tornam convergentes e levam ao mesmo fim."
 
Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 4-5. 

Saturday, January 10, 2026

UM HOMEM CELESTE

 


"Esteve por aqui alguns anos com extremo rigor de Vida, e com grandíssima fama de santidade. Acorriam povos numerosos dos arredores para visitar aquele pobre tugúrio um homem celeste: se a piedade de devotos os partilhava com alguma esmola distribuía-a a necessitados, não deixando para si se não a fadiga, e a dificuldade. E precisamente de justo andar de virtute, in virtutem, e voar como Águias sem nunca se cansar, até que cheguem à suprema região do Céu para contemplar eternamente aquele Sol, que não cega, mas ilumina, e iluminando felicidade o olho interior da alma."


Frei Manuel Pereira, Breve Tratado da Vida e Milagres de S. Gonçalo de Amarante, trad. Frei José Augusto Marques, OFM Conv,  Amarante: CEA, 2023, pp. 35-36. 

Friday, January 9, 2026

CONSCIENCIOSO

 


"É no isolamento consciencioso que se exercem os belos sentidos internos. À paisagem exterior antepõe-se a paisagem interior. A visão meditada trespassa aparências, perfura aspectos, penetra no carácter, colhe a essência. Já ela se impregna dos conceitos da luz que mostra o fundo das coisas, e dos da emoção que revela a graça lírica da existência. À flor da alma acodem todas as simpatias nobres que vivem nas criptas dela. Soltam-se, como revoadas de pombas, as afinidades do nosso sentimento, que voam para outras afinidades que da Natureza as chamam. Dialoga o espírito do homem com o espírito dos seres. Anda o olhar pelos Horizontes e o pensamento pelas Alturas. Respira-se Poesia e Crença. O Sonho sobe; o Sonho expande-se; o Sonho congratula-se com o Infinito em que se absorve."

Antero de Figueiredo, Toledo - Impressões e Evocações, 3.ª ed., Lisboa: Livraria Bertrand, 1932, pp. 2-3. 

Thursday, January 8, 2026

ENTUSIASMO

 



"Admiro com entusiasmo as figuras de anjos dos séculos XIII e XIV: as virtudes loucas, os baixos-relevos de uma proporção ainda selvagem, embora cheios de graça e força. Impressionou-me, sobretudo, a força do seu sentimento. A mão ou até um conhecimento mais avançado da anatomia ou das proporções comunicam ao artista, de imediato, uma excessiva liberdade que o leva a deixar de reflectir de forma tão pura a imagem; os processos que facilitam ou simplificam a expressão seduzem-no ou conduzem-no ao maneirismo."


Eugène Delacroix, Diário (Extractos), trad. Fernando Guerreiro, Lisboa: Estampa, 1979, p. 140. 

Wednesday, January 7, 2026

DO OUTRO LADO DA VIDA




"Sonha como uma sentinela hirta
a vida do outro lado da janela, 
a inocência do que se vê e não sabe. 
os indispensáveis vínculos de quem fica
por quem parte nos acasos do vento, 
nas urgências de um fogo devoluto. 

Tudo é resíduo de alguma coisa, 
cristal de um nome, filme de um instante.
As horas vestem-se do que foi feito, 
da memória frondosa de uma rua, 
de casas caiadas pela luz do entardecer, 
de vitórias, reverências, tudo o que nos põe
para sempre do outro lado da vida."


Paulo Teixeira, Inventário e Despedida, Lisboa: Editorial Caminho, 1991, p. 15. 

Tuesday, January 6, 2026

UMA ASSEMBLEIA DE FANTASMAS



"Se alguém quiser prender a diferença
da sua vida
só o vai poder fazer
recorrendo à brevidade

em busca de um caminho para os rápidos
movimentos que
estabelece consigo. 
Um possessivo rosa entre a imagem e o tempo
o contemplado espaço.

Era uma seta de luz correndo
uma assembleia de fantasmas. O repetido
corpo - funesto coração de
um impossível ginasta - seguia uma escola
de guerra, um sentimento estrangeiro.

A claridade, a queda, o atravessar luminoso
onde o equilíbrio se perde; noutros
termos, se alguém quer o imaginado sujeito
amanhã terá de escrever
tudo isto
de outra maneira, 

com a velocidade de um detonado tiro, 
solidão ouvida do outro lado do muro
do outro lado da noite."



