Friday, December 16, 2016

RÓSEO



"Há estranhas possibilidades em cada homem. O presente estaria cheio de todos os futuros, se já o passado não projectasse sobre ele uma história. Mas, infelizmente, um único passado propõe um único futuro - projeta-o diante de nós como um ponto infinito sobre o espaço."

André Gide, Os Frutos da Terra, trad. Carlos Correia Monteiro de Oliveira, Porto: Âmbar, 2007, p. 23. 

Thursday, December 15, 2016

ANÁLISE


"
91.
1 Eles disseram-lhe:
2 Diz-nos quem és. 
3 para que acreditemos em ti. 
4 Ele disse-lhes:
5 Analisais a face do céu e da terra, 
6 mas o que está diante de vós, 
7 não o conheceis
8 e não sabeis analisar o momento presente."


O Evangelho Segundo Tomé, trad. Cristina Proença, rev. José Augusto Martins Ramos, 2ª ed., Lisboa: Estampa, 2001, p. 79. 

Wednesday, December 14, 2016

SUPERFÍCIES CIDADÃS



"Sobre superfícies cidadãs, 
desfolhadas folhas de dias, 
sobre muros desolados, traças
signos carvões, números de chamas. 
Escrita indelével do incêndio, 
de testamentos e profecias
volvidos taciturnos esplendores. 
Encarnações, desencarnações:
tua pintura é o manto de Verónica
do Cristo sem rosto, chamado tempo."

Octavio Paz, Árvore Adentro, trad. Luís Alves da Costa, Lisboa: Vega, 1994, p. 85. 

Tuesday, December 13, 2016

BLINDNESS



"                  Entre o antes e depois, 
parêntesis de pedra, 
serei, por um instante sem regresso, 
primeiro homem, e serei o último. 
E, ao dizê-lo, o instante
- intangível, impalpável - 
sob os pés se abre, 
e sobre mim se encerra, o puro tempo."

Octavio Paz, Árvore Adentro, trad. Luís Alves da Costa, Lisboa: Vega, 1994, p. 67. 

Monday, December 12, 2016

GOZO



"Que é o gozo, o prazer? fumo d'incenso
Que embriaga um momento, e se evapora;
Que é o saber, a ciência? espaço imenso
Em que a verdade mal reluz na aurora."


Soares de Passos, Poesias, 11ª ed., Porto: Lello & Irmão, 1967, p. 178. 

Saturday, December 10, 2016

BELLE ÉPOQUE



"No entanto, Oriane, ora veja justamente o seu cunhado Palamède, de quem estava a falar; não há amante que tenha a aspiração a ser chorada como foi aquela pobre senhora de Charlus. 
- Ah - respondeu a duquesa -, permita-me Vossa Alteza que não esteja totalmente de acordo. Nem toda a gente gosta de ser chorada da mesma maneira, cada um tem as suas preferências. 
- Enfim, ele dedicou-lhe um verdadeiro culto desde que ela morreu. É verdade que às vezes fazemos pelos mortos coisas que não faríamos pelos vivos. 
- Primeiro - respondeu a senhora de Guermantes num tom sonhador que contrastava com a sua intenção zombeteira -, vamos ao enterro deles, coisa que nunca fizemos com os vivos!"


 Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido - O Lado de Guermantes, trad. Pedro Tamen, Lisboa: Círculo de Leitores, 2003, pp. 508-509. 

Friday, December 9, 2016

PESAR SECRETO



"Tudo é triste! e o seio triste
Comprime-se a este aspecto;
Não sei que pesar secreto
Nos enluta o coração. 
E que nos lembra o passado
Cheio de viço e frescura, 
E o presente sem verdura
Como a folhagem do chão."


Soares de Passos, Poesias, 11ª ed., Porto: Lello & Irmão, 1967, p. 9. 

