Wednesday, November 9, 2011

DAS PALAVRAS À ACÇÃO 2


"5.1. José chamou o seu filho à parte e repreendeu-o: «O que te deu? Estas pessoas sofrem, detestam-nos e querem mandar-nos embora.» Jesus respondeu: «Eu sei que as palavras que dizes não vêm de ti; também por respeito para com a tua pessoa, eu me calarei. Mas eles receberão o seu castigo.» Logo os queixosos foram fulminados de cegueira."
Evangelho do Pseudo-Tomé, in Evangelhos Apócrifos, 2ª ed., trad. Madalena Cardoso da Costa, Lisboa: Editorial Estampa, 1999, p. 103

Tuesday, November 8, 2011

DA PALAVRA À ACÇÃO 1


"4.1. Uma vez, Jesus passeava pela aldeia, quando uma criança, correndo, o magoou no ombro. Irritado, Jesus disse-lhe: «Tu não prosseguirás a tua estrada.» No mesmo instante, a criança caiu morta. Perante isto, alguns exclamaram: «Donde vem esta criança, cujas palavras se tornam imediatamente realidade?»
2. Os pais do jovem morto foram queixar-se a José: «Com um filho como o teu, não podes ficar connosco na aldeia, ou então ensina-lhe a abençoar em vez de amaldiçoar, pois ele mata as nossas crianças.»"

Evangelho do Pseudo-Tomé, in Evangelhos Apócrifos, 2ª ed., trad. Madalena Cardoso da Costa, Lisboa: Editorial Estampa, 1999, p. 103.

Monday, November 7, 2011

OS BEM-AVENTURADOS


"Há pessoas que possuem tudo quanto há, mas ninguém acredita; ricos tão pobres e nobres tão ordinários que a incredulidade que suscitam acaba por os tornar tímidos e lhes dar uma atitude suspeita. Em certas mulheres, as mais belas pérolas parecem falsas. Em outras, ao contrário, as pérolas falsas parecem verdadeiras. Do mesmo modo, há homens que inspiram uma confiança cega e gozam de privilégios a que nunca poderiam pretender naturalmente. Guilherme Tomaz pertencia a essa raça bem-aventurada.
Acreditavam nele. Não precisava de tomar quaisquer precauções nem de fazer quaisquer cálculos. Uma estrela de mentira levava-o aos fins que almejava sem rodeios. Nunca arvorava, por isso, a máscara perturbada e perseguida dos malandros. Não sabendo nadar, nem patinar, era capaz de dizer: sei patinar e sei nadar. Todos os viam imediatamente a patinar e a nadar. Este condão é dado à nascença por uma fada especial. Há pessoas que conseguem triunfar, não tendo tido na hora do nascimento nenhuma fada, a não ser essa.
Nunca acontecia a Guilherme fazer o seu exame de consciência ou pensar: «Como poderei eu sair deste beco?», ou «Estou a fazer batota», ou «Sou um homem de génio». Vivia profundamente o seu próprio mito.
Quanto mais o vivia, melhor se incorpava, mais fogo lhe trazia, dando-lhe aquela franqueza que convence naturalmente."
Jean Cocteau, Tomaz, o Impostor, trad. António Quadros, Lisboa: Livros do Brasil, s.d., pp. 69-70.

Sunday, November 6, 2011

PALAVRAS E SERES


"Dividia as gemas das claras dos ovos estrelados e quando comia uma não comia a outra. Dizia que há dias para comer a gema e outros para comer a clara.
- Repete comigo o que eu disser, Jozef. As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território. A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou afoga-nos. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há a palavra mar que afunda todos os navios.
Frantiska olhava em frente enquanto, com o pé, desenhava círculos na terra.
- Olha: são tão importantes, Jozef, que sem elas éramos ocos. Sem a palavra vertical andávamos a rastejar e sem a palavra horizontal só poderíamos sonhar acordados. Os sonhos de dormir são mais distantes e vêm de lugares tão antigos que nunca lá poderemos chegar a caminhar pelo tempo, pelo passeio, pelos jardins. Só lá chegamos deitados, adormecidos até ao chão. Repete comigo, Jozef: cova, dedo mindinho, sete..."
Afonso Cruz, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, Lisboa: Editorial Caminho, 2011, p. 46.

