"Nunca tive medo das horas sem alma
Em que se confundem a noite e o dia
E os espíritos piam cânticos ateus
Sempre confiei na luz das manhãs
Quis a companhia muda das geadas
E nunca esperei pelo perdão de Deus
Nunca tive medo das encruzilhadas
Das juras quebradas e das salamandras
Que nascem da chama acesa dos braseiros
Sempre me esqueci de casas e camas
Só quis ter por âncora as minhas canções
E as marés que são sempre mais que os marinheiros
Nunca tive medo dos olhos dourados
dos lobos que a neve lança nos caminhos
Nos natais mais agrestes de chuva e granizo
Só temia o amor que nos rouba a vontade
Quando arrasa as muralhas da nossa razão
E rebenta por dentro do nosso juízo
Mas eu gosto de ti sobre todo o meu medo
Sobre todas as leis que governam os homens
E há centenas de anos que foram lavradas
Contigo eu estou pronta a lutar noutras guerras
A pousar a bagagem na porta de entrada
E sacudir da roupa o pó das estradas"
Clara Pinto Correia, canções que já não existem, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005, pp. 71-72.

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