Thursday, December 8, 2016

AO DIVINO CESARINY



"Apresentar-te aos deuses e deixar-te 
entre sombra de pedra e golpe de asa
exaltar-te    perder-te    desconfiar-te
seguir-te de helicóptero até casa

dizer-te que te amo  amo  amo
que por ti passo raias e fronteiras
que não me chamo mário que me chamo
uma coisa que tens nas algibeiras

lançar a bomba onde vens no retrato
de dez anos de anjinho nacional
e nove de colégio     terceiro acto

pôr-te na posição sexual
tirar-te todo o bem e todo o mal
esquecer-me de ti como do gato"


Mário Cesariny, Pena Capital, 2ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1999, p. 158. 

Wednesday, December 7, 2016

PENDULAR



"Estava emparedado no âmago de um sonho. 
Não tinham seus muros peso
nem consistência: seu vazio era seu peso.
Os muros eram horas, e as horas
fixas e acumulada tristeza. 
O tempo de essas horas não era tempo."


Octavio Paz, Árvore Adentro, trad. Luís Alves da Costa, Lisboa: Vega, 1994, p.  64. 

Monday, December 5, 2016

AO DIVINO FERREIRA GULLAR



"A morte não tem avenidas iluminadas
não tem caixas de som atordoantes
tráfego engarrafado
            não tem praias
            não tem bundas
não tem telefonemas que não vêm nunca

         a morte
         não tem culpas
         nem remorsos
         nem perdas
                           não tem
lembranças doídas de mortos
nem festas de aniversário

                                        a morte
não tem falta de sentido
não tem vontade de morrer
não tem desejos
          aflições
          o vazio vazio da vida

a morte não tem falta de nada
não tem nada
é nada
           a paz do nada"

Ferreira Gullar, Em Alguma Parte Alguma, Lisboa: Ulisseia/Babel, 2010, p. 60. 

Sunday, December 4, 2016

VARIÁVEL



"A nossa alma é paisagem, céu e terra, mas uma paisagem variável. Ora é um píncaro desnudo, com um lobo a uivar à lua; ora é um vale sombrio, com águas estagnadas ou geladas; ora é um deserto sem oásis, como é um oásis sem deserto. O vento comeu-lhe a areia toda... Deixou-lhe uma fonte quimérica, entre quiméricas palmeiras."


Teixeira de Pascoaes, Uma Fábula (O advogado e o poeta), Porto: Brasília Editora, 1978, p. 96. 

Saturday, December 3, 2016

HORAS


"Idealizar as horas é a ambição das vítimas sacrificadas a essas deusas que bailam, em volta do sol. Se as horas doiradas e alígeras nos produzem uma espécie de embriaguez, as horas mortas de luar amortalham-nos em lívido silêncio. Imitamos o nosso espectro, essa ideia imaginada, ou feita imagem que, em vida, temos nós, na morte."

Teixeira de Pascoaes, Uma Fábula (O advogado e o poeta), Porto: Brasília Editora, 1978, p. 9. 

Thursday, December 1, 2016

MÁXIMA


"Os povos felizes não têm história? Que sorte para as crianças que não têm de aprender e para os homens que não perdem tempo a esquecê-la!"

André Brun, Cada vez pior, 3ª ed., Lisboa: Casa do Livro Editora, 1941, p. 140. 

Wednesday, November 30, 2016

PUNHAIS



"Solta-se o vento e, cerrado o arvoredo, 
das nuvens a nação se dispersa. 

É frágil o real, e tão inconstante, 
infatigável, também, toda a lei sua de câmbio:

gira a roda das aparências 
no eixo da imobilidade do tempo.

A luz desenha tudo e tudo incendeia, 
crava no mar punhais que são teias, 

Faz do mundo pira de reflexos:
e nós dele só centelha. 

Não é luz de Plotino, é luz terrestre, 
luz daqui, mas luz de inteligência. 

E reconcilia-se com o exílio:
pátria é o seu vazio, errante asilo."


Octavio Paz, Árvore Adentro, trad. Luís Alves da Costa, Lisboa: Vega, 1994, p. 19. 