Saturday, November 5, 2011

DAS COISAS BANAIS


"- Parece-me uma grande felicidade que, quando se olhe para o mundo, pareça sempre que é a primeira vez que o fazemos.
- É uma grande tristeza - disse ela a soluçar.
- É a maior infelicidade. Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições. Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios. Quero que os lençóis de hoje me pareçam os lençóis de ontem, mesmo que os bordados sejam diferentes. Não quero que os beijos que recebo sejam novos, quero que sejam velhos, quero que sejam os de sempre. Não me quero sobressaltar como quando era jovem. Uma pessoa só pode ter paz quando está aos pés das mesmas coisas, quando nem repara nelas, porque elas já fazem parte de si, como se as tivese comido e mastigado e engolido e agora fossem carne da sua carne e sangue do seu sangue. Só somos felizes quando já não sentimos os sapatos nos pés."
Afonso Cruz, O Pintor Debaixo do Lava-Loiças, Lisboa: Editorial Caminho, 2011, pp. 16-17.

Thursday, November 3, 2011

A EXCELENTE SENHORA 3



"Algum tempo depois deixou de se ouvir falar dela. Mas ao fim de cinco anos o homem dos exorcismos morreu, e ela arriscou-se a reaparecer. Tinha, no entanto, modificado o carácter e era agora tratável e melhor educada.; rodava por ali em silêncio e limitava-se a uma aparição de cinco em cinco anos. A acreditar no barão, ela manteve-se sempre fiel a este hábito; ele está absolutamente persuadido de que, em cada dia cinco de Maio de cada quinto ano, logo que o relógio dá a uma hora, a porta da sala adoptada por ela abre-se (notai que esse aposento foi condenado há quase um século) e o fantasma avança com o seu candeeiro e o seu punhal, desce a escada da torre de Leste e atravessa o salão. Nessa noite o porteiro deixa todas as portas do castelo abertas, por respeito desta aparição; não porque essa precaução seja de qualquer modo entendida como necessária, uma vez que ela poderia facilmente passar pelo buraco da fechadura, se isso lhe apetecesse, mas simplesmente por delicadeza e para a impedir de perder, por uma saída inconveniente, a sua dignidade de fantasma.
- E para onde vai ela, ao abandonar o castelo?
- Para o céu, espero. Mas, se vai, o lugar não é seguramente do seu gosto, uma vez que regressa passado uma hora. Vai então para o seu aposento e fica sossegada por mais cinco anos."
Matthew Gregory Lewis, O Monge, trad. Egito Gonçalves, Porto: Editorial Inova, 1974, p. 131.

Wednesday, November 2, 2011

A EXCELENTE SENHORA 2


"- Nunca falou com aqueles a quem encontrava? - perguntei-lhe.
- Não. As amostras que ela dava, no meio da noite, do seu talento de conversação não eram evidentemente de molde a tentar quem quer que fosse. Algumas vezes o castelo estremecia com juramentos e imprecações; pouco depois repetia um Padre Nosso! ora uivava as mais terríveis blasfémias, ora cantava o De Profundis tão metodicamente como se ainda estivesse no coro. Em resumo, tinha o ar duma pessoa singularmente caprichosa. Mas, quer praguejasse quer rezasse, quer fosse ímpia ou devota, tratava sempre de apavorar os seus ouvintes. O castelo tornou-se praticamente inabitável, e o proprietário assustou-se de tal modo com essa festa nocturna que uma bela manhã foi encontrado morto, na cama. Esse acontecimento deu à monja um grande prazer, porque ela fez mais barulho do que nunca. Mas o barão seguinte mostrou-se demasiado esperto para ela: fez a sua entrada, acompanhado por um célebre perito em exorcismos que não receou encerrar-se toda a noite na sala que ela assombrava. Segundo parece, ele teve um rude combate a travar contra ela antes de lhe arrancar a promessa de que iria ficar sossegada. A monja era teimosa, mas ele era ainda mais, e por fim ela consentiu deixar os habitantes do castelo dormir a noite inteira."
Matthew Gregory Lewis, O Monge, trad. Egito Gonçalves, Porto: Editorial Inova, 1974, pp. 130-131.

