Thursday, April 3, 2025

CHARITAS

 


 

"Enfim, como fizera Boaventura, o Compendium declara que os laicos não podem fazer os mortos beneficiar de sufrágios senão pela realização de boas obras. Os beneficiários de indulgências não podem transferi-las nem para os vivos nem para os mortos. Em compensação, o Papa e só ele pode dispensar aos defuntos, ao mesmo tempo, indulgências por autoridade e o sufrágio das boas obras por amor (charitas). Assim a monarquia pontifical estende para fora o domínio do mundo cá em baixo o seu poder sobre o além: passa a enviar - por canonização - santos para o Paraíso e a subtrair almas para o Purgatório."


Jacques Le Goff, O Nascimento do Purgatório, trad. Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 312. 

Tuesday, April 1, 2025

NÃO É IMPUNEMENTE

 



"Vento de nenhuma ordem
levai-me onde é costume ir
quem tem mais para perder
do que para possuir.

Que na própria confusão
das coisas desirmanadas
se encontra a terra e o chão
das almas desencontradas.

Ah, este relógio
que, imperturbavelmente,
me deixa para trás
e segue para diante...

Solicitamente
me navego e exalto.
Tudo o que no homem
é sagrado e eterno
se ergue para o alto."


Raul de Carvalho, "Versos - Poesia II", in Realidade Branca, Lisboa: Círculo de Leitores, 1975, pp. 139-140.

Monday, March 31, 2025

ESSA ESPÉCIE DE INFINITO

 




"Tinha a forma solene e resumida
de um minuto de vida.
Por isso sua graça e seu começo
foi terminar um verso.

Num verso... essa espécie de infinito,
Que é lágrima e é luz, que é sombra e grito!

Que é a força que Deus nos deu
para fazer da terra o céu..."


Raul de Carvalho, "Versos - Poesia II", in Realidade Branca, Lisboa: Círculo de Leitores, 1975, p. 123.

Sunday, March 30, 2025

PASSAGEIRAS E CONTINUADORAS




" - Deus lembrou-se de mim: deu-me olhos para ver, ouvidos para ouvir, carne e coração para sentir, sentidos cegos para adivinhar que a terra não morreu, que é para nós que ela teve guardadas, no bjo da terra, o seu macio e quentinho bojo, todas estas coisas leves, e doces, e cheias de suavidade, e mais doces que o açúcar, e mais maravilhosas do que todas as coisas que havia dantes, antes da Primavera. Oh! ricas e belas coisas!, coisas passageiras e continuadoras."


Raul de Carvalho, "Parágrafos", in Realidade Branca, Lisboa: Círculo de Leitores, 1975, p. 108. 

AS COISAS NÍTIDAS

 



"'Squeço as coisas nítidas, gosto de fumo
que venha de flor's britadas, quase milho.
As seitas em fuga é o álcool que consumo,
montanhas em obras são sempre o meu trilho.

Prefiro ver corpos cingidos de greda
que bebam quimeras. Vivo com duendes:
não mastigo nafta. E as minhas poucas sedas?
São maçãs de sombra que tu não entendes.

Ao 'spelho a ternura move-se a dedadas
dormitando em becos de bílis e fel,
onde apenas vê punhais e marradas.

Ser nu é o meu casto e sórdido papel:
vou de boca em boca a mendigar dentadas
- e queimo as abelhas que qu'riam ser mel."


Fernando Grade, A minha pátria é o sábado - sonetos, Lisboa: Edições Mic, 1989, pp. 33-34.

INFERNIZAÇÃO

 


"Assim Boaventura considera o Purgatório uma espécie de lugar neutro, um no man's land entre o domínio dos anjos e o dos demónios. Mas situa-o - na perspetiva dessa desigualdade na igualdade, na equidistância, que é uma estrutura lógica fundamental no espírito dos homens na sociedade feudal - do lado do Paraíso, na medida em que, para os dois reinos, como dirá Dante, os condutores de almas são os anjos bons. Opinião que está portanto em contradição com a maioria das visões do além, com o Purgatório de S. Patrick designadamente. O Purgatório instala-se num clima de dramatização das crenças cristãs do século XIII. Esse clima provém sobretudo do conflito entre uma concepção não infernal, se não quase paradisíaca, dominante, pareceu-me, no fim do século XII, apesar do negrume das visões, e aquilo a que Arturo Graf chamou uma «infernização» progressiva do Purgatório no decurso do século. A este respeito, Boaventura é tradicional."


