Wednesday, May 20, 2020

GERAÇÃO



" - Sim, todos nós somos uns mortos. Incapazes de dar dois passos para salvar, ali no Terreiro, alguém que pertenceu à nossa família. 
- Sim, somos impotentes contra a lei das convenções. É o costume, é o que está escrito que nos guia. E que por vezes se alquimia num instinto cruel. 
- Não sei bem se isto é instinto, ou medo ao destino. O Nevoeiro que diga. Quase não se pode respirar. A criação de perus e galinhas morreu toda. Os coelhos andam lunáticos e os pombos da Torre desapareceram na bruma. A asma sufoca os brônquios e torna-se impossível respirar sem abanar a cabeça procurando fios de ar puro pelas frestas da garrafeira e da cisterna da Torre. 
- Passa. Tudo passa. É uma questão de tempo."


Ruben A., A Torre da Barbela, Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, p. 199. 

Tuesday, May 19, 2020

CTÓNICO



"As massas de Baudelaire. Atravessam-se como um véu diante do flâneur, são a nova droga do solitário. - Depois, apagam todos os vestígios do indivíduo: são o novo asilo do proscrito. - São, finalmente, no labirinto da cidade, o novo labirinto inexplorável. Elas trazem à imagem da cidade traços ctónicos até então desconhecidos."

Walter Benjamin, As Passagens de Paris, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 575. 

Monday, May 18, 2020

FENÓMENO (para a memória do Divino Michel Piccoli)



"Todos conhecemos dos sonhos o terror das portas que não se fecham. Em termos exactos, são as portas que parecem estar fechadas sem o estarem. Apercebi-me deste fenómeno de forma potenciada num sonho em que ia acompanhado por um amigo e subitamente me apareceu um fantasma à janela do rés-do-chão de uma casa à nossa direita. E à medida que íamos avançando ele acompanhava-nos do interior de todas as casas. Atravessava todas as paredes e permanecia sempre à mesma altura. E eu via tudo isso, apesar de ser cego. A travessia que fazemos das Passagens é também, no fundo, um destes caminhos de fantasmas em que as portas cedem e as paredes se abrem."

Walter Benjamin, As Passagens de Paris, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 536. 

Sunday, May 17, 2020

REVENANT




"Há ânsias de voltar, de amar, de não ausentar-se
e há ânsias de morrer, combatido por duas
águas unidas que jamais hão-de istmar-se. 

Há ânsias de um beijo enorme que amortalhe a Vida, 
que acaba na áfrica de uma agonia ardente, 
suicida!

Há ânsias de... não ter ânsias, Senhor; 
a ti aponto-te o dedo deicida:
há ânsias de não ter tido coração. 

A primavera volta, volta e partirá. E Deus, 
curvado em tempo, repete-se, e passa, passa
carregando a espinha dorsal do Universo. 

Quando as têmporas tocam seu lúgubre tambor, 
quando me dói o sonho gravado num punhal, 
há ânsias de ficar plantado neste verso!"


César Vallejo, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Relógio D'Água, 1992, p. 37. 

Saturday, May 16, 2020

ATUALIZAR



"Nunca antes a escala do «mais pequeno» teve tanta importância. E isso inclui também o mais pequeno em termos de quantidade, o «menos». Trata-se de medidas que se afirmam há muito nas construções da técnica e da arquitectura, antes de a literatura dar sinais de querer apropriar-se delas. No fundo, estamos perante as primeiras formas de manifestação do princípio da montagem."

Walter Benjamin, As Passagens de Paris, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2019, p. 275. 

Friday, May 15, 2020

SUSPENSO




"O mundo revelava-se do inédito e estava carregado de uma atmosfera de sons ou imagens, apanhava as conversas à distância ou à proximidade, e ruminando no seu significado deitavam fora o ranço das falas mais taradas. 
E a multidão que no Jardim dos Buxos entretinham o tempo, em nada se diferenciava das outras multidões: apenas não se viam - viviam no suspenso dos sons."


