Sunday, November 27, 2011

PROLEGÓMENOS DE UMA VISITA A CEIDE



"- Sim, eu sei - gritava mais alto do que nós o senhor grisalho -, os senhores referem-se àquilo que é considerado existente, mas eu falo do facto. Qualquer homem, em relação a uma mulher bonita, sente aquilo a que os senhores chamam amor.
- Ah, é horrível o que está a dizer; é que há mesmo entre as pessoas um sentimento que se chama amor e que não dura apenas anos ou meses, mas toda a vida. De acordo?
- Não, isso não existe. Supondo até que um homem prefira determinada mulher para toda a vida, o mais provável é que essa mulher prefira outro homem, e sempre assim foi e continuará a ser neste mundo - disse ele. Tirou a cigarreira e acendeu um cigarro.
- Mas também é possível o amor recíproco -  disse o advogado.
- Não, não é possível - retorquiu o senhor -, é impossível, da mesma forma que é impossível que, numa carroça cheia de ervilhas, duas delas, marcadas, fiquem juntas. Além do mais, o problema não é apenas o da impossibilidade, mas sim, isso de certeza, o da saciedade. Amar toda a vida uma pessoa é a mesma coisa que dizer que uma só vela arderá toda a vida - disse ele, inspirando avidamente o fumo."
Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Lisboa: Biblioteca Editores Independentes, 2010, p. 19.

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