"ao que parece deus
talvez não seja essa força ilimitada
que se supõe
e afasta os mares e faz girar os planetas
sobre eixos invisíveis apontados para o vácuo
talvez não organize tudo no espaço
regendo a sincronia exata
de um móbile interminável e dinâmico
que se ergue e desaba
se ergue e desaparece
isso deve ser outra coisa
talvez ele esteja mais perto
como num ângulo agudo
através do qual se pode encarar
a linha da rua, de manhãzinha
e ver uma réstia lilás que ultrapassa
os galpões e as alamedas
sobre as telhas sobre o beiral de gesso
e toca delicadamente a vidraça de metal
que por poucos segundos
faísca
e é imediatamente absorvida
pelo alarido dos carros lojas flanelinhas"
Ana Estaregui, Dança Para Cavalos seguido de Coração de Boi, Lisboa: Língua Morta, 2022, p. 156.
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