Tuesday, November 1, 2011

A EXCELENTE SENHORA (DIA DE TODOS-OS-SANTOS)



"- Oh, não! - respondeu ela. - É a invenção duma cabeça mais forte que a minha. Como é possível que tenhais estado três meses em Lindenberg sem ter ouvido falar da monja sangrenta?
- Sois a primeira pessoa a quem ouço pronunciar o seu nome. Peço-vos, quem é essa dama?
- Não vos poderei dizer mais do que sei, que não é muito. Trata-se de uma velha tradição desta família, tradição que se transmitiu de pais para filhos, e à qual se dá crédito firme nos domínios do barão. Ele próprio a crê, e quanto à minha tia, que é naturalmente arrastada pelo maravilhoso, ela duvidaria mais depressa da verdade da Bíblia do que da monja sangrenta. Quereis que vos conte a história?
Respondi-lhe que ela me obsequiaria muito ao fazê-lo. Retomou o desenho e prosseguiu nestes termos, num tom de gravidade burlesca:
- É surpreendente que em nenhuma das crónicas dos tempos passados se faça menção desta notável personagem. Gostaria bem de vos contar a sua vida, infelizmente foi só depois da sua morte que a sua existência se tornou conhecida. Foi então, e pela primeira vez, que ela entendeu ser necessário fazer barulho no mundo, e, com essa intenção, apoderou-se do castelo de Lindenberg. Como tinha bom gosto, alojou-se na mais bela sala da casa e, uma vez ali instalada, divertiu-se a fazer dançar as mesas e as cadeiras no coração da noite. Talvez tivesse insónias, mas não é coisa que eu tenha podido verificar. Segundo a tradição, esse divertimento começou há cerca de cem anos; era acompanhada por gritos, uivos, gemidos, juramentos e outros ruídos agradáveis da mesma espécie. Embora a citada sala fosse especialmente honrada com as suas visitas, a verdade é que ela não se limitava a esse aposento; de tempos a tempos, aventurava-se nas velhas galerias, ia e vinha pelas vastas salas e por vezes, parando às portas dos quartos, chorava e lamentava-se com grande pavor dos seus habitantes. Nessas excursões nocturnas foi vista por várias pessoas que lhe descrevem o aspecto exterior tal como aqui o vedes, traçado pela mão do seu indigno historiador."
Matthew Gregory Lewis, O Monge, trad. Egito Gonçalves, Porto: Editorial Inova, 1974, pp. 129-130.

Monday, October 31, 2011

SOBRE OS ESPECTROS 2


"Notai, senhor, que a beleza não é tanto uma qualidade do objecto que consideramos, é mais um efeito em quem olha um objecto. Fosse a nossa vista mais extensa ou mais curta, fosse outra a nossa compleição e as coisas que hoje achamos belas, pareciam feias e vice-versa. A mais bela das mãos, vista através de um microscópio parecer-nos-á horrenda. Certos objectos vistos de longe são admiráveis; vistos de perto tornam-se horríveis. É por isso que as coisas, consideradas em si ou na sua relação com Deus, não são bonitas nem feias."

Espinosa, Sobre Espectros e Espíritos, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2005, p. 29.

SOBRE OS ESPECTROS 1



"Por mim, creio que há espectros, e isto pelas seguintes razões:

1ª Porque é bom para a beleza e a perfeição do universo que os haja;

2ª Porque é plausível que o Criador os tenha criado, sendo-lhe estes espíritos muito mais semelhantes do que as criaturas corporais.

3ª Porque, assim como há corpos sem alma, também há almas sem corpos.

4ª Finalmente, porque nos mais altos cumes da atmosfera, nas regiões ou nos espaços superiores, calculo que não haja corpos escuros que não tenham os seus habitantes; e, por conseguinte, o espaço incomensurável que se estende entre nós e os astros não está vazio, mas sim preenchido pelos espíritos que nele habitam. Talvez os mais altos e mais afastados sejam espíritos puros, ao passo que os de baixo, os da atmosfera inferior, podem ser de uma substância muito subtil e muito fina e, além do mais, invisíveis. Parece-me, pois, que há espíritos de todos os géneros, mas talvez não haja nenhum do género feminino."