Ruben A., A Torre da Barbela, Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, p. 70. 

Thursday, May 14, 2020

O MUNDO



"O mundo também vivia de contradições: uns, a sofrerem por amor; outros, a passarem o tempo."

Ruben A., A Torre da Barbela, Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, p. 42. 

Wednesday, May 13, 2020

SURPREENDER




"É cada vez mais difícil surpreendê-lo. Ele defende-se (ou seremos nós que nos defendemos dele?), refugia-se em lugares cada vez mais afastados, inóspitos por vezes: pântanos, grutas abandonadas. 

Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio. Desde o ácer até a vulgar tradescância. Mas quem melhor se adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns minutos em silêncio já não te consegues mexer, com receio de os pisares."


Jorge Sousa Braga, O Poeta Nu, Lisboa: Assírio & Alvim, 2007, p. 98. 

Tuesday, May 12, 2020

ASSOMBRA




"A sombra assombra e arromba
quem apenas vê a sombra
como novelo de cardos
como pancada que estala
a porcelana da alma. 

A sombra tomba e ensombra
quem leva luto ou no ombro
o peso todo das caves
todo o pó acumulado
nos séculos da sua idade. 

A sombra é escombro ou recato
caverna de suplício
ou a senha do ofício
de manter tudo abrigado
na gaveta do opaco."

João Rui de Sousa, Lavra e Pousio, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005, p. 113.

Monday, May 11, 2020

A OLHAR PARA QUANDO



"Estamos a olhar para quando
não mais veremos o que agora vê
estarmos a olhar. E ficamos
rodeados da luz de estar a ver. 
Ou será só que, iluminados
por seu poente, a glória afez
os objectos a irem mostrando aquele lado
em que são vistos por irmos a correr
e a sermos por eles igualmente amados
e pelo brilho da noite que nos vem?"


Fernando Echevarría, "Figuras II", in Poesia, 1987-1991, Porto: Afrontamento, p. 115. 

Sunday, May 10, 2020

O JARDIM



"O jardim é muito bonito, é um velho jardim dividido em talhões quadrados em que se cultivam flores das de antigamente, flores velhíssimas que só já se encontram em quintas muito velhas e em quintais de padres velhíssimos..."


Octave Mirbeau, Diário de uma Criada de Quarto, 2.ª ed., trad. Manuel João Gomes, Lisboa: Círculo de Leitores, 1979, p. 69. 

Saturday, May 9, 2020

AS COISAS



"A luz do céu verde é tão humana, 
é tão divina a parede com luar
da casa tranquila, 
que não parece
que o céu e a casa não se vêem. 

Que aspiração na parede radiante
da casa tranquila;
que presença no céu verde e alto!
Parece que se vêem!"


Juan Ramón Jiménez, Antologia Poética, trad. José Bento, Lisboa: Relógio d'Água, 1992, p. 111. 

Friday, May 8, 2020

MUDANÇA



"Do mesmo modo a estética transcendental não pode contar entre os seus dados a priori o conceito de mudança: porque não é o próprio tempo que muda, apenas muda algo que está no tempo. Para isso requere-se a percepção de uma certa existência e da sucessão de suas determinações, por conseguinte a experiência."

Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, I, prg. 7, trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão, Lusboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1985, p. 78. 

Thursday, May 7, 2020

NABEL



"Coro - Assim se comportam os novos deuses, que tudo dominam sem preocupações com a justiça. Diante dos meus olhos está este trono a escorrer sangue, da base ao cimo, o umbigo da terra, carregado da mancha terrível dum assassínio."

Ésquilo, Euménides, 163-166, in Oresteia, trad. de Manuel de Oliveira Pulquério, Lisboa: Edições 70, 1991, p. 192. 

Wednesday, May 6, 2020

LOUVAR




"Cassandra - Ó condição humana! A felicidade, uma simples sombra basta para a alterar; quando se é infeliz, uma esponja húmida destrói de um golpe a pintura. E das duas mudanças esta última é a que me parece mais para lamentar."


