Friday, November 6, 2026

FANTASMA

 



"Meu ser que se tornou Melancolia,
Debalde aos mudos céus piedade implora;
Visão de Além que entre sepulcros chora,
E de gratas lembranças se inebria!

Em Deus fui a Escultura da Harmonia,
Imagem irradiando luz de Aurora!
Aflito e humano, regressei: agora
A escultura de Deus é argila fria!

Mas no silêncio trágico, sem fim,
Da noite da Memória, - atento e mudo,
Um fantasma ressurge adentro em mim!

E, o fantasma ao rever-se no que é hoje,
Confessa ausência, horror, saudades, tudo...
Deixa-me só, - e, desvairado, foge!"


Mário Beirão, "O último lusíada", in Poesias Completas, org. António Cândido Franco e Luís Amaro, Lisboa: IN-CM, 1996, p. 95.

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