Tuesday, August 28, 2012

O CARNAVAL DOS ANIMAIS


"Zadig quis consolar-se com a filosofia e a amizade dos que o fado lhe causara. Tinha ele, nos arrabaldes da Babilónia, uma casa decorada com gosto, onde reunia todas as artes e prazeres dignos de um homem de bem. Pela manhã a sua biblioteca estava aberta a todos os sábios; à tarde tinha mesa posta para todos os bons convivas, mas não tardou que verificasse quão perigosos são os sábios: travou-se grande disputa acerca de uma lei de Zoroastro que proibia que se comesse carne de grifo.
- Para que proibir que se coma carne de grifo - diziam uns - se esse animal não existe?
- Mas tem de existir - diziam outros -, visto Zoroastro não querer que o comam.
Zadig quis harmonizá-los, dizendo-lhes:
- Se existem grifos, não comamos da sua carne; se não existem, ainda com mais forte razão não o devemos fazer, e assim obedeceremos todos a Zoroastro.
Um sábio que escrevera treze volumes sobre as propriedades do grifo, e que ainda por cima era grande teurgista, tratou logo de acusar Zadig perante um arquimago chamado yebor, o mais asno dos caldeus, e por isso mesmo o mais fanático. Este homem era muito capaz de mandar empalar Zadig para maior glória do Sol, depois do que, com mais satisfação ainda, teria recitado o breviário de Zoroastro. O amigo Cador (vale mais um amigo do que cem padres) foi ter com o velho Yebor e disse-lhe:
- Vivam o sol e os grifos! Não caia em castigar Zadig: é um santo; tem grifos na capoeira e nunca come deles; aquele que o acusa é herético: ousa sustentar que os coelhos têm a pata rachada e não são imundos.
- Pois bem!  - redarguiu Yebor, abanando a cabeça calva. - É preciso empalar Zadig, por mal pensar dos grifos e o herético por mal ter falado dos coelhos.
Cador apaziguou a situação graças a uma dama de honor a quem fizera um filho e que gozava de grande crédito no colégio dos magos. Ninguém foi empalado, o que fez com que não poucos doutores falassem e pressagiassem a decadência na Babilónia. Zadig exclamou:
 - Onde estará a felicidade? Tudo me persegue neste Mundo, inclusivamente os seres que não existem.
Amaldiçoou os sábios e daí para o futuro só quis viver no meio de alegres convivas."
 
Voltaire, Zadig ou o destino - História Oriental, trad. João Gaspar Simões, Lisboa: Editorial Verbo, 1972, pp. 21-22.

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