Tuesday, June 9, 2020

ALIANÇA




"E posso escrever com ele a abertura
A passagem para dentro
Os umbrais na própria carne
Pôr o coração no interior para soldar
Uma pulseira humilde. Uma aliança
Com o que respira."


Daniel Faria, Poesia, 2ª ed., ed. Vera Vouga, Lisboa: Assírio & Alvim, 2015, p. 173. 

Monday, June 8, 2020

MUDANÇAS




"Seguindo um impulso repentino, perguntei:
- «Kleine Oma», onde deixaste ficar a rosa da América?
- No friso da janela. É lá o seu lugar. 
- Porque é que não a trouxeste contigo?
- As flores e os velhos não aguentam mudanças."


Ilse Losa, O Mundo em que Vivi, 11.ª ed., Porto: edições Afrontamento, 1992, p. 107. 

Sunday, June 7, 2020

LIMOS (EM MODO WARBURG)



"Atrás da nossa casa, entre pereiras e macieiras, havia um poço em que vivia a ninfa Raquel. Eu bem sabia que Raquel fora a bela filha do dono de rebanhos, Labão, a quem Jacob servira duas vezes sete anos para a obter e que dela lhe nasceram José, o Egípcio, e Benjamin, o menino amimalhado. Mas como imaginava a minha ninfa, no fundo do poço, tão bela como Raquel, dei-lhe o nome que bem merecia."

Ilse Losa, O Mundo em que Vivi, 11.ª ed., Porto: edições Afrontamento, 1992, p. 47. 

Saturday, June 6, 2020

SEMELHANTE




"Nada faço senão olhar. 
Céu rasgado ao céu.
Mostra coisas mortas
Onde enegrece. 

Sei o que você lhes disse.
Provoca a fumarada de pneus, plástico. 
Havia de anoitecer o meio-dia
Destro que nem Deus."


José Emílio-Nelson, A Alegria do Mal - Obra Poética I, Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004, p. 120. 

Friday, June 5, 2020

GUARDAR




"A velhinha da Igreja de St. Germain des Près, vai apagando os círios e guarda os restinhos que ainda servem para uma outra vela, para uma oferta."

António Nobre, Despedidas, 3. ª ed. Porto: Imprensa Moderna, 1944. p. 245. 

Thursday, June 4, 2020

JAZES




"Léman azul que, mudo e morto, jazes. 
Quanto és feliz! assim pudesse eu sê-lo!
Nem a sombra dos montes, nem seu gelo
De turvar tuas águas são capazes."


António Nobre, Despedidas, 3. ª ed. Porto: Imprensa Moderna, 1944. p. 22. 

Wednesday, June 3, 2020

A LUZ


"A luz que o trabalho irradia é uma bela luz que, contudo, só brilha com uma beleza real, se for iluminada por uma outra luz."

Ludwig Wittgenstein, Cultura e Valor, trad. Jorge Mendes, Lisboa: Edições 70, 2000, p. 46.

Tuesday, June 2, 2020

LEÃO ARMADO




"Depois da lucta e depois da conquista
Fiquei só! Fôra um acto anthipatico!
Deserta a Ilha, e no lençol aquatico
Tudo verde, verde, - a perder de vista."


Camilo Pessanha, Clepsydra, ed. Paulo Franchetti, Lisboa: Relógio D'Água, 1995, p. 132. 

Monday, June 1, 2020

VERDE



"Olhava persistente para algumas bujardas da natureza: coisas feias e dejectas a boiarem no verde límpido e cheio de velas pardas; olhava para uns cachorros rabujentos a lamberem a babugem mais fácil e sentia um grito melancólico de esperança e alegria a despontar em tudo que se mexia à minha volta. No contudo, o mundo estava teleguiado, as pessoas iam determinadas pela torre de comando central e à menor tentação mudavam logo de direcção. A esperança era diminuta - não se podia fugir a ser teleguiado."

Ruben A., Cores, 2.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1989, p. 84. 

Sunday, May 31, 2020

MONGIBELO






"Si esfera soy de fuego 
Si Mongibelo soy, si ardiente Libia, 
si cuando estoy más tibia
a diluvios de ardor el alma entrego, 
cómo un favor te niego
dulce Silvano mío
por tener corazón helado, y frío?
si sabes que este amor es más perfeto, 
cómo juzgas el mérito defeto, 
llamando resistencia
a lo que solamente es conveniencia?
mas si tanto respeto no te agrada, 
y llamas al decoro tiranía, 
culpas me da, señor, de recatada
mas vituperios no de amante fría"


Sóror Violante do Céu, Rimas Várias,  Lisboa: Editorial Presença, 1994, p. 118. 

Saturday, May 30, 2020

ROXO



"Roxo às vezes cheirava as flores e olfatava-se de Violeta nas épocas estremes, vigiava os vinhos no colorir da uva americana, semeava favas, estrumava quase todas as plantas da horta e regava, de preferência à tarde, as novidades de Maio. No minguante acanhava-se e raro dava consulta, a não ser que Violeta o viesse visitar às ocultas para criar um serão bem acamado."

