"a poesia é a raposa prateada que atravessa o caminho,
não sabemos o que existe quando se esconde na sombra,
mas um dia sentimos-lhes a falta, falta-nos a glória
no bolso da camisa, a leveza de um peso
na cabeça, uma fornalha no espírito,
alguma coisa que nos situe a volúpia e o deleite,
a transgressão, a aprendizagem, uns versos
que se amontoem na nossa cama, nos nossos
gestos. a poesia é o que nos faz desvendar o dissídio
e levantar os braços para o alto, fechando
os punhos, ou abrindo-os, para que um rasto
de fluorescências se possa ver, alguma luz
parada sobre o rumo dos agouros, ou das pulsões,
ou das sombras espessas, a poesia é o que convoca,
o que não cessa, um homem sai de casa e quer bebê-la,
a mulher sustenta-a com os sonhos que tem, a pensar
no jacarandá que só muito tarde irá florir,
porque a poesia é o que tarda, o que temos connosco,
o que nos rasga por dentro como um acendimento
e faz com que as dores se exprimam e possam desaparecer."
Amadeu Baptista e Jorge Velhote, Um dia na eternidade, Porto: Afrontamento, 2021, p. 62.