Jacques Le Goff, O Nascimento do Purgatório, trad. Maria Fernanda Gonçalves de Azevedo, 2.ª ed., Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 298. 

Saturday, March 29, 2025

CONFIANÇA

 



"47. Ambos veem tudo o que enxergarem. Ambos depressa se apercebem de qualquer coisa boa ou má. Os olhos e a respetiva visão contemplam as flores que nascem ao longo do ano, as dádivas do sol, os frutos próprios de cada estação e os sinais dos astros. Toda a confiança do homem está naquilo que examina com os olhos."


Potâmio de Lisboa, «Acerca da Substância», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 147. 

Friday, March 28, 2025

A BAIXO

 




" - Mas como sabe se as coisas vão bem ou mal?

- A gente diz o responso. Se o pensamento se perde, a coisa está perdida... Sabe como é que o pensamento se perde? Olhe que eu já ouvi isto a um padre, do púlpito a baixo: uma vez ia um rapaz por um caminho fora, de barrete na mão, a rezar. Cristo encontrou-o e disse-lhe: «Se fores capaz de dizer o pai-nosso sem te enganares, dou-te esta mula.» Isto, no tempo em que Nosso Senhor andava pelo mundo. O rapaz ajoelhou: «Pai Nosso que estais no céu, santi... dá-me também os arreios, ou só a mula?» É a mesma coisa: se a gente se lembrar dos arreios...

- Esse modo de rezar é pecaminoso.

- Não sabia.

- Vai prometer que nunca mais adivinha nada a ninguém.

- Então adeus.

- Adeus e desculpe. Mas eu tinha de aliviar a consciência.

- Fez muito bem. Cumpriu o seu dever de boa cristã."



Bento da Cruz, Filhas de Loth, Círculo de Leitores, 1993, pp. 126-127.

Thursday, March 27, 2025

CICLO

 



"A Primavera é boa para as folhas dos bosques e das árvores.
Na Primavera, as terras intumescem e reclamam as fecundas sementes.
Então, o Éter, pai omnipotente, em forma de chuvas fecundadoras
desce para o interior do regaço da sua fértil esposa, e, grande, 
unido a este grande corpo, alimenta todas as plantas jovens.
Nessa altura, nos matagais impenetráveis ressoam as aves canoras
e em dias certos os rebanhos reclamam os dons de Vénus."


Vergílio, Geórgicas, II, 323-329, trad. Gabriel A. F. Silva, Lisboa: Cotovia, 2019, p. 61. 

DIFERENÇA

 


"- É verdade, o mar é uma planície em movimento.

- E no entanto, o deserto, que é uma planície, tem, pelo menos para a imaginação, uma conotação totalmente diferente. Além disso, há qualquer coisa na palavra «deserto» que não há na palavra «planície». Bom, eu não tenho direito a falar destas coisas, fui sempre míope, e agora sou cego; mas tenho a impressão de que a planície é a mesma em toda a parte do mundo. Quando estive em Oklahoma pensava que estava na planície de Buenos Aires. E se fosse à estepe, ou à Austrália, ou àquilo a que chamam veld, ou karroo, na África do Sul, talvez sentisse a mesma coisa. Em compensação, dir-se-ia que cada colina é diferente, quase poderíamos dizer, que cada colina é um indivíduo.


- Enquanto a planície é anónima.

- A planície é anónima e difusa, e quando vimos uma, vimo-las todas. E a montanha não, a montanha é diferente."



Osvaldo Ferrari, Em diálogo com Jorge Luís Borges, vol. II, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Círculo de Leitores, 2001, pp. 218-219.

Tuesday, March 25, 2025

PAISAGENS CONCRETAS

 


" - Como se em vez de tratar de visões se tratasse de paisagens concretas.