João Miguel Fernandes Jorge, a jornada de cristóvão de távora segunda parte, Lisboa: Editorial Presença, 1988, p. 131. 

Sunday, January 4, 2026

O BISPO DE PEDRA


 

"Colhe o tempo, colhe-o,
rosa que não murchou.
Do que há-de vir, o voo

Pega-lhe indecisa
da mesma demora.
O bispo de pedra
que pensará agora?"


João José Cochofel, Obra Poética, Lisboa: Caminho, 1988, p. 207. 

Saturday, January 3, 2026

INSINANÇA

 


" - E que é Paraíso?
- Sam Grigorio diz, nas Emilias, falando daquela santa cidade do Paraiso em breve que «nom há lingua nem entendimento que possa compreender nem dizer quaaes nem camanhas som as alegrias dele», as quaaes som: seer sempre presente aa companhia dos anjos, com os bem aventurados santos, que em ele som; e veer aquela face da Beenta Trindade; e sentir seu lume incompreensivel; e seer abastado de todo desejo; e haver conhecimento de toda a ciencia; e repouso eternal, sem temer morte; e ser seguro de sempre possuir aquela gloria bem aventurada."

Christine de Pisan, O Livro das Tres Vertudes - a Insinança das Damas, Parte I, ed. Maria de Lourdes Crispim, Lisboa: Caminho, 2002, pp. 92-93. 

Friday, January 2, 2026

OLHAR (FIXO)


 

"Detendo-se no rosto dos
passantes, no olhar manso
das estátuas; como se
possível fosse adivinhar
na íris cosmologias, 
primordiais sentidos;
nebulosas e buracos negros; 
sopesar o tempo que leva
o sol a percorrer o muro
da casa e do castanheiro, 
do cume à raiz.

Opondo-se ao efémero, 
mas dele se alimentando, 
ao balcão de um bar; 
por vezes, prenúncio
de uma semana inteira
de delírios e juras."


Jorge Gomes Miranda, Nova Identidade, Lisboa: Tinta-da-China, 2021, p. 201. 

Thursday, January 1, 2026

IANUA

 

 

"O homem moderno tem, portanto, razões para desconfiar de Prometeu, de quem se diz que tornou acessível aos mortais o conjunto do saber e dos maus caminhos que ele poderia inaugurar. O que acontecerá, em última análise, à natureza entregue ao homem? Não está a tecnologia a conferir à humanidade um poder crescente sobre as coisas, sobre o mundo e sobre ela própria? Em certos casos, a sua influência corre o risco de se prolongar por muito tempo. Qualquer acção que dependa dela adquire, portanto, para além da sua dimensão retórica, um novo alcance que modifica a relação entre o homem, a natureza e o tempo. Outrora, a natureza afigurava-se-nos depositária de uma sabedoria implícita. Era uma espécie de exemplo com base no qual o homem devia modelar as suas acções e ainda, em certa medida, a sua forma de pensar. Agora, há que ver a natureza à imagem daquilo em que ela se está a transformar: um receptáculo, regulado mas frágil, capaz de receber todas as marcas que lhe são impostas pelas acções e pelas ideias. De certa forma, a longevidade do futuro está nas nossas mãos. De nós depende que o longo prazo não se torne curto. Por intermédio do tempo, somos chamados à responsabilidade, como se o futuro tivesse poder sobre nós."


Étienne Klein, O Tempo, trad. Fátima Gaspar e Carlos Gaspar, Lisboa: Instituto Piaget, 1995, pp. 94-95. 

ENTRADA

 


"Será a paz, será a guerra?
Cada um sabe de que inferno vem,
saído da casca de manhã
entre dois braseiros mortais
a regra do jogo é caminhar de mãos vazias
a morte dos cisnes é uma aventura sem amanhã
à sombra das pálpebras do deserto
os girassóis viraram-me as costas
relinchando de um terror empoeirado
aquilo que assobia aos meus ouvidos não tem nome
mas eu reconheço-o pelo que ele é
icebergue de sangue
uivando à lua."


Isabel Meyrelles, Poesia, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 183.