Sunday, November 15, 2015

PSUCHE



"Mas, meu caro, torna-se necessário considerar este pesado, angustiante, terrestre e visível."



Platão, Fédon, 81c, trad. Adelino Dias, Porto: Areal Editores, 2005, p. 71. 

Saturday, November 14, 2015

IMPREGNADA



"Ela sorri. - Alors. A ilha inteira está impregnada de estranheza. Esta casa está assombrada. Muitos fantasmas habitam aqui. E não vivem nas trevas. Alguns aparecem no pino do meio-dia, o mais descarados que se pode imaginar. Impertinentes. 
- Isso também é vulgar no Haiti. Lá, é frequente os fantasmas passearem-se em plena luz do dia. Uma vez, vi uma horda de fantasmas a trabalhar num campo de lavoura, perto de Pétionville. Estavam a catar escaravelhos dos cafeeiros. 
Sem contestar a veracidade do que acaba de ouvir, ela prossegue:
- Oui. Oui. Os haitianos põem os mortos a trabalhar. São bem conhecidos por isso. Nós deixámos os nossos entregues às suas amarguras. E aos seus folguedos. Tão rudes, os haitianos. Tão crioulos. E não se pode tomar banho nas praias daquela terra, os tubarões são assustadores. E os mosquitos: o tamanho. a audácia! Aqui, na Martinica, não temos mosquitos. Nem um só. 
- Já reparei, e fiquei bastante intrigado. 
- Também nós. A Martinica é a única ilha das Caraíbas livre do flagelo dos mosquitos, e ninguém consegue explicar os motivos. 
- Talvez as traças noturnas os devorem a todos. 
Ela ri-se. - Ou os fantasmas. 
- Não. Parece-me que os fantasmas haviam de preferir as traças."


Truman Capote, Música para Camalões, trad. Paulo Faria, Porto: Livros do Brasil, 2015, p. 22. 

Friday, November 13, 2015

TERROR


"Talvez, na realidade, todos nós estejamos mortos. É assim que, um dia, eu ouvi homens sábios dizer que a nossa vida presente é uma morte, que o nosso corpo é um túmulo, e que este lugar na alma em que residem as paixões obedece, pela sua natureza, aos impulsos mais opostos."

Platão, Górgias, 493a, trad. Maria Isabel Aguiar, Porto: Areal Editores, 2005, p. 102. 

Wednesday, November 11, 2015

MURO




"Uma única porta
No único muro de uma casa em ruínas.
Cuidado... Quem atravessar essa porta, à noite, 
Pode ficar para sempre no Outro Mundo!"


Mário Quintana, A Cor do Invisível, Rio de Janeiro: Objectiva, 2012, p. 41. 

DESÇO-ME



"Numa ânsia de ter alguma cousa, 
Divago por mim mesmo a procurar, 
Desço-me todo, em vão, sem nada achar, 
E minh' alma perdida não repousa!

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à força de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez de fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

............................................................... 
...............................................................

Um cemitério falso sem ossadas, 
Noites de amor sem bocas esmagadas - 
Tudo outro espasmo que princípio ou fim..."


Mário de Sá-Carneiro, Poesia, Lisboa: Círculo de Leitores, 1990, p. 110. 

Monday, November 9, 2015

SUPORTE


"O mesmo discurso deve ser feito acerca da natureza que recebe todos os corpos. A ela se há-de designar sempre do mesmo modo, pois ela não perde, de modo algum, as suas propriedades: recebe sempre tudo, e nunca em circunstância alguma assume uma forma que seja semelhante a algo que nela entra; jaz por natureza como um suporte de impressão para todas as coisas, sendo alterada e moldada pelo que lá entra, e por tal motivo, parece ora uma forma, ora outra; mas o que nela entra e dela sai são sempre imitações do que é sempre, impressas nela de um modo misterioso e admirável, que investigaremos posteriormente."

Platão, Timeu, 50b-c, trad. Rudolfo Lopes, Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2011, p, 134. 

Sunday, November 8, 2015

AGONISMO



"Recordemos aqui a definição aristotélica: o enigma é a formulação de uma impossibilidade racional que, no entanto, exprime um objecto real. O sábio, que domina a razão, deve desfazer tal nó. Por isso, o enigma, quando entra no agonismo da sabedoria, deve assumir uma forma contraditória."

Giorgio Colli, O Nascimento da Filosofia, trad. Artur Morão, Lisboa: Presença, 1998, p. 56. 

Saturday, November 7, 2015

PORPHIRA



"Nós vemos-te, céu, nós vemos-te, 
De borbulha em borbulha, 
avanças, 
de pústula em pústula.
Assim aumentas a eternidade. 

Nós vemos-te, terra, nós vemos-te. 
De alma em alma, 
expões-te, 
de sombra em sombra. 
Assim respiram os incêndios do tempo."


