Wednesday, October 21, 2026

A MIM CRIANÇA ASSUSTADA

 




"Vejo-me criança assustada.
Os santos cobertos com pano roxo
na obscuridade da igreja.
O soar das matracas na procissão.
O chicote nas trevas da lembrança.
E eu, criança assustada,
a escolher as palavras certas
para rasgar as sombras com as mãos aflitas
e quebrar o cristal onde me serviam o medo.
Expia os teus pecados me diziam,
a mim criança assustada pelas chamas do inferno
que perpetuavam todas as culpas.
Agora tenho a voz estranha aos salmos fúnebres.
Ouço Bach em acordes de incenso,
em cantata e requiem.
Esconjuro os sustos."


Graça Pires, Poemas Escolhidos 1990-2011, Lisboa: edição da autora, 2012, p. 202.

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