- Sim, porque, além disso, as visões são minuciosas. Mas isso podia ser um tema para outro diálogo; talvez o mais importante seja o facto de ele acreditar que a salvação do homem deve ser não só ética como também intelectual. E ele tem uma espécie de parábola em que se refere a um asceta, e esse asceta pretende alcançar a salvação, renuncia a tudo, vive no deserto, morre e, efectivamente, chega ao Céu. Mas quando chega ao Céu fica perdido, porque, segundo Swedenborg, tudo o que existe na Terra, digamos, tudo o que se refere a formas e a cores, tudo isso existe também no Céu, mas de uma forma muito mais intensa e muito mais completa. E, além disso, pode haver até um certo vislumbre da quarta dimensão, pois diz-se que os anjos podem até conversar uns com os outros, mas estão sempre diante de Deus. É estranhíssimo, não é?"

Osvaldo Ferrari, Em diálogo com Jorge Luís Borges, vol. II, trad. Cristina Rodriguez e Artur Guerra, Círculo de Leitores, 2001, p. 195.

Monday, March 24, 2025

RUGAS

 


"Lua coloca a bacia no estrado, deita-se, enrola os braços ao pescoço da companheira, aninha-se e, em poucos segundos, está a dormir. Zé deriva à flor do sono durante muito tempo, mas acaba por mergulhar. Quando emerge, salta do leito e corre para o exterior. Abre a porta. Os beirais estão franjados de eslactites de caramelo que, de vez em quando, sob o efeito do vento e do peso, se desprendem com um retinir de lustres, e a paisagem é duma brancura estonteante, tudo branco e plano, excepto as rugas das paredes. As serras avolumam-se polidas e, nas encostas, sobressai a mancha escura dos carvalhos, só eles, pois as urzeiras e arbustos de menor porte estão completamente submersos. Gostofrio jaz no vale, bichos e homens retidos na toca pela neve. Belo e frio. Zé fecha a porta e vai para a cozinha."


Bento da Cruz, Filhas de Loth, Círculo de Leitores, 1993, p. 38. 

Sunday, March 23, 2025

AD IMAGINEM ET SIMILITUDINEM NOSTRAM

 




"41 (22). Ora, para que a própria unidade da majestade trina e do seu nome chegasse ao nosso conhecimento, assim o afirma essa mesma majestade invisível: Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança. Deste modo ensinou o que devemos acreditar. Imprimiu a sua imagem no rosto do homem e disse: à nossa imagem. O conhecimento do Pai e do Filho apreende-se no rosto do homem, sendo o Pai e o Filho tal qual é a forma do seu rosto impressa no arquétipo humano feito de barro, com o qual somos modelados, para que o homem admirasse Deus a partir do próprio homem."



Potâmio de Lisboa, «Acerca da Substância», Escritos, tradução de José António Gonçalves e de Isidro Pereira Lamelas, Lisboa: Universidade Católica Editora, 2020, p. 144.

Saturday, March 22, 2025

DA POESIA 2

 



"Não sabemos quais, mas procuramos
o lugar mais distante onde se veja
uma rosa contida, geométrica
do que as mãos se aproximam devagar

como se fosse nela que encontrassem
um equilíbrio único, perfeito
por ser interior. Era a presença
que há-de ficar agora dividida

ao longo das arestas, destas linhas
tocadas pelo vento, desfolhadas,
e assim uma outra rosa, a verdadeira,

sujeita-seao rigor, ao que era mínim
como esta florescência que termina
num espaço abstracto, o seu jardim."


Fernando Guimarães, "Paixão e Geometria", in Algumas Palavras - Poesia Reunida (1956-2008), Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2008, p. 367.

Friday, March 21, 2025

DA POESIA 1

 



"As palavras são altas. Escutaste
o sentido mais íntimo que tinham
só para que de novo ali chegasse
o que já se tornou numa promessa

que se adivinha apenas e ficava
perdida nesta nave, no lugar
que estava destinado a ser o centro
dessas vozes. Talvez haja um motivo

último para entenderes como é maior
esta presença súbita que unia
a tudo o nosso espírito. Mais nada

se pode ouvir depois. E as outras vozes
ausentes é dali que se aproximam
para que exista agora o teu silêncio."