Paul Celan, "De Limiar em Limiar", in Sete Rosas Mais Tarde - Antologia Poética, trad. João Barrento, 2ª ed., Lisboa: Cotovia, 1996, pp. 65; 67. 

Friday, November 6, 2015

MORPHE



"Além disso, Morpheus, também derivado de morphe, literalmente "aquele que reproduz as formas". era o deus do sono e dos sonhos, o que sublinha o elemento imaginativo, secreto e nocturno da forma."


Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 151.

Thursday, November 5, 2015

IRROMPE



"A luz irrompe em lugares estranhos, 
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a 
chuva;
quando a lógica morre, 
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer."


Dylan Thomas, A Mão ao Assinar Este Papel, trad. Fernando Guimarães, 2º ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1998, p. 31. 

Wednesday, November 4, 2015

ANTROS



"Falando Ferécides de Siro das grutas, das covas, dos antros, das portas e das saídas e, através destas coisas, referindo-se enigmaticamente aos nascimentos e às extinções das almas..."

Fernando Bastos, A Teogonia Poética de Ferécides de Siro, Lisboa: IN-CM, 2003, p. 45. 

LAGO




"O lago bebe dos olhos
rosas salamandras
gaivotas ao vento
barcos no horizonte
andorinhas sobre centelhas de luz
com música bebe dos olhos
o lago
rosas salamandras
a lembrança de rosas salamandras
gaivotas ao vento
barcos no horizonte
em poemas barcos no horizonte
centelhas de luz com música
bebe dos olhos o lago
rosas"


Eva Christina Zeller, Sigo a Água, trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Relógio D'Água, 1996, p. 19. 

Tuesday, November 3, 2015

OLERE




"JESUS - Cheira a sal... a nevoeiro... e às entranhas dos pássaros!..."


Bernardo Santareno, A Promessa, Lisboa: Círculo de Leitores, 1974, p. 50. 

UNDECIMA PORTA



"Mas é bem mais triste aquele que olha o céu
Em busca de Deus, que o livre dos abrolhos, 
E só acha a luz das pálidas estrelas..."


José Duro, Fel, 11ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 1983, p. 33. 

Saturday, October 31, 2015

CHORA


"O tempo é uma coisa muito estranha. Pesa mais para aqueles que o têm a menos. Nada é mais leve do que ser jovem e trazer o mundo às costas."

Ian Caldwell e Dustin Thompson, A Regra de Quatro, trad. Maria Eduarda Colares, Lisboa: Presença/sicidea, 2006, p. 12. 

Friday, October 30, 2015

QUEM



"Quem tira do nada uma forma divina?
Quem finge uma imagem de negro terror?
Quem ergue virtudes, e o crime fulmina?
Quem risos excita, quem prantos de dor?"


Soares de Passos, Poesias, 11ª ed., Porto: Lello & Irmão, 1967, p. 194.

Thursday, October 29, 2015

MACABER



"A desoras, quando treme o arvoredo, 
E o Silêncio esmaga as fortes Ventanias, 
No baile macabro damos as mãos frias
E vamos dançar cancans que metem medo. 

E quem sabe lá, profunda Noite escura, 
Se as voltas que demos quando ainda não
Das voltas que demos quando ainda não
Tínhamos descido à negra vala impura. 

Ai quem sabe lá! que a Vida é um enigma
Aonde entramos rindo sem pensar na vida...
Vale mais morrer, que a Morte é a saída
Dessa pena injusta, desse infame estigma."


José Duro, Fel, 11ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 1983, p. 35. 

Wednesday, October 28, 2015

IDADE PASSADA



"Cardeal de Montmorency - Eu sei, eu também sei... Recordar é viver, 
Transformar num sorriso o que nos fez sofrer, 
Ressurgir dentro d'alma uma idade passada, 
Como em capela de oiro, há cem anos fechada,
Onde não vai ninguém, mas onde há festa ainda..."


Júlio Dantas, A Ceia dos Cardeais, 51ª ed., Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1973, p. 28. 

Tuesday, October 27, 2015

SUSPENSE



"O que é um problema? Para os Gregos, era visto como qualquer coisa lançada à nossa frente, qualquer coisa que é lançada de tal maneira que não nos deixa avançar, que nos obriga a suspender o passo."

Maria Filomena Molder, As Nuvens e o Vaso Sagrado, Lisboa: Relógio D'Água, 2014, p. 153. 

Sunday, October 25, 2015

PRAGMATISMO



"O que é um homem? Um tipo dispara contra ele uma espingarda e acabou-se o homem!"


Alexei Tolstoi, Aelita, trad. espanhol Paulo Costa, Lisboa: Editorial Caminho, 1981, p. 151.