Ésquilo, Agamémnon, 1328-1330, in Oresteia, trad. de Manuel de Oliveira Pulquério, Lisboa: Edições 70, 1991, p. 84. 

Tuesday, May 5, 2020

DIAFRAGMA




"O que se seguiu não vi, não posso dizê-lo, mas as artes de Calcas não são vãs. Na balança da Justiça, o prato da aprendizagem desce para os que sofreram. O futuro poderás conhecê-lo depois de acontecido. Entretanto esquece-o, dado que antecipá-lo é o mesmo que chorar antes de tempo: ele virá, claro, na madrugada com os seus raios."
´

Ésquilo, Agamémnon, 248-254, in Oresteia, trad. de Manuel de Oliveira Pulquério, Lisboa: Edições 70, 1991, p. 34. 

Monday, May 4, 2020

UMA POR ETERNIDADE




"E a pouco e pouco tomou consciência de que tudo tinha sido um sonho, um simples sonho, e nada mais. E essa ideia perseguia-o. 

- Quando vêm os sonhos? - perguntou em voz alta. 
E quando o Sr. von Kranz o veio ver à tarde, contou-lhe o seguinte: 
- A vida é tão vasta e encerra, no entanto, tão poucas coisas, uma por eternidade. E essas esperas angustiam-nos e fatigam-nos. Quando eu era miúdo, fui uma vez a Itália. Fiquei apenas com uma vaga lembrança. Mas lá, no campo, quando se pergunta a um camponês que se encontre à beira da estrada: «A aldeia ainda é longe? - Un' mezz'ora» é a resposta. E o seguinte a mesma coisa e o terceiro igualmente, como se tivessem feito promessa. E caminha-se durante todo o dia e nunca se chega à aldeia. O mesmo acontece na vida. No sonho, tudo se encontra mais próximo. Não temos medo. No fundo, nós somos feitos para sonhar, não possuímos os órgãos necessários à vida, somos uma espécie de peixes que pretende voar a todo o custo."



Rainer Maria Rilke, "Ewald Tragy", in Histórias do Bom Deus e outros textos, trad. Maria Gabriela Cardote, Lisboa: Livros do Brasil, 1989, p. 152. 

Sunday, May 3, 2020

MATERNIDADE




"Todas as mães têm casas dentro dos olhos
e praias escondidas nos bolsos, e flores
a prender os cabelos dos dias. Todas as mães
têm gelados guardados no coração para os fins
de tarde mais alegres, e bolo de iogurte e leite
morno para as manhãs invernosas dos desgostos
dos filhos. Todas as mães têm vestidos largos
para abrirem melhor os braços, e é de pétalas
o agasalho do seu riso quando o colo se abre
ao cansaço e cresce para embalar as tardes."


Virgínia do Carmo, Ecos de Green Rose, Poética Edições, 2019, p. 39. 

Saturday, May 2, 2020

CRIANÇA




"Era talvez a areia do meu corpo. Nela caminho
à procura de alguém. Prossigo e talvez este seja o início
de todo o conhecimento. Mas o que se aprende
só em mim é que pode existir. Talvez ali comece 
o que se encontra perdido, este lugar simples
que nos acolhe. Ficaram os meus olhos cerrados
e os lábios quase imóveis. Por vezes adormeço
porque tudo o que possuo há-de conservar-se oculto."


Fernando Guimarães, "Na Voz de um Nome", in  Algumas Palavras - Poesia Reunida (1956-2008), Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2008, p. 327. 

Friday, May 1, 2020

LUGAR NENHUM




"E de súbito nesse penoso lugar nenhum, de súbito surge
o sítio invisível, onde a pura escassez
incompreensivelmente se transforma -, dá o salto
para esse excesso vazio.
Onde sem números 
se abre a conta de muitas parcelas."


Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duíno, V, 3.ª ed., trad. Maria Teresa Dias Furtado, Lisboa: Assírio & Alvim, 2020, p. 81.