Fernando Guimarães, "Paixão e Geometria", in Algumas Palavras - Poesia Reunida (1956-2008), Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2008, p. 375.

Thursday, March 20, 2025

TURBULÊNCIA

 



"Um anjo farinhento dissimula
o surdo ruído e a aflação das asas
na sua branca escuridão. Enquanto dura
e a que sucumbe a turbulência da água.

Um anjo farinhento que se embrenha
ao fundo dessa branca escuridão
e arrasta o espaço áspero da azenha 
para um côncavo susto de visão."


Fernando Echevarría, Geórgicas, Porto: Afrontamento, 1998, p. 193. 

Tuesday, March 18, 2025

COM O TRONCO AO CENTRO


 

"A ramificação aurífera das árvores
filtra a frança feliz de esbraseamento.
Até o crepúsculo ir extinguindo o ardor que sabe
a escuro conhecimento.
Depois, o vulto de escuridão só se abre 
à passagem da brisa. Que discrimina o alento
carregado de enxúndia, que perde, pelo que foi a tarde, 
a engurgitação de fundos elementos.
E aligeira-se então. Então a árvore
respira. E as raízes destrinçam o escurecimento
pronto à brancura que há-de, na ramagem, 
nimbar a noite. Com o tronco ao centro."


Fernando Echevarría, Geórgicas, Porto: Afrontamento, 1998, p. 166. 

Sunday, March 16, 2025

REGRESSO (NO ANIVERSÁRIO DE CAMILO CASTELO BRANCO)


 

"A história dos homens é uma teoria, e uma teoria nunca é trágica. Camilo nunca se explicou cabalmente a respeito desse casamento com Joaquina de França, talvez porque, como ele diz, «este facto de dizer a verdade não me pareceu muito do molde e talho para tapar as bocas do mundo». Do caso deve ter ele saído algo logrado e ferido, apesar das manhas tabeliónicas que lhe imputaram. «Uma infâmia», chama-lhe. Que parte teve nela, o seu silêncio não nos deixa margem para análise; ou podemos compreender aí que a ambição, a impaciência e o desfastio, aliados ao abrir daquela Primavera de 1842, deram ao jovem poeta razões de sobra para uma infâmia bem fundamentada. A Primavera, naquelas serras do Mezio e do Alvão, é um fenómeno que aparenta com a recriação do Mundo: a alma sofre-lhe o mistério, não sem lhe sacrificar as delicadezas que se retomam mais tarde com o andas das estações."


Agustina Bessa-Luís, Camilo, Génio e Figura, Lisboa: Casa das Letras, 2008, pp. 43-44.

Saturday, March 15, 2025

NO TEMPLO




"Na casa do Senhor já ouvi cânticos
         De mística toada,
Que em ondas de harmonia melancólica
Alagavam a nave, hoje deserta!
Que é desses, que eu ouvi, saudosos hinos
        De santa inspiração?
Esses que eu já senti n'alma infiltrar-me,
Em êxtases do céu, fervidas crenças
       Na íntima oração?"



Camilo Castelo Branco, Duas épocas da vida, 3.ª ed., Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1906, p. 197.

Friday, March 14, 2025

TEMER

 



"E os homens esforçavam-se para regressar à terra, mas não conseguiam, porque o mar continuava a vir e a levantar-se mais contra eles. E eles clamaram ao Senhor e disseram: «Não, Senhor! Que não pereçamos por causa da vida deste homem. E não ponhas sobre nós sangue justo, porque Tu, Senhor, procedeste como querias.»
E pegaram em Jonas e atiraram-no ao mar; e o mar parou a sua agitação. E os homens temeram o Senhor com grande temor; e sacrificaram um sacrifício; e oraram orações."


Jon 1, 13-15, in Bíblia, Vol. III, trad. do grego de Frederico Lourenço, Lisboa: Quetzal, 2017.