Ruben A., Cores, 2.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1989, p. 28. 

Friday, May 29, 2020

FEMENTIDO




"Descobre novo mundo o pensamento,
Estende as asas, não respeita a vida, 
E em fantásticos bens sem fundamento 
Traz a leve esperança repartida;
O tempo é leve e corre mais que o vento, 
A fortuna, mudável, fementida; 
O desejo ao mor risco se oferece, 
Amor com falsas mostras aparece."


Francisco Rodrigues Lobo, Poesias, seleç. Afonso Lopes Vieira, 2ª ed. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1955, p. 68. 

Thursday, May 28, 2020

VIGÉSIMO QUARTO ANO




"Padre Dourado retrocedeu um passo, mais outro, outro mais, intimidado pelo ar desvairado de Mestre Severino. Por fim, levou o lenço à boca, reprimindo a risada, as costas contra a parede da cela. E com energia, quase gritando:
- Tire essa tolice da cabeça, Mestre Severino! Não seja bobo. As misérias deste mundo não sobem para o outro. Fique tranquilo. Lá é tudo diferente!"


Josué Montello, Cais da Sagração, 6.ª ed., Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981, p. 213. 

Wednesday, May 27, 2020

CLARIDADE


"D. Branca morava no Porto e sofria, por vezes, de chiliques inofensivos. Era um costume dos últimos anos que a dominavam nas tardes de mau génio. Ficava então toda e toda confundida num deixar-se apoderar de outras cores. D. Branca virava-se encurvada, apopléctica, sem ter mão em si barafustava até ir tudo razo. Para as criadas, nos momentos assim, a vida com D. Branca era negra. Mourejavam o pão e só respiravam claridade quando D. Branca estava a dormir. No sono ela parecia uma pomba mostrando seus cabelos grisalhos."

Ruben A., Cores, 2.ª ed., Lisboa: Assírio & Alvim, 1989, p. 13. 

Tuesday, May 26, 2020

ESGARÇADO



"Olhou, mais uma vez o céu limpo, todo azul, com leves manchas de nuvens esgarçadas para os lados do nascente, anteviu a noite de lua, ampla, lavada, desimpedida, quase sem estrelas, de vento propício a encher as velas de seu barco. Como conhecia o caminho de cor e salteado, não precisava de bússola na imensidão das águas, sob a claridade do plenilúnio."

Josué Montello, Cais da Sagração, 6.ª ed., Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1981, p. 153. 

Monday, May 25, 2020

DA GUARDA




"O meu anjo da guarda está sempre a dizer-me: De que estás à espera? Vá, anda! Começa já! Começa já a cuidar da tua presença! 
Não sei o que o meu anjo da guarda quer que eu adivinhe em tais palavras. 
Outras vezes, o meu anjo da guarda pede-me para que seja eu o anjo da guarda dele."


Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, introd. Jerónimo Pizarro, rev. e actualização ortográfica Susana Tavares Pedro, Lisboa: Guimarães, 2010, p. 56. 

Sunday, May 24, 2020

TRANQUILAMENTE (em homenagem a Maria Velho da Costa)



"Tranquilamente, do direito que toda a mulher adquire perseverando na ausência, arma do resistente cuja fraqueza é tenaz, isto diz - lembras-te da alegria? Sê então constante naquele fervor que só o jogo, a beleza concertam."

Maria Velho da Costa, Da rosa fixa, 2ª ed., Lisboa: Quetzal, 1999, p. 129. 

Saturday, May 23, 2020

NO DIA DA HUMANIDADE



"Eu sou Sem. No dia em que saía do corpo, quando o meu pensamento permanecia no corpo, despertei como de um pesado sono. E quando me levantei como do fardo do meu corpo disse: «Como a natureza envelheceu, assim também no dia da humanidade. Bem-aventurados são aqueles que conhecem em que poder descansou quando dormem o seu pensamento»."

"Paráfrase de Sem", in A Revelação de Pedro e outros Textos Gnósticos, Biblioteca de Nag Hammadi, III, trad. Luís Filipe Sarmento, Lisboa: Ésquilo, 2015, pp. 149-150. 

Friday, May 22, 2020

TEORIA




"Teoria da verdadeira civilização. Não está no gás, nem no vapor, nem nas mesas giratórias. Está na diminuição dos vestígios do pecado original."

Charles Baudelaire, O Meu Coração a Nu, LIX, trad. João Costa, 2ª ed., Lisboa: Guimarães Editores, 1999, p. 86. 

Thursday, May 21, 2020

PASSAGENWERK




"Para as pessoas, tal como se apresentam hoje, existe apenas uma novidade radical, que é sempre a mesma: a morte."


Walter Benjamin, "Parque Central", in A Modernidade, trad. João Barrento, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006, p. 163.