Hugo Boxel, in Espinosa, Sobre Espectros e Espíritos, trad. Telma Costa, Lisboa: Teorema, 2005, pp. 16-17. 

Thursday, October 27, 2011

O FIM DAS ILUSÕES

(museu regional de Lamego)

"agora fiquei triste, realmente,
emudeci

o que esta boca sente
quando sorri!

o jardim está sem gente
e anda um vago sonho por aí

quando voltar a minha força ausente
hei-de pensar neste alibi"
Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, Lisboa: Assírio & Alvim/editores Independentes, 2008, p. 64.

Sunday, October 23, 2011

O RICOCHETE DA LUZ (POEMA MAHLER)


"No jardim das almas
A fala caída.
Como se a canção de
Deus e Morte.
A canção do cadáver
Sombrosa e rente.
Uivo. Brechas.
Ululante.
Compassadamente
O coração solto
Rasgado contra o céu maciço.
E de abismo ou de crateras
Um ardil. Incessante
Profundidade e permanência interminável
Na terra ímpia.
O relâmpago rasteja Deus.
Abre-se a solidão
Nos ombros do Inferno.

Quem vislumbra pérfido
No alçapão da sombra?
E o ricochete da luz?
Que castigo inexpliável?
Haverá uma música da fatalidade?
E quem lhe deve obedecer?
Sou miserável e perturbante.
Dou-me à paisagem destituída.
À árvore devastadora. À borboleta esmagada.
(O restolho enovelando.
Um bestiário precipitando-se.
Sacudindo-me.
Que aurora imprevista
Impulsivamente no mundo?)
Cantava a impaciência
Melancólica.
A dor radiante.

A vastidão."

José Emílio-Nelson, A Alegria do Mal - Obra Poética I, Vila Nova de Famalicão; Quasi Edições, 2004, pp. 140-141.

Saturday, October 22, 2011

PARA O FIM DO OUTONO


"Visíveis as sombras pendiam no escuro do canto.
(É uma falsa caixa de felicidade, a luz reluzente
Coroa-lhe a cabeça engelhada.)
A iguana de frio olhar humano."

José Emílio-Nelson, A Alegria do Mal - Obra Poética I, Vila Nova de Famalicão; Quasi Edições, 2004, p. 191.

Friday, October 21, 2011

NAS PEDRAS ANGULARES


"Se na vida estamos rodeados pela morte, também na saúde do nosso intelecto estamos rodeados pela loucura."

Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, trad. Jorge Mendes, Lisboa: Edições 70, 2000, p. 70.

Wednesday, October 19, 2011

O TEMPO DO CIMENTO


"É o tempo do cimento, da volúpia das batalhas. Depois da morte do escultor, a rua transformou-se num núcleo fechado. Os candeeiros perderam o seu lado imponente, o cheiro do pão foi sugado por um tubo e uma doença maligna apoderou-se dos cães. Mas eu não partilho desse pensamento, descobri que por debaixo da pele existe o enigma dos nomes. O velho poderia ser o próprio escultor e o homem de capacete  que tapava, há dias, os buracos da rua com uma pá, seria a representação dessa morte. A mulher fica de fora desse conflito, a olhar para a paisagem dentro de um carro, do lado de lá do vidro da frente, como um ser a acordar de um desastre."
Jaime Rocha, Anotação do mal, Lisboa: Sextante Editora, 2007, p. 28.