Tuesday, November 29, 2016

ARMIDA



"Entre aquele verde solene as flores eram poucas e finos os perfumes. Não o fabuloso jardim de Armida, mas um bosque enfeitiçado onde talvez os estudantes se transformem em árvores; primeiro perdem a voz, depois lentamente enraízam-se no solo, os braços desenvolvem-se em ramos, os dedos em folhas, a cabeça enfia-se no tronco como faz a tartaruga na carapaça. Cada um pode escolher a essência em que se transformar, cânfora, magnólia, cipreste chinês. O dia depois do bosque é apenas mais denso e a casca sangrará naquela árvore na qual o estudante solitário gravará um coração trespassado. Mas ninguém grava o coração nos troncos de árvore do jardim encantado."


Cesare Brandi, Teoria do Restauro, trad. Cristina Prats, José Delgado Rodrigues. José Aguiar, Nuno Proença, Amadora: Edições Orion, 2006, p. 190. 

Monday, November 28, 2016

MIRÍADES



"Nós vivemos miríades de segundos e, no entanto, não há nunca mais do que um, um só que põe em ebulição todo o nosso mundo interior; o segundo em que (Stendhal descreveu-o) a flor interna, já impregnada de todos os seus sucos, realiza, como que num relâmpago, a sua cristalização - segundo mágico, semelhante a esse da procriação e, como ele, oculto no âmago do próprio corpo: invisível, intangível, imperceptível - mistério que se vive uma só vez."


Stefan Zweig, Confusão de Sentimentos (Notas íntimas do Professor R. de D.), 10ª ed., trad. Alice Ogando, Porto: Civilização Editora, 1969, p. 9. 

Sunday, November 27, 2016

MÁSCARAS



"Nada toca tão profundamente o espírito de um rapaz do que uma dor grave e viril: o Pensador de Miguel Ângelo, olhando fixamente o seu próprio abismo, a boda de Beethoven, amargamente concentrada - essas máscaras trágicas do sofrimento do universo, comovem muito mais fortemente uma sensibilidade, que não está formada, do que a melodia argêntea de Mozart ou a luz rica que envolve as figuras de Leonardo. 
A beleza está nela própria, a juventude não precisa de idealizar; no excesso das suas forças vivas, ela aspira ao trágico e consente voluntariamente que a melancolia sugue docemente o seu sangue ainda moço. Daí vem que a mocidade está eternamente preparada para a desgraça e estendendo, em espírito, a mão fraternal a cada amargura."


Stefan Zweig, Confusão de Sentimentos (Notas íntimas do Professor R. de D.), 10ª ed., trad. Alice Ogando, Porto: Civilização Editora, 1969, pp. 78-79. 

Saturday, November 26, 2016

REFLEXÃO


"- Assim é, amigo - admitiu o monstro. - Mas que hei de eu fazer? São duas desgraças que me afligem: uma é a ruína da minha casa, a outra é ter de separar o coração de um amigo, como tu. Isto é próprio daqueles que já estão feridos pelo destino. E disse-se:

92. Qualquer que seja o meu saber, o teu é duas vezes maior; sem amante e sem marido, para que estás a olhar, mulher nua?"


Anónimo, Panchatantra, trad. L. Pereira Gil, Lisboa: edição Amigos do Livro, s.d., Livro IV, p. 301. 

Friday, November 25, 2016

A EXPULSÃO


"Fomos expulsos do Paraíso, mas o Paraíso não foi destruído por isso. Esta expulsão é de algum modo uma possibilidade, pois se não tivéssemos sido expulsos, o Paraíso deveria ter sido destruído."

Franz Kafka, Antologia de Páginas Íntimas, trad. Alfredo Margarido, 3ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 2002, p. 167. 

Thursday, November 24, 2016

ARREFECE




"Foi-se o Verão com todas as suas rosas
O sol, as flores frondosas e o fragor, 
A chuva e o calor que fortalece
Até Outono falece. 

Sim, até o fresco Outono se vai
E vem o Inverno que mais arrefece;
Cada dia mais frio o gelo cai
E o último verdor esvanece."


Christina Rossetti, O Mercado dos Duendes e outros poemas, trad. Margarida Vale de Gato, Lisboa: Relógio D'Água, 2001, p. 93.