Tuesday, October 18, 2011

ACHEGAS PARA A MANIFESTAÇÃO SOCIAL


"Aqui, onde falamos da besta e do soberano, teremos sempre em vista uma analogia entre duas representações correntes (correntes, logo problemáticas, suspeitas, a interrogar), entre a espécie de animalidade ou de ser vivo a que se chama a "besta" ou que se representa como bestialidade, por um lado, e, por outro, uma soberania o mais das vezes representada como humana ou divina, antropo-teológica na verdade. Mas cultivar esta analogia, desbravar-lhe ou lavrar-lhe o território, não quer dizer nem autorizá-la, nem tão pouco viajar nela num só sentido, reduzindo, por exemplo, a soberania (política ou social ou individual - e isto são já dimensões diferentes e terrivelmente problemáticas), tal como ela é o mais das vezes situada na ordem humana, a prefigurações ditas zoológicas, biológicas, animais ou bestiais (quatro conceitos - o zoológico, o biológico, o animal, o bestial - que haveria também que prudentemente discernir)."

Jacques Derrida, Le souverain Bien / O soberano Bem, trad. Fernanda Bernardo, Viseu: Palimage, 2004, p. 55.

Monday, October 17, 2011

DO LADO DE DENTRO


"as árvores como
vento implume ou
lápide de um antigo
ser alado

deus ou voz extensa e eu, no
sopé da montanha somos
espantalhos no terreno da alma"

valter hugo mãe, útero, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2003, p. 50.

Sunday, October 16, 2011

A ELEVAÇÃO ESTÉTICA


"O grotesco é a outra face do sublime, a sombra da luz, o grotesco é a fonte mais rica que a natureza pode oferecer à arte. A beleza universal, que a antiguidade difundia solenemente sobre todas as coisas, não estava privada de monotonia, e a mesma impressão pode enfadar, à força de ser reproposta. O belo não possui senão um tipo, o feio possui mil. O sublime acostado ao sublime contrasta a custo, e é necessário fazer uma pausa de tudo, até mesmo do belo. A salamandra faz ressaltar a ondina; o gnomo torna mais belo o Sísifo."


Umberto Eco, Construir o Inimigo e outros escritos ocasionais, trad. Jorge Vaz de Carvalho, Lisboa: Gradiva, 2011, pp. 162-63.

Saturday, October 15, 2011

SINAIS DOS TEMPOS



"Nem meu senhor, nem bispo é;
dele não hei senão pousio,
e não lhe devo preito ou fé,
nem ser eu servo ou corça fio.
Me fez andar todo um estio
a água fria e pão ruim.
Fonas me foi, largo e esguio:
Seja-lhe Deus como ele a mim."


Vasco Graça Moura, Os testamentos de François Villon e algumas baladas mais, Porto: Campo das Letras, 1997, p. 49.

Thursday, October 13, 2011

DIAS DRAMÁTICOS


“a teresa diaba já não era filha de ninguém. por muito tempo que se defendeu de bicho e instinto, a diaba era só bicho e instinto, como coisa que veio do mato para se amigar da vida das pessoas. era assim como um animal selvagem com muita vontade de ser doméstico, presa às atitudes dos homens viciara-se em homens, e nada do que fizesse seria honra para qualquer pai que a tivesse. assim era como se dizia, já não era filha de ninguém, se até os pais se recusavam a recordar o nascimento de tão atrofiada mulher, parida entre pernas como feita para alívio, nunca para viver. era disforme em pequeno, ponto pequeno, já feia para assustar as pessoas, e menina, diziam, vai ser bicho do diabo a distribuir o pecado em carne tão azarada. e era nos azares da sua carne que se rejeitava a filiação, para isso deitou a teresa diaba às sortes, e como vingou não se imagina senão por forças demoníacas que a alimentaram. diaba, grunhindo e zurzindo em busca do prazer, pendurada em galho de homem dia inteiro, batendo os raquíticos braços como asas, sem poder voar, sem andar direito, sem nada. todos lho diziam, anda, animal, some-te daqui a ver se te enfias numa toca e não levas uma pedrada, e ela sorria na sua meia loucura e rondava quem lhe falasse. como tive de lhe falar quando a vi, ou se calava do que viu, ou punha-lhe a lâmina ao pescoço para a calar de vida. era assim simples, se abres a boca para espalhar o que ouviste sais deste mundo para o outro. ela, saia levantada, grunhia risos e pedia-me que entrasse. entra aqui como de costume, estou com saudades tuas, meu amor.”
valter hugo mãe, o remorso de baltazar serapião, Matosinhos: Quidnovi, 2006, pp. 53-54.